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Perfil

Na busca pela paz e reconciliação

A história do diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello, morto em atentado à sede da ONU em Bagdá, em 2003, neste 2020 em que a organização faz 75 anos em meio a uma crise humanitária mundial

TEXTO BEATRIZ COSSERMELLI

02 de Setembro de 2020

O diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello, em 2000, na Malásia

O diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello, em 2000, na Malásia

FOTO Shamshahrin Shamsudin/AFP

[conteúdo na íntegra | ed. 237 | setembro de 2020]

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Tornar a figura de Sergio Vieira de Mello conhecida, especialmente no Brasil, foi o objetivo principal de Wagner Moura, ao produzir e estrelar o filme Sergio (2020), sobre o diplomata brasileiro de carreira na Organização das Nações Unidas, morto aos 55 anos no atentado à sede da ONU em Bagdá, em 2003. Distribuído pela Netflix, o filme foi dirigido pelo norte-americano Greg Barker, também diretor do documentário homônimo lançado em 2009 pela HBO. Ambos, documentário e filme, são baseados no livro O homem que queria salvar o mundo (Companhia das Letras, 2008), da jornalista e diplomata Samantha Power, intitulado originalmente como Chasing the flame, sugerindo o ímpeto que Sergio tinha de ir atrás do perigo.

Principal mediador de conflitos durante o tempo em que esteve na ONU (1969-2003), Sergio foi para o Iraque como enviado especial do secretário-geral Kofi Annan, para representá-lo na reconstrução de um Estado sem governo e sob invasão norte-americana (aliás, não autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU). Não tivesse ocorrido o atentado covarde que marcou a história da organização, muito provavelmente nós teríamos, hoje, um brasileiro no mais alto cargo do multilateralismo e da ajuda humanitária no mundo, pois Sergio era cotado para ser um dos próximos secretários-gerais da Organização das Nações Unidas.

Em seus 34 anos de carreira, ele esteve em 14 áreas de conflito: zonas de guerra, territórios sob ocupação estrangeira, Estados recém-independentes, campos de refugiados. O filme se concentra nas suas duas últimas missões, a do Timor-Leste e a do Iraque, com breves cenas da missão no Camboja, na qual ele foi o primeiro funcionário da ONU a dialogar com um comandante do grupo genocida Khmer Vermelho.

Como diplomata, Sergio tinha essa particularidade de querer compreender melhor o funcionamento da mente de pessoas consideradas terríveis pela História, como tiranos, senhores de guerra e genocidas. O seu objetivo era o de persuadi-los a colaborar com a paz e a reconciliação, sempre visando ao alívio da dor de civis. Para ele, sentar com esses sujeitos e dialogar – na situação anárquica que caracteriza as relações internacionais – seria sempre mais eficaz do que ficar de fora criticando, a alimentar uma oposição que só traria, para ele, mais violência.

O seu lema era nunca dizer “isto é inaceitável”: como diplomata, a sua proposta era fazer com que o inaceitável se revelasse como tal, mas sem que isso resultasse de um posicionamento baseado na divisão. Essa foi a lição que Sergio aprendeu após a sua experiência no Líbano, vórtice da antiga e problemática questão palestina. Aliás, essa missão de entender a diferença a partir de um diálogo aberto, inclusive com os tiranos mais intoleráveis, parece ser a nossa lição impossível em tempos de divisões quase insuperáveis.

Desde muito cedo, Sergio conviveu com os princípios da diplomacia, afinal, seu pai era diplomata brasileiro. Se estivesse vivo hoje, Sergio veria a ascensão do neofascismo no Brasil, representada pela presidência de Jair Bolsonaro, assim como o seu pai presenciou uma abrupta mudança de governo: o golpe de 1964. Após 28 anos de serviço, Arnaldo Vieira de Mello foi afastado do exercício da diplomacia, junto com outros diplomatas que não agradavam ao regime, como Vinicius de Moraes.

Sergio, que provavelmente teria seguido carreira acadêmica, se não tivesse perdido o suporte material do pai, viu-se na necessidade de buscar o seu sustento. Impedido de voltar ao Brasil por ter participado das manifestações estudantis na Paris de 1968 (um estudante brasileiro que assim fez acabou “desaparecendo” ao chegar no Brasil), ele mudou-se para Genebra para tentar a sorte em uma organização internacional. Na Organização das Nações Unidas, ele foi recebido por um conhecido de um conhecido de seu pai, a quem foi pedir emprego.

