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Resenha

Um disco de celebração ao sagrado

Alessandra Leão abre as portas do mundo místico da jurema, umbanda e candomblé com seu novo disco 'Macumbas e catimbós', que aponta para novas sonoridades e presenteia guias e forças da natureza

TEXTO Jocê Rodrigues

29 de Maio de 2019

Ensaio da artista para divulgação do novo disco, 'Macumbas e catimbós'

Ensaio da artista para divulgação do novo disco, 'Macumbas e catimbós'

Foto Bia Varella/Divulgação

[Conteúdo exclusivo Continente Online. Leia ouvindo o disco aqui]

Alessandra Leão faz música para dilatar tempo e fronteiras. Com inspirações fortemente ligadas ao universo das religiões de matriz afro-ameríndia, suas composições integram um complexo emaranhado de relações entre o profano e o sagrado. Avessa ao termo “música tradicional”, acredita que essa roupa há tempos já não nos serve mais, e que é preciso ampliar o debate para se discutir o assunto seriamente.

Alessandra foi uma das integrantes/fundadoras da banda Comadre Fulorzinha. Em 2006, iniciou sua carreira solo com o CD Brinquedo de tambor e, em 2009, lançou Dois cordões, que contava com uma inovadora formação instrumental: três ilus e três guitarras, primorosamente arranjada por Rodrigo Caçapa. Depois de um mergulho em arranjos mais experimentais e quase roqueiros na trilogia de EPs Pedra de sal (2014), Aço (2015) e Língua (2015), Alessandra abre as portas do mundo místico da jurema, umbanda e candomblé com Macumbas e catimbós, que acaba de sair pela Garganta Records.

Trata-se de um disco de percussão e voz, que reúne pontos tradicionais dessas três religiões com novas roupagens e algumas composições de sua autoria. No entanto, o que para muitos parece um retorno às raízes que sustentam os primeiros trabalhos é, na verdade, mais uma ruptura rumo a novos direcionamentos estéticos, intrinsecamente ligados à sua maneira de entender não apenas a música, mas a realidade que a cerca.

O disco é, como definido pela própria compositora, uma celebração, um presente para os guias e as forças da natureza que aqui já estavam antes de as caravelas atracarem. É uma celebração do sagrado. “O sagrado no outro e em cada um de nós”, contou em entrevista à Continente. “É também celebrar esse universo musical e estético, que tanto representa e fundamenta social e culturalmente o Brasil.” No entanto, não é um ritual, ela faz questão de ressaltar, mas um trabalho dedicado aos espíritos e pessoas de amor, luz e respeito; a quem é da religião e a quem não é.



A inspiração para a formação instrumental – composta de três ilus, abê, ferros e voz, ainda que outros instrumentos apareçam pontualmente – foi buscada nos terreiros de Xangô e jurema de Pernambuco. Quem assume a sonoridade, ao lado de Alessandra, são os músicos Maurício Badé e Abuhl Junior. O entrosamento entre os três é orgânico, fruto da convivência dentro e fora dos terreiros. Para além deles, destacam-se a presença de alguns convidados mais que especiais. Entre eles, Sapopemba, Mateus Aleluia, Lia de Itamaracá, Lenna Bahule, Isaar, Manu Maltez, Lívia Mattos e Luiz Quiguiriçá.

Macumbas e catimbós é mais que apenas um álbum de percussão e voz. Sua estrutura está fincada na formação de terreiro, mas se abre para espaços muito mais além. A escolha do repertório foi desafio dos grandes. Escolher, dentre tantas entidades e orixás, para quem ela deveria cantar exigiu paciência e muita ponderação. No final, o jeito foi confiar na intuição e se deixar guiar.

Ajudaram também as pesquisas feitas em Pernambuco, para onde Alessandra viajou com intuito de ouvir mais sobre a jurema. Lá obteve ensinamentos valiosos de nomes como Nice Firmino, Pai Cacau, Paulinho Carrapeta e Alexandre L’Omi L’Odò, mestre juremeiro da Casa das Matas do Reis Malunguinho. O resultado é uma obra que mistura pontos tradicionais com composições próprias e arranjos originais. “Para o disco, nos demos a liberdade de pensar nesse repertório como instrumentistas criadores, sem abrir mão das referências do terreiro”, esclarece Alessandra. “Criamos na fronteira entre terreiro, estúdio e palco. Então, criamos os arranjos a partir do que pediam as melodias.”

