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O tesouro escondido de uma eterna majestade

Cantor Geraldo Maia lança oitavo disco da carreira, 'Ladrão de purezas', que resgata obra do compositor Manezinho Araújo, o Rei da Embolada

TEXTO Débora Nascimento

01 de Março de 2011

Geraldo Maia, Vinícius Sarmento e Lucas dos Prazeres assinam a produção musical do CD

Geraldo Maia, Vinícius Sarmento e Lucas dos Prazeres assinam a produção musical do CD

Foto Divulgação

Em setembro de 1973, um dos convidados especiais do Ensaio, da TV Cultura, foi Manezinho Araújo. O artista somente aceitou participar do programa por causa do insistente convite do diretor Fernando Faro, um dos maiores entusiastas da música popular brasileira e de suas figuras legendárias. Naquela época, aos 63 anos, Manezinho já havia se desencantado com a música, ou melhor, com o meio musical. Dentre os seus (poucos) lamentos estava também o fato de ser ignorado em sua terra natal: “Eu tenho muito amor por Pernambuco. Apesar de que tenho uma mágoa muito grande, porque eu, hoje em dia, talvez pra minha sorte, minha felicidade, sou muito benquisto, muito mais benquisto em São Paulo do que na minha própria terra”. Quase 40 anos depois desse depoimento e 18 após a morte de Manuel Pereira Araújo, o cantor pernambucano Geraldo Maia vai ao mesmo televisivo para interpretar as músicas de Ladrão de purezas, CD que cumpre a missão de refazer as pazes póstumas entre a obra do Rei da Embolada e o seu berço.

Lançado de forma independente (apenas com a renda arrecadada junto a 58 pessoas, que compraram antecipadamente, cada uma, cinco cópias do CD), o disco foi a forma escolhida por Geraldo para celebrar o centenário de nascimento do compositor, ocorrido em 27 de setembro de 2010, e que acabou por promover um rico apanhado de algumas das melhores composições de Manezinho Araújo, atestando a diversidade de estilos pela qual transitou o autor, ultrapassando os limites do gênero musical que lhe deu fama. “Minha escolha do repertório foi pelo lado mais intuitivo, pessoal, da emoção mesmo, daquilo que, em Manezinho, me soa mais íntimo, familiar. Mas confesso: não tive a menor dificuldade quanto a isso; difícil foi decidir quais as que ficariam de fora, pois tenho uma profunda identificação com o seu trabalho. Só deixei de fora as emboladas. Propositadamente. Isso porque eu fiquei mais interessado em mostrar as outras facetas menos exploradas da obra dele”, afirma Geraldo, sobre o processo de seleção das 12 faixas.

Para realizar o oitavo título de sua carreira de mais de 20 anos, Geraldo Maia optou por fazer um registro bem próximo da atmosfera dos álbuns ao vivo, registrando todo o material instrumental e os vocais ao mesmo tempo. Gravado em apenas dois dias, no Estúdio Carranca, o trabalho apresenta um acompanhamento musical minimalista, com a voz do intérprete contornada por dois excelentes músicos da nova geração, o percussionista Lucas dos Prazeres e o violonista Vinícius Sarmento.

O trio assina os arranjos e a produção musical do álbum, que dá espaço à graça brejeira das criações de Manezinho. “Desde o início da pesquisa, não tive dúvida: queria fazer esse disco com essa formação bem básica, orgânica, sem truques, evitando, ao máximo, os artifícios tão comuns hoje em estúdio (loops, overdubs etc.) e que estiveram presentes, por exemplo, no CD Peso leve (2008), que é meu primeiro disco autoral. Mas nada contra tecnologias e tal”, afirma Geraldo, que revelou ter usado só um pouquinho de overdubs em Ladrão de purezas, que será lançado no dia 30 de março, na loja Passa Disco, no Parnamirim.

O disco abre com a suingada Vatapá, uma ode, no estilo de Dorival Caymmi, ao prato que era um dos hits do cardápio do Cabeça Chata, restaurante gerido por Manezinho, no Leme, no Rio de Janeiro, e, posteriormente, na rua Augusta, em São Paulo. A partir dessa primeira faixa, o CD se alterna em dois climas: um, mais melodioso e lírico, como nas faixas Adeus, Pernambuco (em parceria com Hervê Cordovil), Beata Mocinha, Novo amanhecer e Nana roxa; e, outro, mais divertido e empolgante, com Juntou a fome, Mulher rendêra (versão da música de domínio público) e os sambas Seu Dureza da Rocha Pedreira (que se assemelha às letras irônicas de Noel Rosa, um de seus “cupinchas” no Rio), Quando a rima me fartá, Seu Mané é um homem e Jogado fora (em parceria com Aldacir Louro e Dadivid Raw), que encerram o disco em alto astral.

Nessas músicas se destacam as letras bem-humoradas e cheias de achados poéticos, como “Sacou um dia um conto/ só pra fazer farol/ O Cabral ficou foi tonto/ Quando viu a luz do sol”, de Seu Dureza da Rocha Pedreira. “Penso que o bom, o melhor de Manezinho, está exatamente na simplicidade, na forma direta como ele diz as coisas, sua pureza inata. Mas tudo com muito charme, com um incrível senso rítmico, uma perspicácia ímpar, uma sutileza no humor. Tudo nele é de muita delicadeza, apesar de, às vezes, parecer exatamente o contrário”, analisa o intérprete.

O esmero de Geraldo Maia em apresentar às novas gerações o trabalho de Manezinho Araújo como exímio compositor popular ainda teve o mérito de também recuperar o talento do compositor como artista plástico. A capa e o encarte do disco são ilustrados com imagens (reproduzidas de catálogos) de belíssimas telas do compositor, em estilo naïf, sobre as quais há uma afetuosa declaração do escritor Jorge Amado: “Toda a vida brasileira está fixada nesses quadros tão nossos, trabalhados com tanto amor. Sim, eis a arte feita com amor, amor de um homem bom, cujo talento e cujo ofício foram colocados a serviço do maior conhecimento da paisagem física e humana de nossa terra, talento e ofício exercidos na paixão do Brasil”.

Para uma exposição que realizou em 1987, Manezinho escreveu: “Um dia, minha mulher querida colocou pincéis em minhas mãos. Pincéis que explodiram num ingênuo festival de cores vivas. Exultaram as crianças traquinas que carrego no peito. E, com elas, fui pintando nas telas as cantigas do meu povo, guardadas, amorosamente, na garganta”. 

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