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Comentário

Sete livros independentes para prestarmos atenção

Das histórias dos vendedores de ostras do Maranhão à rotina conturbada de um botequim no Congo; de um relato autobiográfico pornô-químico aos mistérios narrados em crônica por um juiz criminal

TEXTO MARIANA FILGUEIRAS, DO RIO DE JANEIRO

20 de Agosto de 2018

Imagem do livro 'Ostreiros'

Imagem do livro 'Ostreiros'

Foto Bruno Azevêdo e Ana Mendes/Divulgação

É impossível voltar de qualquer evento literário com a sacola vazia. Salão de livro, café literário, festa, bienal, feira, não importa. Há de se carregar peso. Na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que tomou praça no final de julho, no Rio de Janeiro, as tantas editoras independentes espalhadas pelo evento mostraram que divertido mesmo era garimpar seus livros, evitando as filas e os preços das grandes casas editoriais. E lá estavam gratas surpresas: publicações originais, de edições bem casadas e enriquecedoras para qualquer biblioteca, mas pouco notadas pelos jornalões, escondidas pela academia e com pouco trânsito pelos algoritmos. Eis aqui uma lista de sete obras que encontrei na Flip e que fazem boa cama com leitores curiosos.

COPO QUEBRADO | FICÇÃO
Alain Mabanckou (Editora Malê)



O autor franco-congolês Alain Mabanckou dá um panorama da vida comezinha do Congo ao sentar o seu protagonista num bar e deixá-lo a anotar as histórias dos frequentadores do estabelecimento. O bar se chama O Crédito Acabou e o tal escrevinhador, Copo Quebrado. A Editora Malê chama a obra de “farsa metafísica”; o autor, de “pintura social de África”. O livro tem estrutura simples e acolhedora: o espaço mais transcendental que existe, o botequim, um protagonista que fica de pé sem cair, e histórias que apresentam todo um imaginário congolês sem reforçar um certo clichê de oralidade. Para Copo Quebrado, “palavras escritas são fumaça negra, xixi de gato selvagem”. Disponível aqui

TESTO JUNKIE | ENSAIO
Paul B. Preciado (N-1 Edições)



Este é, sem dúvidas, o livro que mais me trouxe novidades do mundo nos últimos tempos. Já havia lido um trecho dele numa edição antiga da excelente revista Piseagrama, mas foi na Flip, sacolejando dentro do barco da Flipei, uma escuna transformada em livraria, que pude pegar a edição, virá-la de cabeça para baixo, até decidir levá-la para casa. Primeiro, é preciso que se saiba que estamos numa era farmaco-pornográfica. E o que é isto? O sexo movido a estimulantes, a beleza repousada em toxinas, o sono induzido por medicamentos, os corpos açodados pelas indústrias, das pornográficas às farmacológicas. E como essa engenharia alimentada pelo capitalismo afeta nossa sociabilidade? Deixa que Paul B. Preciado te conduza nessa viagem, através da sua história pessoal, quando decidiu fazer um experimento político com o próprio corpo. Leia aqui

SEIVA VENENO OU FRUTO | POESIA
Julia de Carvalho Hansen (Chão da Feira)



Quem ainda não assina a newsletter do Caderno de Leituras, da editora Chão da Feira, faça isso já. Por e-mail, a editora manda os cadernos para baixar – uma coleção de ensaios breves ou de rara circulação. No corpo editorial, está a editora-assistente e poeta Julia de Carvalho Hansen, que lançou pela casa o livro de poesias Seiva veneno ou fruto, em 2017. Julia participou intensamente da Flip 2018, tanto na programação principal quanto nas mesas paralelas, e levava consigo um punhado das seivas: uma reunião de 27 poemas que escreveu no tempo em que viveu em Portugal. Se numa Flip antiga descobri a poeta mineira Ana Martins Marques, na Flip passada descobri a poeta pernambucana Adelaide Ivánova, nessa achei Julia de Carvalho Hansen, e a pus a morar com as outras na minha estante.

Quando ouves um estalo
na madeira do teto
ou dentro do plástico da televisão
reconheces, portanto,
um pistoleiro vindo de poncho te matar
para nos levar a um petroleiro se aproximando
ou a cavalgada que os franceses chamam enjambement
abro bem os olhos e vigio que os estalos são asteriscos
que pairam no ar
restos de corpos mortos sendo tragados pela terra
essas simples lufadas da matéria se arranjando

Mais versos aqui

OSTREIROS | NÃO-FICÇÃO
Bruno Azevêdo e Ana Mendes (Pitomba)


