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Tatuagem: Uma marca indelével na história do corpo

Frente à massificação, tatuadores buscam aprofundamento artístico para se diferenciarem com estilo pessoal no mercado que venceu o preconceito e que hoje conta com diversos estúdios modernos

TEXTO Julio Cavani

01 de Novembro de 2010

Foto Markus Cuff/Corbis/Corbis(DC)/Latinstock

"Vamos encontrar nos homicidas o maior número de tatuados”, escreveu em 1912, na sua tese de doutorado, o médico pernambucano Angelo Rodrigues da Cruz Ribeiro, que fez um levantamento da presença da tatuagem em duas prisões de Pernambuco no começo do século 20. Além dos presidiários, ele também identificou figuras desenhadas nos corpos de ciganas cartomantes e homens, principalmente marinheiros estrangeiros, que localizou em ambientes como as ladeiras de Olinda e a Praça Maciel Pinheiro, no Centro do Recife. Na antiga Penitenciária Estadual, 33% dos presos carregavam desenhos indeléveis na pele. Outros pesquisadores nordestinos, como Gilberto Freyre e Luís da Câmara Cascudo, também mencionam o tema em seus livros.

Assim como na maior parte do mundo, a história da tatuagem em Pernambuco tem três momentos distintos. O primeiro é praticamente pré-histórico, relativo especificamente aos índios caetés e tabajaras, cuja cultura foi exterminada pelos colonizadores europeus. A segunda fase, descrita por Angelo Ribeiro, envolve os marinheiros, as prostitutas, os ciganos e os submundos portuários e penitenciários. O terceiro momento, mais profissional, inicia-se na década de 1980 (uma distância temporal de mais de 50 anos em relação aos Estados Unidos e à Europa), com os primeiros estúdios modernos, agora consolidados e multiplicados.


No início, a tatuagem era comum apenas entre marinheiros, prostitutas, ciganos e presidiários. Foto: Bettmann/Corbis/Corbis(DC)/Latinstock

“Hoje em dia é possível se tatuar até em salões de beleza, mas a tatuagem é essencialmente uma arte de rua”, observa Valdélio, um dos inauguradores da tatuagem profissional do Recife, que abriu seu primeiro estúdio nos anos 1980, em Boa Viagem, na academia Arte Viva, onde também eram realizados shows de rock e outras atividades culturais. “Meus clientes não eram só os roqueiros. Tinha gente de todo tipo, como advogados e dentistas. Quando comecei, o Recife tinha apenas três tatuadores.” Os outros dois eram Reinaldo Saruê, de Olinda, e Caveira, considerado o pioneiro, que trabalhava no Centro.

O DJ Justino Passos trabalhou ao lado de Caveira (falecido na década de 1990) na loja de discos Mausoléu, em que funcionava o estúdio do tatuador, na Rua 7 de Setembro, entre 1984 e 1986. “A primeira máquina de tatuagem que vi foi a dele. Era a única que existia aqui no Recife. Antes, a galera se tatuava com linhas, agulhas comuns e nanquim”, recorda. “Foi um dos primeiros lugaresunderground do Recife. Siba, Fred 04, Renato L e Rogerman estavam entre os pirralhos que viviam por lá.” Os clientes que se tatuavam, de acordo com Justino, eram basicamente ligados ao rock, principalmente punks e headbangers (metaleiros).

TRAQUINAGEM
Valdélio passou a infância e a adolescência em Garanhuns, onde teve os primeiros contatos com a tatuagem por meio de uma revista chamada Pop, de cultura jovem, na década de 1970. Empolgados com as fotografias publicadas, ele e os amigos começaram a se tatuar por conta própria, com nanquim e agulhas de costura, até serem expulsos do colégio onde estudavam. Como relíquias, restos daquela traquinagem continuam em seu braço até hoje, mas já foram corrigidos e retocados. Anos depois, o artista desenvolveu suas técnicas na Bahia e no Rio de Janeiro, onde a tatuagem já era moda na praia de Ipanema. “Aprendi a tatuar de verdade em Salvador, com um jogador de basquete chamado Binga. Era uma coisa de submundo. Para trabalhar na área, você tinha que ser aceito por outro tatuador.”


Apesar de ter avançado, o processo continua bem parecido com o da década de 1950. Imagem: Reprodução

A tatuagem no Brasil formava uma rede de pessoas conhecidas, conta Valdélio. “No começo, usávamos bambus e agulhas de costura número 12. Hoje, existe toda uma indústria de equipamentos, mas naquele tempo construíamos nossas próprias máquinas, apesar de elas terem sido inventadas há quase um século, no exterior.” Para ele, a venda de kits pelo correio foi a responsável pela proliferação sem controle de tatuadores no país.

“Que eu saiba, nunca existiram tatuadores no Porto do Recife”, acredita Valdélio. As tatuagens descritas pelo doutor Angelo Ribeiro no começo do século 20, portanto, teriam chegado pelos navios ou eram feitas no Recife de maneira obscura. Como sugere o jornalista Toni Marques, no livro O Brasil tatuado, a técnica chegava com os marinheiros e, nos prostíbulos, seus desenhos corporais fascinavam as prostitutas e estimulavam também os outros fregueses. Quando os marujos se metiam em confusões e eram presos, os colegas de cadeia também se influenciavam e repassavam a ideia para os outros. No Rio de Janeiro, contudo, já existiam esses trabalhadores especializados, alguns menores de idade, como constatou o cronista João do Rio, na reportagem Os tatuadores, de 1908, que pode ser lida na coletânea A alma encantadora das ruas

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