Como narra Samantha Power, em O homem que queria salvar o mundo, a resposta dele foi: “Sinto muito, Sergio, a ONU se beneficia de todas as profissões que existem sob o sol, exceto a de filósofo”. Ele havia se formado em Filosofia na Sorbonne, tendo iniciado seus estudos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), passado, entretempo, um ano na Universidade de Friburgo (Suíça), e concluído finalmente o curso em Paris. Apesar da negativa, e para a sua sorte, dias depois abriu-se uma vaga de edição em língua francesa na Agência da ONU para Refugiados (UNHCR). Sergio agarrou a oportunidade. Ele dedicaria sua vida a essa agência, chegando a seu cargo máximo: o de alto comissário para os refugiados. Através dela, ganhou o mundo.

Sua primeira missão como agente humanitário foi no recém-independente Bangladesh, antigo Paquistão Oriental, prestando assistência aos refugiados da Guerra de Independência. Ali, no contato direto com os civis, aos 23 anos, ele compreendeu que, para mudar o mundo, ele não poderia ser apenas um homem de ideias – precisaria ser igualmente um homem de ação.

O diplomata com o presidente iraniano Mohammad Khatami, em Teerã, em 2003 FOTO Behrouz Mehri/AFP

Paralelamente à sua carreira na ONU, Sergio obteve o mestrado e o doutorado em Filosofia na Sorbonne. Ao regressar da missão de Bangladesh, ele completou a sua tese de 250 páginas. O título: O papel da filosofia na sociedade contemporânea. Para ele, o homem de ideias só tem impacto no mundo se for também um homem de ação. No curto documentário de boas-vindas a debutantes da ONU, Sergio deixa o seu recado: “Nunca se esqueçam de que os verdadeiros desafios e as verdadeiras recompensas de servir à ONU estão no campo, onde as pessoas sofrem, onde as pessoas precisam de vocês”.

Enquanto isso, no atual governo brasileiro, a ONU é chamada de plano comunista para dominar o mundo. Bolsonaro adota postura de confronto na Assembleia Geral, desagrada países árabes (compradores do frango halal brasileiro), ao defender uma Jerusalém exclusivamente israelense; compra briga com a China, principal importador de produtos brasileiros; alia-se a ditadores e genocidas pelo mundo e adota uma política de subserviência e alinhamento imediato ao atual presidente dos EUA, o supremacista branco Donald Trump.

Os valores tradicionalmente defendidos pela diplomacia brasileira desde o Barão do Rio Branco – diálogo, cooperação, resolução pacífica de conflitos, neutralidade – foram implodidos pela atual condução da política externa brasileira. Os erros foram tantos que o Brasil se tornou motivo de chacota nos corredores dos organismos internacionais e nas mesas de negociação, sendo desconvidado para iniciativas multilaterais. Segundo o diplomata Rubens Ricupero, o Brasil se tornou o pior exemplo internacional contemporâneo.

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Como foi comentado anteriormente, no filme Sergio, ganham destaque as duas últimas missões do diplomata antes de sua morte. A missão do Timor-Leste – chamada de Administração Transitória das Nações Unidas no Timor-Leste (Untaet) – ficou na história da organização como uma de suas mais bem-sucedidas. A do Iraque – chamada de Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque (Unami) – permaneceu como um de seus maiores erros. Sergio foi assassinado nesta última.

Como o filme sugere – embora não deixe tão claro –, não houve planejamento de segurança adequado, nem de resgate, tanto por parte da ONU como pelo exército norte-americano, que ocupava o Iraque. Sergio e o acadêmico Gil Loescher, que chegara naquele mesmo dia em Bagdá para uma pesquisa de campo, ficaram presos sob os escombros por três horas antes de o resgate operar. O salvamento foi feito, basicamente, por um bombeiro e um paramédico norte-americanos, ambos desprovidos de equipamentos adequados.

O nível de periculosidade da missão torna alguns fatos surpreendentes: os materiais que eles tinham em mãos eram uma bolsa de palha feminina, uma corda de cortina, uma bandeira da ONU e um serrote enferrujado para tirar os dois homens dali. Gil tinha de ser retirado antes, pois ele bloqueava o acesso a Sergio. Para sair dos escombros, teve as suas duas pernas amputadas a sangue frio. Quando os socorristas retornaram, Sergio havia sucumbido.

