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Entremez

Guita Charifker: o mistério e o perigo

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

06 de Novembro de 2019

Aquarela de Guita Charifker, 2011

Aquarela de Guita Charifker, 2011

Imagem Reprodução

Na biografia da artista plástica Guita Charifker, consta uma prisão durante a ditadura militar. Na época, ela criava para o Teatro Popular do Nordeste (TPN), dirigido por Hermilo Borba Filho. Zé Cláudio me contou os detalhes do acontecimento, mas preferi esquecê-los. Não combinam com a alegria e o brado de viva a vida da pintora. Atravessávamos tempos sombrios e difíceis como os de agora, de recusa ao conhecimento e à criação.

Em 1972, Guita expôs seus desenhos no Studius Galeria de Artes e Antiguidades, do Rio de Janeiro. Sobre eles, Walmir Ayala escreveu no Jornal do Brasil: “O mistério, o perigo em Guita Charifker é a própria matéria dos personagens figurados. Os sexos são massacrados por emblemas zoomórficos, a serpente se amolda ao pescoço como um braço, vários resíduos da memória interpretam um sonho de encarnações, no qual o homem se concentra para uma posição intocável e refletida”. Naquele Brasil governado pelo mais tirano de seus ditadores, Emílio Garrastazu Médici, a censura não deixava escapar nada. Mas os desenhos cheios de “mistério e perigo” conseguiram passar incólumes pelos censores que determinavam o que as pessoas podiam ver, ouvir e ler.

O mesmo não aconteceu agora. Finalizada às pressas para a Caixa Cultural Recife, a exposição Paisagem onírica, inaugurada em 26 de setembro de 2019, teve três obras censuradas – duas aquarelas e um desenho –, o mesmo bico de pena que chamou a atenção do crítico gaúcho. A nova censura se apresenta camuflada em defesa de valores da família e da religião, resguardada pelas instituições financeiras patrocinadoras, sobretudo órgãos públicos como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Os censores agem como se nada de errado estivessem praticando e as pessoas se comportam como se nada estivesse acontecendo. Os censores não censuram, apenas eufemisticamente sugerem. A maioria deixa passar os absurdos por inércia, cansaço ou indiferença, ou porque pactuam com os julgamentos morais e “evangélicos”.

Guita Charifker nasceu no Recife e residia em Olinda. Quando morreu em 2017, não pintava há pelo menos 10 anos. Desde que se manifestaram os primeiros sintomas de Alzheimer, passou a repetir que já pintara em excesso e que não tinha mais o que criar. O contrário do que sempre prometeu, morrer trabalhando e viver da sua arte.

Em 2001, a produtora Carla Valença aprovou pelo Sistema de Incentivo à Cultura de Pernambuco o projeto para edição de um livro e realização de três exposições: no Recife (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães), no Rio de Janeiro (Museu Nacional de Belas Artes) e em São Paulo (Pinacoteca do Estado). A pesquisa de acervo iconográfico e bibliografia coube a Margarida Dantas, as fotografias a Aderbal Brandão, a direção de arte e projeto gráfico a Dulce Lôbo e Germana Freire. Junto com Mário Hélio, assinei a edição do livro, escrevi o texto de apresentação, entrevistei a pintora e fui curador das três mostras. Trabalhamos durante mais de um ano na realização do projeto, que nos pareceu definitivo na carreira de Guita. Não sofremos nenhum tipo de restrição dos patrocinadores, governos federal, estaduais e prefeituras.

A mostra Paisagem onírica não trouxe novidades em relação ao projeto de Carla Valença. Trata-se de uma merecida homenagem à artista, que andava esquecida desde a sua morte. Também não houve um aprofundamento da pesquisa sobre Guita, nem uma boa seleção de obras, talvez pelo curtíssimo tempo em que a mostra foi montada. Roberto Ploeg, amigo da artista, descobriu entre as paisagens a óleo um quadro que não parece pintado por ela e que traz a assinatura de seu antigo companheiro, Eduardo Araújo. Brincalhão, Ploeg ironizou que Guita era tão apaixonada por Araújo, que decidiu assinar uma das suas pinturas com o nome do namorado.

Sabemos que os produtores de Paisagem onírica conseguiram os recursos do edital da Caixa depois de longa espera, que alimentavam o sonho da exposição há bastante tempo e que precisaram realizá-la num prazo bem curto, em torno de 30 dias. A Caixa Recife havia suspendido o espetáculo Abrazo, do grupo Clowns de Shakespeare, depois de uma única apresentação, sem justificativa confiável. Somente quando o jornal Folha de S. Paulo publicou matéria sobre a existência de um núcleo de censura da Caixa Cultural, sediado em Brasília, a suspensão deste e de outros eventos ficou esclarecida.

Quatro aquarelas de 2011, pintadas quando a artista já se encontrava doente, constam da mostra sem qualquer ressalva. Talvez não devessem ser expostas sem uma explicação, porque destoam das obras em que Guita se confirma uma das maiores aquarelistas brasileiras, uma criadora que foi comparada a Tarsila do Amaral e Djanira. Monet pintou alguns de seus melhores quadros quando estava quase cego. Não é o caso de Guita.

Fazer ou não fazer, eis o que nos propõe a censura do Estado. O personagem Barterbly diria: é melhor não. Galileu Galilei talvez respondesse que é preferível fazer, mesmo que se tenha de mentir. Galileu escapou à fogueira, graças à sagacidade de abjurar suas crenças. Vivo, continuou pesquisando e afirmando que a terra girava em torno do sol. Graças ao ardil, a ciência prevaleceu. Giordano Bruno, irredutível, morreu queimado.

– Decifra-me ou te devoro.

A esfinge retorna com o seu enigma de poder, violência, censura e destruição.

 

 

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