Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Crônica

'Playlists' podem ser cartas de amor

TEXTO GIANNI GIANNI

02 de Setembro de 2020

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo na íntegra | ed. 237 | setembro de 2020]

contribua com o jornalismo de qualidade

Fiz uma nova playlist para embalar minha separação; ainda hoje falava dela nas redes sociais. Durante anos, tive uma trilha sonora para términos que espumava raiva e espalhava um rastro de violência e ressentimento; pudera! Havia criado para expurgar uma paixão desgastante quando tinha uns 20 anos, dessas que o feminismo e as amigas fazem o que podem para lhe ajudar a desviar. Mas você, se achando a mais altiva das ninfas, mete a cara assim mesmo para depois recolher os cacos.

Essa lista antiga de canções começava com Judiaria, de Lupicinio Rodrigues, e acabava com Faixa seis, de Sérgio Sampaio. Era boa para ouvir comendo brigadeiro, se acabando de chorar, confabulando soluções mágicas para o romance fracassado e, ao mesmo tempo, desejando uns prejuízos para o sujeito – daqueles que a gente pensa, mas não diz.

Como é de se esperar de uma trilha de despedida amargurada, ela também convidava a tomar um porre. Para minha sorte (ou, talvez, azar), sou do time que não mistura dor de cotovelo e álcool, recorro tão somente à catarse da cantoria e da dança, além de colocar minha terapeuta para trabalhar dobrado. A minha tara é superar qualquer deep shit de cara.

Com a idade, os métodos de sobrevivência ao coração partido vão se ajustando. Acupuntura, delivery de comida boa, meias quentinhas, velas e orações. Em vez de cortar o cabelo às pressas, fazer faxina e mudar os móveis de lugar. As canções também se adequaram, afinal, foi-se o tempo do inconformismo fatalista; bem-vinda melancolia brutal temperada com este sopro de fé na vida.

Treze faixas com aquele teor cafona da maturidade, começando por Novamente, na voz de Ney Matrogrosso; passando por Acontece, de Cartola; Parei querer, interpretada por Ceumar; Se a fila andar, na versão de Beth Carvalho; Não me arrependo, esse cristal que só Caetano mesmo. Umazinha para espezinhar um pouco – Você perdeu, destilada por Bethânia –, já que nem toda minha sagrada evolução mudou a franca realidade: sou uma pessoa de temperamento colérico.

Eis a compilação curtinha, apenas 44 minutos, ressoando o mal-estar pacificado de saber que flores existiram, mas que não resistiram a vendavais constantes. Tudo bem.

Quando dividi minha sequência musical com um amigo, que fez questão de sublinhar a pieguice, ele recordou seu velho hábito de preparar playlists para as mulheres por quem se apaixonava. Confessou que algumas delas nunca chegaram às suas destinatárias. Relembramos, então, esse velho clube: o dos que faziam a corte ou se declaravam gravando CDs ou preparando um pen drive sob medida para a paixão da vez. Herdeiros dos rituais da fita cassete.

A lembrança mais recente que tenho dessa prática é de 2013, foi do tempo que morei em Dublin. Preparei um pen drive com artistas brasileiros para um professor irlandês que era muito ligado em música. Não obtive sucesso no flerte, e descobri mais tarde que o moço era comprometido com uma venezuelana que trabalhava na recepção da escola. Eu não sabia, já que ele era bastante discreto, e não tenho certeza de que ele entendeu que aquilo era uma paquera.

Depois disso, fazendo jus ao clichê de um sol em câncer e como exercício ficcional, lembro apenas de elaborar playlists para o meu casamento com pessoas com quem jamais me casarei. Mas este já é outro assunto. No Spotify, há apanhados musicais a partir de todo tipo de proposta. Do que estou saudosa, porém, é da playlist que é carta íntima.

No colégio e na graduação, presenteei amigos com produções criteriosamente concebidas. Existiam basicamente dois métodos: reunir as canções que performavam as coisas que eu gostaria de dizer, e, neste caso, não eram obrigatoriamente consideradas as preferências musicais do interlocutor; ou organizar descobertas ou sons que eu imaginava que a pessoa não conhecesse e que sabia que ela iria gostar. Uma época em que a minha relação com a música era muito diferente; eu era rata de lançamentos e artistas obscuros, me envaidecia de poder apresentá-los às pessoas ao meu redor.

Nessa brincadeira, criou-se a trilha sonora de grandes amizades, preparei CDs para amigos viverem suas fossas (nem sempre bem recebidos por quem não queria se abraçar com a dor), conquistei alguns amores. É verdade que quase estraguei algumas composições importantes, deixando que elas se contagiassem excessivamente pelas experiências. E se há um cuidado, um critério, na prática de se fixar canções em memórias ou de ofertá-las é este: há músicas que, se quisermos preservá-las de qualquer mácula, não devemos dedicar a ninguém.

Ainda hoje, é muito gostoso ser associada às canções que ofereci às pessoas que amo. Outro dia, uma amiga que deveria ser 6º ano no colégio, quando eu já estava no ensino médio, contou que, em uma das poucas interações que tivemos na época, eu disse que ela precisava ouvir Nação Zumbi logo. Nós nos aproximamos muitos anos depois, pelas vias da vida acadêmica e do Twitter, e eu não tenho vestígio de lembrança dessa situação. O diálogo, no entanto, condiz com a minha arrogância professoral. Pior que eu raramente escuto Nação Zumbi, embora fosse uma das bandas que constava no pen drive do professor irlandês.

Verdade é que, de tudo que a minha playlist de término poderia me dar, eu não contava com tantas recordações das playlists dos inícios, destas que foram as minhas melhores cartas de amor.

GIANNI GIANNI, jornalista, escritora e arteterapeuta em formação.

Publicidade

veja também

Morte, memória e perdão: três momentos da quarentena

“Ele vai sentir na gaia o mal que faz ao povo”*

Azul, vertiginosamente azul

comentários