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Calabar: A retratação de um anti-herói

Longe de ser o único a fazer o jogo duplo entre os dominadores, o “patriarca dos traidores” nunca foi reabilitado e pouco se sabe sobre suas motivações

TEXTO Luciana Veras

01 de Agosto de 2015

Imagem Indio San

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 176 | ago 2015]

De algumas certezas e muitas contradições
constituiu-se sua breve vida, extinta após menos de três décadas, mas marcada como a existência de um pária do qual brasileiro algum há de se esquecer. Mal se sabe, por exemplo, sua compleição física: existem historiadores que o descrevem como mulato, fruto de um homem branco com uma mulher negra, e outros pesquisadores que o dizem mameluco, herdeiro de um português e de uma índia – uma “negra da terra”, como também se denominavam os indígenas na capitania de Pernambuco do século 17. Nem seu sobrenome, hoje sinônimo de perfídia, é dado concreto. Uns sustentam tratar-se de uma alusão a uma cidade nigeriana de onde viriam escravos para a travessia oceânica que desembocava na maior colônia de Portugal. Ou seria apenas mais uma lenda atrelada a um dos maiores mitos da História do Brasil? O historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, em O Brasil holandês (2010), chama-o de “Domingos Fernandes, o Calabar”; a historiografia oficial, por sua vez, de “o grande traidor”.

A saga de Calabar irrompe durante a União Ibérica (1580–1640), quando Portugal, órfão após o desaparecimento de D. Sebastião, encontrava-se subjugado à coroa espanhola. A Espanha estava em guerra contra a República das Províncias Unidas dos Países Baixos. Parte do que hoje se convenciona apontar como Holanda era um punhado de estados; alguns deles já haviam se libertado do domínio hispânico, a exemplo da região de Flandres, hoje Bélgica. Após uma trégua de 12 anos, entre 1609 e 1621, o conflito recrudesce e Filipe II proíbe qualquer comércio com os neerlandeses. Tal interdição provoca o surgimento, em 1621, da West Indische Compagnie (WIC), a Companhia das Índias Ocidentais, “uma sociedade de ações operando mediante monopólio outorgado pelo governo neerlandês”, na explicação de Cabral de Mello. Seu objetivo: o açúcar brasileiro. Seu método: a expansão ultramarina.

Depois de frustrada a tentativa de invadir a Bahia em 1624, Pernambuco e as capitanias adjacentes – Itamaracá, Paraíba e Rio Grande – tornam-se alvos flamengos. Ao todo, esse território compreende 160 engenhos capazes de produzir 659 mil toneladas ou 33 mil caixas do “ouro branco” por ano. Assim, em 14 de março de 1630, uma armada composta por 67 embarcações e 7 mil homens, comandada pelo almirante Loncq, no mar, e pelo comandante Waerdenburch, em terra, precipita-se no horizonte de Olinda e do Recife. A resistência é liderada pelo general Matias de Albuquerque, governador das capitanias do norte e irmão do quarto donatário, Duarte de Albuquerque Coelho. As tropas de Matias, na iminência da derrota, entrincheiram-se no Arraial do Bom Jesus (o atual Sítio da Trindade, em Casa Amarela). Ao lado do governador, com ferocidade e destreza, luta um certo Calabar.

Ele nascera em 1609, em Porto Calvo, hoje Alagoas, antes sul de Pernambuco. Sua mãe era Ângela Álvares; sua etnia, mulata ou mameluca, resume-se à palavra “mestiço”, como cronistas a ele se refeririam. Os primeiros registros de suas atividades aparecem nesse período inicial da invasão, quando o panorama bélico ainda estava indefinido. “Sem condições econômicas de combater a WIC, que possuía cerca de 3,5 mil soldados e uma força naval consolidada, os portugueses partem para a tática de guerra lenta, tentando impedir que os neerlandeses entrem no interior e tenham acesso aos recursos econômicos. São pequenos grupos de soldados na chamada guerra brasílica, que cerca as saídas principais de onde os neerlandeses estão estabelecidos. Calabar, que aparentemente teria alguns engenhos, atua como militar entre 1630 e 1632. Dono de engenho ou comerciante, ele circulara bastante no território, conhecia as entradas e sabia quais eram os pontos estratégicos importantes”, contextualiza o historiador Bruno Miranda, professor adjunto do departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco/UFRPE e doutor em História pela Universidade de Leiden, nos Países Baixos, com a tese Gente de guerra: origem, cotidiano e resistência dos soldados da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil (1630–1654).

