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Curtas

Chucro

A banda Dom Pescoço lança seu terceiro disco e traz leveza, humor e pluralidade de ritmos à cena independente

TEXTO Taynã Olimpia

19 de Janeiro de 2021

Os integrantes da banda: Dom de Oliveira (baixo e voz), Gabriel Sielawa (violão nylon, teclado, guitarra e voz principal), Passarinho (bateria, programação e voz) e Rafael Pessoto (guitarra e voz)

Os integrantes da banda: Dom de Oliveira (baixo e voz), Gabriel Sielawa (violão nylon, teclado, guitarra e voz principal), Passarinho (bateria, programação e voz) e Rafael Pessoto (guitarra e voz)

Foto Fernanda Baldo/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

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CHUCRO (adjetivo)
1. Não domado, bravio, esquivo (diz-se de animal)
2. Que não possui treino, especialização ou habilidade no desempenho de alguma tarefa (diz-se do indivíduo)

É ressignificando o termo “chucro” que a banda Dom Pescoço estreia seu segundo álbum. As 11 faixas foram pré-produzidas, quase do zero, durante a pandemia, em meio a uma vivência de 20 dias num sítio localizado na zona rural de São José dos Campos, São Paulo. O lançamento, fruto do Fundo Municipal de Cultura de São José dos Campos, chega agora às plataformas de streaming, dois anos após o trabalho anterior do grupo, o álbum Tropsicodelia (2018).

Chucro (2021) recebe esse título como uma forma de registrar a convivência dos integrantes da banda com as aves (em especial os gansos) criadas com tanto afeto e cuidado no sítio onde ocorreu o intensivo criativo e que pertence ao baixista da banda, Dom Oliveira. O nome veio para mostrar a dicotomia desses animais serem ao mesmo tempo "indomáveis" e "delicados" – mas, também, é um reflexo da proposta do disco, que visa trazer ares lúdicos e reconfigurar os meios tradicionais de produção musical.

Percebemos isso logo na primeira faixa – e também na última, voltando para o  encerramento –, quando numa gravação de menos de um minuto escutamos os grasnados dos gansos Amora, Buzina, Batata, Banana, Bolinha, Betinho, Betina, Dina, Manga e Rosinha, todos carinhosamente creditados no álbum. Após esse sample de introdução, segue a baladinha romântica Delicadinho, o single lançado ainda em 2020 que recebeu um videoclipe extrovertido no qual o gansinho Amora é o grande protagonista em cena.

Esse tom alegre e descontraído no criar foi concebido desde a escolha da referência inicial do projeto, o disco A Sociedade da Grã-ordem Kavernista apresenta sessão das dez (1971), de Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada, que é incorporado com muito humor e criatividade. Além de apropriar esse modelo de criação, com mais fidelidade ao se divertir e menos preso aos objetivos comerciais, outro elemento inspirado naquele álbum de Seixas foi o uso de interlúdios. Chucro (2021) é recheado deles, que trazem sátiras e tiradas cômicas, com melodias e versos produzidos em momentos de descontração entre os integrantes da banda com quase seis anos de história.

As composições foram uma colaboração entre os quatro integrantes: Dom de Oliveira (baixo e voz), Gabriel Sielawa (violão nylon, teclado, guitarra e voz principal), Passarinho (bateria, programação e voz) e Rafael Pessoto (guitarra e voz), que trouxeram suas contribuições para montar, em grupo, o escopo do álbum durante a imersão de quase um mês dedicada ao álbum. “Nós fomos construindo as composições de forma bem livre. Não houve uma diretriz em ser rítmica, a gente foi meio que deixando rolar, e as músicas foram aparecendo, nascendo e tomando forma. Tivemos um espanto e um prazer muito grande quando a gente percebeu que tínhamos as músicas do disco. Foi um trabalho difícil, complicado, mas que rolou super suave”, compartilha Passarinho, o baterista da Dom Pescoço, em entrevista à Continente.

Talvez por isso a presença da pluralidade de ritmos e temáticas, originados e lapidados por meio de uma pesquisa musical que tomou como base uma série de referências, como Kiko Dinucci, Siba, Academia da Berlinda, Gilberto Gil, Novos Baianos, além de bandas internacionais. “Procuramos trazer neste disco uma pegada mais reta em relação às músicas em si. Mudamos muito os ritmos de uma música para outra, mas dentro da própria música a gente não alterou os ritmos em si. Seguimos a linha do que a música pedia”, explica Passarinho sobre a decisão de confluir tantos gêneros musicais em um único disco.


Capa do disco tem projeto gráfico de Clayton Correa.
Imagem: Reprodução

Com gravações feitas em dois estúdios diferentes (em São Paulo e no Recife) e trabalho de mixagem executado por Alexandre Campos, as canções vão de baladas românticas, estilo love songs, passando pelo brega, e indo em encontro ao rock, ao afrobeat e à MPB. São abordados temas como romance, viagem e natureza, e também assuntos vigentes e latentes – mas sempre de forma leve. Inclusive, lançar esse trabalho em meio à pandemia foi uma estratégia para trazer acalanto em tempos sombrios de crise sanitária, política e social. “A gente gosta de tirar onda, mas de uma forma séria. Gostamos de nos sentir bem no palco, de fazer músicas que sejam divertidas, mas que, ao mesmo tempo, tragam alguma identidade própria, algum cunho político, alguma crítica social. Então falamos desses assuntos do nosso jeito”, revela o baterista.

A canção Imamaiah é um exemplo da preocupação em alinhar um discurso crítico ao trabalho musical do grupo: “Se o tempo é de caos/ Preciso saber em quem confiar”, diz a letra, ao som de batidas estilo afrobeat,  convocando nossa força interior para enfrentar este período tão encoberto por fake news e manipulação. Sobre o recado principal do disco, Passarinho me contou: “Todos nós temos essa dupla-face. A gente tem nosso lado delicado, amoroso, carinhoso, cuidadoso, mas por fora expressamos esse lado muito mais bravio, chucro. Ou o contrário! No conceito geral do disco, tentamos passar essa ideia, de estarmos sempre dispostos a entender como somos, tanto por fora, quanto por dentro. E aceitar a nossa maneira de ser. E mudar também, quando necessário”.

Com o álbum Chucro (2021), a Dom Pescoço inicia o ano trazendo uma mensagem de leveza, humor e ousadia artística. Ao mesmo tempo, levanta a bandeira de que a produção independente pode se reinventar, adaptar e persistir, mesmo em meio ao desmonte cultural em curso no país. A batalha pelo (e no) underground continua e deve ser fortalecida ainda mais. Que a música seja um dos caminhos para tal.

TAYNÃ OLIMPIA é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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