Arquivo

Uma década da Criança Cidadã

Projeto que surgiu dentro de uma comunidade de baixa renda do Recife é hoje modelo de formação em música erudita e cidadania

TEXTO Flora Noberto

01 de Agosto de 2016

Violinista japonesa Yoko Kubo foi solista de apresentação com músicos da OCC sob regência de Nilson Galvão Jr. em Roma

Violinista japonesa Yoko Kubo foi solista de apresentação com músicos da OCC sob regência de Nilson Galvão Jr. em Roma

Foto Maria Chaves/divulgação

[conteúdo da ed. 188 | agosto de 2016]

Um dia, Roma e o Recife foram unidos pelo amor à música e ao seu poder de transformação. A Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque conseguiu chegar ao Vaticano em 2014 para se apresentar ao Papa Francisco. Naquele momento, contou com a participação da experiente violonista japonesa Yoko Kubo. O encontro foi tão significativo que a orquestra retornou a Roma em 2015  para gravar o CD e o DVD Concertos de Bach para violino e orquestra, tendo Kubo como solista, com regência do maestro Nilson Galvão Jr. O cenário para o concerto foi a Basílica de São Martinho nas Montanhas, localizada no Bairro de Monti. No próximo dia 2 de setembro, às 19h30, a orquestra e Yoko se encontrarão novamente, desta vez no Recife, no palco do Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu, Boa Viagem), para a realização de um concerto que irá comemorar os 10 anos da orquestra nascida de um projeto social e que contará com o lançamento do CD e DVD Concertos de Bach para violino.

O álbum traz as três peças do alemão Johan Sebastian Bach (1685–1750) para violino e orquestra: os concertos em Lá menor (BWV 1041) e Mi maior (BWV 1042) e o Concerto para dois violinos em ré menor (BWV 1043). Antes das peças alemãs, o DVD abre com clássicos nacionais, como Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. O concerto no Teatro Luiz Mendonça, com execução de obras de Dvorák e Paganini, será gratuito, com distribuição de 200 ingressos, e o CD/DVD está à venda por R$ 35,00. 

“O dia 31 de outubro de 2014, quando ocorreu a apresentação para o Papa Francisco, foi o momento mais alto da Orquestra Criança Cidadã nesses 10 anos. A violonista Yoko Kubo, de 73 anos, é católica, por isso ela foi convidada pela Bunkyo Gakky, a maior fábrica de instrumentos de corda do Japão, para o concerto. Depois desse encontro, a OCC e Yoko voltaram a Roma para gravar a obra de Bach para violino e orquestra”, fala, com empolgação, João Targino, idealizador e vice-presidente da Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC), entidade gestora da orquestra. 

O maestro Nilson Galvão Jr. conta que, no dia do concerto, estava programado um ensaio para gravação do DVD, que não ocorreu devido ao atraso na chegada dos instrumentos alugados para a ocasião. “Mesmo sem ensaio, fomos bem-sucedidos, porque a preparação que tivemos antes de ir para Roma foi de muita cobrança.”

A violinista Júlia Paulino, 15 anos, apesar de ainda não integrar a orquestra jovem, foi convidada pelo maestro para a gravação do CD/DVD. Júlia é a spalla (primeira violinista) da orquestra infantojuvenil do projeto social. Ingressou na escola de música da OCC em 2012 e, por se destacar, tornou-se spalla. A ida à Itália foi sua primeira viagem internacional, uma experiência preparatória para a transição ao grupo principal. Com a orquestra, Júlia esteve em apresentações em Tiradentes, Belo Horizonte e Natal, e em cursos em São Paulo e Brasília. 

“Quando teve vaga, minha mãe viu e me inscreveu na seleção. Me deram o violino e eu encarei. Foram vendo meu desempenho e fui crescendo aos pouquinhos. Às vezes, a gente nem espera que vai crescer tanto. Hoje em dia, minha mãe tem muito orgulho de mim e me incentiva para que eu cresça na orquestra”, diz a violinista.

Diferentemente de Júlia, o violista Gabriel Francisco Silva, 18 anos, tinha feito viagens para concertos antes da gravação em Roma. Conheceu a Alemanha e Portugal. A música também o levou a São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e cidades do interior de Pernambuco. “Na orquestra, a gente fica mais próximo da nossa cultura, conhece lugares diferentes no Brasil e no mundo. Quero tentar fazer mestrado na Alemanha; me apaixonei pelo país. Tenho amigos lá”, diz Gabriel, que se comunica pela internet com jovens alemães que têm a música como hobby

Gabriel busca a profissionalização, por isso se prepara para ingressar no Bacharelado em Música da Universidade Federal de Pernambuco. Seu plano de mestrado na Alemanha não é gratuito: ele viu outros colegas fazerem o caminho de estudar fora do país, já que a Orquestra enviou alunos para estudar na Polônia, Áustria, República Tcheca, Alemanha e México. Ao entrar no projeto, em 2011, havia estudado violino por oito meses no Movimento Pró-Criança, mas o maestro lhe pediu que assumisse a viola, instrumento que estuda até hoje.

A OCC estimula e prepara os meninos e meninas a entrar na universidade, não necessariamente no curso de Música. Mais de 20 dos seus integrantes foram aprovados para cursos na UFPE, incluindo Direito e Psicologia, por exemplo. 

Antonino Dias, Fagner Zumba Monteiro, Herlane Franciele, João Carlos Oliveira e Rebeka Muniz são estudantes do Bacharelado em Música da UFPE, iniciaram o curso entre 2012 e 2013. Rebeka passa o seu aprendizado musical para os que estão chegando e ensina iniciação musical. 

