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Romero Cavalcanti

Um inventor de minúcias

TEXTO Bráulio Tavares

01 de Outubro de 2010

A ilustração integra o conjunto criado para as antologias de contos fantásticos da editora Casa da Palavra

A ilustração integra o conjunto criado para as antologias de contos fantásticos da editora Casa da Palavra

Imagem Reprodução

Imagine-se um homem capaz de tocar violão, bombardino, harpa, sanfona, pistom, clavicórdio e oboé. Para ele, tocar Carinhoso ou Hey Jude em cada um desses instrumentos é uma experiência única. As notas são as mesmas na partitura, mas o resultado sonoro e o modo de produzi-las são únicos e inimitáveis. Com as artes gráficas e plásticas se dá algo parecido, como mostra a obra de Romero Cavalcanti, com quem já dividi vários trabalhos, e cuja obra acompanho há 30 anos.


Desenho a guache feito em 1986 para um dos espetáculos de maior
sucesso no Brasil,
O mistério de Irma Vap. Imagem: Reprodução

Romero tem no desenho a bico de pena um traço preciso e inesgotavelmente inventor de minúcias. Traço de cartunista aplicado a outros tipos de representação. Pintura e desenho são técnicas aditivas, em que o artista coloca algo que não estava lá; e existem as técnicas subtrativas, como a escultura ou recorte, em que ele desbasta uma matriz com estilete até deixá-la só demoradamente reconhecível. Atletas, políticos, garotas da Playboy, têm suas imagens impecáveis descascadas de fora para dentro ou de dentro para fora, ficando reduzidas a formas alheias ao corpo humano. Uma caricatura ao contrário, que faz a crítica ou a sátira através da deformação dos traços. Esse processo não comenta a pessoa real, apenas fornece uma imagem para que o artista crie uma ficção plástica. Tirando o excesso e deixando a essência.


Cartaz para teatro de 1980. Desenho original a bico de
pena e aerografia. Imagem: Reprodução

Nascido em Itabaiana (PB), Romero formou-se em técnico de construção de estradas pela Escola Técnica Federal de Pernambuco (1969), antes de transferir-se para o Rio de Janeiro, onde passou pelo cargo de diretor de arte na McCann-Erickson (1972), e tornou-se ilustrador da Revista de Domingo, do Jornal do Brasil. Foi durante os anos 1970-1980 que ele começou a criar capas para livros e discos, bem como cartazes para peças teatrais.


Pintura a guache e aerografia, de 1978, utilizada para cartaz, programa
e livro do espetáculo
Ópera do Malandro. Imagem: Reprodução

Uma capa ou um cartaz é o rosto da obra que está ilustrando. É a primeira imagem que muitas pessoas terão dela. Uma imagem capaz de atrair a atenção num primeiro olhar, de ficar marcada na memória, e de ser uma síntese ou ideograma da obra. A boa capa ou o bom cartaz são trabalhos em que o autor da obra original vê uma extensão natural do que criou.


Ilustrações para livro criadas a partir de gravuras vitorianas
digitalizadas. Imagem: Reprodução


Imagem: Reprodução

Além dessa vocação camaleônica para mudar de técnica, Romero Cavalcanti também sabe se deixar impregnar pelo espírito da obra. Basta ver a perfeita adequação da técnica mista (guache, aerógrafo etc.) do cartaz da Ópera do malandro, em que o dinheiro (ele próprio um tipo de gravura anônima, estatal) serve de suporte para que a imagem do presidente-ditador seja invadida e assimilada pelo malandro. A iconografia (texturas, tonalidades de cor) remete não apenas à Era Vargas e à Lapa, mas ao teatro musical brasileiro.


Recorte de papel impresso. Uma das obras mostradas na exposição
As formas do desejo. Imagem: Reprodução

O mesmo se dá com as colagens para as antologias fantásticas da Casa da Palavra. Muitas delas foram criadas à revelia dos próprios contos. São investigações pessoais do artista no universo proposto. Ilustrar algo é menos importante do que perceber e aplicar o mecanismo inconsciente de criação sugerido por aqueles textos. O resultado remete às experiências de Max Ernst (Une semaine de bonté, 1934), ou às colagens surrealistas de Jorge de Lima (A pintura em pânico, 1943), que já utilizam elementos da fotografia. As ilustrações de Romero têm independência suficiente para se desprender dos livros: viraram obras autônomas, ou, como diz o artista com bom humor, “estão subindo pelas paredes”.


Ilustrações feitas com recorte de papel para o livro de Moraes Moreira.
Imagem: Reprodução


Imagem: Reprodução

A descoberta de uma nova técnica ou de um novo filão criativo impele Romero a uma produção torrencial durante meses, quando ele esgota todas as variações permitidas por uma ideia. Como uma música que precisa se expandir, não importa o instrumento que irá lhe dar passagem. 

BRAÚLIO TAVARES, escritor, compositor, teatrólogo, colunista do jornal Diário da Paraíba.

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