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“Ainda penso que compor é inventar”

Jocy de Oliveira, pianista que trabalhou ao lado de nomes fundamentais da música erudita, do século 20 lança DVD do espetáculo concebido a partir de sua convivência com Stravinsky

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Março de 2012

Jocy de Oliveira

Jocy de Oliveira

Foto Marcos Morteira/Divulgação

Nos últimos 25 anos, Jocy de Oliveira construiu um anticonvencional catálogo de obras de câmara e espetáculos multimídia, no qual nada se observa em termos de contraponto, harmonia, ritmos regulares e estruturas tradicionais. Fragmentos sonoros, dissonâncias, texturas “roucas” e indeterminismo formal caracterizam o estilo de composição da curitibana radicada no Rio de Janeiro e moldam as peças que concebeu como interlúdio para o espetáculo Revisitando Stravinsky, lançado recentemente em DVD.

Na apresentação de duas horas, entremeada também por diversas partituras do compositor russo, Jocy assina o roteiro, toca piano, rege o ensemble que leva seu nome e aparece como narradora e personagem. O fio condutor do espetáculo são seleções de seu diário, em que relata impressões e episódios vividos ao lado de Stravinsky nos anos 1960, incluindo os de sua visita ao Brasil em 1963 junto à mulher, Vera, e ao amigo, maestro e biógrafo Robert Craft.

Naquela época, Jocy dedicava-se à interpretação pianística (com esparsas experiências no teatro e na literatura) e conheceu, através dessa atividade, boa parte dos compositores mais ativos da Europa e dos Estados Unidos de então, chegando alguns deles a dedicar-lhe obras inéditas. Na conversa que tivemos com a compositora, tangenciamos assuntos como as manias de Stravinsky, princípios estéticos vigentes, o estímulo à composição contemporânea no Brasil, o papel ocupado pela mulher na música erudita e projetos em andamento.

CONTINENTE Um trecho de Revisitando Stravinsky revela esquisitices cultivadas pelo compositor russo, como descrever os próprios movimentos peristálticos durante uma conversa casual. Que outras manias você constatou durante o convívio com ele, nos anos 1960?
JOCY DE OLIVEIRA Stravinsky era hipocondríaco e até mesmo sua mulher reconhecia isso e não levava muito a sério suas pequenas mazelas. Porém, quando tinham uma gripe, ele logo se cuidava e se curava, enquanto ela, que não tinha mania de doença, demorava para sarar... Ele também gostava de falar sobre finanças e como evitar impostos. Uma vez me disse: “Ma chère, você deve viajar só de primeira classe, do contrário, o lucro dos cachês vai todo para o fisco”. Ao que respondi: “Maître, se eu viajar de primeira, não sobra nada dos meus cachês...”.

CONTINENTE Que trechos de seu diário foram cogitados para integrar o espetáculo, mas você preferiu deixar de fora?
JOCY DE OLIVEIRA A escolha teve muito a ver com o ritmo do espetáculo e sua duração. Não houve nenhuma censura, porém alguns trechos que se referiam mais a análises musicais foram reduzidos porque eram mais apropriados a um livro do que a um espetáculo. O que prevaleceu foi tudo que oferecesse ao público uma percepção da obra e do criador através do meu olhar e do momento de sua vida que tive o privilégio de testemunhar.

CONTINENTE Falemos de John Cage, Karlheinz Stockhausen, Lukas Foss e outros com os quais você trabalhou como intérprete e que serão tratados com detalhes no seu futuro livro Diálogo com cartas. Qual a visão que os compositores vanguardistas contemporâneos a Stravinsky tinham da obra dele?
JOCY DE OLIVEIRA Reconheciam de que ele foi um dos mais relevantes pilares da música no século 20. Aquele que transformou a história por meio de sua descoberta rítmica. Não há dúvida sobre isso. Mas, na verdade, nunca conversei sobre Stravinsky com alguns deles; com Cage, por exemplo. Sabe-se da admiração de Cage por Schoenberg, com quem teve contato.

CONTINENTE E o que Stravinsky pensava a respeito deles (tanto pessoal quanto musicalmente)? Era uma relação de respeito pleno ou havia ressalvas da parte do russo?
JOCY DE OLIVEIRA Stravinsky tinha total conhecimento e contato com as novas gerações de compositores pelo filtro de Robert Craft – músico arguto e de extraordinária capacidade analítica, que levava a ele a criação presente. Assim, Stravinsky ouvia e se interessava pelo que estava sendo criado, considerando mesmo (Luciano) Berio e Lukas Foss como seus amigos. Quanto a (Olivier) Messiaen, Stravinsky me estimulou muito a tocar a sua música e tentou algumas vezes programá-lo em seus concertos.


Stravinsky. Foto: Reprodução

CONTINENTE Stravinsky, Messiaen ou os demais compositores citados conheceram seu trabalho composicional? Que orientações ou incentivos lhe passaram?
JOCY DE OLIVEIRA Cage, Lukas Foss, Berio e Robert Craft conheceram bem meu trabalho composicional. Com Stravinsky e Messiaen, talvez pela grande distância de gerações, pela intensa relação que tive como pianista dedicada à obra deles, preferi me abster de falar muito do meu trabalho composicional. Com Berio, ao contrário, houve uma memorável colaboração em Apague meu spotlight – um drama que estava escrevendo quando o conheci, com música eletrônica composta em colaboração com ele. A peça de música-teatro estreou em setembro de 1961, no Rio e em São Paulo, e teve como elenco a Companhia dos Sete (Fernanda Montenegro, Sergio Britto, Ítalo Rossi, entre outros) e representou a primeira apresentação de música eletrônica na América Latina. Com Lukas Foss, executei várias de minhas peças em séries de música contemporânea dirigidas por ele no Carnegie Hall, em Buffalo e na Brooklyn Academy. Ele era um excepcional músico e ser humano e sempre me estimulou bastante.