Em Memórias diárias da guerra do Brasil (escrita até 1644 e publicada somente em 1654, em Madri), uma das principais fontes narrativas da época, o donatário Duarte de Albuquerque Coelho afirma que Calabar “assistiu e serviu ao princípio desta guerra; e, quando o inimigo, a 14 de março de 1630, atacou o Real, que então começava a fortificar-se, foi ferido de um mosquetaço”, ratificando, assim, não apenas o ingresso do mestiço nas hostes lusas, como seu envolvimento genuíno na causa contra o invasor.


Além da paisagens brasileiras, o pintor Frans Post retratou os confrontos navais entre holandeses e portugueses. Imagem: Reprodução

No entanto, dois anos depois, ele cambia de lado, feito assinalado pelo frei Manoel Calado em O valeroso Lucideno e triumpho da liberdade (publicado pela primeira vez em 1648, em Lisboa): “Neste tempo, se meteu com os flamengos um mancebo mameluco, mui esforçado e atrevido, chamado Domingos Fernandes Calabar, o qual entre eles, em breves dias, aprendeu a língua flamenga e travou amizade com Sigismundo von Schkoppe, governador da guerra, ao qual tomou por compadre de um filho que lhe nasceu de uma mameluca chamada Bárbara, a qual levou consigo e andava com ela amancebado”. “Calabar tem muito destaque entre os cronistas portugueses e quase não aparece entre os cronistas neerlandeses. O contraste se dá porque era mais fácil apontar um culpado do que várias razões para a fragmentação da resistência portuguesa”, teoriza Bruno Miranda.

ESPECULAÇÕES
O que desencadeou a traição de Calabar? Dívidas, rancores, vergonhas, promessas, vinganças? Sobram especulações. Ao longo de séculos, propagou-se a noção de que ele teria agido em prol do Brasil, motivado pela certeza de que um domínio seria menos prejudicial do que o outro. Para tal argumentação, contudo, havia a réplica, até hoje presente nos livros escolares: ele, na verdade, teria traído a pátria. Mais do que romper um hipotético juramento de fidelidade nativa, ele praticara a heresia de “virar a casaca”, ou por “temer ser preso e castigado asperamente (…) por alguns furtos graves que havia feito na fazenda d’El Rei”, como aposta frei Calado, ou “por haver estuprado uma mulher na região de Camaragibe”, como escreve o soldado inglês Cuthbert Pudsey em Diário de uma estada no Brasil (escrito entre 1629 e 1640).

É um raciocínio raso, injusto até. Calabar não era o único a contrabandear informações de um lado para outro, tampouco foi o responsável solitário pela derrocada lusa. “Havia um grande vaivém na sociedade pernambucana. Muitas pessoas aceitavam os holandeses, depois se voltam contra eles; pessoas mais importantes do que Calabar, mas ele é uma figura em que se pode colocar todos os erros e ódios. Isso revela um pensamento anacrônico, pois não existe um Brasil naquela época. A construção da noção de pátria é posterior. Naquele momento, não existe lealdade ou deslealdade a uma pátria que ainda não havia sido constituída”, expõe o professor Antonio Carlos Jucá, do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Percebe-se, pelos relatos do quarto donatário, reinventados por Chico Buarque e Ruy Guerra na peça Calabar – o elogio da traição (1973), que a deserção de Calabar espicaça os brios de Matias de Albuquerque. “Eu lhe dei minha confiança em matéria de navios e de guerra e ainda me pergunto, sem resposta para me dar, por que é que ele foi pra lá?”, indaga-se o governador e general, no texto proibido pela censura e liberado apenas em 1979. A realidade, nesse caso, supera a ficção, como atestam as Memórias diárias de Duarte de Albuquerque Coelho: “Tendo ele muito valor e astúcia e sendo o mais prático em toda aquela costa e em terra que o inimigo podia desejar, como o nosso general lhe conhecia o talento, sentiu muito esta fuga, não só pelo mal que daí receava (como iremos vendo), mas pelo caminho que abria para outros como ele (que não faltavam) fazerem o mesmo”.