“O projeto se preocupa primeiramente com a cidadania, e a música é a ferramenta para isso. Mesmo que não haja a abordagem para que eles se tornem músicos profissionais, a cobrança é a mesma. A gente acredita que a disciplina necessária para que eles estudem três ou quatro horas o instrumento é a mesma para se ele ingressar em uma faculdade de Direito, por exemplo”, explica o maestro Nilson Galvão Jr, que é diretor artístico e musical da orquestra desde janeiro de 2014.

SELEÇÃO DISPUTADA
O trabalho de iniciação musical com crianças de baixa renda da Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC) é feito em grupos divididos por faixa etária e instrumentos. Aqueles que passam a integrar a orquestra tornam-se bolsistas, os mais destacados podem monitorar as turmas, ajudando no aprendizado dos colegas e recebendo bolsa adicional. Além das orquestras, são formados duetos, trios, quartetos e quintetos de cordas; grupos de percussão, flautas doces e núcleo de música popular.

Hoje, o projeto atende 230 crianças, adolescentes e jovens do Coque, com idade entre sete e 21 anos. Os estudantes têm aulas de instrumentos de corda (viola, violino, violoncelo, contrabaixo), percussão, teoria musical, flauta doce, canto coral e instrumentos de sopro (flauta transversa, oboé, clarinete, trompa e fagote). As atividades são de segunda a sexta. Os alunos permanecem na OCC durante cinco horas, no contraturno escolar. No sábado, há os ensaios. 

O projeto inclui apoio pedagógico e reforço escolar; atendimento psicológico, médico e odontológico; e aulas de informática. Para participar, é preciso ser morador do Coque e estudar em escola pública. Quando há novas vagas, é feita uma seleção com provas de português, matemática e percepção musical. Há crianças e adolescentes que se interessam em ingressar depois de verem o desenvolvimento de irmãos e primos que já integram o projeto. Às vezes, a seleção não é fácil e traz exemplos de persistência. Este é o caso de Jameson Batista, de 13 anos, que estuda fagote há três anos e faz parte da banda de sopro. Jameson tem um primo que estuda percussão na OCC, por isso teve interesse pelo projeto. 

“Eu tentei seis vezes entrar, na sétima, eu passei. Se você quer um bom futuro, tem que ficar tentando o melhor. Mês passado, eu solei com a orquestra infantojuvenil na apresentação na Igreja Madre de Deus, foi uma oportunidade de mostrar o meu trabalho”, fala, com uma maturidade que impressiona. Na apresentação na igreja, foi apresentada uma obra de Vivaldi. Jameson conta que gosta da música barroca e sonha em se profissionalizar como músico e regente. Para isso, estuda diariamente o instrumento, durante uma hora e meia. No período da manhã, frequenta a escola regular e à tarde está na OCC. “Eu gosto da rotina cheia. Além da música, aqui aprendi a me disciplinar e a respeitar os outros, o que eles fazem”, diz. 

“O projeto dá oportunidade, não esmola; oportunidade e esmola são palavras que estão em pontos díspares. Às vezes, os dramas familiares dos alunos são grandes. Por isso que, desde o início, o maestro Cussy de Almeida dizia que tínhamos que ter apoio psicológico”, comenta João Targino.

ESCOLHA ESTRATÉGICA
João Targino, Cussy de Almeida e Nido Nery dos Santos são o trio responsável por essa história que relaciona música erudita e crianças de baixa renda. Quando eles criaram a Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC), em 2000, e a Orquestra Criança Cidadã Meninos do Coque, em 2006, havia o desejo de fazer-se presente numa área estigmatizada do Recife. 

De acordo com Targino, a escolha do Coque para a criação da orquestra foi estratégica: era a comunidade com o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH–M) do Recife, com IDH–M de 0,632 para área formada pela Ilha Joana Bezerra, São José e Coque (Censo de 2000 do IBGE), resultado semelhante ao do Gabão, na África, que, no mesmo período, registrava IDH de 0,637. 

O violoncelista Diego Dias, 19 anos, reconhece a música como uma oportunidade diante da realidade da comunidade em que vive. Ele é um dos 44 músicos que foram a Roma para apresentação ao Papa e gravação do álbum. Diego, que entrou para o projeto social aos 11 anos e atualmente é estudante do Bacharelado em Música da UFPE, integra a Orquestra Cidadã Meninos do Coque como instrumentista, e desde 2014 atua também como monitor. Apesar de valorizar todas as oportunidades que tem tido dentro do projeto, ele faz questão de desmistificar a relação do bairro com a violência. “Aqui na orquestra, a gente consegue se desligar da violência e seguir um caminho diferente. Mas é preciso dizer também que hoje o nosso bairro é mais seguro que vários bairros nobres do Recife.”

Além de integrar a OCC, Diego faz parte da Orquestra de Câmara do Conservatório Pernambucano de Música e da Orquestra Jovem de Pernambuco. Recentemente, foi a São Paulo para fazer um curso de Filosofia Suzuki, método utilizado na escola da Orquestra Cidadã. “Quero ser músico e também professor. Gosto do instrumento erudito na música popular brasileira, gosto especialmente de forró”, diz. 

Diego e seus colegas têm uma nova viagem internacional marcada para o final deste ano. O destino é Nova York, onde tocarão no Plenário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em comemoração ao aniversário da Unicef. 

veja também

Como viajar sem sair do lugar

Clara Moreira: privilégio do desenho

Contestação e muita pinta