FAIXA A FAIXA
Essa liberdade que se evidencia já na primeira música. Exu chega/Exu guerreiro/Sete encruzilhadas pede licença e abre passagem com cadência e peso para as experimentações de Ogum está de ronda, composição de Alessandra que traz sonoridade cheia de ecos, samplers e graves bastante marcados. Awa aabo/Vou levar flores/Pontos para Iemanjá mescla tradição e contemporaneidade na dança vocal entre Alessandra e Lia de Itamaracá, que dá um tempero todo especial à composição. Corre um rio em mim e Tua mão, minha cabeça, por sua vez, são canções que mostram todo o talento da artista como compositora e arranjadora. A primeira é hipnotizante, melodiosa e com arranjos vocais que nos lembram uma espiral, uma sensação circular que embala e acalenta. A segunda é pungente, firme, imponente como Xangô, senhor da justiça e do fogo, dignamente saudado por tambores e vozes. Na sequência, Abuhl Jr. se destaca como intérprete em Abre a mata Oxóssi. Seu timbre vocal tem um quê de ancestralidade, de força primeva das matas.

A produção ficou por conta da própria cantora e de Caê Rolfsen ― um nome que lhe foi “soprado” pelos guias e que ela prontamente acatou. Durante a noite de audição do disco para convidados no estúdio do selo YB Music (responsável pela distribuição), em São Paulo, Rolfsen contou como o convite para dividir a produção veio como uma grata surpresa. “Era algo que eu não esperava, mas que foi ótimo de fazer”, disse.

Entre as notáveis contribuições de Caê Rolfsen para a sonoridade do disco está a experimentação na afinação dos tambores, ideia que veio da própria Alessandra, mas que foi lapidada por Caê de modo competente. Em alguns momentos, os timbres são graves, pesados, marcantes. Com efeitos aqui e ali, sempre convergindo com a linha musical de grande coerência que se desenha da primeira à última música.

Caê também falou sobre como acredita ter sido importante a escolha por gravar pontos de jurema, considerada por muitos a religião mais antiga praticada em terras brasileiras. A homenagem é mais perceptível na segunda metade da obra, que se inicia com a faixa Ponto para Malunguinho, cujo arranjo tem roupagem etérea de vozes e efeitos, evidenciando a liberdade criativa e o modo singular de processar os sons de tambores e voz. As faixas seguintes, Cabocla de pena e Caboclo arreia são exemplos da força contagiante e da energia que encanta catimbozeiros pelo país afora. São alegres, festivas, para cima, eletrizantes.




Acompanham Alessandra Abuhl Junior (esq.) e Maurício Badé (dir.).
Fotos: Bia Varella/Divulgação


Vamos, meu mestre traz um interessante contraponto vocal entre Alessandra e Mestre Sapopemba, figura de enorme renome no meio musical e religioso, com mais de 30 anos de ogã e uma voz profunda e grave que se encaixa perfeitamente na proposta do trabalho. A dobradinha Abre a porta/Boiada de 31, pontos tradicionais da umbanda, é uma peça bonita em homenagem aos Boiadeiros, guias espirituais que norteiam os devotos pelo caminho da simplicidade, respeito à natureza e pureza de sentimentos.

Mateus Aleluia aparece grande, gigante, em Ponto para Preto Velho, a canção mais densa de todo o trabalho. Um nevoeiro que aparece e cresce ao longo da música como um mantra. Em Hasteia a bandeira branca, Alessandra cede o espaço da voz para Luiz Quiguiriçá e Marilda Solano, acompanhados do coro formado por Viviane e Camila Soliano.

O encerramento fica por conta de Firmei meu ponto/Ponto pro tambor, que traz samplers e recortes de gravações feitas quando Alessandra buscava fontes e inspirações para o repertório. “Nesse período, pedi a vários amigos que cantassem seus pontos preferidos”, relembra. Foi assim que as vozes de Alexandre Garnizé, Pai Cacau, Anelis Assumpção, Geraldo Barbosa, Daniel Leão, Maíca Soares, Luiz Paixão, Mané Roque, Guitinho, Pai Ivo de Oxum e Felipe Cândido foram parar na última faixa ― uma verdadeira celebração de beleza e espiritualidade.

