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Reportagem

Boca no Trombone, um grito desabafado

Bravando “Tem que conscientizar com a voz e mostrar seu argumento”, recital provoca jovens da Zona Norte do Recife, subvertendo cotidiano violento da periferia com rima e poesia

TEXTO LENNE FERREIRA
FOTOS E VÍDEO MARIA HELENA

 

22 de Dezembro de 2017

Imagem do recital Boca no Trombone na terça, dia 19/12, no Recife

Imagem do recital Boca no Trombone na terça, dia 19/12, no Recife

Foto Maria Helena

Uma poesia que transcende a palavra falada faz eco no céu dos morros que se equilibram no horizonte do bairro de Água Fria. É assim todas as terças à noite, há três anos. A voz de jovens vindos de várias partes da Zona Norte do Recife escorrega pelas ladeiras do Alto do Pereirinha, onde o recital Boca no Trombone reúne MCs e poetas numa roda de conhecimento performatizada a partir de questões que estão além da própria arte da métrica e da poesia. Para a maioria dos participantes que sobe a ladeira do Alto, o Boca no Trombone “é um grito” desabafado, exorciza dores ao mesmo tempo em que revigora lutas, amplia e aprofunda discussões.

É de uma praça improvisada pelos moradores da comunidade que nasce uma poesia de protesto, que se nega “marginal” e usa o panorama social e político como pavimento para uma arte que “É” sem precisar de título. “A academia tem mania de querer colocar nome em tudo, criar conceito. A gente faz poesia.” É assim que se posiciona Maria Helena, estudante de Letras que nunca falou sobre o Boca no Trombone dentro da sala de aula. Ela está à frente do movimento e assumiu a articulação desde que o seu fundador, MC Lucas Sang, teve que mudar de endereço. Foi por meio de Sang que Helena, antes residente em Casa Amarela, conheceu o recital, o que a aproximou da comunidade, para onde se mudou há um ano.

É função de Maria Helena articular os encontros, mobilizar, filmar, fotografar, postar nas redes sociais, que funcionam como base de apoio para a divulgação do recital. A internet tem sido a plataforma de difusão e extensão da produção de jovens poetas que, insatisfeitos com o atual cenário político, esbravejam palavras de protesto, contestam e militam pelo #ForaTemer. Neste sentido, a poesia ganha moldes de panfleto e rebeldia para se transformar numa expressão autêntica de uma periferia que ferve com mais conhecimento e informação. O Boca no Trombone é esse corpo heterogêneo que reúne vários membros da Zona Norte da cidade: Alto do Pascoal, Vasco da Gama, Alto Santa Terezinha, Alto São Sebastião, Beberibe, Chão de Estrelas, Cajueiro, Macaxeira. A leveza e o peso das vivências de todos esses locais estão carimbados nos versos falados.



Dura uma hora o percurso de Adelaide Santos até chegar ao Alto do Pereirinha. Moradora do Vasco da Gama, a estudante é frequentadora assídua do recital há dois anos. Tirou suas poesias do caderno escolar, desatou o nó da garganta. Mulher negra, ela é conhecida pela expressividade na fala e no olhar. Sua poesia tem tom provocativo e milita por empoderamento racial e contra o machismo. Quando questionada sobre a importância do movimento para sua vida, Adelaide nem pestaneja: “Foi o Boca quem me fez sentir importante”. Poesia e vivência se abraçam nos versos de Adelaide, autora do poema Fardo de uma preta, que fala sobre objetificação do corpo da mulher negra e denuncia o racismo estrutural e institucionalizado. A força dos seus versos extrapolou os limites do bairro e conquistou a atenção de espaços de privilégio, como a academia.

Já parasse para pensar, nego, no fardo de uma preta no Brasil?
Cê só viu em novela, mas a dor nunca sentiu.
Se assistiu Chica da Silva e acha que já entendeu?
Cê não viveu metade que a preta véa lá de casa já viveu.
Fardo de uma preta, Adelaide Santos

Adelaide Santos. Foto: Maria Helena

HISTÓRIAS

O recital Boca no Trombone nasceu da influência de outro movimento forte em Água Fria, a Batalha do Terminal. Justamente por isso, o recital agrega mais do que poesia. É lá onde MCs também se encontram para praticar rima, métrica e dicção na base do improviso. A Batalha do Conhecimento, uma modalidade desenvolvida a partir de temas livres, da atualidade ou não, atraem muitos adolescentes. Alguns nem completaram 15 anos e já arriscam pegar o microfone para “mandar uma ideia”. MC Islã tem 14 e, na última edição, realizada na terça (19/12), ele venceu todos os adversários improvisando a partir de temas como consumo de energia, inflação, violência policial e genocídio da juventude negra. Impressiona ver o engajamento das rimas do menino franzino, que, a partir de construções simples, faz críticas contundentes. A falta d’água, um problema constante enfrentado pelos moradores dos Altos da Zona Norte, serviu de mote para uma das rimas: “Aí irmão, não me desmereça/ Tenho que andar pra karalho/ Para voltar com um balde d’água na cabeça./ Quem é que não se estressa?/ Lá tem água e a gente tomando banho de caneca”, dizia um dos seus versos.

