Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Reportagem

Riobaldo e Diadorim no meio do redemoinho

'Grande sertão: veredas', espetáculo baseado na obra-prima de Guimarães Rosa, com direção de Bia Lessa e Caio Blat à frente do elenco, chega ao Recife para uma única apresentação

TEXTO Luciana Veras

08 de Julho de 2018

Adaptação do livro para o teatro tem 2h30 de duração

Adaptação do livro para o teatro tem 2h30 de duração

FOTOS Annelize Tozetto/Divulgação

O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.

São mais de 400 páginas de leitura e, quando se termina Grande sertão: veredas, uma das únicas afirmativas possíveis ecoa esse parágrafo que faz parte da monumental narrativa criada por João Guimarães Rosa (1908-1967): a pessoa que atravessa esse livro não está sempre igual. Não seria possível, o fato é esse. Trata-se de uma experiência incontornável, da qual é inviável se apartar uma vez finda a jornada que começa com o neologismo “nonada” e termina, justamente, em “travessia”. 

Uma travessia como nenhuma da literatura brasileira, quiçá mundial. Publicada em 1956, a saga de Riobaldo, o jagunço que reconta seus dias nas veredas e no guerrear e, ao mergulhar nas memórias, dela faz emergir um retrato dos sertões, do Brasil e de um grande amor, é até hoje um manancial inesgotável para reflexões e transposições. A mais recente delas é o espetáculo teatral que chega ao Recife para uma única apresentação (domingo, 8 de julho, às 19h), no Teatro Guararapes e segue em turnê pelo país.

Grande sertão: veredas, a peça, tem direção de Bia Lessa, que já havia se abraçado com o fecundo material para conceber a exposição montada no Museu da Língua Portuguesa em 2006, quando do cinquentenário da obra-prima de Guimarães Rosa. Em entrevista para a Continente, Bia comenta que a exposição “foi uma das coisas mais profundas que vieram para mim”. “A minha proposta era muito voltada para a origem das palavras, para o estudo delas, afinal, estávamos dentro do museu que era sobre a linguagem. E esse livro é um dos maiores inventores de linguagem”. Para o palco, contudo, era preciso construir um modo de transportar a alquimia da linguagem sem, no entanto, deturpá-la ou atenuá-la.

A decisão foi de adotar um parâmetro para uma encenação despida de qualquer tipo de adorno: os atores estão vestidos de preto, eles fazem todo e qualquer tipo de personagem, incluindo pedras e animais, e as variações entre as cenas se dão mais a partir do corpo e do que é evocado com as palavras do que de cenários e afins. “A questão que nos colocamos foi porque o teatro, de um jeito ou de outro, é imagem, e eu não queria definir nada, queria deixar exatamente em aberto. Então, do livro está lá o que tem que estar, sem remelexo, sem enfeite. As palavras são exatamente como se apresentam. Achei que não cabia na encenação nenhum tipo de efeito. Quanto mais cru, mais perto de Guimarães Rosa”, observa a diretora.

Até porque, é preciso dizer isso com a mesma veemência com que Riobaldo narra seus casos, o que Guimarães Rosa atinge em Grande sertão: veredas já é um estado bruto de literatura, de transcendência e de vida. “A riqueza das palavras inventadas, a forma como são encadeadas no texto, o bonito dessas palavras que abrem e não fecham e como elas são capazes de ecoar por anos e anos... O sertão dele pode ser o sul da Bahia ou Minas, o Alaska, Tóquio, Paris, Bélgica... O sertão está em toda parte, dentro da gente”, diz Bia Lessa.

A Continente conversou com quatro atores que sobem ao palco para encenar as veredas e os sertões. Em todos, constatou algo como a “alegria estrita, contente com o viver, mas apressadamente” descrita por Guimarães Rosa no seu metafísico tratado sobre amor e vida. Se viver é muito perigoso, que a busca seja pela liberdade, sempre.  

Caio Blat interpreta Riobaldo, o jagunço que reconta sua história

CAIO BLAT

Riobaldo
"Eu nunca tinha lido Grande sertão: veredas. Quando a Bia me chamou, mergulhei na obra de Guimarães de uma maneira intensa, visceral. Fui completamente tomado por aquele universo absurdo, por aquela obra genial, absolutamente simples, direta, ao mesmo tempo complexa e imaginativa. Começamos um trabalho coletivo para nos apropriarmos do livro. Não havia um roteiro amarrado, e sim passagens que nós íamos trabalhando, todos juntos, se dividindo. Foi um ano delicado, intenso, forte, um trabalho que propunha uma relação íntima com o corpo e com o outro. Foi uma experiência de evocação: plantas, bichos, pedras, aves – tudo isso nós fazíamos nos ensaios e fazemos em cena. Foi uma maneira também de me relacionar com a ecologia. 