Em meio a tudo isso, um destaque é, sem dúvida, o desempenho vocal de Alessandra, que faz sua voz se desdobrar de novos jeitos, bem diferentes dos discos anteriores. “Esse é um tipo de repertório que canto mais confortável”, explica. “É como canto na rua, quando estou no coco, na ciranda ou no terreiro. São espaços mais familiares pra mim. Ao mesmo tempo, quis experimentar outros caminhos para usar a voz para criar camadas com diferentes texturas, tanto nos vocais, quanto no canto propriamente dito.”

É como se houvesse um mecanismo que, quando acionado, dá vida a uma outra intérprete, uma que só era encontrada nos ritos e cerimônias no terreiro Recanto de Quiguiriçá, onde Alessandra Leão toca devotadamente o seu ilu. Uma voz antes restrita ao espaço religioso, mas que agora está gravada, tecnologicamente conservada e acessível em todas as 15 faixas de Macumbas e catimbós.

Extra: Veja encarte-livreto do disco. 

CONTRA A INTOLERÂNCIA
Na década de 1950, o jornalista americano A.J Liebling inflamava os leitores na New Yorker com suas reportagens sobre o boxe. Cronista que se tornou referência no ramo dos esportes, Libling definia o boxe como The sweet science of bruising (algo como “a doce ciência de machucar”). Com jeito peculiar, mostrava as mil facetas de um combate. Não é só suor, sangue, ganchos e cruzados. Se trata, muitas vezes, de um embate entre ideias e posições. Sob essa ótica, narrou lutas lendárias como a de Rocky Marciano contra Archie Moore, sempre com um viés que olhava muito abaixo da superfície do espetáculo.

Assumindo o risco de incorrer em uma superinterpretação, daquelas que vai muito além da intenção original do autor e se perde nos devaneios e gostos do intérprete, arrisco dizer que Macumbas e catimbós é, também, um oponente, um desafiante que se posiciona de guarda levantada frente ao preconceito peso-pesado que domina o ringue dos debates público e privado, principalmente sobre o direito de liberdade religiosa ― garantido pela Constituição Federal.

Embora seja um trabalho que, antes de tudo, visa celebrar o sagrado em suas diferentes formas, como deixa bem claro a compositora, nos faz refletir sobre intolerância religiosa e preconceito. Reflexão mais que necessária num momento tão delicado quanto agora, quando ações de desrespeito a opiniões diversas e contrárias são ovacionadas e defendidas não só aqui, mas em várias partes do mundo.

“Nos últimos anos, aumentou consideravelmente o número de terreiros invadidos e ameaçados, filhos de santo agredidos na rua”, salienta Alessandra. “Lembremos que essa repressão sempre existiu, em alguns períodos mais veladas, noutros institucionalizadas como no período do Estado Novo, que proibiu oficialmente os cultos afro-ameríndios em todo o país.”

Dessa forma, cantar, gravar e tocar macumbas, catimbós e afins é igualmente uma maneira de resistir, de se posicionar contra todo caos e desrespeito que acossam seguidores de religiões não hegemônicas. Portanto, ao mesmo tempo em que temos um trabalho de profunda beleza, temos igualmente uma arma, uma lança ou punhal que desafia convenções. Uma homenagem sonora que se movimenta e exibe a elegância, ousadia e força de um Muhammad Ali diante do perigo iminente de um jab ou de um direto disparado pelo adversário.

“O que importa, afinal, é se vivemos respeitando as escolhas de cada um para que sejamos livres para acreditar no sagrado com a forma e nome que quisermos. Estamos em 2019 e isso ainda não é óbvio como deveria.”

Macumbas e catimbós é, portanto, síntese entre reza e canto. Se eleva aos céus, mas com os pés fincados no chão. Desafia convenções e a reflexão do mesmo jeito que convida à dança. Da mesma maneira, a música de Alessandra Leão é externa e interna, está em cima como está embaixo. Se equilibra na corda bamba dos contrários e vagueia com naturalidade entre dois, três ou quantos mais mundos quiser. Não se limita, não permite rótulos e traduz-se simplesmente como música. Não música regional, música tradicional ou música religiosa. Só música – fecha a conta e passa a régua.


Foto: Bia Varella/Divulgação

JOCÊ RODRIGUES, escritor e jornalista. Colabora ou já colaborou com publicações como Revista da Cultura, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Estadão e Jota.

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