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Persona: polêmicas e audácias

No ano do centenário de Nelson Rodrigues, escritor que criou na literatura um paradigma para a classe média brasileira tem na controvérsia sua marca autoral

TEXTO Álvaro Filho

01 de Agosto de 2012

Imagem Mauricio Planel

Há pouco mais de três décadas, Nelson Rodrigues perdia a guerra contra um edema pulmonar que o levaria a morrer de parada cardíaca e respiratória. Se, por um lado, o Brasil se privou da arte de um de seus cronistas e dramaturgos mais geniais, o óbito o livrou de constatar que o mundo, 100 anos após o seu nascimento, também foi derrotado por um inimigo mais traiçoeiro e contagioso que a tuberculose que o acompanhou a vida inteira: o bacilo do politicamente correto. Salvo as homenagens pertinentes em anos de efeméride – como o material produzido para essas páginas –, é provável que, passado o oba-oba do centenário, o pensamento rodriguiano volte a ser escanteado, cultuado por poucos e cada vez mais raros os que ainda resistem à pasteurização dos modos e costumes, mas que, tementes de serem tratados a pauladas como vira-latas, são tímidos em expressar esse “desvio”. Como diria o próprio Nelson, os idiotas da objetividade venceram.

Basta uma olhadinha no Facebook. Diariamente, um Niágara de frases, máximas, pensamentos, aforismos e trechos de poemas de pesos-pesados da literatura, do porte de uma Clarice Lispector, ou de queridinhos de gerações mais recentes como Caio Fernando Abreu, deságuam nas redes sociais, a serviço de alegrias, tristezas e angústias, ou simplesmente para dar um prosaico recado ao amor que se quer ter ou se perdeu. Apesar da profusão até certo ponto entediante, Nelson Rodrigues não figura na lista. Nem uma mísera linha. Mas vamos e venhamos: num ambiente no qual é preciso medir as palavras, incluindo em número de caracteres, não há espaço para um polemista de mão-cheia, que arrumou encrenca com a população do Piauí – por afirmar o óbvio ululante de se tratar de um estado pobre –, que achava a companhia de um paulista a pior forma de solidão e chegou a dizer que o mineiro só era solidário na hora do câncer. Nem o ex-arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Câmara, escapou de sua fúria. Para Nelson, não passava de um “padre de passeata”, que propunha trocar o órgão, o violino e a harpa nas igrejas pelo reco-reco, tamborim e cuíca, transformando a “catedral numa gafieira gótica”.

Provavelmente, Nelson herdou o dom da polêmica do pai, o também jornalista Mário Rodrigues, que foi obrigado a trocar o Recife pelo Rio de Janeiro, no início do século passado, para não sofrer as consequências do que havia escrito contra políticos locais. Mário, de tão ácido, nem na Guanabara encontrou a liberdade de expressão desejada. A solução foi fundar o próprio jornal. Chegou a ser dono de dois, entre eles o A Manhã, no qual Nelson estreou na redação, com 14 anos incompletos, como repórter da editoria de polícia, migrando pouco tempo depois para a seção de opinião. A ira paterna contra os poderosos teve como preço uma série de processos, que culminaram na falência dos empreendimentos jornalísticos e no endividamento familiar. Coube a Nelson, já como repórter de O Globo, multiplicar-se entre publicações a fim de arrecadar o suficiente para garantir o sustento da numerosa família – tinha 13 irmãos –, o que o transformou numa máquina de escrever, fossem crônicas esportivas ou sobre o cotidiano, folhetins, peças publicitárias e de teatro, e até de aconselhamento sentimental, travestido sob o pseudônimo de Suzana Flag e Myrna. E o fez com magistral competência.


Máquinas de escrever e fumaça de cigarro compunham o ambiente de trabalho do escritor. Foto: Reprodução

É bom lembrar que o jornalismo na primeira metade do século 20 ainda era atividade quase amadora, com remuneração baixíssima e, assim sendo, sem exigências de treinamento específico. Os egressos das redações eram na maioria aspirantes a escritores ou curiosos, quase todos em busca de reconhecimento literário e de um trocado para garantir a vida boêmia. Alguns até semianalfabetos ou com os estudos incompletos, como o próprio Nelson Rodrigues, que abandonou a escola sem terminar o que hoje seria o Ensino Médio – o que não o impediu de sempre escrever com correção e velocidade, apesar de datilografar apenas com dois dedos de cada mão, fora o espantoso vocabulário, de fazer inveja a muitos fardados da ABL. Além da destreza na redação, Nelson tinha uma qualidade cara ao jornalismo: o poder de observação. Apesar da miopia galopante, farejava cada detalhe como um bom perdigueiro. As andanças como repórter policial serviram para que ele coletasse histórias habitadas por maridos traídos, esposas infiéis e crimes passionais testemunhados por gordas com varizes e “colares” de brotoejas em volta do pescoço, que lhe renderiam centenas de crônicas na série de A vida como ela é, por exemplo.

