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Reportagem

Seguindo a corrente

Neste ano eleitoral, cresce a atenção sobre a disseminação e uso político de relatos de teor suspeito no WhatsApp e nas redes sociais

TEXTO Luciana Veras

01 de Agosto de 2018

Ilustração Marcos de Lima

[conteúdo disponível na íntegra | ed. 212 | agosto 2018]


A obrigação não consiste em mentir, em falsificar ou ignorar os fatos, a pretexto da invocação de uma verdade política superior, mas – e trata-se de algo muito mais difícil de fazer – de mudarmos a nossa posição subjetiva de tal modo que dizermos a verdade factual não implique a mentira na posição subjetiva da enunciação.
Slavoj Žižek em Violência (Boitempo, 2014)

Na noite de 24 de junho de 2018, domingo pós-São João, festa que deixa o Nordeste do Brasil recendendo a fumaça e fogueira, uma notícia sob o cabeçalho de um jornal pernambucano, que se apresenta como “o mais antigo em circulação na América Latina”, começou a se espalhar em grupos de WhatsApp, um aplicativo de troca de mensagens via celular. O texto asseverava que uma nova greve pararia o Brasil. O título vinha em maiúsculas: “CAMINHONEIROS AUTÔNOMOS ANUNCIAM PARALISAÇÃO A PARTIR DA 0H DESTA SEGUNDA”. Uma segunda linha reforçava o furo: “Os caminhoneiros alegam que não encontram combustível mais barato nas bombas como foi prometido”.

Em um parágrafo, a mensagem afirmava o seguinte: “A partir da 0h desta segunda-feira (25), caminhoneiros autônomos de todo o país vão parar. A paralisação é contra a política de reajuste de preços da Petrobras e também pela não redução de R$ 0,46 no preço do diesel em alguns postos do Brasil. Os caminhoneiros alegam que, 15 dias após o fim da greve geral da categoria, os caminhoneiros não encontram combustível mais barato nas bombas como foi prometido”. Na redação em si, percebia-se um certo desleixo para com as normas gramaticais, mas ortografia e respeito à regência e concordância verbais não são lá uma prática na difusão de conteúdos online e, portanto, não constituiriam, por si sós, indícios de comunicação fraudulenta.

Aliás, a mensagem terminava conforme o manual do jornalismo. “Fonte: Diario de Pernambuco, em 24/06/2018 às 13h24” – este era o crédito, seguido por um hiperlink. Até que se constatasse que o link dava para uma página inexistente, centenas de usuários do WhatsApp já haviam compartilhado aquele balãozinho de diálogo virtual inseparável do cotidiano da contemporaneidade brasileira. Resultado: houve quem acreditasse na veracidade daquela informação e se dirigisse ao posto de gasolina mais próximo para abastecer seu veículo, temendo ficar horas na fila como se viu em todo o país durante a greve (locaute) ocorrida, de fato, em maio.


Mensagens falsas sobre uma nova paralisação dos caminhoneiros circularam em grupos de WhatsApp. Foto: Vladimir Platonow/Agência Brasil/Divulgação

Tal episódio exemplifica o que tem acontecido milhares de vezes por semana no Brasil – a disseminação de relatos de teor suspeito em aplicativos de troca de mensagens – e evidencia um comportamento que não se restringe apenas a determinada parcela da sociedade, mas que se alastra por diferentes estratos culturais e etários desta gigantesca e contraditória nação de mais de duzentos milhões de habitantes – a propagação de inverdades. A partir dessa segunda greve que nunca houve, indagações básicas em série poderiam ser enumeradas. A primeira e mais óbvia seria: qual a origem da mensagem enviada com cabeçalho de um periódico que existe de fato, mas que jamais publicou uma notícia dessa? E a segunda: a quem interessa a multiplicação de mentiras?

Uma outra questão ancora-se no uso político de ferramentas como o WhatsApp no contexto atual de um país em convulsão política e social, em ano de eleição presidencial: como lidar com a divulgação do que se convencionou chamar de fake news, ou notícias falsas no idioma pátrio, e com o “efeito manada” que leva as pessoas a compartilharem conteúdos falsos sem se preocupar com a veracidade daquilo que irradiam? Manada, coletivo para gado ou cavalo, pressupõe seguir sem pensar, algo como “siga o líder”. Mas como identificar o líder em uma mensagem por WhatsApp? Tarefa hercúlea. Mais fácil talvez seja analisar as potencialidades, e os pontos obscuros, de um componente essencial para toda e qualquer comunicação – institucional, política, pessoal – pensada no Brasil de 2018.