É preciso lembrar que Sergio nunca quis assumir a missão do Iraque, mas ele se viu sob imensa pressão para aceitá-la. Ele era o único nome da ONU que agradava tanto ao Reino Unido como a George W. Bush, além de ser fortemente indicado pelo secretário-geral da ONU para a complexa tarefa. Poucas semanas antes da invasão do Iraque, Sergio havia encontrado George W. Bush na Casa Branca. Ainda que ele tenha feito críticas às violações de Direitos Humanos por parte dos Estados Unidos nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, Bush ficou logo seduzido por sua personalidade e seu carisma. Sergio sabia o quão importante era ter o apreço do chefe de Estado e de governo da primeira potência mundial.

No Iraque, Sergio deveria auxiliar a coalizão na reconstrução do país através de tarefas como pacificação, conciliação de facções, construção de instituições democráticas e elaboração de uma nova Constituição, porém sem passar a impressão de que servia aos interesses dos EUA – algo que ele fez questão de reiterar aos jornalistas durante a missão. A ONU estava ali, de fato, como uma organização imparcial e neutra, com o objetivo de facilitar a devolução da soberania ao povo iraquiano, além de prestar a ele assistência humanitária.

Assim, aos 55 anos, ainda que cansado da adrenalina típica dessas missões e com outras prioridades pessoais, seu senso de dever com a ONU o impediu de negar a solicitação de seu chefe. Sergio colocou apenas duas exigências: levar a sua companheira, Carolina Larriera, e não ficar ali mais do que três meses. Kofi Annan queria seis, e eles se acertaram em quatro. Sergio contava os dias para o final da missão, quando o caminhão-bomba a mando da Al Qaeda explodiu debaixo de sua janela. Foi um ataque direcionado ao seu escritório, situado no terceiro andar do edifício. Carolina estava no mesmo andar, mas sobreviveu. Eles tinham planos de se casar no final daquele ano.


Sua trajetória foi marcada pela empatia com os civis
FOTO Everett/Fotoarena

Foi na missão do Timor-Leste que eles se conheceram. Ela, argentina de 27 anos, formada em Economia na Universidade da Cidade de Nova York, também era funcionária da ONU. Trabalhava ali na administração do programa de concessão de microcrédito para impulsionar uma economia ainda nascente. Ele, brasileiro de 51 anos, era representante especial do secretário-geral da ONU e administrador transitório das Nações Unidas no Timor-Leste, a quem foram concedidos poderes para a construção de instituições que permitissem a plena independência do pequeno país do Sudeste Asiático. Ambos gostavam de correr e foi assim que se conheceram: foi um encontro de almas gêmeas.

Sergio atravessava um processo de divórcio complicado com a ex-mulher, Annie Personnaz. Ambos estavam com separação de corpos firmada há mais de 10 anos em um tribunal francês, mas o divórcio nunca foi reconhecido plenamente por Annie. O diplomata a conhecera na juventude e teve com ela dois filhos, Laurent e Adrien, no final dos anos 1970. Enquanto Sergio dedicava a sua vida a difundir e praticar a Carta das Nações Unidas mundo afora, sua família vivia uma vida tranquila na região dos pré-Alpes franceses, na fronteira com a Suíça, a 20 minutos de Genebra.

Esse divórcio mal resolvido ainda renderia muitos problemas a Carolina após a morte de Sergio. A ela foram negados todos os direitos como sua companheira. Sequer em seu funeral pôde estar. Segundo ela, sem que saiba o motivo, a ONU a retirou da lista de sobreviventes do atentado, além de ter confiscado todos pertences do casal que estavam no apartamento no qual moravam juntos, em Bagdá, entregando-os à ex-mulher de Sergio. Eles já estavam juntos há mais de quatro anos. Foram necessários 14 anos para que ela tivesse sua união estável reconhecida pela Justiça brasileira, após um longo litígio. No seu dedo, carrega hoje a aliança que Sergio usava quando aconteceu o atentado, com o seu nome, Carolina, inscrito na superfície interna do anel.

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Sergio Vieira de Mello foi enviado para o Timor logo após o povo timorense decidir pela sua independência, através de um referendo supervisionado pela ONU, em 1999. A parte leste da ilha havia sofrido uma ocupação violenta e genocida pela Indonésia, durante 25 anos. Aproximadamente um quarto da sua população foi exterminada neste período. Com o fim da Guerra Fria, reuniram-se as condições geopolíticas para uma pressão internacional que levou ao fim da ocupação.

Antes da retirada, porém, as milícias indonésias desencadearam uma onda de violência que destruiu 90% da infraestrutura do país. Não sobrou pedra sobre pedra. A ONU criou uma força internacional para intervir na região, a Missão das Nações Unidas em Timor-Leste (Unamet); em seguida, a Administração Transitória das Nações Unidas no Timor-Leste (Untaet), liderada por Sergio.