Riobaldo é, com certeza, o personagem mais importante da minha vida.  E também certamente um dos mais exigentes. A cada apresentação, sinto e percebo em mim a transformação dele. E vejo também como o texto de Guimarães é extremamente contemporâneo quando fala de um amor que vai além das convenções, de um amor que traz consigo o risco e a vergonha. Agora imagina ambientar tudo isso no sertão do século XIX e tornar aquelas palavras, aquela relação entre Riobaldo e Diadorim forte o suficiente para atravessar o tempo? 

É por isso que acho ainda mais importante poder trabalhar esse texto no teatro. Grande sertão: veredas é considerado um livro inacessível, um livro que ninguém consegue ler. Com a peça, estamos dando acesso a essa obra fundamental para compreender a literatura e o próprio Brasil em que vivemos hoje. E fazendo isso com um mergulho profundo, conseguindo nos conectar com os jovens, com essas pessoas que vão reinventar esse país." 

Luiza Lemmertz vive Diadorim

LUIZA LEMMERTZ
Diadorim
"Criamos um sertão que não é visível. É como a Bia sempre fala quando cita o Guimarães: 'o sertão é dentro da gente, o sertão é em todo lugar'. Então, em cena, nós fazemos tudo: os cenários, os lugares, as plantas, os bichos, tudo é evocado com nossos corpos. E não tem hierarquia entre o que é bicho, o que é planta ou o que é bando de guerra de amor. 

Com o livro, eu tive essa coisa que muita gente tem: na escola, passei por ele e pensei 'um dia, vou ler esse livro todo, vou ler direito'. Vim parar nele quando a Bia me chamou. O detalhe é que eu entrei no último mês de ensaio, porque a pessoa que ia fazer Diadorim teve que sair. Daí li o livro numa toada alucinante: comecei quando ela me convidou e terminei já ensaiando. Me lembro até hoje de onde eu estava e o que aconteceu comigo quando finalmente terminei Grande sertão: veredas: no meio do mato, numa serra do Rio de Janeiro. Desci, fiquei sozinha, era fim de tarde, fui para cima de uma pedra e chorei. A imersão que fiz nele me marcou eternamente. É um livro muito poderoso, o mais importante da minha vida. É meio sagrado, não é?

Sobre fazer Diadorim, me lembro de que, em algum momento da temporada no Rio de Janeiro, uma super estudiosa da obra de Guimarães chegou para expressar sua hesitação sobre o que a peça traria. Pois, segundo ela e segundo o próprio livro, Diadorim é neblina, é voragem. Então, corporificar Diadorim seria um erro. Seria um personagem impossível de ser colocado. Mas na peça, como no livro, é Riobaldo quem está narrando, toda aquela ação está no passado e, quando ele relembra, se transporta para tudo aquilo, como se estivesse acontecendo pela primeira vez. 

O que acho é que, de uma certa forma, a possibilidade dessa corporificação, de Diadorim existir em cena, é como se fosse um fantasma, uma coisa inventada e que, no final das contas, aquela sensualidade, aquela dor, aquela voragem, é tudo universal. Isso é que é incrível: não interessa se é homem ou se é mulher, todo mundo se identifica com aquela história, com o envolvimento daqueles personagens.

Quanto a mim, foi o maior desafio da minha vida. Quando entrei no personagem, tive o desejo de ir mais para o homem mesmo. Para que, se alguém que não conhecesse a história fosse ver a peça, achasse que Diadorim é um homem mesmo. Eu estava com o cabelo curto, tenho um porte grande, um corpo forte, fui para a agressividade, para um jeito mais seco, para fazer um Diadorim mais jagunço brabo. Depois, com o tempo, fomos usando mais nuances, entendendo mais os lugares – do texto, dos sertões, de dentro de nós – de onde vinha tudo aquilo. E aí Diadorim foi ficando mais delicada. No meio daquela obstinação, da vingança, Riobaldo poderia estar corporificando ilusões. E eu poderia ser uma ilusão dele. Para tudo, na peça ou no livro, a imaginação é a chave."

