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Entrevista

“Sinto que a experiência urbana na Ásia é única”

Curadora e artista australiana Ulanda Blair mapeia a nova paisagem artística asiática, a partir das urbanidades presentes em mostra de audiovisual contemporâneo na Cinemateca de Hong Kong

TEXTO Camilo Soares

25 de Outubro de 2017

Ulanda Blair, curadora e artista

Ulanda Blair, curadora e artista

Foto Divulgação

Quando deixou sua isolada terra natal no meio do deserto de North West Victoria, remota região da Austrália, Ulanda Blair fez uma obra chamada Grande peixe, pequeno peixe, misturando largas impressões fotográficas, ossos de peixes descorados e latas de sardinha enferrujadas, para expressar seu sentimento de peixe fora d’água na grande Melbourne. O mundo girou, até que os estudos e o trabalho de curadoria a sopraram a um lugar de refúgio no vasto oceano das Artes, onde aprendeu a nadar nas águas revoltas dos grandes centros urbanos, e apreciar sua irrequietação.

Depois de trabalhar para o Centro Australiano de Imagem em Movimento (ACMI), Ulanda mora hoje em Hong Kong, na China, uma das cidades mais densamente povoadas do mundo. Mesmo assim, parece não ter esquecido seus trajetos e experiências quando observa as expressões espaciais nas obras contemporâneas. Prova disso é a curadoria que acaba de fazer para a mostra M+ screenings: City limits, organizada no último agosto, pelo Museu do Distrito Cultural do Leste de Kowloon, o M+, na Broadway Cinemateca de Hong Kong.

Destrinchando a percepção de limites concretos e afetivos das cidades de hoje, Blair observa o impacto do avanço urbano sobre a paisagem da Ásia e sua população, através de filmes contemporâneos. Para a curadora e artista, as obras escolhidas, que trafegam entre o cinema e a videoarte, expandem narrativas espaciais e levantam questionamentos a partir da centelha criada por seus contatos: “Fazer uma curadoria é essencialmente contar histórias”, costuma dizer.

Foi puxando o novelo do tempo que Blair desfiou histórias para revelar o espaço asiático contemporâneo por meio de obras em vídeo selecionadas para a mostra City limits. Fio que conduz até 1895, à aurora do cinema e suas cenas da vida moderna dentro de seu habitat, a cidade – como em A chegada do trem na Estação Ciotat ou A saída dos trabalhadores da fábrica Lumière em Lyon, ambos dos irmãos Lumière.

Os filmes da mostra dialogam também com as sinfonias urbanas das vanguardas da década de 1920, que exaltavam o ritmo dos grandes centros e da vida urbana, só que, agora, com um olhar mais crítico. Finalmente, a mostra sai do cinema propriamente dito e costura relações com outras linguagens, como os primeiros passos da videoarte, nascida dessa percepção urbana, quando Nam June Paik registrou, com sua câmera Sony, dentro de um táxi, a confusão do trânsito de Nova York decorrente da visita do Papa Paulo VI.

Ora os filmes acenam para referências, ora reafirmam suas diferenças, mas a experiência urbana prevalece como força motriz do conjunto que desenha um longo diálogo entre a cidade e a história do cinema, sem perder de vista a originalidade de novas abordagens. É verdade que os filmes da mostra traçam, em geral, um desenho mais sombrio e melancólico da paisagem urbana atual, revelando que a utopia citadina não convence mais esses jovens artistas, embora não caiam na crítica estereotipada da pós-modernidade, apontando também para a capacidade de adaptação dos habitantes dessas metrópoles globalizadas.

CONTINENTE Por que você enfatiza o tema de limites para falar sobre os impactos urbanos atuais na China e na Ásia? De que tipos de limites você fala?
ULANDA BLAIR Muito do programa do M+screenings: City limits é sobre o espalhamento urbano e como tais limites entre país e cidade estão se tornando extremamente porosos. A forma e o sentimento das cidades também mudam quando migrantes chegam do interior para as cidades, em busca de oportunidades. Ao mesmo tempo, o novo ambiente urbano tem um inegável impacto sobre esses recém-chegados, que acham frequentemente meios inovadores de adaptação. Filmes como San Yuan Li [dirigido por Ou Ning, Cao Fei e coletivo U-theque], Post, pause [de Jiang Zhi], Living elsewhere [de Zang Jianwei] e Diamond Island [de Davy Chou] expressam tais estrangulamentos e amoldamentos.



