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“O público quer se sentir inteligente”

O roteirista Hilton Lacerda prepara-se para sua estreia solo na direção de um longa ficcional, 'Tatuagem', e aponta como falha no cinema brasileiro a tentativa de explicar demais uma trama

TEXTO Gabriela Alcântara

01 de Novembro de 2011

Hilton Lacerda

Hilton Lacerda

Foto Chico Ludermir

Autor de alguns dos roteiros mais comentados do cinema brasileiro, Hilton Lacerda começou a rodar Tatuagem no final de outubro. Nascido no Recife, Lacerda mora em São Paulo, e agora volta à cidade para filmar uma história que faz referência ao grupo teatral Vivencial Diversiones, que atuou em Pernambuco em meados de 1970. O filme se passa em 1978 e discute variados temas, a partir do encontro entre dois núcleos, sendo o primeiro a trupe de teatro Chão de Estrelas, liderada por Clécio (Irandhir Santos) e, o segundo, relacionado a um militar do interior, Soldado Araújo (Jesuíta Barbosa), também conhecido como Fininha. O longa conta, ainda, com trilha sonora de DJ Dolores, trazendo músicas que serão cantadas pelo elenco.

Esse é o primeiro filme de ficção em que Hilton Lacerda assina roteiro e direção, já com a experiência de diretor em curtas e vídeos educacionais, além da codireção do documentário Cartola – Música para os olhos (2007), com Lírio Ferreira. Como roteirista, escreveu os textos de Baile perfumado (1997), Árido movie (2005), Baixio das bestas (2006) e, mais recentemente, Capitães da areia (2011), todos com um toque melodramático que o próprio Lacerda diz ser característico de suas obras. Inquieto e crítico, é um realizador que traz em seus filmes um olhar reflexivo de mundo, seja político ou sentimental.

Com influências que vão do palatável Billy Wilder ao inquieto Glauber Rocha e ao detalhista Carlos Reichenbach, o roteirista fez parte do grupo que deu novo impulso ao cinema pernambucano e brasileiro nos anos 1990, chamando a atenção tanto pela estética quanto pela ousadia ao abordar temas tabus.

CONTINENTE Por que, em Tatuagem, você tomou a iniciativa de dirigir?
HILTON LACERDA Esse projeto de dirigir um longa já é antigo. Então, direção, para mim, sempre esteve um pouco na cabeça, até pela forma de escrever. Sou meio ridículo, fico indicando movimentos. Às vezes me perguntam: mas se faz isso? Sei lá! Eu sei que faço e dá certo! (Risos.)

CONTINENTE Como foi o processo que o levou a esse filme?
HILTON LACERDA Ele veio de três coisas bem distintas. Começou em uma conversa, que eu tive com o João Silvério Trevisan, sobre Tulio Carella, escritor argentino, que tem um livro chamado Orgias. E o início era meio isso, fazer a adaptação de Carella. Trevisan colocava algumas questões e, um dia, ele disse: “Por que você não faz um filme sobre o Vivencial?”. E veio a ideia de fazer o Chão de Estrelas, o Tatuagem.

CONTINENTE Essa é a primeira vez que você dirige um longa de ficção. Como está sendo essa experiência?
HILTON LACERDA Acho que a ansiedade ou a inquietude de se fazer uma coisa, independentemente de ter experiência, e estar bemamparado pela equipe ou não, terminam sendo as mesmas. O que muda mais, principalmente com relação a escrever o roteiro, é que talvez fique angustiante, porque agora sou responsável, não tem mais a possibilidade de botar a culpa nos outros, tipo: não é o roteiro, é a direção! (Risos.) Mas também tem o lado bom da coisa, você assina por aquilo que pensa.

CONTINENTE Costuma aceitar contribuições da equipe, no roteiro?
HILTON LACERDA No roteiro, mais claramente, não. Mas eles leem e opinam. E tem uma coisa: acho que, no processo cinematográfico, você pode ser gênio, fazer tudo sozinho e ter convicção do que quer. Mas gênios são raros e, geralmente, são muito chatos. A discussão fortalece seu ponto de vista, porque as pessoas, às vezes, não estão entendendo o que você quer fazer e, quando elas botam isso em questão, você tem que explicar, deixar claro como é que aquilo vai funcionar.


Foto: Divulgação

CONTINENTE Quando está trabalhando com outros diretores, eles interferem no que foi escrito?
HILTON LACERDA Sim, eles sabem de cara que, às vezes, tem umas ciladas no meio! (Risos.) Quando começo a trabalhar, eu já sei mais ou menos qual é o universo, mas vamos conversar, claro. Uma coisa muito normal, principalmente quando estou como roteirista, é convencer o diretor de que o público pode ser mais inteligente do que ele pensa. Uma coisa que eu acho um grande erro, no filme brasileiro, é a tentativa de explicar todos os passos que são dados. Isso dá uma empobrecida tão grande no filme! É ridículo, é uma falta de compreensão, porque, na verdade, o público quer se sentir inteligente. Cabe a você usar esse mecanismo.

CONTINENTE Você tem o costume de ler roteiros?
HILTON LACERDA Nunca tive uma formação técnica ou acadêmica em relação a roteiro. E, para mim, o que importa é que ele tem que estar tecnicamente viável para a equipe trabalhar. É muito mais um dado de sedução do que um dado prático e frio, sabe? Ler roteiro é interessante mais pelo que instiga de conhecimento. No meu caso, acho mais interessante ver filmes. O que eu mais aconselharia a alguém a ler seriam as coisas de Jean-Claude Carrière, porque ele trata a questão do roteiro de uma maneira que vai além, e é muito mais interessante.

