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Moda: Clássicos de agora

TEXTO Márcio Padrão

01 de Outubro de 2013

Montagem Janio Santos

[conteúdo vinculado à reportagem de "Comportamento" | ed 154 | outubro 2013]

O termo “clássico” remete ao latim classicus,
que por sua vez vem de classis, isto é, “classe”, de classe social. No caso, classicus era algo “superior” e designava as classes mais altas da sociedade romana (como o exército). Essa ideia logo foi tomada por empréstimo pelo campo da estética, que a definiu como sinônimo de alto padrão. Devido à própria origem do termo, o chamado Classicismo acabou designando as manifestações artísticas provenientes da cultura greco-romana e/ou aquelas diretamente influenciados por ela, como o Renascentismo. Alguns dos parâmetros dessa escola são a ordem, o equilíbrio e a harmonia.

Como se pode perceber, o uso do termo foi se banalizando com o passar dos anos. Agora, um clássico pode designar até um jogo de futebol com equipes de grandes torcidas. Teóricos defendem que, atualmente, o valor sugerido pela palavra “clássico” pouco tem a ver com a obra em si, mas com quem faz tal enunciado. Ou seja, é puramente normativo e carregado dos conceitos de quem afirma que esta ou aquela coisa merece ser chamada de clássica. Ainda assim, o significado inicial não foi completamente perdido, pois os chamados “formadores de opinião” têm hoje função parecida com a alta classe romana: ditar o que pertence ou não ao chamado “bom gosto”.

EM ALTA

Alfred Hitchcock
O inglês era visto apenas como um diretor com grande tino para atender aos desejos do público médio e conseguir boas bilheterias. No entanto, críticos ligados à Nouvelle Vague usaram Hitchcock como exemplo máximo da teoria do autor, segundo a qual um diretor é capaz de injetar sua visão artística em toda a sua filmografia, a despeito do trabalho de toda uma equipe ou de pressões comerciais do estúdio. Desde então, Hitchcock vem sendo considerado pela crítica como um dos maiores cineastas da história.

Disco music
O gênero que fez o mundo dançar na segunda metade dos anos 1970 sofreu um sério desgaste na virada para os 1980. O radialista americano Steve Dahl, fã de rock pesado, foi um grande opositor: organizou um levante contra a disco, chamado-a de disco suck. Mas isso não foi capaz de destruí-la, pois é usada como pilar da house francesa, desde meados dos anos 1990. Justice e Daft Punk são dois exemplos que justificam seu o atual status cool.

2001 – uma odisseia no espaço
Nem o prestígio de Stanley Kubrick o protegeu das pedradas. Apesar da boa aceitação do público da época, a crítica se dividiu. O respeitado Roger Ebert elogiou e deu ao filme quatro estrelas, mas a igualmente influente Pauline Kael disse que era um filme “monumentalmente sem inspiração”. Outros críticos reclamaram do tom abstrato e da narrativa lenta. Porém 2001 resistiu ao tempo e se firmou como um clássico.

José Mojica Marins
O criador de Zé do Caixão sempre teve muita dificuldade para ser reconhecido. Ainda nos anos 1960, Glauber Rocha o citava como influência, mas Mojica penou para continuar na ativa, metendo-se em produções inexpressivas, além de banalizar seu maior personagem em participações cômicas na TV. À medida que seus filmes foram relançados, sua fama de artista cult cresceu, inclusive, fora do Brasil, onde virou o “Coffin Joe”. Bandas de metal como Sepultura e White Zombie reverenciam publicamente o mestre do terror brasileiro.

Mutantes
A banda de rock mais aclamada do Brasil nem sempre teve essa aura. Não raro, as estranhices dos Mutantes eram vaiadas em suas apresentações de TV. Eles eram considerados coadjuvantes de luxo dos “cabeças” Gil e Caetano. Também nunca tiveram vendagens expressivas de discos. Foram resgatados do ostracismo quando sua discografia foi relançada em CD, no início dos anos 1990, e nomes como Kurt Cobain, Beck e Sean Lennon mencionaram a banda como ícone do rock produzido aqui. Nem mesmo o criticado retorno dos Mutantes nos anos 2000, liderados por Sérgio Dias, conseguiu diminuir a reputação do grupo.

Histórias em quadrinhos
Mídia surgida nas páginas de jornais no final do século 19, os quadrinhos eram apenas diversão barata. Em 1954, sofreram um baque, nos EUA, quando o psiquiatra Fredric Wertham lançou A sedução do inocente, livro que identificava neles possíveis mensagens subversivas que ampliavam a delinquência juvenil. Após anos de autocensura, as HQs ganharam força nos anos 1980, quando autores como Neil Gaiman e Alan Moore trouxeram elementos adultos ao gênero de super-heróis, criando obras aclamadas pela crítica. Hoje em dia, eles disputam a mesma vendagem de best-sellers em livrarias.