CONTINENTE Esse esfacelamento de limites internos acompanha a rápida escalada da economia globalizada nesses países?
ULANDA BLAIR A ideia de limites da cidade veio também pelo impacto transnacional da urbanização nas economias liberais da grande Ásia. Filmes como Made in Myanmar, de Lee Wan, e Thereshold, de João Vasco Paiva [filme do artista português que “apaga” todos sinais e propagandas da visualmente caótica Hong Kong], tratam desse impacto. Para esses artistas, urbanização não é apenas um assunto local, mas, sobretudo, algo que acontece através de uma complexa dinâmica entre o local e as forças econômicas internacionais.

CONTINENTE Qual o impacto dessas mudanças sobre as pessoas comuns?
ULANDA BLAIR O termo “limites da cidade” fala do impacto que a urbanização tem sobre nosso sentimento de individualidade, sobre nossas narrativas pessoais e nossos modos de estar no mundo. Concert Hall de Zheng Daoxing, dirigido por Xu Tan, é sobre efeitos específicos da modernidade nos indivíduos; Ink city, de Chen Shaoxiong, relata o papel da mídia na modelagem da experiência urbana moderna, enquanto One day (Guangzhou), de Zhou Tao, considera a erosão da privacidade e de lugares pessoais na China contemporânea.


Cena de Ink city, de Chen Shaoxiong. Imagem: Frame do vídeo

CONTINENTE Você, que é australiana, acha que tais impactos urbanos são um fenômeno global, ou há uma particularidade asiática?
ULANDA BLAIR Fui criada numa cidadezinha do interior, isolada no deserto, antes de me mudar para Melbourne, na adolescência. Acho que a urbanização é uma condição global com idiossincrasias locais. Na Ásia, a urbanização acontece numa velocidade jamais vista. O crescimento de concentração de pessoas impõe um desafio fundamental de provisão de oportunidades econômicas, de desenvolvimento de infraestrutura adequada, de habitação decente e preservação de um meio ambiente saudável. Em cidade mais pobres, uma proporção significativa da população é comumente forçada a viver em casas insalubres, em áreas de alta vulnerabilidade a desastres naturais. Em busca da vida, de Jia Zhangke, e The Chinese mayor, de Zhou Hao, tratam de alguns desses problemas. Claro, tais experiências de urbanização podem ser achadas em outras partes do mundo, como no Brasil, mas sinto que a experiência urbana na Ásia é única. Mais do que isso, a experiência do local dentro de países asiáticos é também única. Cada país tem seus próprios sistemas sociais, políticos, econômicos, educacionais, legais e midiáticos, que são afetados pela urbanização de distintas maneiras.


Cena de The Chinese mayor, de Zhou Hao. Imagem: Frame do vídeo

CONTINENTE Em M+ screenings: City limits, não há distinção entre cineastas e artistas visuais. Você acha que os limites entre esses campos estão hoje borrados, ou é apenas um sinal da sensibilização comum desses artistas com as tremendas mudanças na paisagem (e na sociedade) da Ásia ocorridas nas últimas décadas?
ULANDA BLAIR M+ screenings é uma celebração da capacidade de artistas de desafiar o cinema mainstream. O Museu M+ mantém, aliás, um forte foco interdisciplinar. Essa dissolução de fronteiras nas formas de arte está em fase com a visão do M+, mas também alinhada a expectativas e experiências de audiências locais. Há uma longa história de prática interdisciplinar em Hong Kong. Categorias rígidas de formas de arte que existem em muitos países ocidentais não são necessariamente privilegiadas em Hong Kong, e o público é geralmente bem aberto a esse hibridismo.

