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Amor: O coração na cultura

Tradição romântica, alimentada através dos séculos, mantém o discurso amoroso embalado para satisfazer o desejo de consumo frenético dos “tempos líquidos”

TEXTO Fábio Lucas

01 de Fevereiro de 2014

'Os amantes', obra de René Magritte (1928)

'Os amantes', obra de René Magritte (1928)

Imagem Reprodução

Se você aproximar as palmas das mãos, juntando e colando os dedos umas das outras em sua extensão com os correspondentes, como num espelho, certamente fará brotar em sua mente um pensamento místico. A posição milenar das mãos unidas para a prece pode trazer ainda uma emoção de pertencimento a algo maior, ao universo, como pregaram os líderes espirituais e como repetem os seus seguidores. Aproveitando as mãos nessa postura e deslizando suavemente os dedos de forma a entrelaçar cada um ao vizinho, dobrando-os, evocará talvez a imagem mental da submissão a uma ordem ou um ser superior, criador da ordem e da desordem terrenas. E até poderá se flagrar remetendo-lhe algum pedido, quem sabe uma promessa.

Agora, lembre-se da última vez em que deu as mãos a alguém por quem estava apaixonado. Tanto o roçar das palmas quanto o entrelace dos dedos podem igualmente ter levado você a experimentar uma espécie de emoção que considerou rara, associada ao amor descoberto e correspondido. A emoção de quem agradece a sorte do encontro talvez o tenha invadido, acompanhada de descargas químicas produzidas pelo seu corpo, e de pensamentos de completude, descolamento do tempo e intenso bem-estar que você passa a associar àquela pessoa.

Em nenhum dos dois casos acima mencionados você duvida do que sente. Ou chega a pensar no papel da cultura, acumulada durante séculos, nos gestos que antecipam ou acompanham o sentimento. É difícil não acreditar nas próprias reações: o ceticismo não vem com o DNA. Costumamos não suspeitar daquilo considerado alheio ao âmbito racional. Mas, como definiram os próprios românticos, poucos séculos atrás, a razão não se limita ao racional – existe uma razão sensível, cuja potência não deve ser desprezada como guia de nossas vidas. A natureza e a arte seriam fontes de tal fluxo.

Depois dos românticos, outra espécie de influência foi descortinada: a da razão inconsciente, desbravada por Sigmund Freud e, desde então, explorada pela psicanálise a fim de investigar o comportamento humano. Para essa teoria, é a cultura a raiz de quase tudo o que sentimos, de fervorosas manifestações religiosas a febris declarações de amor. O romantismo amoroso, do ponto de vista psicanalítico, seria uma espécie de messianismo, em que o indivíduo a que damos as mãos encarna, à perfeição, ideais radicados na cultura e forjados nas nossas particulares expectativas. Ou seja, na paixão, criamos deuses e deusas. Sem desconfiar do panteão cultural de onde vêm as nossas divindades.


Para o psicanalista Jurandir Freire da Costa, o amor é uma crença que pode ser mantida ou alterada. Foto: Divulgação

Se alguém disser que sabe o que é o amor, mente, ou se ilude mais do que se estivesse possuído de corrosiva paixão. O amor é do reino do inefável, ao alcance imperfeito dos sentidos, com tradução tosca pelo palavreado da razão. Pelo menos, essa é a opinião de um romântico. Há românticos ilustres com outra opinião, como o autor do clássico romance Em busca do tempo perdido, Marcel Proust, para quem o conhecimento da natureza do amor só é possível quando não se ama. Amar e discernir no meio da tormenta da paixão, para ele, é tarefa impossível. Se amamos, não nos interessa saber, já que o amor não pede explicação – substitui toda ela, encolhendo o mundo ao redor do ser amado. O pensamento é dominado pelo amor, e assim, o amor escapa ao domínio do pensamento.

A falta de um entendimento evidente e comum não tem, contudo, impedido o romantismo de espalhar seu ideal máximo de felicidade. A necessidade do amor para a realização pessoal é a premissa da visão romântica do mundo, responsável por um legado simbólico resistente e que se multiplica como o mais famoso preceito bíblico. Nas últimas décadas, graças à ampliação do alcance da produção cultural, o amor está no ar de forma epidêmica: na mídia, no desejo de consumo, nas prateleiras, no calendário, nos bares, na moda, na TV, nas redes sociais, na música, na literatura, no cinema. E na mente de cada um parece ter sido depositada a noção de que sem aquele amor arquetípico, de vitrine, do comercial de shopping, a própria vida não vale a pena. Como a felicidade não chega porque o consumo do desejo não cessa, vai faltando sentido para muita gente, cada vez mais atraída pelos apelos do romantismo amoroso. O círculo se fecha, e não se consegue sair dele.

