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A Vênus de Willendorf

TEXTO José Cláudio

01 de Junho de 2011

Pedra calcárea, 11,1 cm de altura, 22 mil a.C., desenterrada pelo arqueólogo Josef Szombathy, Willendorf, Áustria, 1908

Pedra calcárea, 11,1 cm de altura, 22 mil a.C., desenterrada pelo arqueólogo Josef Szombathy, Willendorf, Áustria, 1908

Foto Divulgação

Não devemos ser imediatistas com a pintura que praticamos. Não se trata da oposição regional/universal, velho/novo, presente/passado nem do maior, menor ou nenhum valor em dinheiro que o artista obtenha pelo seu trabalho, por mais crucial que esse dado lhe signifique no orçamento para a sobrevivência física atual. O futuro, sim, em parte, porque devemos ter noção do que subsistirá quando o que houver de superficial nos movimentos que dominam o cenário da arte hoje em dia no lugar em que vivemos tiver se evaporado, e em parte porque não se pode adivinhar tudo, até a sobrevivência do que entendemos por arte. Não importa nome de “arte moderna”, como foi ontem, “pós- moderna”, “contemporânea” ou outro que se imponha na mídia. “A Arte é sempre jovem”, já dizia Vargas Vila.

O que interessa é se o quadro continuará a existir na serenidade do tempo perene como a Vênus de Willendorf, longe de todas essas disputas infantis, o olhar compreensivo que se adivinha a partir do rosto inexistente, o sorriso sem boca ante as nossas criancices, a nos falar do seu longínquo vigésimo quarto milênio.

Tratemos de ser sincero, de pintar o que vem do fundo de nossa memória, como se fosse a última oportunidade, como se nossa civilização tivesse desaparecido e sobrado apenas esse nosso testemunho, a imagem que estamos produzindo na tela, no barro, seja onde for. A contribuição dos grandes pintores de todos os tempos, seja próximos geograficamente seja distantes, servirá para nosso aprimoramento, para nos tornar mais destro, para descobrir em nós outros eus, desbloqueá-los, e a isso devemos nos entregar com todo desprendimento. Mas é imprescindível chegar um dia a nós próprio, não por vaidade mas por nitidez, sem nos perdermos de vista durante a difícil caminhada. É bom, um belo dia, depois do escuro, nos perguntarmos isto: para que era mesmo que eu queria aprender a pintar?

Para ficar rico? Para agradar críticos, curadores? Ficar famoso? Ou algo mais pessoal: superar nossa insignificância, alguma desvantagem que a natureza acaso nos tenha impingido, alguma incapacidade física ou psíquica, inferioridade social? Tudo isso um dia será ultrapassado quando chegar a hora da verdade. E ao mesmo tempo tudo serve, até os equívocos mais absurdos. Me lembro que Abelardo da Hora queria ser mecânico e o irmão Luciano, artista. Quando chegaram na escola profissional o professor de mecânica olhou para Abelardo e disse: “Não tá vendo que esse magrelo não tem força para apertar um parafuso!” Trocou: botou Abelardo para estudar arte e Luciano para mecânica. Resultados ótimos. Abelardo é o grande escultor que nós conhecemos e Luciano chegou até a montar estaleiro para fabricar navio.

Um dia você terá noção exata do valor do que faz. Do que depende dos outros e do que depende de si. Sem dramas, sem rancores, sem precisar que ninguém lhe diga pagando bem com a moeda de César. Você estará tranquilo a seu respeito e a respeito de sua arte que serão a mesma coisa inclusive quanto ao lugar de morrer. Chegar ao lugar de morrer tem a maior importância, não somente o lugar cidade mas o lugar estético. E não é que você fique estático: pelo contrário, alcançará o máximo de dinamismo, lamentando as horas necessariamente perdidas com o sono. Ócio, nem pensar. Quando vemos falar em turismo, o coração se nos confrange. Seria como nos meter na prisão. Nem sempre se leva em conta, na vida de Cristo, esse fato de, como homem, fora as profecias, já saber como deveria morrer. O homem é capaz de saber como vai morrer, independentemente de ser morte matada ou morrida, desde que o indivíduo tenha tempo de chegar à ideia e amadurecê-la, mesmo que não se preocupe com isso obsessivamente. O imperador romano Marco Aurélio diz que o homem que, aos 40 anos, não souber do seu futuro, é imbecil. Quem está interessado ou não no que você está pintando não conta a longo prazo. Faça. Mesmo que você achar que não saiu nada brilhante, faça. Você aprenderá por si. Tem hora que ninguém acode. Perca a fé em tudo menos em si próprio. Passe necessidade, passe humilhação mas siga. Tudo o que é sincero aquece-nos a alma mesmo que nos crucifiquem, dia que não foi vivido em vão.

Essa arte essencial, que amanhã dará notícia de nosso tempo, pode nem ser o que de melhor se produza neste lugar hoje chamado Brasil. Quem sabe quantas Vênus de Willendorf não se teriam perdido e se, apesar de maravilhosamente bela, não seria uma entre mil? Qualquer que seja tua contribuição, será de uma importância infinita, a gota d’água que faz o mar, o azul do mar. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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