VISÃO JORNALÍSTICA
O míope Nelson Rodrigues não só via muito bem, como também de forma diferente. Sua visão sobre o modus operandi da profissão provocaria urros de cachorro atropelado nos atuais professores de jornalismo. No manual de redação rodriguiano, a “arte jornalística” consistia no que chamava de “pentear e desgrenhar o acontecimento” e o bom repórter nunca poderia ser um “reles e subserviente reprodutor do fato”. Para ele, o que dava autoridade à notícia era justamente o “acréscimo da imaginação”. Quando os primeiros jornalistas oriundos das universidades começaram a povoar os jornais, Nelson não escondeu sua decepção. Lamentava a ausência de um Homero, Camões ou Dante, capaz de entupir de rimas e poesia uma boa história. Várias de suas crônicas foram dedicadas à estagiária com “odor da PUC”, que deslizava entre as mesas e cadeiras com “leveza irreal” e “a agilidade incorpórea das sílfides”, mas que não sabia articular uma pergunta. Chegou a contar, quando foi entrevistado por uma que quis saber a opinião dele sobre a tecnologia: “Depende..”, começou a responder Nelson, sendo bruscamente cortado pela estagiária, pulando à questão seguinte, já satisfeita, como se “depende” fosse uma resposta “total e de uma clarividente originalidade”.

Na verdade, Nelson Rodrigues tinha pouca paciência e até certo desprezo pelas novas gerações. Chegou a dizer que, na vida, em geral, o jovem tem apenas duas alternativas: “Ou é um Rimbaud, ou então um débil mental, desses que babam”. Mas nem por causa disso era um saudosista. Quando os telejornais surgiram, foi um dos primeiros a vaticinar o fim do jornal impresso. Nelson alertava que se liam apenas os “fatos da véspera” e nunca do próprio dia. Diagnosticou assim a “velhice” profissional que acometia os “jornalistas de papel”, cada vez mais obsoletos, “mais fora de moda que o charleston”.

Grande parte da sua fama de polêmico jazia justamente na forma singular de ver o mundo. Inconscientemente, contemplava uma prática pouco valorizada no jornalismo, mas de grande importância: o contraditório. Na verdade, Nelson se lixava para a opinião dos outros. Achava, inclusive, que “toda unanimidade era burra”. Quando os companheiros de redação, muitos chamados por Nelson de “idiotas da objetividade”, refutavam suas crônicas esportivas, utilizando o que viam no replay das partidas, Nelson não se fazia de rogado e, ressaltando a ausência de criatividade de uma tecnologia que reduzia sua existência ao ato de apenas repetir e repetir uma rotina, cunhou a célebre máxima: “O videotape é burro”. E ele sabia o que estava dizendo. Os textos de Nelson Rodrigues sobre futebol são o que de melhor a crônica esportiva brasileira foi capaz de produzir até hoje. Peladas poderiam virar batalhas épicas e sangrentas, disputadas numa atmosférica feérica e decididas por lances sobrenaturais. Nada escapava ao “não olhar” rodriguiano, capaz de encaixar a presença “impalpável” de uma “grã-fina de nariz de cadáver” em um Botafogo e Santos, no Maracanã que, aflita, questionava incessantemente “Quem é a bola? Quem é a bola?”.


A família do autor. Foto: Reprodução

Na mesma proporção que colecionava fãs com suas crônicas esportivas, Nelson via engrossar a fila de desafetos, que o tachavam de “reacionário”. E não por acaso. Sempre tinha uma opinião sobre tudo e geralmente contrária ao pensamento vigente, seja sobre a exposição banal do umbigo após a popularização do biquíni, à histórica passeata dos “Cem Mil” que, na visão dele, não reuniu ninguém do povo, um “desdentado, favelado ou batedor de carteira” sequer. O afã crítico de Nelson Rodrigues não poupou o ministro da Fazenda da época, Delfim Netto, que justificou o mau rendimento da indústria têxtil ao uso crescente da minissaia, diminuindo assim o consumo de tecido, nem o Festival da Canção, quando zombou tanto do derrotado Geraldo Vandré quanto do vencedor, Tom Jobim, dois intocáveis ícones da MPB. Vingativo, sempre que podia tirava um sarro do então crítico de teatro Paulo Francis, não muito simpático à dramaturgia rodriguiana, a quem Nelson se referia singelamente como “um falso cínico”.

Paulo Francis, aliás, foi considerado por alguns, ironicamente, como um dos seguidores da linha de um jornalismo sem papas na língua, embora seu texto não se comparasse à prosa metafórica rodriguiana. Outros se arvoram de tentar imitar o estilo, porém sem o mesmo sucesso, como o duvidoso Diogo Mainardi, que mais que ter uma opinião sobre os fatos, faz questão mesmo é de ser gratuitamente um chato. Curiosamente, quem tem cumprido com certo êxito a missão é o cineasta Arnaldo Jabor, um fã confesso de Nelson Rodrigues, que levou às telas vários dos textos desse autor. Jabor, por sinal, não raro convoca o próprio Nelson a participar de sua coluna semanal para um sobrenatural bate-papo telefônico.

Mas a verdade é que, desde que Nelson Rodrigues se foi, não surgiu nada de novo ou inspirador na imprensa, suficiente para vencer as barreiras do politicamente correto sem apelar para o humor de mau gosto e raso como um pires. A unanimidade reina, apoiada em números do Ibope ou da circulação de vendas dos jornais e, somado ao videotape, o tira-teima não abre espaço para batalhas sobrenaturais no campos de futebol. O contraditório e a polêmica foram sepultados ao lado do velho Nelson, esquecido até mesmo em sua terra natal, onde há uma avenida presidente Kennedy, mas nenhuma rua, praça, viela, quiçá um beco com chão de terra batida que ostente o seu nome. O centenário do dramaturgo e escritor é a chance de se perceber que o legado de Nelson Rodrigues não está contido na magistral obra que produziu, mas na atitude de suspeitar e duvidar de tudo, de enxergar o mundo não com os olhos, e sim, com a cabeça. 

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