Video game
Caso parecido com o dos quadrinhos. Quando a garotada jogava Atari, nos anos 1980, ninguém achava que aquilo viraria coisa séria. Mas, na atual geração de consoles, os games ultrapassaram tanto fronteiras comerciais quanto narrativas. A franquia de guerra Call of duty é a mais rentável da história dessa mídia e seu jogo de 2012, Modern warfare 3, atingiu um bilhão de dólares em vendas antes de isso ocorrer ao filme Avatar. Recentemente, instituições como o MoMa, de Nova York, e o Museu da Imagem do Som, de São Paulo, promoveram exposições sobre a história dos games.

Velvet Underground
Reza a lenda que quem comprou o disco de estreia dos nova-iorquinos, The Velvet Underground & Nico (1967) montou uma banda após ouvi-lo. Mas, na época, Lou Reed e cia. só conseguiram algum burburinho principalmente por causa do apadrinhamento do artista plástico Andy Warhol, que assinou a capa do disco e convidava o grupo para seus happenings. A Velvet nunca teve sucesso comercial em sua curta carreira, mas é considerada hoje uma das mais influentes da história, célula-mater de boa parte do indie rock que os redescobriu a partir dos anos 1980. Sem o Velvet Underground, bandas seguidoras como Sonic Youth, Jesus & Mary Chain e R.E.M. dificilmente teriam espaço.

Jazz
Um dos gêneros mais reverenciados esteticamente hoje em dia, o jazz já teve seus períodos difíceis. Na Lei Seca que assolou os EUA nos anos 1930, o estilo predominava nos bares que confrontavam a norma vendendo bebidas alcoólicas. Assim, foi rapidamente associado à marginalidade. Além disso, como a maioria dos músicos era negra, também sofreu forte preconceito racial. Só quando gênios como John Coltrane e Miles Davis conseguiram vencer o conservadorismo, com suas obras-primas nos anos 1950 e 1960, é que o jazz ganhou o devido respeito.

Hip hop
O racismo também foi – e ainda é – um dos maiores problemas que afligiram a cultura hip hop, nascida nos guetos das metrópoles norte-americanas. Sendo música – moda e atitude – predominantemente orquestrada por negros, o gênero demorou para ganhar espaço na grande mídia. Mas a vingança veio forte: o rap hoje conta com elogios de artistas do porte de Quincy Jones e Bob Dylan. Já os astros de hip hop desbancaram o rock e estão entre os de maior apelo popular dos EUA, como Jay-Z, Kanye West e até o “branquelo” Eminem.

John Hughes
O rei das comédias adolescentes dos anos 1980 recebia, na época, críticas negativas, que consideravam seus personagens como jovens fúteis e mimados, à medida que retratava os adultos como caricaturas. As bilheterias também eram modestas, nunca alcançando o topo do ranking. Hoje, entretanto, é tremendo o impacto de filmes como O clube dos cinco e Curtindo a vida adoidado. Eles foram inspiração a séries e filmes como Community e as comédias do produtor Judd Apatow, como Superbad e Se beber, não case.

EM BAIXA


Colagem: Janio Santos

Bossa Nova
Quando João Gilberto e Tom Jobim conquistaram o mundo com clássicos como Chega de saudade e Garota de Ipanema, no início dos anos 1960, até Frank Sinatra se rendeu ao gênero que unia samba e jazz. No entanto, deixou de ser novidade e, na mesma década, a bossa nova foi pouco a pouco sendo encoberta por gêneros como a jovem guarda e o tropicalismo. Ainda que os hinos dos tempos áureos continuem sendo respeitados, o estilo musical deixou um legado discreto de continuidade. Com a morte de alguns de seus expoentes – Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell e Nara Leão – a bossa ainda manteve influência na geração atual da MPB, mas de forma diluída, sem seguidores diretos.

Cinema de terror
Stanley Kubrick, Brian de Palma, William Friedkin e John Carpenter foram alguns dos grandes cineastas que se arriscaram no terror com resultados aclamados, entre meados dos anos 1970 até a metade dos anos 1980. Passado esse auge, o gênero continuou com alguns sucessos comerciais aqui e ali, como A bruxa de Blair e as franquias Pânico e Atividade paranormal, mas a maior parte de sua produção continua relegada ao nicho.

