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Malditos: Aqueles discos que depõem contra!

Dentre as obras de grandes nomes da música é comum haver um álbum considerado a “ovelha negra”, seja por sua qualidade estética, seja pelo fiasco de vendagens

TEXTO Ingrid Melo

01 de Junho de 2012

Álbum que sucedeu o celebrado 'Transa', 'Araçá azul' rendeu encalhe a Caetano

Álbum que sucedeu o celebrado 'Transa', 'Araçá azul' rendeu encalhe a Caetano

Foto Reprodução

"It’s better to burn out than to fade away" (“É melhor incendiar do que queimar aos poucos”, em tradução livre) foram algumas das últimas palavras de Kurt Kobain, em carta de despedida antes de cometer suicídio. Extraída de uma música de Neil Young, Hey, hey, my, my (Into the black), do disco Rust never sleeps (1979), a frase ganhou diversas interpretações, que presumiam desde a incapacidade do músico de se livrar das drogas até seu medo de não conseguir manter uma regularidade na carreira do Nirvana. Independentemente de qual seria a real intenção do roqueiro, o fato é que há quem acredite que apenas a interrupção prematura de uma trajetória artística é capaz de evitar incursões em trabalhos duvidosos.

Não é difícil de concordar, se pensarmos que vez ou outra nos deparamos com obras problemáticas cujos autores são nomes consagrados. O próprio Neil Young, que poucos erros cometeu em sua sólida carreira, é responsável por um dos maiores equívocos da música mundial. No disco Trans (1982), Young se inspirou no som techno do grupo musical alemão Kraftwerk para executar suas composições. O problema é que ele abusou tanto dos sintetizadores, que ninguém entendeu nada – nem os fãs nem a gravadora, a Geffen Records. Chegou-se a comentar que os vocais, distorcidos ao ponto de ficarem incompreensíveis, eram uma sátira do canadense acerca da direção que a música tomaria no futuro. Segundo o músico, o disco era uma referência a pessoas com dificuldade de comunicação. David Geffen, responsável pelo selo, não ficou satisfeito com o álbum e processou Young.


O disco Self portrait, de Bob Dylan, foi mal recebido pela crítica, mas tornado cult pelos fãs. Imagem: Reprodução

Experiência semelhante ocorreu na música nacional, com Caetano Veloso. “Araçá azul é brinquedo” é a última frase que se ouve no disco Araçá azul, lançado pelo baiano em 1973. Tivesse ele deixado isso mais evidente antes, talvez o álbum não fosse um dos maiores encalhes da indústria fonográfica nacional. Na época do lançamento, o cantor, então com 30 anos, vinha de uma fase de grande reconhecimento e aumento de vendagens, principalmente devido ao sucesso de Transa, lançado no ano anterior, com músicas adoradas como You don’t know me e Nine out of ten. Tomado por uma vontade de experimentar e resgatar as ideias antropofágicas do Modernismo – e gozando de total liberdade para isso –, Caetano Veloso foi para o estúdio, compôs as músicas no momento de sua gravação e fez tudo praticamente sozinho. Porém, a sequência de falsetes estranhos, grunhidos, superposições de vozes e misturas de estilos, somados à imperfeição técnica, soaram altamente difíceis e o disco foi alvo de protestos e recorde absoluto de devoluções.


Capa e título de O filho de José e Maria explicam polêmica religiosa envolvendo Odair José. Imagem: Reprodução

Se a brincadeira de Caetano não foi bem recebida, o mesmo não se pode dizer do insano Self portrait, lançado em 1970 por Bob Dylan. O álbum é uma espécie de paródia em que o músico resgata algumas pérolas do folk em versões que soam inacabadas, com sua voz anasalada e arranjos orquestrais. Embora tenham se tornado famosas as primeiras palavras do crítico Greil Marcus, em sua resenha sobre o disco para a revista Roling Stone (“What is this shit?”, ou “Que porcaria é essa?”), Self portrait incrivelmente vendeu bem, talvez por conta do mito que era Dylan, considerado porta-voz de sua geração. No livro Crônicas – Vol. 1 (Planeta), o músico explica o motivo dessa mancha em sua carreira: o disco é jocoso e foi feito para que as pessoas o deixassem em paz, parassem de falar dele tão seriamente e se convencessem de que ele era só um amador. E, para deixar isso ainda mais claro, fez logo um disco duplo: “Não se sustentaria sendo um disco simples. Se você vai colocar um monte de porcaria, então que seja muita mesmo”, justificou.

