Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Circenses: Sinônimos de pura vocação

Alakazam e Índia Morena são dois dos raros remanescentes da tradição do circo, em meio aos novos padrões high tech de espetáculos

TEXTO LEIDSON FERRAZ
FOTOS CHICO LUDERMIR

01 de Outubro de 2011

Com seu modesto circo, de poucos funcionários, o mágico Alakazam circula pelo Brasil

Com seu modesto circo, de poucos funcionários, o mágico Alakazam circula pelo Brasil

Foto Chico Ludermir

Dizem que ser artista é não ter medo de assumir a própria vaidade. Afinal, para se enfrentar uma plateia, além de talento, é preciso coragem e fé no próprio potencial. Em Pernambuco, dois símbolos do universo circense tradicional sabem bem como é lidar com elogios dos outros e de si mesmos. Ainda que pobres, financeiramente, são referências de sucesso na carreira que abraçaram: Índia Morena e Mágico Alakazam, vaidosamente do circo.

Margarida Pereira de Alcântara, recifense de 68 anos, adotou o nome artístico indígena. Aos nove, perdeu o pai, pescador, e teve que catar crustáceos para sustentar os quatro irmãos mais novos, já que a mãe era inexperiente no ramo do marido. Não concluiu nem mesmo o primário, mas gostava de cantar o repertório de Vicente Celestino. Quando soube de um concurso de voz em um circo instalado no bairro de Afogados, perto de onde morava, a vila de São Miguel, teimou em participar.

Sem dinheiro para pagar a entrada do Circo Democratas, teve que passar por baixo da lona. De roupa simples e com tamancos nos pés, foi discriminada pelo público que a conhecia por ser pescadora, antes mesmo de entoar Coração materno. “Aquela foi a primeira e única vaia que levei na vida”, recorda. Brigona desde pequena, ela deu uma resposta à altura: “Sou pescadora de crustáceos para que meus irmãos não precisem pedir uma colher de açúcar a vocês”. Aplausos foram a resposta.

Não venceu o concurso, mas ganhou ingressos para a família. “Mesmo assim, ainda não tinha encontrado meu mundo ali”, diz. Em maio do outro ano, o Circo Itaquatiara Real instalou-se na sua rua. Graças a um macaco fujão, aproximou-se da dona do circo, Maria Borges Tenório, que acabou sendo sua madrinha de crisma e a iniciou no contorcionismo. Decidiu, então, seguir com ela, mas ouviu da mãe: “Se for feliz ou infeliz, agradeça a você”. E foi assim, aos 10 anos, que ela abraçou o circo.


Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2006, Índia Morena sempre se preocupou com a aparência

Inspirada pela contorcionista e atriz de dramas circenses, Linda Moreno, batizou-se Índia Morena e virou também rumbeira pela boa voz e rebolado. “Em tudo, eu era a melhor”, afirma, sem falsa modéstia. Além de circular pelo Brasil, foi à Colômbia, Argentina e ao Paraguai. “Minha madrinha sempre mandava dinheiro para minha mãe. Depois de um ano e nove meses, não aguentei de saudade e voltei para casa.” A família já morava na Mustardinha, bairro da zona norte do Recife. Seu retorno não foi nada fácil, ela bem lembra.

A garota de cabelos longos e de franja, com descendência das tribos fulniô e caiçara, queria sobreviver do circo, mas tinha dificuldades até para conseguir alguém que a levasse ao trabalho. “Mesmo assim, nunca pensei em desistir. Corro atrás e faço.” Sua sorte mudou, quando conheceu o palhaço Gameloso, “o pai que eu não tinha, porque me tratava melhor do que aos próprios filhos”. No circo dele, Índia Morena foi ficando cada vez mais afamada, ao ponto de vender fotografias para os fãs.

“Desde pequena, fui chamada de índia pela coragem, mas sempre usei roupas de moral”, ressalva a ex-rumbeira. Aos 17 anos, casou-se com aquele que, segundo ela, “era conhecido como o melhor trapezista do Norte”, Francisco Paulino da Silva, vulgo Neném. Contracenando com ele durante a década em que viveram juntos, o casal tornou-se popular, mas as brigas eram constantes. “Ele entregou-se à bebida, depois que perdi um filho de oito meses. Até me acusava de traição, para poder me bater. Era um sofrimento”, recorda.