“Segundo dados do próprio WhatsApp, essa ferramenta já tem mais de 120 milhões de usuários em nosso país. Além disso, é o aplicativo de troca de mensagens preferido da população. De acordo com o levantamento do Mobile Ecosystem Forum, 76% das pessoas com acesso à internet móvel no Brasil utilizam o WhatsApp. O Messenger do Facebook vem em segundo com 64% e o SMS em terceiro com 36%. Ou seja, ele tem um alcance que rivaliza com os meios de comunicação tradicionais. O seu modo de funcionamento tem uma característica importante: suas mensagens atingem apenas uma pessoa ou participantes de um grupo que não pode exceder o número de 256 integrantes”, observa Marco Weissheimer, jornalista, mestre em Filosofia pela UFRGS e editor do blog RS Urgente.


Para o jornalista Marco Weissheimer, o WhatsApp tem um alcance que rivaliza com os meios de comunicação tradicionais. Foto: Adriana Franciosi/Divulgação

Ou seja, sua força e sua capilaridade são imensas. Se cada grupo pode ter até 256 participantes, e partindo de uma razoável tese de que cada um desses membros possui, no mínimo, outros dez grupos, a mensagem sobre a suposta segunda greve dos caminhoneiros poderia atingir, saindo de um único usuário, cerca de 2,5 mil pessoas. “O uso do WhatsApp atravessa o ambiente familiar, as relações de trabalho e as mais diversas causas, que podem ir de grupos de proteção dos animais a de mobilizações como a greve dos caminhoneiros. Há sentimentos de afinidade em relação a um determinado tema e de confiança entre os participantes desses grupos que parecem servir, de certa maneira, como legitimadores da veracidade daquilo que é compartilhado. Não é, necessariamente, a má-fé que explica esse compartilhamento de conteúdos e informações nem sempre verdadeiras”, pontua Weissheimer.

Há quem se distancie do WhatsApp por princípio. “Pessoalmente, não uso o aplicativo”, confessa a jornalista Cynara Menezes, que durante anos atuou como repórter e editora na mídia impressa e desde 2015 edita o blog Socialista Morena. “Acho o WhatsApp o mais perigoso dos transmissores de fake news. Suas correntes são a maior fonte de notícias falsas atualmente e não há como contê-las. Nele, ninguém se preocupa em checar nada, apenas em passar adiante”, lamenta. Para ela, o momento é de incerteza: “Eu tenho dúvidas se hoje no Brasil as pessoas são crédulas demais ou se elas na verdade desejam acreditar nessas notícias que compartilham, mesmo sabendo que são falsas. Porque, em geral, só se compartilham notícias com as quais se concorda. Se elas são falsas ou não, as pessoas parecem não se preocupar muito. O que importa apenas é perceber se as notícias corroboram a forma com que pensam sobre determinado assunto”.

Sua visão para os idos de outubro é pessimista. “Acredito que o WhatsApp será muito importante sobretudo para criar boatos e, com isso, colaborar para que esta seja provavelmente a campanha eleitoral mais suja da história”, vislumbra. Marco Weissheimer, por sua vez, antevê a fresta para uma janela de provocação nesses meses que antecedem a eleição. “Os partidos políticos, os sindicatos e os movimentos sociais têm um desafio tecnológico a enfrentar aí: as possibilidades de produção e distribuição de informação – e de formação de narrativas, portanto – se multiplicam a cada dia, criando cenários e plataformas que não existiam até bem pouco tempo. É preciso aprender a aprender de novo”.

VERDADE?
Aprendizagem é aspecto indissociável da humanidade. Inclusive, aprender a convencer era práxis recorrente na Grécia, berço da filosofia e da própria ideia de civilização ocidental. “Cinco séculos antes de Cristo, os sofistas, que foram os primeiros professores de fato, eram pagos para ensinar a convencer. A verdade? Bem, a verdade tinha que ser útil, no sentido de uma concepção de utilidade para seduzir, para que nela acreditassem independente do seu conteúdo. Uma verdade retórica. Isso representou uma divergência com o que Sócrates pensava e, mais à frente, com a ideia de verdade defendida por Platão”, explana a antropóloga e educadora Dayse Luna, que durante anos lecionou História e Filosofia para turmas do Ensino Médio (disciplinas que movimentos como Escola Sem Partido, sob a bandeira do temor à “doutrinação ideológica”, pretendem alienar do currículo escolar).

Ela prossegue: “Quantos boatos, quantas notícias falsas foram sendo plantadas ao longo da História?” Essa estratégia é muito usada em momentos de crise profunda, de acirramento, de conflito”. Apesar de Adolf Hitler ser o indiscutível símbolo do regime nazista na Alemanha, quem orquestrou a maquinaria publicitária, e assim contribuiu para propalar a noção de que o povo judeu haveria de ser exterminado, foi Joseph Goebbels. De 1933 a 1945, Goebbels serviu como o ministro da propaganda do Reich. Foi ele quem criou a Schriftleitergesetz (a lei do editor, em tradução livre), que daria a seu partido o controle da imprensa. Em resumo, para que qualquer cidadão pudesse assumir um cargo de repórter ou editor, era preciso obedecer a critérios raciais e regular sua atuação em concordância com os preceitos do Nacional-Socialismo “como uma filosofia de vida e uma concepção de governo”.

