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Zé Negão, o baluarte do coco de senzala

A história do mestre de cultura popular que mantém, em seu Canto das Memórias, um subgênero do coco herdeiro do povo negro escravizado e que não existe em nenhum outro lugar do país

TEXTO EDUARDO MONTENEGRO
FOTOS CHICO LUDERMIR E JONATHAN LIMA

19 de Março de 2018

O mestre Zé Negão na entrada do seu espaço cultural, em Camaragibe/PE

O mestre Zé Negão na entrada do seu espaço cultural, em Camaragibe/PE

Foto Jonathan Lima

[conteúdo complementar à reportagem sobre a cultura de Camaragibe]

Eu tenho saudade de um povo
Guerreiro e trabalhador
Eu tenho saudade de um povo
Guerreiro e trabalhador
Na frente da casa grande
Tem um tronco de jaqueira
Era onde amarrava negro
Pra sofrer a vida inteira

Para entender o mestre Zé Negão e o coco de senzala, faz-se necessário um regresso à sua própria história. Descendente de escravos e indígenas, por parte de pai e mãe, respectivamente, o nascido José Manoel dos Santos viveu parte de sua vida em sua terra natal, Goiana, cidade da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Foi lá que encontrou suas raízes na música e, mais especificamente, na manifestação popular de um coco que faz perpetuar em uma das ruas de pouco asfalto do Loteamento João Paulo II, em Camaragibe (Região Metropolitana do Recife), através da sambada do Laboratório de Intervenção Artística - Laia, coletivo que trabalha em prol preservação e difusão das culturas populares em Camaragibe. “O bom da sambada é que o povo ainda tem uma filosofia de que os artistas somos todos, todos nós somos loucos por arte e música. É uma oportunidade da gente se conhecer. A hora de fulano de tocar uma música, cantar, é agora. Tirar a timidez”, define o mestre, de 67 anos.

Desde menino, trabalhou na usina de Goiana, na zona rural. Ainda que tivesse teatro e cinema, o dinheiro que recebia não dava para assistir ou ouvir peças e filmes: nas vezes em que ia, recorda-se de ver, ao pé da tela, músicos tocando ao vivo a trilha sonora dos filmes, indicando ser esta uma de suas referências musicais. “Eu também ficava na janela de um terreiro, vendo tocar, ensaiar, na Rua do Arame. Eu morava no Rua do Tanquinho, mas esse negócio era no Arame. Lá tinha o Forró do Preá também”. A cada final de semana, no local, tinha algo diferente, como ensaio de maracatu, coco e o forró pé-de-serra, segundo conta o mestre.


Foto: Jonathan Lima

“E tinha também o Xangô de Seu Luís, era onde eu ia comer mungunzá. Eu aprendi assim, vendo. Fim de semana, sexta-feira de noite, ia pro centro de Goiana pra ver as bandas Saboeira e Curica. Goiana era rica de cultura. Eu aprendi vendo essas coisas, mas naquele tempo, no coco, menino de menor só podia ficar até nove horas, tinha uma ordem. E quando chegou um tempo de participar, era o meio que eu tinha de me divertir e aprender. Escola de música dificilmente tinha”, relata.

Nos tempos de juventude cronológica – visto que o mestre ainda carrega uma aura jovem –, Zé Negão relembra que os instrumentos eram caseiros: alfaia, atabaque, gonguê de coco do Pará, bambu. Isso acontecia “porque ninguém podia tirar material da usina pra fazer um ganzá, e dinheiro não tinha”, explica o percussionista. Embora fossem instrumentos grosseiros, rústicos, a sonoridade que produziam era única e bela, pelas palavras de Negão – como gosta de ser chamado. “Eu ficava olhando como era. Um homem canta e as mulheres respondem, mas só um homem canta. Os outros ou tocam, ou dançam. As mulheres tiravam os homens para dançar, porque naquele tempo era a mulher quem chamava. A musicalidade era feita por um, que a turma chama de mestre”, narra José dos Santos.


Foto: Chico Ludermir

COCO DE SENZALA
Eis que a história do coco de senzala remete aos tempos de engenho: quando os escravos conseguiam uma boa fatura (e fartura), o senhor do engenho permitia que acontecessem as rodas de capoeira e de coco. Entretanto, segundo conta mestre Zé Negão, nem todos poderiam participar da capoeira – e foi dessa impossibilidade que surgiu o coco de senzala.

Quando desceu sobre o Brasil o golpe militar, em 1964, o mestre lembra o silêncio que impregnou-se nas ruas. Ensaios de maracatus, rodas de capoeira e rodas de coco já não mais aconteciam nas cidades. “Porque aquele coco incomodava”, acrescenta, como a letra no início deste texto, de sua autoria. “Então, praticamente o coco de senzala ninguém conhece. A roda de capoeira de hoje é uma capoeira de rua, não tem aquela capoeira de Angola, que dançavam na ponta do pé e a gente ficava encantado. Tem Angola, mas não é a que tinha”, ensina.


Foto: Chico Ludermir

É daí que tenta fazer um resgate “pra gente se divertir”. “Quando morei na Torre, pelo lado de Casa Amarela, fiz na casa dos outros. Aí depois que a gente fez o espaço aqui, ficou melhor de mostrar como acontece. A gente dá oficina e tem os jovens que passaram a entender o que estou repassando”, diz o percussionista. Em Camaragibe, possui aquele espaço desde 1988, quando começou ainda como Projeto Negão.

CANTO DAS MEMÓRIAS
Seu Canto das Memórias, portanto, faz jus ao nome que recebe: um canto da história de Zé Negão, baluarte da cultura popular expressa nas batidas do coco dos africanos escravizados. Graças ao Laboratório, um coletivo de revitalização da cultura popular em Camaragibe, ele conseguiu expandir o seu trabalho para fora do Brasil, tendo visitado a Alemanha para espetáculos, permanecendo lá por um mês. Segundo conta, só parou pra descanso no dia em que chegou e no dia da partida. Já passou semanas no Rio de Janeiro e em São Paulo, porém poucas vezes tocou em eventos oficiais da cidade onde mora.

A última vez em que se apresentou oficialmente em Camaragibe foi no São João de 2017, tendo sido o homenageado da festa. Mas também leva o coco de senzala para fora de seu bairro, visitando escolas, ou recebendo-as em sua casa. “Lá em cima, no palco, tem oito seguranças no pé do palco, quando fui homenageado, pedi nenhum segurança, porque eu desço. E eu desço pela frente, porque vou pro meio do povo, começo em cima e desço, é diferente. O espetáculo só é bom assim.”


Sambada do Laia. Foto: Jonathan Lima

A Sambada do Laia acontece esporadicamente através de seis edições por ano, em homenagem aos mais velhos que levam adiante as ações do Laia. Atualmente, Zé Negão e os integrantes do seu coco começam a trabalhar na produção do seu primeiro disco, chamado Tumbeiro, pois era assim que se chamavam os pequenos navios que traziam os escravos da África para o Brasil. Segundo o percussionista, estão ensaiando e ajustando as melodias, enquanto trabalham de forma independente, sem patrocínio. Como canta em sua música, mestre Zé Negão honra sua gente, “um povo guerreiro e trabalhador”.



EDUARDO MONTENEGRO é estudante de Jornalismo da Unicap, estagiário da Continente e morador de Camaragibe.

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