Finalmente separada, a tuberculose a levou para o hospital em 1972. Lá, conheceu Maviael Ribeiro de Barros, mais jovem que ela quatro anos. Também doente, a situação dele era pior, mas a fé que Índia diz ter em Jesus e em Nossa Senhora curou os dois. “Ele era cobrador de ônibus e o levei para minha casa. Pai de dois filhos meus, desde então estamos juntos.” A doença não destruiu o belo corpo que ela ainda mantém. “Sempre gastei muito com maquiagem, colares e brincos. Toda semana eu comprava um tecido para minha mãe costurar para mim.”

Maviael, de cavador de buraco de circo, passou a ser porteiro e secretário. Morando no bairro da Muribeca dos Guararapes, os dois trabalhavam juntos, em 1976, quando o Gran Londres Circo foi parar nas mãos de Índia Morena. “O antigo dono, insatisfeito com a vida circense, e por conta de dívidas, deu ele para mim”. Desde 1993, o casal luta à frente da Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacep), entidade que dá suporte à produção de projetos de incentivo. “A grande maioria não merece, mas minha missão é cuidar desse povo, mesmo que muitos nem queiram colaborar com a associação.”

Com parte da classe artística, Índia mantém uma relação de sair faísca. Sem medo dos desafetos, ela acusa circos de não existirem, reclama da falta de espaços nas cidades para a armação de lonas, e destila críticas até mesmo às escolas de formação, “criando artistas que não têm onde trabalhar”. Em meio aos rompantes de raiva, lembra que ainda é uma sentimental. “Não tem um dia que eu não chore e não reze, porque tenho certeza que não sou má, no entanto, continuo sendo criticada.” Mesmo não sendo um consenso, possui o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, desde 2006.

Sobre sonhos, ela afirma: “Como escrevo bastante e tenho muitos títulos e troféus, penso em construir um museu sobre a minha trajetória”. No palco, ainda é cantora e apresentadora. “Mesmo com essa idade, continuo entrando em cena bem-vestida, maquiada, me expressando bem. Com o público, sou feliz. Agora, na minha vida sentimental, física e moral, não sou. Nunca tive amor de fato, só discórdia e sofrimento”, afirma.

ALAKAZAM
Com temperamento bem diferente da Índia Morena, o Mágico Alakazam não tem fama de brigão, muito menos de vaidoso, mas não esconde que vibra quando dizem, ainda hoje, que o circo dele é o melhor que já passou pelos mais recônditos lugares do Brasil. Wilson Ribeiro da Silva, 67 anos, nasceu em Surubim, mas só foi registrado no município baiano de Entre Rios, aos 17. Nessa época, já tinha fama entre os circos tradicionais do Brasil, arte que descobriu aos 10 anos de idade.


O mágico maneja com habilidade o ilusionismo com bola

Filho de moça humilde, ele prefere não lembrar o pai, um ricaço dono de terras, que, segundo ele, “fez da sua mãe uma vítima”. Preocupada com a educação do filho, ela o mandava para a casa de uma madrinha, para estudar em Bom Jardim. Foi lá que Wilson conheceu o picadeiro. “Era um circo fraquinho, mas quando entrei, fui logo pensando: vou ser dono de um desses.” Ainda naquele Circo Spano Mágico, foi convidado a integrar um número de palhaçadas. “Como eu era magrinho, fui apelidado de Vara de Virar Tripa.”

Assim como Índia, Wilson não concluiu o primário, e ficava o tempo que podia no circo, até que os artistas partiram. Num dos finais de semana, em Surubim, foi ajudar um vizinho na feira de Frei Miguelinho e reencontrou o palhaço e a contorcionista do Spano Mágico, que pretendiam seguir para o Recife. “Menino esperto, tu quer ir mais eu?”, foi a pergunta feita. O garoto não teve dúvidas, passou em casa, pegou algumas “mudas de roupa” e fugiu, sem avisar a ninguém. “Era um povo irresponsável aquele, mas graças aos dois estou no circo até hoje.”