UM CULT
Quisera Odair José ter tido a mesma sorte. Em 1979, cansado de críticas e censura às suas composições (em que eram recorrentes temas como sexo, amor sem casamento e prostituição), ele produziu um disco completamente diferente. A ideia original era a de um álbum duplo, no estilo garage rock experimental. A BMG, porém, exigiu que Odair gravasse com a Azymuth, na época mais conhecida como uma banda de estúdio, o que deixou o rock um pouco mais comercial e limitou o número de músicas a apenas um disco. De resto, tudo ficou como planejado para aquela ópera-rock, desde as influências de Herbie Hancock, Peter Frampton e Khalil Gibran (vindas da Azymuth), até o enredo, que Paulo César de Araújo resumiu no livro Eu não sou cachorro, não (Record): “ a história do nascimento, vida e morte de um jovem pederasta – o filho de José e Maria, que após longos anos de solidão e rejeição social, assume a sua homossexualidade e, aos 33 anos, encontra a plenitude”. Lógico que tamanha ousadia não foi compreendida pelo público, muito menos pela Igreja. O disco foi um fracasso de vendas, Odair José foi ameaçado de excomunhão e, ainda, acusado pelos críticos de querer elitizar sua obra. Hoje, O filho de José e Maria é considerado um álbum cult.

Chinese democracy, dos Guns N'Roses, demorou 15 anos para ficar pronto. Imagem: Reprodução

Nenhuma das obras acima, porém, pode ser comparada ao fiasco que foi Chinese democracy, lançado pela banda Guns N’Roses em 2008. Depois de passar 15 anos para ser concluído e de ter custado 15 milhões de dólares, passando por vários estúdios, o disco foi malrecebido. Axl Rose, líder da banda que já foi considerada uma das melhores do mundo, caprichou na elaboração dos temas, mas chega a ser penosa a confusão de ruídos de cordas e batidas eletrônicas. É provável que o resultado fosse mais agradável se a banda mantivesse sua formação original, com os belos solos de Slash e a habilidade de Izzy Stradlin e Duff McKagan. Dificilmente, contudo, o álbum chegaria perto do irretocável Apetite for destruction (1987) e da dupla Use your illusion I e II (1991). Na profusão de baladas estilo Queen, que compõem Chinese democracy, o hard rock do Guns N’Roses passa muito distante.


Gravação de Presence, do Led Zeppelin, aconteceu sob circustâncias trágicas.
Imagem: Reprodução

Críticas negativas e parcas vendagens, porém, não são os únicos problemas das “ovelhas negras” das discografias de grandes artistas. Em alguns casos, a mácula vem muito mais dos bastidores da gravação do álbum do que de sua qualidade propriamente dita. É o que ocorre, por exemplo, com Presence - um dos discos com processos de criação e gravação mais carregados da história do rock -, lançado pelo quarteto inglês Led Zeppelin em 1976. O álbum foi gravado em Munique, Alemanha, após o vocalista Robert Plant sofrer um grave acidente de automóvel na Grécia. Plant compôs as músicas imobilizado na cama e as gravou em uma cadeira de rodas.

Na época, o guitarrista Jimmy Page estava no auge de seu envolvimento com cocaína, quebrou um dedo e teve que tocar sedado. Não obstante, durante a turnê de divulgação de Presence (que foi gravado em 17 dias), Plant recebeu a notícia de que seu filho, Karac, havia morrido em decorrência de uma doença respiratória causada por um vírus raro. A atmosfera do disco é bastante pesada. As canções são uma enérgica entrega ao blues e chegam a arrepiar em momentos como Tea of one, em que é possível ouvir Plant chorar ao microfone. Para muitos críticos, esse foi o último trabalho com alguma relevância lançado pela banda inglesa, que teve momentos brilhantes em sua carreira.