O livro do jornalista e historiador pernambucano Wagner Sarmento, intitulado Sergio Vieira de Mello – o legado de um herói brasileiro (Olhares, 2018), examina detalhadamente a missão do Timor. O projeto que possibilitou o livro lançou também um belíssimo documentário homônimo, dirigido por André Zavarize. Livro e documentário podem ser acessados em www.sergiovieirademello.com.

Assim, na missão do Timor, reuniram-se as condições para a ONU realizar, sob a batuta de Sergio, o seu melhor feito. A empreitada foi um sucesso: em 20 de maio de 2002, foi declarada a independência do Timor-Leste, em uma cerimônia que contou com a presença de Kofi Annan. No dia seguinte, Sergio estava no avião de volta para Genebra. Uma nomeação prestigiada o esperava: a de alto comissário para os Direitos Humanos. Ele ficaria nessa função, que só não é mais alta do que a de secretário-geral, por quase um ano, até a sua morte precoce.

O atentado de 2003 foi o primeiro atentado terrorista da história a uma missão da ONU, de modo que se pode dizer que existe uma ONU antes e outra depois do atentado. Por mais que Bush tivesse justificado a invasão do Iraque, estabelecendo uma ligação entre Saddam Hussein e o terrorismo, movido por uma guerra ao terror iniciada no dia seguinte aos atentados de 11 de setembro de 2001, a ocupação norte-americana não havia preparado uma força de resgate com equipamentos adequados para operar em casos de atentados à bomba.

O certo é que a Al Qaeda havia chegado ao Iraque. Doze dias antes do atentado à sede da ONU, a embaixada da Jordânia em Bagdá havia sido objeto do mesmo tipo de atentado, matando 17 pessoas. Após o atentado do dia 19 de agosto, em que Sergio e mais 21 pessoas foram assassinadas, a missão ainda tentou permanecer: “Não façamos com que a morte dessas 22 pessoas seja em vão”, afirmou Kofi Annan.

Porém, em 22 de setembro, houve um segundo atentado, desta vez do lado de fora do prédio da ONU, que matou uma pessoa e feriu 19. Foi só depois disso que a organização se resignou. Nas semanas seguintes, houve a retirada de quase todos os funcionários da missão, reduzindo-a a uma pequena equipe que permanece até os dias de hoje, com funções modestas. Sequer a Cruz Vermelha em Bagdá foi poupada, sofrendo igualmente um atentado em 27 de outubro daquele fatídico ano.

No filme Sergio, Wagner Moura interpreta o diplomata brasileiro FOTO Netflix/Divulgação

Esses eventos mudaram o trabalho humanitário. Em um mundo radicalizado e sem ética, funcionários humanitários estão em perigo. Ao precisarem recorrer a aparatos de segurança, acabam por nutrir a imagem de um inimigo externo envolvido com um dos lados do conflito, sendo ainda mais hostilizados.

Assim, no século XXI, as organizações internacionais de assistência humanitária enfrentam um dilema: impotência ou militarização? Uma das tendências que se vislumbra, hoje, é a recorrência à nacionalização dos grupos de assistência, em que se prioriza o emprego de funcionários locais para diminuir o impacto de uma possível imagem de intervenção estrangeira. Com ou sem proteção, os agentes humanitários e funcionários internacionais merecem o nosso respeito. O dia 19 de agosto foi fixado como Dia Mundial Humanitário, com o objetivo de homenagear os agentes humanitários e funcionários internacionais que perderam suas vidas no exercício da função.

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Diplomatas brasileiros são agentes de Estado, e não agentes de governo; ao menos, é como deveria ser. Um diplomata brasileiro tem apenas uma função: defender o interesse nacional. Independentemente das aproximações políticas que o governo no poder quiser fazer, o corpo diplomático deve ter apenas um interesse em vista: o da nação brasileira. Nesse sentido, o Itamaraty e as Forças Armadas do Brasil são parecidos: o compromisso deles não é com um governo, mas com a soberania, a integridade e o desenvolvimento do Estado brasileiro.

Diplomatas de carreira, no Brasil, têm uma longa trajetória. Primeiro, preparam-se por anos para passar no concurso do Instituto Rio Branco, cotado como o mais difícil do país. Depois, se conseguirem uma das poucas vagas disponíveis, estudam por dois anos no instituto para praticarem o que aprenderam teoricamente. Só então ingressam no serviço diplomático brasileiro. Para chegarem ao cargo de embaixador, o ápice da carreira, os diplomatas levam cerca de 30 anos, tendo que passar obrigatoriamente pelos cinco cargos anteriores: terceiro secretário, segundo secretário, primeiro secretário, conselheiro e ministro de segunda classe.

