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Eliseu Visconti: Moderno e versátil

Mostra, que terá longa temporada no IRB, reúne 70 obras do artista ítalo-brasileiro e expressa sua habilidade em vários suportes e linguagens

TEXTO Priscilla Campos

01 de Agosto de 2014

'Meditando' é uma das obras que apontam o interesse do pintor pelo retrato

'Meditando' é uma das obras que apontam o interesse do pintor pelo retrato

Imagem Divulgação

Realizada em de novembro de 1800, a Aula Pública de Desenho e Figura foi o primeiro episódio oficial direcionado para o ensino da arte no Brasil. Em meio a um Rio de Janeiro imperial, caracterizado por construções neoclássicas, arquitetura urbana simples e imensos espaços verdes, tinha início a Academia Imperial de Belas Artes, hoje nomeada Escola de Belas Artes. A instituição seria, ao longo dos séculos, um órgão vital para a história da arte brasileira. Em 1885, o pintor, desenhista e designer ítalo-brasileiro Eliseu Visconti (Província de Salerno, Itália 1866 – Rio de Janeiro, Brasil 1944) começou a causar burburinho nos almejados corredores do edifício construído pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny. Com uma ideia afiada de experimentação para época, Visconti incorporava às suas pinturas diversas tendências: pontilhismo, simbolismo, linearismo art nouveau e o pré-rafaelismo.

Após temporadas na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, a exposição Eliseu Visconti – a modernidade antecipada chega ao Nordeste. A mostra será acolhida pelo Instituto Ricardo Brennand (IRB), a partir de 28 de agosto, para uma longa estada. Até novembro, a produção do artista será apresenta em toda sua extensão, desde o início da sua carreira até o seu falecimento.

Entre os cerca de 70 trabalhos apresentados estão retratos, nus, temas históricos, paisagens, cenas de família e painéis decorativos. Para a historiadora da arte e coordenadora do Projeto Eliseu Visconti, Christina Gabaglia Penna, ele possui uma obra muito voltada ao registro do cotidiano nacional, apesar de nunca ter sido naturalizado brasileiro. “Na sua obra encontramos muitas paisagens do Rio de Janeiro, do dia a dia carioca: lavadeiras, crianças brincando, ruas de bairros mais simples. Visconti foi muito moderno diante daquela sociedade cultural pré-republicana”, afirma.


Quando trabalhava nos afrescos do Theatro Municipal do Rio, Visconti precisou de um espaço superdimensionado. Imagem: Divulgação

Toda essa contemporaneidade atribuída ao pintor converge para uma discordância, quando se trata de classificações e definições objetivas. A diversificação de linhas artísticas escolhidas para os seus trabalhos ainda permanece como vívido tópico de discussões acadêmicas. “É verdade que sua adesão a diversos estilos por vezes foi criticada, pelo fato de impossibilitar uma unidade à sua obra, mas a maioria dos críticos soube reconhecer uma homogeneidade em sua diversidade técnica de representação e de formas utilizadas. Visconti não aderia inteiramente ao estilo dessas ‘escolas’ artísticas, mas somente aos aspectos que condiziam com seu caráter e conceitos estéticos” afirma o historiador gaúcho Cyd Losekkan.

O artista ficou conhecido, sobretudo pela crítica de meados do século 20, como introdutor do impressionismo no Brasil. De acordo com Losekkan, essa relação tem mais a ver com a questão técnica do que com uma adesão ampla ao movimento. “O pintor recebeu um prêmio em um concurso lançado pela Academia Imperial de Belas Artes (Escola Nacional de Belas Artes, após a proclamação da República) para estudar em Paris, onde permaneceu por sete anos. Esse tipo de prática não se restringia ao Brasil. Paris era o centro mundial das artes e diversos países ofereciam oportunidades a seus artistas para realizarem sua formação por lá. Seu contato com o impressionismo nessa época, assim como com outros artistas, caracterizava-se por uma transformação da técnica a partir de traços e estilos pessoais”, explica.

Durante seu intercâmbio parisiense, Eliseu Visconti produziu obras como No verão (1894), A leitura (1894) e Sonho místico (1987). Além disso, o artista participou seguidamente das famosas exposições nos Salões de Paris (Salon de Champs Elysées e Salon de Champ de Mars). Ainda em Paris, surgiram suas primeiras obras com os reflexos do Impressionismo, entre elas, Primavera (1895).


Vista do mar denota influência orientalista na composição. Imagem: Divulgação

Inquieto e empolgado pelas infinitas possibilidades do Velho Mundo, o pintor também se inscreveu na Escola Guérin na qual participou de cursos de desenho e arte decorativa com Eugène Grasset, importante nome da art nouveau. Mesmo com tantas novas experiências e buscando um estilo próprio e original, o artista não realizou uma ruptura radical com os ensinamentos adquiridos no Brasil, de acordo com a tese Os artistas brasileiros e prêmios de viagem à Europa no final do século XIX: visão de conjunto e um estudo aprofundado sobre o pintor Eliseu D’Angelo Visconti (1866 – 1944), da historiadora da arte Ana Maria Tavares Cavalcanti.

