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Os territórios afetivos

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Julho de 2015

Foto Divulgação

Viajei pelas terras sertanejas, sem fins agrários ou pecuários. Depois de atravessar a Normandia e a Bretanha francesa, no ofício de escritor, nada mais próximo do que uma jornada literária em cinco cidades pernambucanas da Chapada do Araripe. Subi serra, atravessei a floresta em território cearense – a primeira reserva do Brasil, sobrevivendo a duras penas –, percorri uma longa estrada reta sem declives ou aclives, até perto de Exu. As planuras lembram o serrado, a devastação a marca de um país onde faltam políticas de meio ambiente.

Na chapada, quilômetros de flora nativa foram destruídos para o plantio de lavouras ou transformados em pasto de rebanhos. A maioria dos cultivos se revelou improdutiva, as plantas não sobreviveram na estiagem e, com o tempo, o solo se tornou desértico. Mesmo assim, os horizontes no sol vermelho comovem pela beleza. Quando me dizem que Araripina é o segundo maior produtor de mel de abelha, admiro-me e busco as flores que não consigo avistar em torno de mim. Onde elas estão?

Os vales e a própria chapada já foram um oceano no período cretáceo, há milhões de anos. Em Santana, cidade da região, existe a maior reserva fóssil do planeta. À medida que o antigo oceano secava, camadas de calcário se depositavam sobre peixes, animais e plantas, fossilizando-os. Ao caminhar na serra, você pisa sobre seres embalsamados em pedras, criminosamente roubados e vendidos para o mundo.

As nascentes d’água de Crato e Barbalha eram numerosas e abundantes. Muitas desapareceram com os desmatamentos, incêndios e manuseio inadequado do solo. Algumas abastecem clubes e parques, todos de péssimo gosto estético, como o de Arajara, onde trocaram a floresta atlântica, árvores frutíferas, rochas e grutas por réplicas de monstros de plástico e amianto, imitações grosseiras da Disney americana, que destoam da natureza em volta. A vazão d’água diminuiu em mais de cinquenta por cento e prevê-se que sequem num futuro próximo.

Os dois rios mais importantes do Crato se chamam Batateira e Granjeiro. Já não são perenes, mas bem antigamente corriam o ano inteiro, abastecidos pelas nascentes, que ainda não tinham donos. No passado, eles se integravam à vida urbana, atravessavam as ruas, serviam para banhos e passeios. Da mesma maneira que o Tietê de São Paulo, tentaram domar o Batateira e o Granjeiro obrigando-os a correr dentro de canais. Despejam esgotos nos canais abertos, parecendo latrinas e criadouros de insetos.

O Polo Gesseiro de Pernambuco, localizado na chapada, abastece o Brasil de noventa e cinco por cento do gesso consumido nas mais diversas atividades, da construção à agricultura. Essa riqueza trouxe problemas sociais, acentuou o desnível entre ricos e pobres. A presença de caminhoneiros nos postos de gasolina elevou a prostituição, sobretudo de crianças e adolescentes, meninos e meninas.

A imprensa do Recife fez reportagens alarmantes, denunciando a mazela. Uma jornalista percorreu de madrugada alguns postos de Trindade, para ver o crime com os próprios olhos. Não tive coragem de fazer isso. Preferi ver a beleza que escapa aqui e acolá, comer baião de dois e cuscuz com cabrito guisado e dar graças a Deus pela culinária maravilhosa.

As cidades do interior sertanejo são todas iguais. Há motos em excesso, o silêncio tornou-se mercadoria rara, os carros não param de circular, pessoas caminham de um lado para o outro, ocupam ruas e praças como se nada tivessem o que fazer. Bem diferente do sul colonizado por alemães, italianos e poloneses, que parece desabitado. Talvez o calor nordestino as expulse de dentro de casa. Só não encontro justificativa para elas gostarem do barulho, que quebra a paz sertaneja.

Exu, Bodocó, Trindade, Ouricuri e Araripina, escolhidas para a jornada literária, mais parecem uma extensão do Cariri cearense. O sotaque, a culinária, os tipos físicos e as culturas se assemelham. Os moradores procuram Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, bem mais próximas do que o Recife, para atendimento médico e hospitalar, compra de mercadorias e comércio do que produzem. Os estudantes universitários preferem as faculdades do Cariri a se deslocarem para a capital distante. Também buscam o ensino em Petrolina e centros urbanos piauienses. Porém o Crajubar, nome que aglutina as iniciais das três cidades, tornou-se a capital da chapada.

É curioso como os territórios se definem. Até pouco tempo atrás as afinidades do sul cearense eram bem maiores com áreas de Pernambuco e do Piauí, do que com o restante do Ceará. Na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador, em 1824, quando Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte proclamaram-se uma república independente do restante do Brasil, o Crato aliou-se ao movimento e teve seus heróis. Havia maior trânsito de ideias entre o Recife e o Crato. Fortaleza não passava de uma capital simbólica.

É possível desenhar um mapa de terras piauienses, cearenses e pernambucanas, formando uma região em que as fronteiras estaduais foram abolidas. Um território com afinidades econômicas, históricas, geográficas, antropológicas e culturais, o parentesco do Araripe. Não existe desejo separatista, mas temos a impressão de que se trata de outro estado brasileiro, nascido da cumplicidade. Será que o aglutinado espontâneo desenhou uma nova jurisdição? Nova? Não será antiga? No período cretáceo, quase todas essas terras viviam submersas sob as águas de um oceano. Formavam um grande lago, do qual ainda restam os fósseis, comprovando o que já foi único. Talvez a memória desse tempo ainda se guarde. Eu não duvido nada. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, escritor.

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