CONTINENTE Isso também se expande à distinção flutuante entre documentário e ficção, frisada na sua curadoria?
ULANDA BLAIR Acho que a indiscernibilidade entre ficção e documentário é uma tendência corrente no mundo da cultura visual, não apenas em Hong Kong ou na Ásia. Posso até sugerir que, nesta época de fake news, essa abordagem crítica de gêneros é o testamento da desilusão e perda de confiança dos artistas diante de supostas narrativas oficiais. Time to come [Singapura, 2017], de Tan Pin Pin, é um grande exemplo de um realizador usando a forma do documentário para desafiar reflexivamente o que esse cinema documental é e pode ser. Finalmente, as figuras de estilo surrealistas que pontuam filmes como Em busca da vida, de Jia Zhangke, e Lunar dial, de Gao Yuan, gesticulam na direção da irracionalidade da vida real e das gigantescas e repentinas mudanças que estão ocorrendo na China.

CONTINENTE O quão importante você acha que é mostrar tais filmes na Hong Kong de hoje, quando os jovens experimentam, ao mesmo tempo, a euforia do grande crescimento econômico chinês e o medo de mudanças políticas, sobretudo de perder liberdades garantidas até então pelo status de porto aberto que a ilha ainda goza depois da devolução do território à China, pelos ingleses, em 1997?
ULANDA BLAIR Com a curadoria de City limits, não estava interessada em fazer qualquer grande declaração sobre o crescimento da China como força econômica, política e social, mesmo se alguns filmes sublinhem essas narrativas. Tampouco estava interessada em apresentar a urbanização como um mal absoluto ou uma condição inumana. Espero que os filmes que escolhi apresentem as nuances e texturas da urbanização, que é uma realidade contemporânea para a grande maioria das pessoas do planeta. Tentei contrabalancear histórias de dificuldades sociais, ambientais e econômicas com momentos de resistência e positividade.


Cena de One day, de Zhou Tao. Imagem: Frame do vídeo

CONTINENTE Como é sua relação com os artistas no processo de curadoria de uma exposição ou mostra? Você se atém apenas às peças e aos filmes, ou colabora diretamente com eles na busca de sentidos em comum?
ULANDA BLAIR No trabalho para a mostra, tive que obter o direito de exibição de diferentes fontes, como distribuidores, galerias e diretamente com artistas. Alguns já são do acervo do M+, com tais direitos garantidos. Normalmente, já tenho uma temática preparada e um filme específico em mente quando entro em contato com artistas ou seus representantes. Pode haver, é claro, um pouco de diálogo sobre minhas ideias, mas raramente há tempo e dinheiro para que artistas possam fazer novos trabalhos para a mostra. Para uma exposição, o contexto pode ser bem diferente. Nosso cronograma é muito mais dilatado. No M+, por exemplo, já estamos trabalhando para nossa exposição de opening-display, que será no final de 2019. Naturalmente, quando artistas comissionados fazem novos trabalhos, há bastante colaboração e trocas de ideias. Evidentemente que cada artista é diferente, mas, normalmente, tais artistas comissionados são bem reativos a temas, provocações, espaços e situações propostos pelo curador para compor um projeto. Às vezes, um artista fica particularmente engajado com a ideia e busca discursos junto ao curador, mas outras vezes, o projeto sublinha simplesmente suas relações com outras peças expostas.

CONTINENTE Você acompanha também o cinema e a arte contemporânea brasileira e latino-americana?
ULANDA BLAIR Ainda não visitei a América Latina, mas tenho alguma experiência, mesmo que limitada, com artistas brasileiros e latino-americanos. Para a M+ screenings: Genderfluid, em abril deste ano, apresentei o filme Sérgio e Simone #2 (2007-2017), de Virginia de Medeiros [artista de Feira de Santana, Bahia]. Li sobre o trabalho de Virginia numa revista de arte e obtive alguns previews da Galeria Nara Roesler [SP]. No mesmo momento, o curador brasileiro Raphael Fonseca estada visitando Hong Kong, quando tivemos uma rápida, mas produtiva, conversa sobre o trabalho dela. Também encontrei seu galerista Daniel Roesler durante a Art Basel Hong Kong. Gostaria de incluir mais artistas latino-americanos em futuros eventos da M+ screenings. Gosto bastante dos trabalhos em imagens em movimento do Cao Guimarães. Temos já um punhado de artistas latino-americanos representados na Coleção M+, incluindo peças de Abraham Cruzvillegas, Alfredo Jaar e Gabriel Orozco. 

CAMILO SOARES, fotógrafo e professor de Cinema da UFPE. Foi recentemente ao Congresso em Macau, da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL).

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