CONTINENTE Acredita que a leitura de roteiros muito clássicos tolhe a criatividade, trazendo o risco de um mero simulacro do estilo do outro?
HILTON LACERDA Isso é uma coisa inerente, você tentar se aproximar daquilo que gosta. O que acho engraçado, por exemplo, e vejo muitas vezes nos autores contemporâneos brasileiros, é uma capacidade absurda de assimilar perfeitamente o cinema que eles admiram. É ótimo, é surpreendente, desde que você não conheça uma cinematografia na qual essas obras se respaldam. Parece que esses realizadores estão dizendo para o mundo: olha, nós também fazemos filmes parecidos com Apichatpong, com os Irmãos Dardene.

CONTINENTE Alguns dos seus roteiros, principalmente os que você trabalha com Cláudio Assis, chocam parte do público. Como enxerga essa receptividade?
HILTON LACERDA Acho que não é com a violência que essas pessoas estão preocupadas. Elas são as mesmas que lotam o cinema, por exemplo, para ver Cidade de Deus, que é um filme bastante violento no sentido prático, o menino leva um tiro na mão. O que eu acho que eles reclamam mais é da nossa falta de pudor. De falar sobre alguns motivos. Baixio das bestas é o mais violento dessa trilogia que fiz com o Cláudio, mas é dentro de uma perspectiva já bastante violenta. Quem olhar a Zona da Mata, e achar que aquilo não é violento, que não é uma falta de vergonha absurda, de certa forma, estará morto. Fazer violência para chocar é muito gratuito, até um tanto besta. Mas, nesses filmes, o que acontece é que você bota em jogo o pudor das pessoas. E elas criminalizam tudo que é relacionado a sexo. E, também, como o homem nu choca? É como se a mulher representasse uma sensualidade, é a mesma coisa que transformar a mulher num objeto de prazer. Então, vamos tratar o homem como objeto de prazer também, por que não?


Cena de Baixio das bestas. Foto: Divulgação

CONTINENTE Um elemento marcante na sua cinematografia é a trilha sonora. A música é uma fonte no processo construtivo da narrativa?
HILTON LACERDA Sim. Acho que a mesma coisa que tiro da literatura posso tirar da música. O que mais me ajuda é descobrir a narrativa, de que forma um cara, num concerto, por exemplo, está construindo a expectativa, como ela é sonorizada. Agora, ouvir música para trabalhar, eu não gosto, atrapalha bastante. Gosto, por exemplo, de estar numa festa, completamente alucinado e pensar: essa música daria uma passagem perfeita. O tipo de barulho, o tipo de levada. Para mim, o desenho de som é a coisa mais importante que existe no cinema, narrativamente.

CONTINENTE Prefere, então, uma certa reclusão para poder criar?
HILTON LACERDA Gosto de reclusão, com proximidade. Acordar cedo para trabalhar, pela falta de interferência que se tem. Mas isso não é porque o mundo me atrapalha, não (risos). Eu, que sou completamente distraído com o mundo, acho o mundo muito divertido. Manuel Bandeira dizia assim: “Entre a janela e a casa, eu preferia a janela”. Já tive a experiência de trabalhar isolado duas vezes. Uma, com roteiro de Estamos juntos, quando fiquei numa praia durante um mês, em São Paulo. Outra, foi escrevendo Árido movie, eu e Lírio ficamos isolados dentro de um motel, na Serra, no Rio de Janeiro. Mas o ruim de quando se está sozinho é que, às vezes, as coisas travam. Então, gosto de isolamento, mas assim: logo ali, na esquina, tem um boteco.

CONTINENTE Enxerga alguma diferença entre escrever para longas ficcionais e para projetos educacionais?
HILTON LACERDA Fiz muita coisa educacional, mas são programas que estão completamente fora do contexto educativo, tradicional, não são nada caretas, porque essa produtora com que trabalho se prende a umas propostas muito interessantes. Então, quando me chamam para formatar ou para dirigir, roteirizar esses programas, eles sabem que estão oferecendo um resultado menos “oficialesco”. Agora, quando vou fazer esse tipo de trabalho, tenho uma estrutura me prendendo, de formato, de conteúdo, mas, dentro dessa prisão, tento ser bastante criativo. Sair do lugar-comum. É um exercício de que gosto muito. É bom quando alguém não lhe dá muita possibilidade, tipo: “Você pode fazer o que quiser, mas aqui dentro”. Ótimo, pelo menos não tenho que ir à feira comprar nada, está tudo aí. 

CONTINENTE Alguns festivais, como o Cine PE, vêm gerando discussões sobre a troca entre o realizador, a produção do festival e o público. Como você vê a situação geral dos festivais brasileiros, hoje?
HILTON LACERDA Tem uma coisa acontecendo... duas coisas acontecendo, na verdade. Uma, que é quase um esgotamento do modelo de festivais que foi posto no Brasil, durante muito tempo. A outra é o aparecimento de novas possibilidades. Acho que, no Recife, temos uma mostra disso, com o Janela de Cinema. Estamos saindo um pouco do formato que havia, em que todo festival no Brasil era a mesma coisa. Até a lógica me deixa chapado, às vezes, como o raciocínio de distribuição de festival acontece. Acho que chegou a hora, e espero que revejam essas políticas. Esses pequenos exemplos de novos festivais trazem isso. Você pega o Janela, e é incrível como um festival conseguiu, em quatro anos, chacoalhar o Brasil, não só Pernambuco. Fora do país, ele é extremamente referenciado. Você tem a figura de um curador, na pessoa de Kleber Mendonça Filho, que consegue trazer um cinema extremamente faminto por coisas novas, que consegue discutir outras cinematografias, e não estabelecer algumas estrelas. 

GABRIELA ALCÂNTARA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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