LEONARDO MIGGIORIN
Zé Bebelo
"Li metade do livro quando estava fazendo uma viagem de mochilão pela Europa. Era inverno e lá estava eu lendo sobre o calor do sertão! A viagem acabou, não completei o livro, mas terminei de ler já com o convite de Bia Lessa. Quando entrei no elenco, a dinâmica que ela havia estabelecido com todos os atores já estava acontecendo: todos iam se misturando, lendo tudo, fazendo tudo, o processo já estava se desenrolando. Automaticamente, caí nesse personagem do Zé Bebelo.

Como me aproximei dele? Fui tentando encontrar elos com a minha personalidade e com a minha subjetividade. Bia trabalha desse jeito: ela queria saber a minha opinião sobre o Zé Bebelo para entender como eu conseguiria me aproximar desse personagem e assim para que a gente trabalhasse sempre com a verdade. Não verdades chapadas ou estereotipadas, mas a verdade orgânica da esfera humana. E, partindo daí, como avançar para pensar, pesquisar e se moldar nessa atmosfera. Cria-se uma certa simbiose entre a ficção e nossas vidas e isso exige muito fisicamente e emocionalmente de todos nós que estamos em cena.

E a peça parece se reatualizar a partir da realidade de tão profunda que é. Fala das disputas, da busca pelo amor, das relações de poder, da injustiça, da crueldade de que o ser humano pode ser capa… Quando olhamos os tempos de hoje, os julgamentos que temos visto, os interesses incertos em uma sociedade na guerra de opiniões, parece que estamos vivendo um caos. Grande sertão: veredas vai no cerne das questões, vai na carne, vai na ferida ao falar de questões que estamos vivendo hoje. Uma menina que se disfarça de homem por uma questão de sobrevivência, para esconder sua fragilidade, nos leva a pensar na urgente necessidade de mudança. Zé Bebelo, um político e estrategista, tem a esperança de progresso e de justiça. Mas como confiar nas pessoas nesse tempo de 'salve-se quem puder?'. Às vezes, o sertão me faz desconfiar antes. 

Todo dia que eu faço a peça, eu choro. A encenação da Bia Lessa permite ao espectador um espaço para a fantasia dele, pois não está tudo lá, dado e mastigado. A compreensão da história cabe ao espectador completar. E isso me emociona, muito."

Luisa Arraes em cena no espetáculo 

LUISA ARRAES
Riobaldo menino
"Li Grande sertão: veredas aos 18 anos e naquela época era, como até hoje é, o livro mais importante da minha vida. Eu vivia só para ler, o resto era mera distração. Tenho dois cadernos grossos cheios de anotação, meu livro era todo marcado... Realmente, foi um ponto de mudança em mim. Minha relação com o livro parecia ser impossível de aprofundar mais, mas aí anos depois eu recebo um e-mail da Bia dizendo que ia fazer a peça. Fiquei louca. Disse a ela que era capaz de ficar dois anos vendendo brownie para arrecadar dinheiro!

Durante o processo de ensaio, no qual entrei desde o início, a Bia distribuía as mesmas passagens do livro para todo mundo, de modo que a gente via mil maneiras diferentes de se chegar àquelas palavras, àquela cena. Isso foi muito bonito. Depois, quem quisesse, ia lá e pegava determinada passagem. É claro que o espetáculo é 80% do Riobaldo, já que, como no livro, ele está contando a história, mas a travessia desse processo coletivo foi muito importante para todos nós e para a construção do espetáculo. Foi assim, por exemplo, que eu terminei sendo, também, o Riobaldo quando menino.

Eu vejo a peça como uma convocação para o espectador imaginar. Grande sertão: veredas é um livro que nos convoca o tempo inteiro e a encenação não assassinou isso, muito pelo contrário: alimentou, adubou. Usamos roupas pretas e assim podemos nos passar por qualquer coisa. É como se a peça fosse a chance de uma leitura em conjunto. O teatro é uma experiência coletiva, mas cada um de nós, quem está no palco e quem está na plateia, vai ter sua experiência individual. O que é bonito de ver é o espectro da memória, que assombra o livro, também permear a encenação, como um rio caudaloso desaguando em outro."

LUCIANA VERAS é repórter especial da Continente

Publicidade

veja também

A vida como missão

Ecos do colapso

Comida honesta, e coletiva

comentários