A convivência com o casal durou poucos dias. “No bairro do Alto de Santa Isabel, ele quis me ensinar a enganar comerciantes na feira e vi que não poderia continuar naquelas companhias. Daí, como sempre fui independente, quando eles foram fazer cachê em um circo que havia no Morro da Conceição, pedi ao dono para trabalhar ali e aprender contorcionismo”. O responsável pelo Circo Duas Américas era Roberto Hugo Monteiro, o conhecido Palhaço Cotolino. “Comecei carregando água, mas, com um ano dos ensinamentos de Cotolino, já entrei em cena dando nó em pingo d’água”, comenta.

Naquele circo, passou oito anos, mas, ainda em 1960, no primeiro ano de inauguração da televisão no Recife, foi convidado a integrar o elenco dos programas Cirquinho Fratelli Vita, na TV Rádio Clube de Pernambuco, e Vamos ao Circo, na TV Jornal do Commercio. Era conhecido como o Menino Elástico. “Nos estúdios, aprendi com as estrelas da época – como o Palhaço Carequinha, a dupla Treme Treme e Currupita, o Príncipe Nabor – que o artista precisa ter mise-en-scène, vestir-se bem, aparecer bonito”. Com pinta de galã, Wilson caprichava nos figurinos, usava perucas diversas e se maquiava. “Fui um verdadeiro Chico Anysio na vida de circo, sempre me transformando.”


Alakazam encantava o público com sua cara de árabe, turbante e olhar penetrante.
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Do contorcionismo para o trapézio, foi um pulo. “Executava números no cilindro japonês, giro gigante, escada giratória. Nunca fui bom em nada, mas tive a sorte do povo aceitar o que eu fazia”. Em 1964, em plena apresentação na cidade de Paulo Afonso, na Bahia, o público o viu despencar. “Parti o fígado, quebrei costela, clavícula, perna. Nos três meses de hospital, o médico me disse que, se eu quisesse continuar em circo, tinha que ser apresentador ou fazer mágica.” Depois de passar por cursos por correspondência e aulas com o elogiado Mágico das Chaves, sua estreia aconteceu na cidade baiana de Xorroxó. “Nunca me senti um grande profissional, mas tenho carisma para a coisa, além de habilidade nas mãos.”

Em 1967, descobriu o nome Alakazam, lendo uma revista em quadrinhos. “Fui, então, me registrar na Polícia Federal, em Sergipe, e, a partir daí, o mundo se abriu para mim.” De fato, todos quiseram ver aquele mágico com cara de árabe, olhos penetrantes e turbante na cabeça. “Ganhei destaque, mesmo porque adaptava os números à minha maneira, e sempre apostei em cenas mais macabras, sinistras. A ideia de enterrar-me vivo dentro de um caixão deu tão certo, que quando passaram a me copiar, comecei a levar 18 cobras comigo. Isso ninguém fez”, sorri, envaidecido.

Em meio ao sucesso, inclusive com livros e discos lançados, problemas não faltaram. Já foi baleado nove vezes, fruto de rixas com policiais e invasores de propriedades, além de ter sido acusado de aliciamento de menores, e preso por 27 dias, quando aceitou uma adolescente em um número de strip-tease no seu circo, em 1996. Mas o Circo Mágico Alakazam também lhe deu momentos grandiosos. “Tive leões, pumas, elefante, chimpanzé e 74 funcionários, mas os acidentes com os animais e as indenizações trabalhistas quase me acabaram.” Hoje, são poucos os artistas que o acompanham como aprendizes, além de alguns convidados.

Mesmo assim, não para de circular pelo país e, até hoje, não possui residência fixa. “Vivo de cidade em cidade e, enquanto a praça é boa, a gente vai ficando.” Para ele, circo é sinônimo de vocação. “Tanto que costumo dizer que, no meu enterro, quero que o caixão saia do circo, já que abracei essa arte com a alma e o coração.”

De fato, tanto o Mágico Alakazam quanto Índia Morena são dois artistas que não precisam ter modéstia quando falam de suas carreiras, afinal, Pernambuco pode orgulhar-se de ter esses dois personagens marcantes na história do tradicional circo brasileiro. 

LEIDSON FERRAZ, ator, jornalista e pesquisador teatral. 
CHICO LUDERMIR, fotógrafo, estagiário da Continente.

Publicidade

veja também

Hollywood não acredita em lágrimas

O universo plural de Vilém Flusser

Rússia, nome masculino; Recife, palavra feminina