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Visão fragmentária de um Recife transtornado

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Abril de 2015

Imagem Karina Freitas

Faz cinco anos que mudei de uma casa para um apartamento. Morava num espaço situado entre Engenho do Meio, Iputinga e Cidade Universitária, no antigo domínio da Várzea. Escolhi viver ali no início de 1981, porque nasceu o primeiro filho, desejávamos ter outros, e nada melhor do que criá-los com os pés no chão, dentro de um sítio de mangueiras, coqueiros, abacateiros, goiabeiras, pés de acerola e pau-brasil, palmeiras, cássias, avencas, enfim, um paraíso tropical. O trópico, no Recife dos bairros longe, inclui no pacote paradisíaco as ruas sem saneamento básico, sem calçamento, com abundância de muriçocas, maruins e ratos. Era o preço. Pagávamos, mas tínhamos a mureta baixa de meio metro, a proximidade dos vizinhos, o sentimento de estar livre e de viver num território sem apartheid, num Recife mestiço, Recife mesmo, como diria o poeta Manuel Bandeira.

Os aniversários das crianças eram festejados na rua. Contratávamos cavalos, charretes e bicicletas. A meninada brincava solta. No São João, quando chovia muito, os vizinhos ajudavam a acender a nossa fogueira, a qualquer custo. Temiam uma superstição: fogo junino que não pega o dono da casa morre em breve. Teve um ano que não pegou. Continuo vivo, bastante mudado, mas ainda inteiro. O Recife foi que se fragmentou. A frágil convivência social entre os mais pobres e os remediados esgarçou e rompeu-se. Surgiram fraturas. Os sítios e hortas, que alimentavam de frutas e verduras o nosso bairro, viraram motéis, armazéns, garagens de ônibus ou depósitos suspeitos. As residências de uma única família foram divididas entre os filhos, à medida que eles se casavam. Nos antigos quintais frondosos, cresceram puxadas, inúmeras, para cima, para os lados, invadindo a rua e as calçadas. O saneamento inexistente transformou-se em calamidade pública. O antigo método de drenagem tornou-se ineficaz por conta da ocupação do solo com as construções. Aumentou o número de pessoas desocupadas. Proliferaram os aparelhos de som, as bebedeiras em esquinas e barracas, o barulho tornou-se insuportável, surgiram casos de assalto, brigas, violência e uso de drogas. Os bons vizinhos já não eram mais tão bons vizinhos e a aparente democracia de classes revelou-se uma falácia. Os muros e as tensões subiram.

Eixo de saída para várias rodovias e estados, o bairro tornou-se lugar preferencial de roubo de automóveis a mão armada. A extinção da SUDENE trouxe para o prédio sucateado os Ministérios da Saúde e do Trabalho, o que significou mais carros, mais gente circulando. À noite, em frente ao edifício na forma de “s” – que já foi um dos orgulhos da arquitetura de Niemeyer – e aos jardins destruídos de Burle Marx, travestis fazem ponto e passeiam nas calçadas de dois motéis, situados no entorno do Hospital das Clínicas, da Reitoria e da Universidade Federal. Uma convivência nada filosófica entre a busca da sabedoria e o prazer do corpo. Mais adiante, numa curva após o viaduto da Avenida Caxangá, entre motéis e supermercados, crianças e adolescentes de ambos os sexos se prostituem e traficantes vendem suas mercadorias, sob o olhar indiferente da polícia, da sociedade, dos políticos e homens da lei.

Num remoto começo de tarde, ouvi disparos, gritos e percebi alvoroço. Um garoto de treze anos roubara a bicicleta do vigilante, numa escolinha próxima. Foi perseguido e na fuga sacou uma pistola, atirando. Felizmente não alvejou os perseguidores, porém o erro não serviu de atenuante para ele. Várias pessoas o espancaram até quase o matar. Gente que passava pela rua e nem sabia direito sobre o acontecido contribuía com o seu quinhão de chutes e pancadas. Fiz algumas tentativas de livrar o menino, mas turba de linchamento é inabordável. Recuei assustado ao perceber a força revés em minha direção. Voltei para casa, deitei-me num sofá e durante três dias não consegui sentir-me bem.

Depois que me levaram seis carros na porta de casa, sempre em assaltos a mão armada, percebi que não dava mais para brincar com a sorte. No último bang bang da Iputinga, eu havia recebido um jornalista de Brasília, para uma conversa. Esqueci de pedir ao motorista que saísse do carro e esperasse no terraço. Ele preferiu um cochilo ao volante, coisa normal numa cidade tranquila. Na despedida, nem tivemos direito a uma troca de abraço. Um garoto veio em nossa direção com o revólver em punho. Lembro de ter protegido o amigo, escudando seu corpo e empurrando-o para dentro do nosso jardim. O assaltante arrancou o motorista do veículo, tirou a chave de sua mão e saiu em disparada. Tudo muito ligeiro, um ctrl+c e um ctrl+v e o veículo trocou de proprietário.

De cima do apartamento onde resido agora, olho a cidade crescendo. A cada dia desaparecem quintais. Das árvores da minha terra, só os nomes fazem sonhar, declamaria Ascenso Ferreira se ainda fosse vivo. Lembro as histórias de Trancoso, em que as bruxas semeiam dentes de dragão e escamas de serpente, e do solo brotam gigantes assustadores. No meu novo bairro crescem monstros bizarros, um descontrole arquitetônico semelhante às puxadas dos antigos vizinhos. É engraçado como no Recife as classes sociais se imitam, sobretudo no que produzem de pior. Em cinco anos, vi subirem dezessete prédios à frente do meu. Uma parede. Segundo a mitologia, os dragões e as serpentes podem ser fontes de sabedoria e força, ou simplesmente feras destruidoras.

Decifra-me ou te devoro. Recife nos propõe um enigma: escolher entre a parede que nos intercepta os passos e a visão, num edifício de classe média, e as casas nos subúrbios fragmentados e desiguais. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, escritor.

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