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Resenha

Entre a memória e a (re)invenção

"Deslembro", primeiro longa-metragem de ficção da diretora carioca Flávia Castro, aborda o rito de passagem de uma adolescente que volta do exílio ao Brasil pós-anistia de 1979

TEXTO Luciana Veras

21 de Junho de 2019

Travessia: quando a família precisa se reformular

Travessia: quando a família precisa se reformular

FOTO Flauk Filmes/Divulgação

Qual é a exata fronteira entre memória e imaginação? Em Deslembro (Brasil, 2018), obra da realizadora Flávia Castro em cartaz no Recife, nas duas salas do Cinema da Fundação, há uma fértil tentativa de elaboração de resposta a essa pergunta. Ou melhor, não de resposta, tampouco revide, mas uma contribuição para tornar menos exata, mais fluida, essa divisa entre o que recordamos e tudo que inventamos – ainda mais quando se trata do Brasil, essa pátria que não para todos os seus filhos foi e é mãe gentil e onde a memória é cada vez mais rarefeita.

É nessa atrito entre lembrar e des-lembrar que se movimenta Joana (Jeanne Boudier), o alicerce do filme: ela mora em Paris com a mãe (Sara Antunes), o padrasto Luis (Julián Marras) e os dois meio-irmãos Paco (Arthur Reynaud) e Leon (Hugo Abranches), ela ouve The Doors e visita o cemitério para ver o túmulo de Jim Morrison, ela tem amigas que lhe indagam o que é que tem esse tal de Brasil, seu país de origem, e por que ela tem que voltar – pergunta que Joana, de imediato, despeja na cara da sua mãe. “Deixa eu ficar aqui”, implora a adolescente diante da assertividade da mãe. A anistia “ampla, geral e irrestrita” havia sido proclamada, corriam os fins dos anos 1970, ventos de redemocratização começavam a soprar no país que desde 1964 era governado por militares e a mãe, militante que era e continuou a ser (tanto que casou com um chileno que fugiu do golpe que derrubou Salvador Allende, em 1973), só queria retornar para o "florão da América", como descreve o nosso hino.

Lá se vão, então, Joana, Paco, Leon, a mãe, o padrasto, os livros e desenhos, a fita de Transformer, discaço de Lou Reed lançado em 1972, e um passado que permanece à espreita. Essa fricção entre passado e presente, aliás, também é uma das chaves para pensar Deslembro, que nasce com total liberdade ficcional, porém ancorado em experiências vivenciadas pela própria diretora. "A história de Joana tem pontos em comum com a minha, pois também fui morar fora depois do golpe de 1964. Mas não é a minha história. Meu pai não foi desaparecido político como é o pai de Joana", situa Flávia em entrevista por telefone à Continente.

Da história do seu pai, Celso Afonso Castro, ela tratou no documentário Diário de uma busca (2011), uma investigação afetiva e, por conseguinte, também política. Aqui, ela cria uma personagem cindida entre o que sabe sobre a ausência do pai - Eduardo, codinome Tiago, militante contra a ditadura que morreu nas mãos da repressão - e o que quer descobrir assim que chega a esse país que lhe causa medo. "A vida toda ela só ouvia falar dos horrores, a história do pai, os amigos dos pais presos, então quando chega a hora dela voltar, de fato é estranho", comenta a diretora.

Na forma, Deslembro integra essa estranheza ao dotar sua linguagem de uma poética singular, que permite à narrativa enveredar livre pela ficção e, principalmante, por tudo aquilo que, ao cair no imenso vão da memória, por ali fica à espera de uma ressignificação. A fotografia de Heloísa Passos merece ser citada por contribuir, e muito, para essa imersão no âmago de Joana. "A ideia é que a memória que ela tem se mistura com a imaginação dela e não tem muita fronteira entre uma coisa e outra. Nossa opção foi muito clara: queríamos fazer dessa memória algo mais sensorial do que explicativo", detalha Flávia.

Acontece que a memória, uma das matérias de que é feita a vida, é porosa, fluida, inconstante, fabular. O que Joana retém do seu pai? Fragmentos de conversas, um par de olhos que lhe acalenta mas também a assusta, lembranças de lugares onde estiveram juntos e que possuem relação com o que aconteceu com Eduardo e outras peças que começa a juntar tão logo se reencontra, e se reconecta, com a avó interpretada por Eliane Giardini - um personagem incrível que ganha ainda mais luz e força com a interpretação iluminada de Eliane.

