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DJ Dolores: Compondo para imagens

Músico lança álbum em que compila 15 anos de criação de trilhas para o cinema. Seleção partiu do fluxo livre da memória e inclui de 'Enjaulado', dos anos 1990, ao recente 'Tatuagem'

TEXTO Marina Suassuna

01 de Novembro de 2013

Foto Priscilla Buhr/Divulgação

Impossível pensar nas trilhas sonoras do cinema brasileiro, sobretudo o pernambucano, e não lembrar DJ Dolores, codinome de Helder Aragão. É só prestar atenção nos créditos dos filmes produzidos no país e verificar que sua assinatura é recorrente. Tanto é que, este mês, ele lança, pelo selo Assustado Discos, o álbum Banda sonora, concebido em CD, vinil e download, que reúne as trilhas que compôs para o cinema.

A importância de Dolores no resultado final dos trabalhos em que se envolve é tamanha, que ele tem no currículo mais três lançamentos de trilhas em álbum, um deles deverá sair ainda este ano, o do longa pernambucano Tatuagem, de Hilton Lacerda. Ele já perdeu as contas dos filmes em que trabalhou, já que faz 15 anos que se dedica à atividade. “Tudo começou na década de 1990, quando eu sequer sonhava em me tornar músico profissional, embora já atuasse como DJ há tempos. Fui convidado por Kleber Mendonça Filho para produzir uns temas que contribuíssem com o clima tenso e claustrofóbico de Enjaulado, sua estreia como realizador em curta-metragem”, diz Dolores no encarte do disco. Segundo o músico, o trabalho em Enjaulado foi um “exercício de Kleber, antecipando umas inquietudes que estariam presentes em O som ao redor”, primeiro longa-metragem do cineasta pernambucano, cuja trilha também foi assinada por Dolores. O tema de abertura de Enjaulado, batizado pelo diretor de Setúbal, acabou integrando a trilha de O som ao redor e também o repertório do Banda sonora.

Segundo Helder, as tracks (termo usado para designar as faixas de uma trilha) escolhidas para a Banda sonora são pedaços soltos de sua memória em relação a essa atividade. “Escolhi um ou outro tema movido por razões igualmente diversas: uma lembrança pessoal relacionada, um achado musical, uma letra engraçada ou até porque havia uma boa história a ser contada por detrás da música”, explicou. “Lamentei não incluir um trabalho recente, Periscópio, de Kiko Goifman, além de uma música feita para um documentário de TV, chamada Valsa do pódio. Mas irei disponibilizar mais coisas para download e espero corrigir essa falha.”

A maioria das tracks presentes na coletânea são originais, criadas para os filmes, como as faixas Polka do cu e Álcool, produzidas para Tatuagem, longa que rendeu ao DJ o prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Gramado 2013. “A Polka do cu tinha uma letra sugerida no roteiro, mas a única coisa realmente importante para mim era guardar a intenção: uma composição popular, teatral, de fácil compreensão, que mantivesse uma brincadeira no refrão. Uma deliciosa bobagem incrivelmente reinterpretada por Helder. Em relação à Álcool, o que estava no roteiro era a indicação de cena, e Dolores nos deu uma versão maravilhosa, com Isaar cantando, bastante inspirada”, explica Hilton Lacerda, diretor do filme.

Tatuagem é uma espécie de musical. Eu precisava dar conta da música dentro da narrativa. As composições dos espetáculos estavam orientadas no roteiro, mas meu talento musical é bastante limitado, apesar de ter um bom ouvido para música. Dolores veio e fez a diferença. Ele já estava no projeto antes mesmo de ser escrito. A função da trilha é quase de uma coautoria de roteiro. Ele percebeu isso e tratou de emprestar mais uma linha narrativa para o filme a partir das composições”, acrescenta.


Entre as trilhas criadas pelo DJ estão a do longa de ficção Tatuagem. Foto: Divulgação

Para Dolores, o processo de composição de suas trilhas equivale ao trabalho de um ator. “É preciso entrar no filme, envolver-se no ambiente, entender o sentido narrativo que o diretor quer imprimir e sustentá-lo; ou, em alguns casos, contestá-lo. Costumo conversar bastante, fazer muitas perguntas e só então começo o trabalho. Tento manter a mente como uma página em branco, que será preenchida pelo fruto desse processo inicial.” Segundo ele, a técnica lhe permite uma liberdade que explica o fato de não ser um músico de formação tradicional, mas, antes de tudo, alguém mais ligado em narrativas literárias e cinematográficas.