Quando Jair Bolsonaro tentou indicar o seu filho Eduardo para a mais importante embaixada do Brasil no exterior, a de Washington, tradicionalmente ocupada por diplomatas de experiência que passaram previamente por outras embaixadas-chave – como Londres, Berlim e Pequim –, o atual presidente mostrou que a sua condução da política externa brasileira não visa atender aos interesses brasileiros, mas apenas aos de sua própria família. No cargo máximo do Itamaraty, temos um lunático adepto de delirantes teorias da conspiração, capaz de descredenciar uma organização tão importante como a Organização Mundial da Saúde – isto, em plena pandemia.

Ernesto Araújo (atual ministro de Relações Exteriores) é comandado por Eduardo Bolsonaro e Olavo de Carvalho, autointitulado filósofo e conhecido por suas injúrias à esquerda, à imprensa, à comunidade LGBTQI+, aos muçulmanos, além de muito admirado por Steve Bannon (que foi preso em agosto sob acusação de fraude em campanha de doações). Ex-estrategista de Donald Trump e ex-vice-presidente da empresa Cambridge Analytica, aquela que roubou dados de usuários do Facebook para ajudar na eleição de Donald Trump e no voto pelo Brexit, Bannon também fundou The Movement, grupo cujo objetivo é promover e reunir líderes populistas de extrema-direita, anti-imigração e antiglobalismo. Desde a eleição do pai, Eduardo Bolsonaro é o seu representante para a América Latina.

Pessoas como essas promovem exatamente o contrário do que promoveu Sergio em toda a sua vida: a solidariedade, a tolerância, a inclusão, o multilateralismo, o diálogo, os Direitos Humanos. Sergio via os civis impactados por conflitos como seres humanos dignos, e não como números ou estatísticas. A sua empatia com eles o diferenciava do simples burocrata. Diz-se que, quando esteve como mediador de conflitos na Bósnia, recusou-se a usar um colete à prova de balas, justificando que, se os civis não estavam usando, ele também não usaria. Em Bagdá, recusou-se a mudar de escritório para ficar mais protegido, pois não queria que a sua equipe estivesse exposta aos riscos a que ele mesmo não estaria sujeito.

Talvez esse seja o maior legado deixado por ele, e que é majoritariamente carente nos líderes de hoje: o comprometimento, o senso de responsabilidade para com os que sofrem, a coragem. Seu socorrista, William von Zehle, conta que, quando chegou para retirá-lo dos escombros, a primeira coisa que Sergio disse foi “não me tire”, ao que von Zehle respondeu que o tiraria dali. Sergio, então, corrigiu: “Não, não me tire da missão!”.

Após a morte de Sergio, Carolina foi morar no Brasil. Ela fundou, em 2008, junto com a sogra Gilda Vieira de Mello, o Centro Sergio Vieira de Mello, ativo no Brasil e no Timor-Leste. O objetivo do centro é promover a democratização do ensino da diplomacia para a população desfavorecida social e economicamente. Além disso, Carolina está preparando um livro, também em parceria com a sogra, de 102 anos, para contar o que viveram após a morte do diplomata.

Em Genebra foi fundada, em 2007, a Fundação Sergio Vieira de Mello, pela ex-mulher de Sergio e seus dois filhos, com o objetivo de promover a sua memória e continuar o seu trabalho, através de prêmio e palestra anuais. Onde quer que Sergio esteja, que seja lembrado, e que sua morte não seja em vão.

Nesse sentido, se o filme produzido e estrelado por Wagner Moura tem tal objetivo, ele é bem-sucedido. Podemos assim relevar os pontos fracos que tem, como excesso de foco no romance de Sergio e Carolina, a falta de contextualização dos conflitos e, sobretudo, a representação estereotipada de Carolina Larriera, como se ela fosse uma mera menina latino-americana superficial e apaixonada por um homem mais velho e casado. Não era o caso: Sergio já estava separado e ela, aos 27 anos, já tinha passado pela Universidade da Cidade de Nova York e tinha uma promissora carreira na ONU. Apesar disso, o filme funciona como um conversation starter, muito bem-vindo no ano em que a Organização das Nações Unidas faz 75 anos de sua existência.

BEATRIZ COSSERMELLI
, graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestranda no Instituto de Estudos Globais da Universidade de Genebra.

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