Alguns participantes assumem as posições de poeta e MC também. É o caso de Faxa, que mora em Chão de Estrelas, e é um dos mais reverenciados no movimento pelos iniciantes e veteranos também. A repressão e violência policiais são temas recorrentes na poesia de Faxa. Como em qualquer favela do país, a polícia é temida. Recentemente, um dos poetas mais populares, conhecido como Calango, foi exposto e violentado pela polícia militar por recitar a poesia Vocabulário, de Kkal Gomes, numa batalha de MCs do Alto José Bonifácio. O texto declamado começava com a frase “Quase tudo que não presta começa com P”. Os agentes agiram de forma truculenta e repressora diante de todos. O Boca no Trombone denunciou a truculência da ação por meio de um vídeo em que Calango recita a poesia novamente. “O medo de represálias faz com que situações como essa não sejam denunciadas”, diz Maria Helena.


Faxa. Foto: Maria Helena

A desenvoltura nas palavras esconde a idade de Faxa, que tem 17 anos e, depois que conheceu o recital, deixou de lado o “corre doido”. “A minha cabeça era como a da sociedade. Agora, tenho a mente mais aberta para entender as coisas e aprender mais também”, disse. A prática da escrita e oralidade ajudou na relação familiar. “Hoje, consigo conversar melhor com a minha mãe, tenho mais respeito dela e dou orgulho também”, conta, referindo-se às premiações que já recebeu em batalhas espalhadas pela Região Metropolitana do Recife. Estão todas na sala de casa. Faxa denuncia a violência, mas não deixa de enaltecer a beleza dessa periferia que supera atribulações diversas, mas ainda sorri, cria, inventa e reinventa. É poesia.

Dizem que assassino é fruto da favela, viu?
Assassino não é fruto da favela.
Assassino é fruto da sua própria mente imbecil.
O dia é lindo e a noite é bela.
Jesus era negro, só não era na tela.
Vou cantar à vera para e vou mostrar a vocês o que é fruto da favela.
Favela tem coração, tem criança, tem rap, tem vida, tem briga.
Termina em intriga, tem oração, tem esperança que brilha e o governador?
Deixa várias favelas esquecidas.
Fruto da favela, MC Faxa

OCUPAÇÃO E RESISTÊNCIA
O recital Boca no Trombone não atrai só MCs e poetas, meninas e meninos. De outros cantos da cidade, chegam pessoas para conhecer o movimento que também funciona como espaço de fortalecimento de pautas atuais. Estudante de Pedagogia, Rayanna Maria, diz que assiste às batalhas por uma questão de “identidade e autoafirmação”. “Apesar de ser um bairro marginalizado, onde os jovens têm poucas oportunidades, o recital conseguiu se organizar e ocupar o território com arte e poesia”, diz ela, que mora em Olinda e precisa pegar duas conduções para chegar a Água Fria, considerado um dos bairros com altos índices de criminalidade, que entrou para a lista de prioridades do Pacto Pela Vida.


Estudante de Pedagogia, Rayanna Maria. Foto: Maria Helena

Nem todo mundo, porém, apoia a presença do movimento no Alto do Pereirinha. Nos últimos tempos, o recital vem sofrendo com a insatisfação de alguns moradores, que estranham a chegada de gente de fora e se incomoda com o burburinho gerado pelas conversas. “A gente não se incomoda que eles recitem até umas 22h. O que a gente não quer é a aglomeração que fica mesmo depois que termina”, reclama a balconista Ana Carolina, viznha da “pracinha” onde o encontro acontece. Um desentendimento por motivos pessoais entre dois participantes do recital gerou mais resistência na comunidade. Por isso, desde agosto, o encontro foi transferido para o Campo do Barreirão, provisoriamente.

Na última terça (19/12), os jovens tentaram usar o local de origem do recital, mas foram mais uma vez questionados por uma moradora. Para evitar mais conflitos com a comunidade, o grupo seguiu em direção ao Campo do Barreirão, situado numa área mais acidentada em uma comunidade que, apesar de ter 60 anos de existência, ainda convive com esgoto a céu aberto. A aposentada Cleonice Gomes conta que foi uma das primeiras moradoras do local. É a primeira vez que ela teve um contato mais direto com poesia e aproveitou o intervalo da novela para espiar da janela. O único cuidado de Cleonice é com as roupas penduradas no varal, instalado no campo. Aos 60 anos, Cleonice, que pariu 23 filhos (metade morreu) e tem mais de 100 netos, nem sempre consegue acompanhar a celeridade das rimas. Sua existência preta serve de inspiração para os versos que são declamados ali. Talvez por isso, por sentir sua voz representada, enquanto os moradores mais abaixo afastam o movimento, ela torce justamente pelo contrário. “Esse lugar não tem nada. Espero que eles continuem por aqui. E, por mim, amanheciam o dia.”

Para lidar com a situação sem gerar mais conflitos, o recital tem recuado e intensificado o diálogo com os moradores, ouvindo as reclamações e conscientizando os participantes sobre a necessidade de manter a área limpa e evitar consumo de substâncias ilícitas. Outra medida foi começar a levar o recital para outros espaços da cidade, a fim de conquistar mais reconhecimento fora e, por consequência, ganhar mais valorização com a vizinhança.