Videoclipes
Quem tem mais de 30 anos lembra o período em que o “novo clipe de Michael Jackson” era um lançamento tão aguardado quanto um blockbuster dos cinemas. Mas veio a crise da indústria fonográfica e a ascensão do YouTube como plataforma de vídeos, que rapidamente transformaram a MTV – a então casa oficial dos clipes – em algo obsoleto. Ainda há muitos artistas apostando no formato, dos independentes aos astros como Justin Timberlake e Madonna, mas é fato que o clipe não tem mais aquele peso que tinha como grande ferramenta de marketing aliada à criatividade artística.

Hard rock e heavy metal
Por cerca de duas décadas – os anos 1970 e 1980 – esses gêneros musicais irmãos reinaram entre a juventude. Led Zeppelin, Black Sabbath, Metallica e Guns n’ Roses foram responsáveis por iniciar muita gente nas guitarras. Mas esses sons acabaram implodidos por seus elementos mais negativos, como a megalomania de seus músicos e a resistência para se mesclar a outros gêneros. Hoje, quem se arriscar a cantar de cabelos armados, bandana e calça de couro vai ser rapidamente tachado de cafona ou motivo de paródia, como no musical da Broadway que virou filme Rock of ages.

Woody Allen
O diretor nova-iorquino foi responsável por encantar cinéfilos por quase três décadas, com obras como ManhattanNoivo neurótico, noiva nervosaA rosa púrpura do Cairo e Desconstruindo Harry. Mas, nos últimos anos, obcecado por realizar pelo menos um filme por ano, Allen viu seu estilo autobiográfico se tornar uma sátira ruim de si mesmo, repetindo à exaustão características de seus filmes mais importantes. O resultado é o gradativo desinteresse de crítica e público, apesar do sucesso de bilheteria de Meia-noite em Paris. O cineasta vem transformando seus filmes em cartões-postais de luxo financiados por cidades turísticas como Paris, Barcelona e Roma.

The Strokes
A banda de Nova York foi tão incensada no início dos anos 2000 por seu álbum de estreia, Is this it, que era vista como a possível líder de um movimento da volta do rock ao topo – a essa altura, enfrentando concorrência da música eletrônica e do hip hop. A banda até continuou emplacando hits nos discos seguintes, mas a prometida revolução não aconteceu e os Strokes perderam um pouco de seu brilho perante crítica e fãs.

Frank Miller
O quadrinista chegou ao auge com Cavaleiro das trevas (1986), que trazia narrativa inovadora, com abordagem impactante do Batman em um futuro distópico. Miller ainda lançou outras grandes obras, como A queda de Murdock, do herói Demolidor, e Batman: ano um – ambas em parceria com o desenhista David Mazzuchelli – e 300 e Sin city, que inspiraram filmes homônimos. No entanto, Miller entrou no terceiro milênio com o pé esquerdo: Cavaleiro das trevas 2All star: Batman e Robin e Holy terror receberam pesadas críticas e reforçaram o caráter fascista de suas histórias.

Reggae
A despeito do grande sucesso de Bob Marley, nos anos 1970, e de ele ter inspirado nomes de relativo sucesso como Jimmy Cliff, Gregory Isaacs e UB40, o estilo jamaicano acabou tendo que se adaptar aos novos tempos para não envelhecer, criando subgêneros como o dancehallraggamuffin e o recente reggaeton, mais próximos do hip hop que do reggae de raiz.

Filmes de luta e ação “brucutu”
Quando Operação dragão (1973) transformou Bruce Lee num mito, os anos 1970 assistiram a uma overdose de filmes de kung fu, karatê e derivados. A safra continuou nos anos 1980, mas ganhou tons mais bélicos e anabolizados com Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger, além dos carismáticos atores-lutadores Chuck Norris e Jean-Claude Van Damme. A crítica não gostava muito, mas o público respondia muito bem a essa moda. Porém a ação mano a mano foi sendo substituída por efeitos especiais em universos mais fantasiosos, como nos filmes de super-heróis e robôs. O nome da nova geração Jason Statham até que tentou carregar a bandeira nos últimos anos, mas Stallone precisou retornar do limbo para resgatar o gênero que o consagrou, com a franquia Os mercenários, que mistura jovens e velhos astros de ação.

Pop “meloso”
Embora Mariah Carey ainda esteja firme e forte, está praticamente sozinha no front. Nomes que consagraram os agudos nas baladas melosas, como Toni Braxton, Celine Dion e Whitney Houston, receberam as luzes da ribalta ao longo dos anos 1990. A moda passou. Atualmente, a música romântica internacional deixou a suavidade de lado e precisou incorporar batidas eletrônicas, como em Fireworks, de Katy Perry, ou em Halo, de Beyoncé. 

MÁRCIO PADRÃO, jornalista e editor do blog Quadrissônico.

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