CONTINENTE Você, como compositora, defendia como princípio “projetar o ouvido para o futuro”. Esse continua sendo seu objetivo? A qual ideia de futuro você se refere?
JOCY DE OLIVEIRA Não sei, acho que quis dizer que nossa obra representa os dias em que vivemos, reflete o passado e se projeta ao futuro. Ainda penso que compor é inventar (Stravinsky já se referia a si próprio como um inventor), portanto, é procurar pelo menos uma nova visão. Não vejo razão para um compositor vivo reescrever música do século 19.

CONTINENTE Seu catálogo é formado, na maioria, por peças de câmara (com ou sem intervenções eletroacústicas) e espetáculos multimídia envolvendo teatro, música e vídeo. Quando poderemos ouvir um concerto, uma sinfonia ou uma sonata composta por Jocy de Oliveira?
JOCY DE OLIVEIRA Acho que minha resposta à pergunta anterior se aplica a essa. A forma de um concerto, uma sonata ou uma sinfonia está intimamente ligada ao século 19. Já no início do século 20, Debussy, Ravel, Satie não escreveram nenhuma sinfonia. Existem outras formas e estruturas musicais para serem utilizadas e é o que tenho feito com música de câmara, até mesmo em orquestra de cordas. A forma do concerto que dá ao solista a capacidade de demonstrar suas qualidades virtuosísticas não é a única. Minhas peças camerísticas requerem de cada músico uma excelente capacidade técnica e conhecimento musical para explorar os timbres e habilidades que a partitura solicita. De maneira diferente, cada um é um virtuose.

CONTINENTE Em um ofício no qual mulheres ainda são minoria, com que outras compositoras você mantém contato e o que destaca no trabalho delas em termos de contribuição estética?
JOCY DE OLIVEIRA Não tenho contato com nenhuma organização de mulheres compositoras – que de certo modo são um gueto –, pois não é preciso que existam organizações de homens compositores. Reconheço que somos minoria e reputo isso à velada discriminação às mulheres na música, nas áreas de estética e regência. A mulher é muitas vezes vista como a musa, a intérprete dos compositores homens.


Heitor Villa-Lobos. Foto: Reprodução

CONTINENTE No Brasil, as orquestras sinfônicas têm programado e comissionado mais obras de compositores do próprio país nos últimos anos, em especial dos que estão na ativa. Você crê que essa é uma medida suficiente para valorizar o repertório sinfônico nacional?
JOCY DE OLIVEIRA Não, porque o número de encomendas é muito pequeno e também seria necessário incorporar aos repertórios sinfônicos obras de autores do passado. Afinal, música brasileira existe antes e depois de Villa-Lobos. Muitas obras de Cláudio Santoro nunca foram ouvidas no Brasil, por exemplo. O passado da música erudita no Brasil é muito rico e mesmo assim quase não se ouvem as importantes obras de (Alberto) Nepomuceno, Leopoldo Miguez, Francisco Braga, para citar apenas alguns. Além disso, é necessário incluir a música contemporânea nos programas das temporadas.

CONTINENTE Já que passamos a falar de orquestra nacional, um depoimento importante: você, como mãe do presidente da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, Eleazar de Carvalho Filho, que novo relato pode fornecer agora, apaziguada (ma non troppo) a situação?
JOCY DE OLIVEIRA A Orquestra Sinfônica Brasileira é uma instituição nacional de grande mérito. Precisamos preservá-la, contribuir para seu desenvolvimento, para que sua programação seja cada vez melhor e mais criativa, assim como para que cumpra seu objetivo de formar um público para o amanhã. Meu filho Eleazar acreditou no sonho do pai, que não pôde chegar à meta que desejou.

CONTINENTE E o que esperar de Jocy de Oliveira em 2012?
JOCY DE OLIVEIRA Um ano com muitos projetos e planos. Estou escrevendo uma ópera baseada em Luciano Berio (Berio sem censura, nos moldes de Revisitando Stravinsky) e, para tal, escrevo o roteiro, componho e pesquiso sua obra para extrair dela segmentos relevantes para complementar minha memória e reflexão sobre nossa convivência. Será uma obra dramática e talvez com uma dinâmica cênica ainda mais envolvente do que Revisitando Stravinsky. Estou compondo duas peças de câmara, uma para flauta, clarineta/clarone, cello e percussão e outra para bandoneón solo e parte eletroacústica. Continuo com meu projeto sobre a água, Soif, e finalizo a revisão do livro Dialógo com cartas.

CONTINENTE Como o elemento “água” é abordado em Soif?
JOCY DE OLIVEIRA No nosso planeta, a água é um elemento renovável que se torna finito. O efeito curador da água, a sensação erótica ou o temor de seu poder e, acima de tudo, a falta desse líquido vital éSoif, um projeto multicultural que parte de mitos, lendas e do poder da água em diferentes culturas e que iniciamos em fins de 2010 com um projeto-piloto em Chengdu, na China. Composto para o oboísta Ricardo Rodrigues (catedrático em Berlim e meu intérprete há 30 anos), Soif foi apresentado em várias cidades chinesas, em outubro de 2011, e também na capital alemã. Planejamos continuar apresentando esse projeto, que obteve um prêmio da Guggenheim Foundation, em colaboração com artistas em várias partes do mundo e diferentes formatos.

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, mestre em Comunicação pela UFPE e crítico de música. 

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