Um dos autores desse livro e também um dos editores da Pitomba, Bruno saiu de São Luís, no Maranhão, para mostrar suas publicações na Flip. Ocupava uma das bancas da Casa do Desejo – que reuniu cerca de 20 editoras independentes e coletivos literários em Paraty – e abordava o público de maneira absolutamente sedutora (Bruno, já pensou em virar um YouTuber? Pois devia). Saímos de lá com uma penca dos seus livros, que incluíam uma tese de doutorado sobre o reggae contemporâneo no Maranhão; um ensaio sobre a literatura “mela-sunga” brasileira, tema ignorado nas academias, apesar do séquito de leitores; e Ostreiros, que escolho para comentar aqui. Nessa obra, na qual reúne um ensaio fotográfico e uma apuração cheia de fôlego, Bruno e Ana contam as histórias dos ostreiros que trabalham na Ilha de Marajó. Uma classe trabalhadora típica do local, “toda uma malha de sentidos derivada da perspicácia e da imaginação popular, com sua capacidade de criar melodias, figurinos e trejeitos”. Um relato cartográfico-poético potente e sensível, a falar de corpos, cantos, origem e trabalho. “O que temos em mãos, em fotografias e textos, é um esforço eficiente na construção narrativa que transforma pregoeiros da praia em protagonistas genuínos”, escreve Josoaldo Lima Rêgo, na orelha. Vale mencionar que a capa do livro imprime a mesma textura do isopor que carregam os ostreiros. Renda-se aqui

O PESO DO PÁSSARO MORTO | FICÇÃO
Aline Bei (Nós)



Um romance de formação que mais inventa do que repete vidas. Primeiro livro da paulistana de 31 anos, O peso do pássaro morto é daquelas prosas cuja leitura exige marcha a ré. Só para saborear de novo as mesmas cenas, frescas e originais, a narrativa poética a levar o leitor pelas mãos, pelos olhos, pelas lembranças. A trama acompanha uma personagem dos 8 aos 52 anos que acumula perdas ao longo da vida, até entender que não há cura para tantos vazios. Mas faz isso olhando tudo ao revés, e em versos, inundando aquele universo de melodia. Uma deliciosa estreia. Descubra aqui

ENTRE SALAS E CELAS | CRÔNICA
Marcelo Semer (Autonomia Literária)



Geralmente o cronista brasileiro faz seus textos a partir das andanças pela cidade, entre as redações de jornais e livrarias, bares, padarias, estádios de futebol, rodas de samba e esquinas. Se pega um ônibus lotado, um cemitério cheio, uma fila de banco, uma antessala de consultório, tudo pode virar crônica. Se pega até uma boa sequência de postagens de redes sociais, pronto, disfarça a falta de rua com boas sacadas e ali já arremata uma crônica. E se o cronista fosse um juiz criminal? Um juiz que passa os dias sentado numa cadeira de tribunal, tendo as ruas todas a entrar e sair da sua sala, com seus problemas, crimes, penas, injustiças, arrependimentos e imponderáveis a passar por ele? Foi o que me chamou a atenção neste livro: um juiz decide transformar os casos que passa por suas mãos em matéria literária e o resultado é bastante instigante. Inspirado nos personagens que passaram por suas audiências, Marcelo Semer lembra o caso do bilheteiro de cinema pornô fanho que foi testemunha-chave de um crime; a vítima que sobrevive a uma faca enfiada na garganta; o “bom ladrão” que alerta a polícia sobre a fuga do preso que assistia à audiência; o preso que testemunha inerte ao infarto de sua mãe no próprio interrogatório. A edição merecia uma revisão mais acurada, mas o mais importante está lá: um autor cheio de histórias para contar. Entre por aqui

O CORPO DESCOBERTO | CONTO/ANTOLOGIA
Eliane Robert de Moraes (Cepe)



Depois da Antologia da poesia erótica brasileira, reunião de poemas que mostram que todo escritor brasileiro já arriscou, mesmo que sem publicar, alguma poesia erótica, Eliana Robert Moraes lança, pela Cepe Editora, O corpo descoberto. Na antologia de contos eróticos brasileiros, uma reunião que vai de 1852 a 1922, ela conclui que até o modernismo, a prosa erótica era um “império da alusão” – “Pouco para os olhos, mas muito para a imaginação”, como quis Machado de Assis. Entre o Império e o limiar da República, escritores como Olavo Bilac, Lima Barreto, Inglês de Souza, Aluísio Azevedo, Valentim Magalhães ou Afonso Arinos experimentaram musas imaginárias e transcreveram sonhos acalentados de seus personagens. A surpresa fica por conta da única mulher da coletânea, o que reforça a sua importância histórica: Júlia Lopes de Almeida. Veja aqui

MARIANA FILGUEIRAS, jornalista, mestranda em Literatura pela UFF.

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