INVENÇÃO DO FOGO
“Adoro um amor inventado...”, cantou Cazuza. No livro de referência para qualquer um que se interesse pelo tema, Sem fraude nem favor – estudos sobre o amor romântico, Jurandir Freire Costa é taxativo: “O amor é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. O amor foi inventado como o fogo, a roda, o casamento, a medicina, o fabrico do pão, a arte erótica chinesa, o computador, o cuidado com o próximo, as heresias, a democracia, o nazismo, os deuses e as diversas imagens do universo”. Linhas adiante, o autor é otimista: para ele, as convicções amorosas podem ser aperfeiçoadas.

Na introdução da obra, o psicanalista recorda uma cena de filme para mostrar como a cultura retrata a busca amorosa. Em Terra das sombras, a moral é clara, aponta Jurandir Freire: “Sem amor, estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores, quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas. Nada substitui a felicidade erótica, nada traz o alento do amor-paixão romântico correspondido. Diante dele, tudo empalidece; sem ele, até o que engrandece perde a razão de ser”.

E nada impregna mais a contemporaneidade do que o romantismo amoroso, na exacerbação de cenários dignos de filmes, novelas e anúncios em que o final feliz é o princípio regente de uma perseguição infinda. “A nossa cultura exalta o amor romântico e isso compromete as relações com o mundo”, anota a publicitária Ana Lima. “Vivemos o mundo da busca pelos contos de fadas, a sociedade do inalcançável.”


“Idealizamos o objeto de amor para perceber se somos amáveis aos olhos dos nossos ideais” (Contardo Calligaris). Foto: Divulgação

Em um de seus romances, Paisagem com dromedário, Carola Saavedra fala através de uma personagem: “Sentimos apenas o que nos foi dito que era possível sentir, fazemos apenas o que se vislumbra como uma possibilidade”. Deparamo-nos com o confronto entre as demandas abertas e os limites impostos pela mesma herança cultural.

Para o professor e pesquisador da Universidade Católica de Salvador, José Menezes, a transmissão de valores enraizados no romantismo é a causa de tudo. De acordo com ele, que ensina no mestrado e no doutorado em Família na Sociedade Contemporânea, o correto é analisar romantismos, no plural, tal a variedade de significados que o termo assumiu. “Em sua forma mais elaborada, trata-se do movimento filosófico-cultural que matizou as produções de entre fins do século 18 e todo o século 19. O exemplo mais desenhado é Goethe, que expõe, particularmente em Os sofrimentos do jovem Werther, a aspiração desesperada dos amantes pela completude através da experiência amorosa. Ou, se quisermos, o romantismo expressa a busca dos amantes por uma unidade absoluta na experiência amorosa. Unidade absoluta: os dois sujeitos se tornam um.”

A psicanálise lançou um balde de água fria na pretensão romântica. Freud e Lacan chamaram a emoção de impossível. Em suas Cartas a um jovem terapeuta, Contardo Calligaris expõe a mecânica do problema: “Quando nos apaixonamos por alguém, a coisa funciona assim: nós lhe atribuímos qualidades, dons e aptidões que ele ou ela, eventualmente, não têm; em suma, idealizamos nosso objeto de amor”, define, acrescentando que “idealizamos nosso objeto de amor para verificar que somos amáveis aos olhos de nossos próprios ideais”.

A cultura se transforma, então, num caldeirão de idealizações, como sugere o professor José Menezes. “Na música popular de todos os países (pensemos o rock, por exemplo), na poesia, nas artes plásticas, no teatro, no romance, essa ideia de identificar o romântico como aquele que adere com suas ventosas amorosas em toda a superfície do outro tem certa correspondência com o desejo de completude absoluta. Quem de nós não conhece a famosa ‘fossa’, ou identifica rapidamente aquilo que vulgarmente se nomeia como ‘dor de corno’? O que essas duas menções aqui apontam? Profundos sentimentos de frustração pela ruptura de uma relação que se esperava ‘eterna’, duradoura, com correspondência e reciprocidade de fidelidade, centralidade na vida etc.”

É na celebração de uma projeção idealizada que se fundamentam os produtos culturais de hoje, reconduzindo ao turbilhão de informações em rede o ideário da paixão romântica. 

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