Protagonista Joana é vivida por Jeanne Boudier FOTO: Flauk Filmes/Divulgação

No meio disso tudo, enquanto singra os mares do passado, Joana também se aferra às experiências que o presente oferece - a descoberta do sexo, do samba, do mar, de tudo não maculado por esse peso que sua origem carrega. "O filme todo é a subjetividade dessa menina. O que ela não consegue alcançar na memória, ela mistura, o que é típico quando a gente tem um buraco e tenta preencher com o que temos. Tudo que a gente vê é o interior de Joana, que vai evoluindo conforme seu estado emocional", define a cineasta. Deslembro, afinal, é sobre um rito de passagem, ou melhor, dois ritos de passagem, duas travessias - a que nos separa da infância e da adolescência e aquela entre um passado idealizado e o presente por vezes triste e cruel, mas cheio de convites à vida.

"Acho que você definiu bem: são dois ritos de passagem mesmo. Ela tem aquele rito comum a qualquer menina da idade dela, com as contradições desse momento da adolescência, e a isso se superpõe esse outro rito que é a mudança de volta para o Brasil, para a origem dela, o passado dela. É muita coisa para uma pessoa só e ach o que é interessante ver como essas duas descobertas e passagens se fundem e alimentam uma a outra. Quando ela chega no Rio, tem resistência à cidade e se veste de preto, mas depois se abre para a natureza, para o sexo e para as relações com as pessoas, como com sua avó, que é uma avó que acolhe, que luta, e que nunca desiste dessa luta, mas ao mesmo tempo é alegre e tem sua própria vida", observa Flávia Castro. 

Uma anotação fundamental: o trabalho do elenco é impressionante, com naturalidade e leveza nas atuações, mas também força para dar conta das situações propostas pelo roteiro. A diretora nos fala de "sorte" para encontrar Jeanne, "a menina muito talentosa" que faz de Joana uma personagem inesquecível: "Ela fez um trabalho paralelo com Amanda Gabriel, preparadora de elenco, e com os outros atores, que morava no Rio de Janeiro, onde moro, pudemos ir trabalhado de maneira muito legal. Colocamos a família junta para que eles passassem o fim de semana no mesmo apartamento onde filmamos e isso desenvolveu a relação entre eles. Acho que tornou mais forte, sabe, e imprimiu no filme". 

E para viver "o homem invisível", o pai, de quem ouvimos a voz e vemos os olhos, Flávia Castro escolheu o ator pernambucano Jesuíta Barbosa, de Tatuagem (2013) e Praia do futuro (2014). "Ele é um ator jovem, de muita força, e queria alguém cujos olhos fossem intensos, que pudessem formar uma relação com os olhos da Eliane e também do personagem da Joana", condensa a realizadora. 

Por fim, mas não menos importante, o registro para a trilha sonora, que inclui Lou Reed, bossa nova e The Doors ("foi muito caro, tivemos que esperar até o último minuto", confessa Flávia Castro). Aliás, são de autoria de Jim Morrison os pungentes versos de People are strange ("quando você é um estranho, rostos saem da chuva e ninguém lembra seu nome") que Joana ouve tanto no início como no fim da sua travessia, sem saber que não importa de onde veio, nem para onde vá, o que importa é justamente isso: atravessar. 

Em tempo: Deslembro, exibido pela primeira vez na Mostra Internacional de São Paulo antes do resultado das eleições presidenciais de 2018, entra em cartaz em um momento em que o Brasil parece mais fraturado do que quando saiu a anistia. "Não fizemos nosso trabalho de memória direito e agora estamos pagando caro por isso", pondera a diretora. Que os jovens vejam o filme, os mais velhos também, aqueles que lutaram contra a ditadura ou que foram a favor dela, todos, enfim, que vivem nesse berço outrora esplêndido. Precisamos falar desse passado recente. Deslembrar, que para Joana é uma brecha, no nosso caso não é uma opção.  

LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica da Continente.

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