Iguais a ele, havia outros que terminariam fazendo o mesmo: eis a chave para compreender porque é exagerada a condenação sumária de Calabar ao posto de “patriarca dos traidores”, na definição do historiador Ronaldo Vainfas. Em Traição – um jesuíta a serviço do Brasil Holandês processado pela Inquisição(2008), ele examina a vida do frei Manoel de Moraes, um contemporâneo de Calabar que vem de São Paulo a serviço da Companhia de Jesus, assume a liderança dos gentios no combate e chacina dos soldados inimigos com o mesmo fervor com que professa a fé católica. Em 1634, converte-se ao calvinismo, adota o gibão escarlate dos oficiais neerlandeses, casa-se, tem um filho, serve de munição intelectual para a WIC em Amsterdã e, na acepção mais precisa doquinta-colunismo (expressão cunhada por Evaldo Cabral de Mello), arrepende-se e retorna a Portugal, ao catolicismo e aos preceitos anteriores.


Fernandes Vieria é um dos heróis da Restauração Pernambucana,
mas mantinha negócios com os holandeses. Imagem: Reprodução

Para Vainfas, tanto Calabar como Manoel de Moraes, mestres na emboscada, “foram corajosos ao ultrapassar essas fronteiras”. Sofreram, entretanto, resultados distintos. “Calabar pagou sua ousadia com a vida. Manoel, porém, foi mais audacioso. Primeiro, porque se mudou para a Holanda, casou, teve filhos, virou calvinista etc. Mas sua maior coragem foi ousar regressar ao catolicismo e ainda servir de capelão das tropas da Insurreição Pernambucana. Ele não precisava ousar tanto. Só o fez por dor de consciência”, analisa o professor de História da Universidade Federal Fluminense.

FERNANDES VIEIRA
Além do religioso, havia inúmeros outros colaboracionistas. “Quem eram essas pessoas que tinham negócios com os holandeses? Muitos ganhavam dinheiro com essa história. Como Calabar viveu dentro desse contexto, sabia muito desses figurões que estavam por trás, que não apareciam, mas que faziam o jogo duplo. Naquele momento, as traições eram tantas, era o que mais se via. Basta ver o exemplo de João Fernandes Vieira”, situa o professor Flávio Cabral, do departamento de História da Universidade Católica de Pernambuco.

Fernandes Vieira é o protagonista de O valeroso Lucideno e de Castrioto lusitano, este último de autoria do frei Raphael de Jesus (1679), panegíricos em que sua bravura na guerra da restauração é louvada ad infinitum, inserindo-o no panteão dos heróis nacionais. Ao lado do índio Filipe Camarão e do negro Henrique Dias, forma a tríade que expurga o mal neerlandês, adentrando a História como a tradução do poderio advindo da miscigenação tupiniquim. O que pouco se difunde, no entanto, é que Vieira tinha negócios – muitos – com a WIC. “Ele luta na guerra de resistência, mas depois vira feitor de um neerlandês, compra um engenho quando a colônia se estabiliza, e se torna um dos grandes fornecedores de alimentos para as tropas da WIC, até para amortizar a dívida enorme que tinha com a companhia. Era bastante interessado em expulsar os holandeses por causa desses débitos”, afirma o professor da UFRPE Bruno Miranda.

A Calabar, contudo, restam outras pechas: ardiloso, vil, fraco, responsável pela maior deslealdade já cometida. O traidor, que “em força e coragem não podia ser igualado”, para o soldado Pudsey, mostrou-se seguro de sua decisão, quaisquer os motivos por trás dela, mesmo na hora de capitular. Em julho de 1635, quando é preso na sua Porto Calvo, graças à participação de Sebastião Souto (outro quinta-coluna), não resiste, não barganha, não esperneia. Aquiesce, talvez porque “vence na vida quem diz”, como séculos mais tarde recriariam Chico Buarque e Ruy Guerra, mesmo que seja “sim” para sacramentar seu desfecho fatal. “Não deixeis, senhor, de concordar no que se vos exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que Deus quis-me dar para salvar-me”, fala o mulato, mameluco e mestiço ao comandante holandês Picard.

O frei Manoel Calado, que recorda as palavras de Calabar, é enviado para a confissão do prisioneiro, que sobre outros traidores responde que “muito sabia e muito tinha visto nesta matéria e que não eram os mais abatidos do povo os culpados”. “Avisou o padre sobre o caso a Matias de Albuquerque de algumas coisas pesadas que o Calabar tratou com ele, que lhe deu licença para que as dissesse ao dito Matias de Albuquerque, o qual, em ouvindo, mandou que não se falasse mais nesta matéria por não se levantar alguma poeira, da qual não se originassem muitos desgostos e trabalhos”, escreve Calado.