Helder também compõe trilhas para o teatro e espetáculos de dança, material que ficou de fora da coletânea. Uma das peças teatrais de que participou, A máquina, de João Falcão, ganhou versão em película, cuja trilha também foi assinada pelo DJ, dessa vez em parceria com Robertinho do Recife e Chico Buarque. A música do filme escolhida para integrar a Banda sonora foi Azougue, remixada para uma sequência cômica num shopping center.

De Últimos cangaceiros, documentário de Wolney Oliveira, Dolores trouxe para a compilação a releitura da cantiga popular Mulher rendeira, que ganhou novos versos e uma ambiência western. Outra adaptação feita para o filme, que também está presente na Banda sonora foi Satie dub, inspirada num tema do compositor e pianista francês Erik Satie.

Uma das passagens históricas da coletânea é Subúrbio soul, composta por Dolores para o primeiro longa do qual fez parte, o pernambucano O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, de Marcelo Luna e Paulo Caldas. “Um documentário dark e sinistro sobre dois jovens do mesmo bairro, um deles, matador. A música aparece no início do filme, melancolicamente incorporada aos sons do centro do Recife”, diz Helder. Gravada com Fabio Trummer e Jam da Silva, parceiros de Dolores na Orchestra Santa Massa, ao lado de Isaar e Maciel Salú, Subúrbio soul acabou entrando no primeiro disco do grupo, Contraditório?.

Também estão presentes na compilação O rosto no espelho, do filme homônimo de Renato Tapajós; Narradores, de Narradores de Javé, de Lili Caffé; O amor vai, do documentário Estradeiros, assinado pelo casal pernambucano Sergio Oliveira e Renata Pinheiro; e Amor, plástico e barulho, do longa de ficção da mesma diretora.”


O documentário O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas também tem trilha sonora produzida por Dolores. Foto: Divulgação.

“DJ Dolores é um monstro musical em notas, compassos, tempos e timbres. Ele interpreta o filme de uma maneira muito pessoal, que, a princípio, assusta seus criadores, mas, depois, quando vemos seu trabalho já integrado às imagens, logo entendemos que não poderia ser de outra forma”, diz Renata Pinheiro.

CONCEITO E ACABAMENTO
Veterano do Manguebeat, DJ Dolores sempre brincou com limites estéticos ao produzir música. Com um pé no regional e outro na diversidade da música brasileira, também absorveu as referências internacionais em suas andanças pelo mundo. É dessa experiência que se alimenta quando precisa se dedicar ao cinema. “De uma trilha brega, em Amor, plástico e barulho, ao experimentalismo do rock eletrônico em Periscópio, de Kiko Goifman, passando por doses de concretismo em Tatuagem, dá pra combinar autoria e entendimento de necessidade de cena”, diz o compositor.

O que importa, para Dolores, é que sua música esteja em harmonia com o diálogo e a imagem, estabelecendo o tom do filme. “Fazer uma trilha é como fazer um disco. Envolve conceito, acabamento, criatividade. Dá um trabalho danado. Mas o reconhecimento é mínimo. O cinema preza pela imagem e subestima o som, mesmo que pessoas cantem e se envolvam na cena por causa da música. É um trabalho muito ingrato, muito pior que o do roteirista. Por outro lado, possibilita produzir fora da chatíssima e medíocre indústria fonográfica. Como amo música e detesto ambiente competitivo, o saldo final é a mais pura felicidade.”

Bom mesmo seria se, no cinema, a música passasse a ocupar tanto espaço quanto a imagem, extrapolando as fronteiras do papel coadjuvante que a trilha costuma ter na maioria das vezes, como defendeu Glauber Rocha nos anos 1970. “O Brasil é um país musical e eu penso no cinema como uma montagem de pausas e momentos de música.” Não é por acaso que o australiano Graham Bruce, ao estudar o papel da música na obra do cinemanovista, concluiu que, mais do que servir de acompanhamento às imagens, a música organiza a narrativa, expande o sentido das imagens, passa a dividir com elas a incumbência da história.

Se, para Glauber Rocha, os precedentes do fazer cinematográfico são “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, para Dolores, basta uma aparelhagem na mão que surgirão mil ideias na cabeça. 

MARINA SUASSUNA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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