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Reflexão: Sociedade da superabundância

Teórico norte-americano Jonathan Crary especula sobre o futuro do capitalismo tardio, em que, pela supressão do sono, indivíduos passariam a ser consumidores 24 horas por dia

TEXTO Luciana Veras

01 de Abril de 2016

Times Square

Times Square

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem especial | ed. 184 | abril 2016)

“Um mundo
sem sombras, iluminado 24/7, é a miragem capitalista final da pós-história – do exorcismo da alteridade, que é o motor de toda mudança histórica. O tempo 24/7 é um tempo de indiferença, ao qual a fragilidade da vida humana é cada vez mais inadequada, e onde o sono não é necessário nem inevitável.” Logo nas primeiras páginas de 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, o ensaísta, escritor e teórico norte-americano Jonathan Crary traça, com a acuidade de um míssil teleguiado, um panorama desalentador da existência contemporânea. Publicado no Brasil em 2015, pela extinta Cosac Naify, o livro é uma reflexão sobre modus vivendi e operandi no contexto de um regime econômico cujos agentes – indivíduos, governos, corporações – anseiam por erodir a única barreira para a expansão total do trabalho/consumo full time: o ato de dormir.

Professor de Arte Moderna e Teoria da Universidade de Columbia, em Nova York, e autor de outros livros (entre eles, Suspensões da percepção: Atenção, espetáculo e cultura moderna, lançado em 2013 também pela Cosac Naify), Crary condensa uma impressionante fortuna crítica em sua escrita fluida e consistente: Marx, Benjamin, Sartre, Deleuze, Foucault, Arendt, Freud, Marker, Tarkovski, Kafka, Valéry, Debord são alguns dos autores/artistas com os quais ele conversa para chegar a conclusões sobre um patamar de “disponibilidade absoluta – e, portanto, um estado de necessidades ininterruptas, sempre encorajadas e nunca aplacadas”. Ele fala, por exemplo, das pesquisas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos sobre o comportamento de uma espécie de pardal que é capaz de viajar por sete dias sem descanso. O objetivo, alerta Crary, é forjar um soldado cuja performance não será interrompida pelo sono.

No entanto, o ímpeto capitalista deverá ser interpretado menos como uma ode militarista e mais como a percepção de que, tal como um soldado 24/7, já se vislumbra um consumidor 24/7. “A ausência de restrições ao consumo não é simplesmente temporal. Foi-se a época em que a acumulação era, acima de tudo, de coisas. Agora nossos corpos e identidades assimilam uma superabundância de serviços, imagens, procedimentos e produtos químicos em nível tóxico e muitas vezes fatal”, escreve Crary. Essa “superabundância” é componente da equação que traz a hiperconectividade como variável e o excesso de ruídos e a inabilidade de um recuo para dentro de si como resultados.

O barítono recifense Marcelo Ferreira encontra percalços relacionados a essas variáveis na convivência com seus alunos de canto lírico. “Temos uma geração acostumada a ver a história de uma vida em um videoclipe de três minutos na MTV. Quando são consideradas as obras mais extensas da música clássica, como uma ópera, a contar a história de um dia em quatro horas, torna-se quase impossível para essa geração manter a concentração por tanto tempo e perceber os aspectos macroestruturais da obra. Exatamente por isso, vivemos numa época em que esse repertório é comumente consumido no formato de álbuns com os ‘trechos favoritos da música clássica’”, lamenta.

Jonathan Crary adverte em 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono: “A produção acelerada de novidades desativa a memória coletiva – a evaporação do conhecimento histórico nem precisa ser mais imposta de cima para baixo. As condições cotidianas de comunicação e o acesso à informação garantem o apagamento sistemático do passado como parte da construção fantasmagórica do presente”. O fotógrafo e artista visual mineiro Eustáquio Neves recorda a época em que a assimilação das novidades era obrigatoriamente devagar. “Lembro quando ainda precisávamos esperar 10 anos por uma novidade no campo da tecnologia. Hoje, está tudo muito rápido. As coisas vêm com uma rapidez tão grande, que quase você não consegue absorver essas novidades e informações”, comenta.

Em seu trabalho, Neves sobrepõe camadas de significados em imagens que misturam materiais e temporalidades, a exemplo das séries Arturos (1993-1995), Futebol (1997) e Máscara da punição (2004). Produz e vive sem pressa alguma. Químico de formação, abraçou a fotografia como autodidata; depois de morar por anos em Londres e em São Paulo, voltou a Minas Gerais para viver em Extração, onde havia apenas 240 concidadãos, e hoje reside em Diamantina, com 5 mil habitantes. Ele é um contraponto à alta rotação dos conglomerados urbanos. “Vejo meu trabalho como uma decupagem do excesso do mundo contemporâneo. Hoje, essas novas tecnologias aproximam e, ao mesmo tempo, separam. Fala-se muito, mas se encontra menos e as pessoas ficam o tempo inteiro com seus telefones. Tento trazer esse excesso para o biplano da fotografia ou para a narrativa do vídeo. Toda essa confusão serve como um elemento a mais para minhas discussões”, argumenta.

A “confusão” a que Eustáquio Neves se refere diz respeito também aos suportes utilizados. “Não considero mídia nenhuma caduca e nunca encostei suporte algum. Sempre recorro a suportes que a maioria, nessa ânsia da tecnologia, despreza”, pontua o artista. O fotógrafo é uma antítese ao consumidor que Jonathan Crary deslinda em 24/7 – o sujeito que se sentirá frustrado ao não se filiar aos “ciclos fugazes” de consumo irrefreado. “No entanto, não deixa de ser atraente a tentação de nos alinharmos a uma sequência de consumo contínua, baseada em promessas de maior eficiência – a despeito da permanente postergação de todos os benefícios reais. O desejo de acumular objetos é secundário: o que está em jogo é a confirmação de que nossa vida, bombardeada de publicidade, acompanha os aplicativos, dispositivos ou redes disponíveis”, radiografa o autor norte-americano.

É provável que o pessimismo invada o leitor ao término de 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono. Entretanto, o próprio escritor enxerga no sono – e nos devaneios oníricos cada vez mais intercalados pelas mensagens a explodir na tela dos celulares – um farol a reluzir esperança para que se reerga “um mundo sem bilionários, que vislumbra um outro futuro que não a barbárie do pós-humano”: “Imaginar – em muitos lugares diferentes, em estados os mais diversos, inclusive na fantasia e no devaneio – um futuro sem capitalismo talvez pudesse começar por sonhos do sono”. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

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