Smile, dos Beach Boys, foi um dos discos malditos que se transformaram em obra cult.
Foto: Reprodução



Imagem: Reprodução

Na história do grupo brasileiro RPM, um dos maiores fenômenos do rock nacional, também existe um álbum que reflete o clima tenso que o envolveu, durante o processo de gravação. Lançado em 1988, o RPM, também conhecido como Quatro coiotes, foi um fracasso de vendas, motivado por canções que, visivelmente, não tinham nenhuma inspiração, embora tecnicamente soassem bem. Naquele momento, o quarteto formado por Paulo Ricardo, Fernando Deluqui, Paulo A. Pagani e Luiz Schiavon colhia os frutos do sucesso de Rádio Pirata (1986) e mergulhava em uma atmosfera de drogas, bebidas, mulheres e estrelismo.

Apesar de contar com toda a infraestrutura possível (de gravação no exterior até a criação de um selo próprio, que lançou uma única banda, a Cabine C), o grupo não conseguia se decidir entre fazer um disco mais pesado ou um álbum com sons eletrônicos, batidas funk e teclados potentes. Ao mesmo tempo, Pagani precisou ser internado em uma clínica de reabilitação. A banda chegou a se separar em 1987, mas, depois de uma proposta financeiramente irrecusável da gravadora, finalizou o disco no ano seguinte. Como a obra não emplacou, o RPM voltou a romper e só se reuniu novamente em um álbum de inéditas com Elektra, lançado em 2011. Até hoje, Quatro coiotes é conhecido como um “disco atormentado e esquecido”. O oposto do que ocorreu com Smile, disco igualmente conturbado dos Beach Boys.

Em 1967, o quinteto californiano estava prestes a lançar o álbum mais esperado da história, uma “sinfonia adolescente para Deus”, que sucederia o genial Pet sounds (1966). Brian Wilson, o principal compositor e arranjador da banda, experimentava a gravação modular (que grava trechos curtos para depois uni-los) enquanto deixava a cargo de Van Dyke Parks as letras de Smile. Quando os outros Beach Boys se integraram às gravações, começaram os problemas. O vocalista e letrista Mike Love não aprovou as letras de Parks; o quebra-cabeças musical não parecia fazer sentido; estava cada vez mais penoso para o resto da banda acreditar que experimentações como o uso do barulho feito por Paul McCartney ao comer vegetais, na canção Vega-tables, seriam bem recebidas; a gravadora cobrava a finalização da obra; e Brian achava tudo que conseguiam terminar aquém do que ele havia idealizado.

Fracasso do álbum homônimo marcou o fim da banda PRM, no final dos anos 1990.
Imagem: Reprodução

Somando-se a isso, o mais velho dos irmãos Wilson havia mergulhado em uma rotina de viagens diárias de LSD, o que agravou sua epilepsia. Entre as alucinações relatadas durante o período, há uma famosa em que ele acreditou que a pequena fogueira que fez no estúdio para gravar Fire havia causado um incêndio em Los Angeles (as fitas foram amaldiçoadas e guardadas em um cofre). O golpe final, porém, ainda estava por vir: os Beatles lançaram o cultuado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Brian deu-se por vencido: os ingleses haviam chegado antes ao que ele pretendia. Com a desistência e instabilidade psicológica de seu principal compositor, os Beach Boys abortaram o projeto do Smile e lançaram um substituto, Smiley smile (1967), apenas para cumprir contrato com a gravadora.

Algumas composições de Brian foram aproveitadas no novo trabalho, porém em versões bem mais simples, e o disco foi um grande desapontamento. Contudo, o single Good vibrations, lançado antes do álbum, tornou-se um fenômeno e contribuiu para lançar sobre Smile um mito que duraria 40 anos: o disco perdido dos Beach Boys seria um verdadeiro tesouro. No ano passado, a sinfonia inacabada foi finalmente concluída pelos integrantes remanescentes do grupo (Brian Wilson, inclusive) e Smile saiu da categoria de lenda para a de obra-prima, para parte da crítica. Na história, todavia, ficará sempre marcado como o álbum que poderia ter revolucionado o rock mundial, mas que enlouqueceu Brian, afastou-o da música durante 20 anos e ainda hoje o faz ter calafrios, com músicas como Mrs. O’Leary’s cow em suas notas de morte, fogo e ego. 

INGRID MELO, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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