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Traidores e heróis: as duas faces da fundação política

TEXTO Bruno P. W. Reis

01 de Agosto de 2015

Imagem Indio San

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 176 | ago 2015]

O país estava maduro para a rebelião. Algo, obstante, falhava sempre: algum traidor havia no conclave. Fergus Kilpatrick havia encarregado James Nolan da descoberta desse traidor. Nolan executou sua tarefa: anunciou em pleno conclave que o traidor era o próprio Kilpatrick. Demonstrou com provas irrefutáveis a verdade da acusação – os conjurados condenaram à morte seu presidente. Este assinou sua própria sentença, mas implorou que seu castigo não prejudicasse a pátria.

Então Nolan concebeu um estranho projeto. A Irlanda idolatrava Kilpatrick, a mais tênue suspeita de sua vileza teria comprometido a revolta; Nolan propôs um plano que fez da execução do traidor o instrumento para a emancipação da pátria. Sugeriu que o condenado morresse pelas mãos de um assassino desconhecido, em circunstâncias deliberadamente dramáticas, que se gravassem na imaginação popular e apressassem a rebelião. Kilpatrick jurou colaborar nesse projeto, que lhe dava ocasião de redimir-se e que rubricaria sua morte.
(Jorge Luis Borges, Tema do traidor e do herói, 1944).

Nós, brasileiros, somos apresentados na escola a duas figuras de traidores relativamente célebres. A primeira é Domingos Fernandes Calabar, personagem da “invasão holandesa”, luso-brasileiro de origem, nascido onde hoje é Alagoas, que se bandeou para o lado dos holandeses em 1632, prestando auxílio valioso às incursões dos invasores no terreno pouco conhecido. Capturado em 1635, Calabar, conforme o procedimento usual na época, foi exemplarmente supliciado: garroteado, esquartejado e suas partes expostas à execração pública na paliçada do forte português.

A outra é Joaquim Silvério dos Reis, delator da Inconfidência Mineira, no mesmo ano mítico de 1789 em que caía a Bastilha, em Paris. Como traidor de uma “inconfidência”, não recebe a pena reservada pelo poder político a seus traidores, mas antes precipita sua aplicação sobre outro: o denunciado Tiradentes, assim feito traidor da coroa lusitana, destinado a receber o mesmo tratamento dado a Calabar, 150 anos antes.

Entretanto, como o mando português estava fadado a durar não mais que 30 anos depois do suplício do Tiradentes, o decadente regime colonial não pôde proteger a reputação de Silvério por muito tempo – e consta que nem mesmo as promessas feitas para induzir-lhe a delação chegaram a ser honradas. Assim, ele teria experimentado, ainda em vida, a hostilidade dos brasileiros e a alcunha de “traidor”, nada obstante o mérito duvidoso da acusação: dada sua condição de reinol, nascido a 1756 na freguesia portuguesa de Monte Real, traidor poderia ter sido considerado também, se nãodelatasse a conspiração – desde que, pelo menos, o domínio português durasse o bastante.

Seja como for, o candidato a herói junto à rainha torna-se irremediável traidor para a posteridade, quando o neto da mesma rainha Maria I, a Louca, o príncipe D. Pedro, alça-se à condição de herói dos brasileiros ao trair o legado de seus antepassados e patrocinar a emancipação do império brasileiro. Tendo em vista os evidentes embaraços familiares com a nova ordem imperial, Tiradentes não é feito herói de imediato. Mas é canonizado pela República, depois de 1889: supliciado como traidor sob o reinado da bisavó do imperador destronado, torna-se o herói perfeito da liberdade brasileira em sua encarnação republicana.

Calabar não teve a mesma sorte e, passados quase 400 anos de seu suplício, continua a ser apresentado nos bancos escolares (se é que continua) como um reles traidor. O mando português, afinal, sobreviveu-lhe em quase 200 anos – e, mesmo depois, a causa a que entregou sua vida estava destinada a não prevalecer: afinal de contas, é em português que escrevo este texto.

Foi resgatado da plena obscuridade no tocante Calabar – o elogio da traição, feito em 1973 por Chico Buarque e Ruy Guerra, como metáfora da liberdade sob a ditadura militar. Como uma sina do infeliz Calabar, a peça teatral terminou censurada pelo regime. Mas, ali, pelo menos na dramaturgia, em uma dezena de canções, a memória de Calabar termina associada a um ideal de resistência libertária contra toda forma de opressão – sexual inclusive.

NOVA ORDEM
As reversões de fortunas aqui referidas mostram como é perigoso – até para reputações – viver em tempos turbulentos. Mas revelam também como é curta a distância que separa o herói do traidor. A maioria das pessoas atravessará a vida sem correr o risco de ser considerada uma coisa ou outra. Mas quem se arroja em tornar-se um herói fatalmente terá de atravessar um período como traidor. Livrar-se ou não da pecha dependerá menos do conteúdo de seus atos do que do destino final de sua causa: o traidor de um ideal perdido poderá receber tratamento de herói por seus contemporâneos, alinhados ao statu quo. Mas, acima de tudo, será convertido em herói para sua posteridade aquele que lançar um desafio bem-sucedido à ordem política estabelecida – constituindo-se, assim, em seu mais audacioso traidor.

No que toca ao heroísmo político, pelo menos, a travessia desse vale de ignomínia é inevitável. O ato de fundação de uma nova ordem política será sempre um crime, sob o ponto de vista da ordem que se vai. Seja Cristo, Maomé ou Lutero; Alexandre, Júlio César ou Gengis Khan; Washington, Robespierre ou Lenin; Gandhi, King ou Mandela – nenhum fundador escapa. Como disse Max Weber, todo verdadeiro líder prega, cria ou impõenovas obrigações. É lugar-comum afirmar que seu sucesso nessa empreitada dependerá do “carisma” dessa liderança. Não obstante o que pode haver de mágico nessa palavra, isso é parte da história, já que fará as pessoas projetarem nessa liderança os valores que carregam consigo mesmas. Mas está longe de ser toda a história. Ao contrário, o principal reside no entrechoque largamente imprevisível (e que certamente ninguém comanda) entre forças e interesses contraditórios, e sua interação com circunstâncias incontroláveis.

Quando, passado o turbilhão, o ataque contra uma velha ordem esclerosada tiver prevalecido, será preciso exercer a paradoxal atividade de converter os valores que justificaram o ataque novamente em ordem. Uma nova ordem, que propicie às pessoas uma rotina sob a qual possam retomar sua vida normal. Numa palavra, prover as instituições que organizem o novo mundo e, ao acoplarem rotinas aos novos valores, perenizem esse novo mundo nos corações e mentes das pessoas.

A ironia é que o mero ato de alcançar essa rotina marca o início de seu inapelável esclerosamento em mais uma velha ordem a ser oportunamente chacoalhada por novo ataque. Enquanto esse dia não vem, para operar de maneira minimamente significativa aos olhos das pessoas submetidas ao seu poder, a ordem, agora instalada, emprestará carisma a suas normas rotineiras, vinculando-as aos belos sonhos de seus fundadores – agora sublimados na condição de heróis, cujos atos e sacrifícios serão celebrados e assim transmitidos às gerações futuras nos bancos escolares, nos rituais cívicos e nas histórias lidas às cabeceiras das crianças.

Mas o eco de sua traição se instalará no espírito das crianças mais inquietas. 

BRUNO P. W. REIS, doutor em Ciência Política pelo Iuperj, no Rio de Janeiro, e professor da UFMG.

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