ARTE DECORATIVA
Em sua exposição de apresentação na então Escola Nacional de Belas Artes, em 1901, além das pinturas e desenhos produzidos na França, surgiram também 28 trabalhos de arte decorativa e de arte aplicada às indústrias. As peças, que revelavam o Visconti designer e decorador, foram resultado de seus aprendizados na Escola de Guérin. Segundo o historiador Lucas Molina, a influência da art nouveau na produção de Eliseu não se resume aos projetos de cerâmica. “Ela também pode ser identificada nos desenhos e na pesquisa das linhas – sobretudo a partir dos arabescos produzidos por Eugène Grasset. Foi a influência dele que levou Visconti a adotar elementos da natureza, voltados para um mundo fantástico e distante, como temática de muitas de suas decorações”, afirma.

Sobre essa primeira mostra após sua chegada ao Rio de Janeiro, Visconti escreveu ao conselheiro Angione Costa: “Quando regressei da Europa como pensionista dos cofres públicos fiz esta exposição na intenção de que a arte decorativa era o elemento maior para caracterizar a indústria artística do País. Olharam-me como novidade e nada mais. Cheguei a fazer cerâmica a mão, para ver se atraía a atenção das escolas e oficinas do Governo. Ninguém notou o esforço”, lamentou.


Da produção de Visconti constam objetos de estética art nouveau. Imagem: Divulgação

Para Molina, o artista foi um dos responsáveis pela introdução do debate sobre o ornamento em território brasileiro. “Vale lembrar que, na Europa do século 19, muitos artistas e teóricos se opunham ao uso indiscriminado de ornamentos. Foi graças a Visconti que se deu uma nacionalização da arte decorativa, mais do que uma simples incorporação de temáticas locais a partir de um modelo importado”, conclui.

Em 1903, o ítalo-brasileiro participa de três concursos de selos postais e cartas-bilhete, organizado pela Casa da Moeda. Nos selos, Visconti tinha as mulheres como principais protagonistas. Nas estampas também estiveram presentes fatos significativos da história do Brasil, homenagens às artes, ao comércio, à indústria e referências à aeronáutica e à energia elétrica.

Em 1926, aconteceria sua última exposição de arte decorativa, na Galeria Jorge. Nela, a população pôde apreciar os selos comemorativos do Centenário da Independência, o ex-líbris e o emblema da Biblioteca Nacional. Essa produção (cartazes, estudo para tecidos, selos e cerâmica), que consolidou Visconti como pioneiro do design brasileiro, também estará presente no IRB. A mostra conta ainda com memorabilia variada (cadernos de apontamentos, documentos, fotografias e estudos), objetos do ateliê do artista e cronologia ilustrada.


O afresco foi feito para a lateral do foyer do Theatro Municipal do Rio. Imagem: Divulgação

THEATRO MUNICIPAL
Um dos pontos de evidência na trajetória de Eliseu Visconti foi seu trabalho para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Uma gigantografia do pano de boca feito para o espaço, maior tela pintada no Brasil, faz parte do acervo da exposição que aporta no Recife. O artista foi responsável por grande parte da decoração do teto do teatro carioca. Em um documento encaminhado ao então diretor do Museu Nacional de Belas Artes, Oswaldo Teixeira, Eliseu afirma que foi sua obra mais importante.

Segundo o escritor e pesquisador Nagib Francisco, foi uma obra não só importante, como majestosa, pois o total da intervenção artística de Visconti no Theatro Municipal soma 640 m², aérea somente 10% inferior, em comparação, com toda a obra de Michelangelo na Capela Sistina. Para a noite de inauguração, ele projetou uma série de moringas em art nouveau que foram dispostas nos camarotes. Finda a noite de gala, diversas peças desapareceram. O boato era que os ocupantes dos camarotes levaram para casa como brinde. Nove dessas antigas e raras moringas foram localizadas pelo Projeto Eliseu Visconti. Para Christina Gabaglia, este tem uma importância que se divide em catalogar bem o patrimônio do artista e salvaguardar seu acervo.

O escritor Gonzaga Duque, contemporâneo crítico da obra do pintor, conseguiu elucidar de forma convincente, em um artigo publicado na revista Kosmos (1901), a postura artística e a pintura desenvolvida por Eliseu Visconti: “Ele não está nesta numerosa classe de copistas mais ou menos hábeis. A sua composição, em que há clarões de originalidade, fosforescências de inspiração, obedece a um sábio conjuntamento de qualidades desenvolvidas a poder de perseverança e à força de um talento que nunca se deslumbrou com os fáceis louvores da multidão. (…) A sua pintura é nítida sem pedantismo e é forte sem violências”. 

PRISCILLA CAMPOS, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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