No próximo sábado (23/12),uma parceria com a ONG Fase marca o retorno oficial do recital para a praça onde nasceu. O Festival da Juventude Periférica: Colocando a Boca no Trombone vai realizar um dia inteiro de ações que incluem apresentações musicais, rodas de conversa com o Coletivo Cara Preta, oficinas, feira com artesãos e artesãs locais, além do recital e da batalha de MCs. A iniciativa é parte do curso Juventude e direito à cidade, que discute temáticas urbanas a partir de um recorte racial. Confira a programação completa aqui.

“Essa ação é uma oportunidade de tentar mudar as opiniões negativas no Alto do Pereirinha. Trazer outras visões sobre o nosso movimento ajuda no fortalecimento e sobrevivência, principalmente porque somos muito respeitados em outros espaços. Mas sentimos a necessidade de aceitação dentro da nossa comunidade”, ressalta Maria Helena, uma mulher branca, cursando a segunda graduação, que atua como professora de inglês, mas assume os privilégios que teve acesso e os usa em prol de uma causa que impacta diretamente na vida de jovens, a maioria negros, moradores da periferia. O recital Boca no Trombone os tira da margem e os coloca no centro, num movimento que se alimenta e reinventa a partir de uma realidade que é retrato da falta de oportunidades e educação. Neste sentido, o recital também liberta e ajuda a exorcizar dores.

A FORÇA DO GRITO
O black power da estudante Débora Léa exibe uma forma cresposamente arredondada. Parece uma escultura enquanto equilibra a madeixa volumosa. A poeta de 21 anos, assídua no recital, é moradora de Sítio das Palmeiras e foi vítima de racismo na última sexta-feira (15/12), quando estava em uma casa de shows da centro da cidade e um homem branco puxou seu cabelo “por curiosidade”. “Ele simplesmente agarrou com as duas mãos e bastante força, puxou pra frente e empurrou pra trás, ficou todo sorridente depois de ter feito e isso e ainda mordeu a boca. Eu nem acreditei no que tinha acontecido”, contou em seu relato, numa rede social. No texto, ela fala sobre o constrangimento que a fez passar “o resto do baile sentada e morgada”.

Encorajada por amigo, que conseguiu identificar o perfil do agressor, Débora fez um segundo post expondo suas imagens. Embora a maioria dos comentários fosse de apoio e revolta em relação à denúncia, a exposição do caso na internet também revelou outras formas de racismo e rendeu muito debate e, portanto, desgaste emocional. O agressor alegou não ter sido um ato racista “porque já namorou com mulheres negras” e, desde que teve sua identidade exposta, envia mensagens tentando justificar o injustificável.


Débora Léa. Foto: Maria Helena

Na penúltima terça do ano, subir o Alto do Pereirinha pela primeira vez, após àquela sexta fatídica, representou mais um ato de resistência da jovem, que é autora da poesia Um grito silenciado, escolhida por ela para recitar no Barreirão. No final, teve lágrimas para lavar. Que sua voz nunca mais seja abafada. Bota a Boca no Trombone, Débora:

Um grito silenciado

Cuidado! Muito cuidado
Eles te querem calado, amuado
Relaxado e conformado com as migalhas desse estado

Eles quase me calaram
Por meses peguei a caneta
Mas era como se tivessem silenciado
O peso de ser uma preta

Peso esse que deve ser exposto
Pro mundo inteiro ver, se ajoelhar, se curvar
E assumir que disso nunca vai sofrer

Fingem ter consciência
Mas na primeira oportunidade mostram o contrário
A mina branca não vai exitar em disputar o preto que paga de otário
Trocando a quem mais o ama no mundo e passando pro lado adversário

Sei que vocês não têm culpa do que os seus antepassados fizeram
Mas o mínimo seria assumir seus privilégios
Inúmeros privilégios, assumam que estão SEMPRE em vantagem
Não porque somos fracos, mas sim porque sua raça foi e é covarde

Trancaram-se dentro de uma bolha
Criaram um mundo à parte
Alienaram até o meu povo
Fazendo-os achar que conseguiram a “liberdade”

Olhem as faculdades e enxerguem sua onipresença
Vocês estão em todos os lugares
Mas nos subcargos vocês não marcam presença

E mais uma vez, volto a dizer

NÓS NÃO SOMOS FRACOS

Apenas damos 100 passos
Para alcançar o que já lhe foi dado

Resistimos todos os dias contra esse sistema opressor
Que não quer de forma alguma
Ver um preto doutor ou professor

Minha militância não foi opção
Eu não escolhi militar
Apenas exponho tudo o que vocês me sujeitam a TODOS os dias passar

Pretos
Unam-se
Nossa pele eles querem clarear
Já que não nos tiraram da nossa mãe África
Temos que um pelo outro lutar
Em qualquer lugar.

LENNE FERREIRA, filha de Luciana, preta e favelada. Afoita como a mãe. Jornalista, feminista e produtora cultural.

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