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Depoimentos que desfazem mitos e rótulos

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Agosto de 2012

'Vestido de noiva' tornou-se marco do teatro experimental brasileiro, quando estreou em 1943

'Vestido de noiva' tornou-se marco do teatro experimental brasileiro, quando estreou em 1943

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 140 | agosto 2012]

Quando o garoto solitário, de relações superficiais
e enorme pudor físico, em pleno 4º ano primário, se inscreve no concurso de composição da Escola Prudente de Moraes, ele ainda não é o dramaturgo vaidoso de anos mais tarde. Mesmo assim, arrisca e vence a disputa, dividindo o primeiro lugar com outro menino da turma. O colega da instituição da Tijuca havia escrito uma narrativa sobre um rajá que passeava montado num elefante, texto que foi lido em voz alta, enquanto a história de traição – que terminou com o marido esfaqueando a adúltera –, também premiada, ficou guardada no silêncio atormentado das professorinhas. Nelson Rodrigues, ainda pequeno, escrevia a sua primeira trama nos moldes de A vida como ela é... .

Aos 13 anos, ele assumia o cargo de repórter policial no jornal A Manhã com verdadeiro deslumbramento, pois as páginas sangrentas tinham outro status e outro mistério: um tempo em que as redações não se resumiam a “essa massa de máquinas e redatores batendo”, em que “o diretor era o gênio absoluto, o Proust, o dono da língua”, em que “o nariz de cera, que a imprensa atual não usa, era inevitável” e que “o pessoal retocava a realidade”.

Foi no ambiente do jornal, aliás, que ele adquiriu um profundo horror ao assassinato, mas não pelos casos apurados e escritos. A morte do irmão Roberto, o qual considerava um gênio, veio de forma prematura e com uma tranquilidade assombrosa. O tiro foi desferido por uma mulher que atravessou a vida de Nelson com apenas três frases: “O Dr. Mário Rodrigues está?”, “O Sr. (dirigindo-se a Roberto) pode me dar um minutinho de atenção?” e “Eu não vou fazer mais nada. Vim aqui matar Mário Rodrigues ou um de seus filhos”.

Essas são algumas passagens da vida do dramaturgo que podem ser encontradas textualmente no livro Nelson Rodrigues por ele mesmo, organizado por sua filha Sônia Rodrigues. O lançamento da Nova Fronteira consiste numa colagem de entrevistas coletadas em pesquisas, além da íntegra de três textos do próprio Nelson que se encaixam aos demais conteúdos apresentados. Apesar das intervenções da organizadora, sempre destacadas em negrito para não confundir o leitor, existem momentos em que o caráter fragmentado da publicação fica evidente, seja em truncamentos ou em repetições.

No entanto, o mérito de organizar depoimentos do escritor controverso e problematizar os estereótipos aos quais ele fora condenado é inconteste. Diante das falas de Nelson, ninguém pensará que o arrogante e o reacionário não existiram dentro dele, mas, certamente, o leitor reconhecerá a incompletude desses rótulos. Há criticidade, pioneirismo e ferocidade nos seus pontos de vista, mas também insegurança e doçura. O que, definitivamente, não consta na sua trajetória é concessão. E, ao que parece, quem não faz concessão pode ficar muito só. “Ele não era de partido, não era de igreja, não era de esquerda ou de direita, não era da Academia (nem a de Letras, nem a universitária), não pertencia a grupos de opiniões, nem a ‘panelas’ de nenhuma espécie”, relembra Sônia.

Não fazer concessão também incomoda. Por isso, ele vai despertar desprezo à direita e ojeriza à esquerda. Para os moralistas, será o pornográfico; e, para os pornográficos, o moralista. Nelson é um espinho na pata do humano. Uma imagem que pode parecer bastante consagradora hoje, depois de sua ampla aceitação, mas que condenou sua carreira à inconstância. Apesar do grande sucesso da peça Vestido de noiva, elogiada por críticos como Manuel Bandeira e Álvaro Lins, as montagens seguintes dos seus textos foram rejeitadas e malcompreendidas. No livro, essa irregularidade se manifesta na fala do dramaturgo em dois tons frequentes: o de superioridade, por saber que estava fazendo um teatro completamente novo na história do Brasil, e o de mágoa, por perceber que estava ilhado, sem interlocutores que compreendessem o seu estilo e as suas propostas. Mas ele sempre esteve consciente de que o caminho escolhido para a sua linguagem tinha um quê de intragável, sobretudo para uma época de tanto puritanismo e hipocrisia (nem tanto diferente de hoje): “Que caminho será este? Respondo: de um teatro que se poderia chamar assim – desagradável. Numa palavra, estou fazendo um teatro desagradável, peças desagradáveis. (…) E por que peças desagradáveis? Segundo já se disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na plateia”.

O seu discurso ora revela um intelectual ranzinza, ora deixa escapar fragilidades do artista nesse enfrentamento voraz do mundo. O olhar amadurecido fica indo e vindo na publicação, já que o livro está dividido de acordo com fatos e temas, respeitando certa cronologia biográfica, mas sem uma linearidade rígida. Em muitos momentos, o dramaturgo parece fazer uma revisão do próprio comportamento, reconhecendo o seu perfil ambicioso e até mesmo invejoso, no início, em relação às obras e à fama já conquistadas pelos pares. Mas não há margem para arrependimentos ou mea culpa: ser Nelson Rodrigues tinha que ter um preço. 

GIANNI DE PAULA MELO, repórter da Continente Online.

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