No século 19, a Batalha dos Guararapes é apontada como marco inicial da pátria.
Imagem: Reprodução

QUEIMA DE ARQUIVO
Em tese, Calabar teria que ser julgado. Matias o quis morto. Garroteado e esquartejado a 22 de julho, sua cabeça é deixada em uma estaca. Fim da trajetória, início da lenda. Dois anos depois, a outra figura mítica, o conde João Maurício de Nassau-Siegen, chegaria ao Recife. É sobre o período de Nassau que se debruça a cineasta gaúcha Monica Schmiedt em Doce Brasil holandês, filmado entre 2008 e 2009 no Recife, em Berlim e em Amsterdã. No documentário, ela revisita a nostalgia alaranjada vez por outra evocada pelos pernambucanos a partir do caminho de uma historiadora alemã de sobrenome Van Der Ley. Ao decidir investigar suas origens familiares, chega a uma cidade em que a herança batava era a ser encarada com saudosismo. “A história é forjada com interesse político. Isso acontece com o legado de Nassau. Quando os lusos retomaram o Recife, tornou-se interessante negar os holandeses. Hoje, já se fala muito no que Nassau deixou na cidade. Mas a história oficial diverge da história real. Calabar é um mito tanto quanto Nassau, mas era muito fácil condenar um mulato. Na época, convinha que ele fosse um traidor”, comenta.

Se Nassau é lembrado por seu empreendedorismo, Calabar é o fantasma sem redenção. “A culpa é de Varnhagen”, sintetiza o professor Flávio Cabral, aludindo ao diplomata, militar e historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro. “No século 19, ele escreve o primeiro livro de História do Brasil, mas uma história atrelada ao poder, aos interesses do imperador D. Pedro II. É o imperador que vai ter a clareza de dizer ‘vamos construir a nação’. E a nação de livros, de imagens, de quadros. Até aquele quadro que representa a Batalha dos Guararapes é para servir de imagem para o povo cultuar o Brasil que está nascendo”, diz. “No século 19, constrói-se o conceito e a identidade da pátria, projetando-se a pátria para trás”, completa o historiador Antonio Carlos Jucá.

Para Varnhagen, no segundo volume de sua História geral do Brasil, publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1857, sobre Calabar, “a história, a inflexível história, o chamará infiel, desertor e traidor, por todos os séculos dos séculos”. Em Olinda restaurada – guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654 (1975), Evaldo Cabral de Mello teoriza que a eliminação de Calabar “tratou-se aparentemente da operação que hoje se designa em linguagem policial por queima de arquivo”. Tal hipótese é repercutida e adotada por diversos pesquisadores em busca de uma justificativa menos maniqueísta do que o discurso amplificado por toda a historiografia oficial. Em Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana (1986), Cabral de Mello discorre sobre olhares posteriores que buscam – e falham – em atenuar os matizes da culpabilidade. “A reabilitação histórica de Calabar tinha de ser o corolário da apologética batava. A este extremo, não quis chegar, contudo, o nativismo tardio. Apenas em Alagoas, donde fora natural, pretendeu-se nos últimos anos dos Oitocentos homenagear-lhe a memória, dando seu nome a uma rua de Maceió, com a justificativa de que ele visara ‘servir à pátria colonial, na persuasão de que o Brasil teria mais a lucrar passando de colônia portuguesa a colônia holandesa’”, salienta o historiador pernambucano.

Evaldo Cabral de Mello discursa, também, sobre os autores que vilipendiaram ainda mais a memória do “mestiço de Porto Calvo, que, tendo apenas pensado em fugir à sorte avara a que o regime escravocrata condenava o lumpenproletariat de mamelucos e mulatos livres, acabaria sendo transformado em arauto incompreendido da modernidade brasileira”. “O nativismo pernambucano, como também Varnhagen, o haviam sumariamente condenado; Fernandes Pinheiro, Souza Menezes e Mendes Leal Júnior, procurado entendê-lo”, redige o historiador pernambucano. Houve ainda os esforços de Goetz de Carvalho, autor de Monografias pátrias I – Calabar perante a história (1899), citado por Cabral de Mello como responsável por transformar Calabar “no mais inteligente e prático de todos os nossos revolucionários que o patíbulo ou degredo dos tempos coloniais tragaram”.

Da nada adiantou. Calabar nunca foi reabilitado. Os historiadores justificam a ausência de documentos, dados e informações para um mergulho mais aprofundado nessa controversa, porém essencial, personagem para a compreensão da história de Pernambuco e do Brasil no século 17. A pátria nasceu aqui, garantem as placas de sinalização turística nos arredores do Monte Guararapes. E o seu “maior traidor” também. 

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