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29ª Bienal de São Paulo agora em versão pocket

Projeto de levar para 13 cidades brasileiras trechos da exposição do ano passado na capital paulista chega ao Recife, através de mostras em três espaços

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Junho de 2011

Na obra/museu, a peruana Sandra Gamarra Heshiki exibe cópias idênticas da obra de Gerard Ritcher sobre o grupo Baader-Meinhof

Na obra/museu, a peruana Sandra Gamarra Heshiki exibe cópias idênticas da obra de Gerard Ritcher sobre o grupo Baader-Meinhof

Foto Divulgação

Em 2008, a crise rondava a 28ª Bienal de São Paulo, que seria marcada pela opção curatorial de manter um andar inteiro completamente vazio. Ela apontou uma tensão profunda na Fundação Bienal de São Paulo. Foi na esteira desse processo que Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias assumiram a curadoria da edição de 2010. Coube aos dois recuperar a imagem desgastada da mostra anterior e avançar na reflexão sobre o papel da Bienal num país continental como o Brasil.

Entre as mudanças positivas, está o projeto que prevê a itinerância da exposição, numa forma de dar ao Ministério da Cultura uma contrapartida aos seus altos investimentos. A Fundação procurou instituições em várias cidades e formulou parcerias para levar pequenas amostras do que foi a exibição, que contou com 850 obras, de 159 artistas, realizada entre 25 de setembro e 12 de dezembro do ano passado, em São Paulo.

Desde o início deste ano, 13 cidades brasileiras (Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Juiz de Fora, Santos, Araraquara, Ribeirão Preto, Porto Alegre, Campinas, Brasília, São José dos Campos e Recife) estão recebendo pequenos conjuntos de obras, que refletem o universo original criado no Pavilhão do Ibirapuera, dentro da proposta de mostrar as relações entre a arte e a política em seu sentido mais amplo. “Cada uma das cidades está recebendo um recorte completamente diferente, ainda que algumas obras se sobreponham”, explica Moacir dos Anjos.

O Recife receberá obras em três espaços distintos: Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), Museu do Estado de Pernambuco (Mepe) e Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), com inaugurações agendadas para os dias 29 e 30 de junho, e 1º de julho, respectivamente. No último dia das aberturas, haverá ainda uma conversa com os dois curadores. Segundo Moacir, diferentemente de outras cidades, a mostra que vem ao Recife teve que ser dividida em três blocos, já que não havia espaço suficientemente grande na cidade para receber a exposição. No total, são 134 obras de 24 artistas, que poderão ser vistas até o dia 21 de agosto.


The ballad of sexual dependency, de Nan Golding, é um álbum de família, com fotos de 1979 a 2004, apresentadas em slide show. Foto: Divulgação

CIRCUITO
O recorte que vai ocupar o Mamam é voltado para as questões da afetividade. O térreo do museu receberá os trabalhos de Leonilson, que evocam um certo discurso amoroso, em diálogo com pequenas esculturas de corpos masculinos desnudos, em madeira, em que o artista Efrain Almeida se autorretrata, num tom extremamente confessional. Do pernambucano Gil Vicente, vem a série Suíte safada, cujos primeiros estudos foram exibidos no começo dos anos 2000, no Recife. “O cerne da exposição, excetuando algumas obras pontuais, é a afetividade, a sexualidade. É uma discussão sobre formas de relacionamento, essas questões circulam pelas obras”, detalha Moacir dos Anjos. Entre os trabalhos, está ainda o slide show de 40 minutos com fotografias de Nan Golding. A obra é uma espécie de álbum de família junkie, com fotos de 1979 a 2004, sincronizadas com músicas do período. De acordo com o curador, esse foi um dos trabalhos que mais geraram empatia com o público jovem durante a exibição paulistana.

A Fundaj, por sua vez, se tornará um espaço tomado pela “marginalidade”. Hélio Oiticica será representado pelo seu Seja marginal, seja herói, uma “homenagem” ao bandido Mineirinho, ao lado do Lima Museun of Art, obra/museu da artista peruana Sandra Gamarra Heshiki, na qual ela reproduz e expõe aquilo que quer. A pedido da organização da Bienal, o Limac traz para a mostra cópias idênticas da obra de Gerard Ritcher sobre o grupo terrorista alemão Baader-Meinhof, que o MoMa não quis emprestar para a mostra. Ao lado das apropriações feitas pelos artistas, estão a foto do bandido Mineirinho morto e o catálogo produzido pelo museu novaiorquino com as obras de Ritcher. Unindo esses elementos, os curadores brincam com a questão da cópia e do original, do bandido e do herói, do central e do marginal.

A proposta do recorte do Mepe é discutir o dito e o não dito, o visível e o invisível. Nele, estarão expostas as colagens do pernambucano Marcelo Silveira e a apropriação dos cartazes do método pedagógico de Paulo Freire, feita pelo alagoano radicado no Recife, Jonathas Andrade, inéditas na cidade. Gustav Metzger apresenta fotografias de eventos catastróficos do século 20, exibidas atrás de paredes falsas, de panos, de dispositivos que interceptam a visão. O espectador é obrigado a se colocar em posições desconfortáveis para conseguir enxergar algo, cortinando e descortinado as imagens.

Moacir dos Anjos destaca a obra de Antonio Vega Macotela, que discute sobre o tempo. O artista visitou uma prisão na Cidade do México e propôs intercâmbios com os detentos. Ele passaria algumas horas fazendo coisas para os presidiários fora da prisão, enquanto eles fariam algo para o artista atrás das grades. Dessas 365 trocas, surgem resultados como um exemplar furado do Conde de Monte Cristo devido ao gesto repetitivo de um preso, que tinha TOC.

O projeto educativo da Fundação Bienal de São Paulo, que se tornou um departamento permanente, vai promover atividades nas três exposições do Recife. Uma visita virtual da exposição original também estará disponível aos visitantes. Contudo, para Moacir dos Anjos, as mostras em tamanho reduzido podem facilitar a apreensão da proposta. “Eu acho que, paradoxalmente, por ela ser menor, permite uma apreensão melhor do que foi e do que tentou ser a Bienal, da forma como se quis trabalhar a relação da arte com a política”, diz. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da revista Continente.

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