Isso implicava, como se viu no decorrer do III Reich, a aniquilação dos hebreus, povo tido como ameaça à causa ariana. Em Violência, escrito em 2008 e publicado pela Boitempo em 2014, o filósofo, psicanalista e teórico esloveno Slavoj Žižek reflete sobre a perseguição à população judaica: “Analogamente, ainda que os judeus ricos da Alemanha do início da década de 1930 explorassem ‘realmente’ os trabalhadores alemães, seduzissem suas filhas, dominassem a imprensa popular e assim por diante, o antissemitismo nazista continuava a ser radicalmente ‘não verdadeiro’, continuava a ser um quadro ideológico patológico. Por quê? O que o tornava patológico era o seu investimento libidinal denegado da figura do judeu. A causa de todos os antagonismos sociais era projetada no ‘Judeu’, objeto de amor-ódio patológico, figura espectral portadora de um misto de fascinação e repulsa”.


Campanha do referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia é marco da pós-verdade: assim como a vitória de Donald Trump nos EUA, o Brexit fez uso da relativização de fatos. Foto: Wikimedia Commons/Divulgação

Setenta anos depois, como se dá a proliferação de um discurso de ódio semelhante? No campo ingovernável da internet, onde frequentemente a mentira pesa mais do que a verdade, tanto no WhatsApp, criado em 2009 na Califórnia, como no Facebook, que surgiu em 2004, no mesmo estado norte-americano a abrigar o Vale do Silício, o enclave das grandes corporações da tecnologia da informação. Detalhe curioso: o Facebook adquiriu o WhatsApp em 2014, por uma astronômica soma de US$ 19 bilhões. O Twitter, nascido em 2006 também na Califórnia e atualmente com cerca de 336 milhões de usuários, ainda não foi incorporado pelo colosso inventado por Mark Zuckerberg, contudo também se notabiliza como um patamar liberado às fake news.

Em estudo divulgado em março deste ano na revista Science, publicação semanal da Associação Americana para o Avanço da Ciência, e repercutido pelo britânico The Economist, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) atestaram que, no universo cibernético do Twitter, as notícias falsas “viajam mais rápido e mais longe do que as verdadeiras”. O time liderado por Soroush Vosoughi, integrante do laboratório de mídia do MIT e do Berkman Klein Center da Universidade de Harvard, empreendeu uma missão fenomenal: examinou cada tuíte (mensagem de até 140 caracteres – até ano passado, quando o limite passou a ser de 280 – postada na rede social) enviado entre 2006 e 2017.

“Os pesquisadores usaram modelos estatísticos para classificar os tuítes como falsos ou verdadeiros, ao aplicar dados tirados de seis organizações independentes de checagem de fatos. Isso permitiu a categorização de mais de 4,5 milhões de tuítes sobre 126 mil histórias diferentes. Essas histórias foram posteriormente hierarquizadas de acordo com o modo como foram disseminadas entre os usuários do Twitter”, detalha o texto do The Economist.

Os resultados? As histórias verdadeiras levaram, em média, um tempo seis vezes maior do que as fake news para atingir um mínimo de 1,5 mil usuários. Apenas 0,1% do conteúdo verídico foi compartilhado por mais de mil pessoas, mas 1% das postagens falsas amealharam entre mil e cem mil compartilhamentos. “Segundo os pesquisadores”, prossegue a matéria do The Economist, “a razão pela qual a informação falsa tem mais êxito do que a verdade é simples: as coisas se espalham através das redes sociais porque elas são cativantes, e não porque são verdadeiras”.

Em janeiro deste ano, o instituto francês de pesquisa Semiocast anunciou que o Brasil ocupava o segundo lugar no ranking de contas no Twitter, com cerca de 33,3 milhões de usuários cadastrados, perdendo apenas para os Estados Unidos (onde os cerca de 108 milhões de usuários acompanham as peripécias do atual presidente, Donald Trump, que costuma emitir opiniões, defenestrar assessores e achincalhar detratores em seu perfil). Ou seja, o Brasil, onde áudios apócrifos no WhatsApp simulam vozes de ex-presidentes ou de atuais ministros, também é uma nação tuiteira. E, por conseguinte, uma nação tuiteira onde grassam as fake news. “Ambiente propício para isso o Brasil já tem: um país que adora redes sociais, com forte polarização ideológica e pouco gosto pela leitura”, opina Andreia Rocha, jornalista e mestra pela UFPE e doutoranda em Comunicação pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona.


Autor de livro sobre fake news, o britânico Matthew
D’Ancona define: 
“Nunca houve um modo mais rápido
e mais poderoso de espalhar uma
mentira do que
postá-la online”


Na Espanha, ela estuda a representação do neoliberalismo pelas imprensas brasileira e espanhola e a influência do discurso midiático na construção de uma opinião pública favorável a esse modelo econômico, em especial durante períodos eleitorais. Entende que há mais elos entre Europa e América do Sul do que poderia imaginar nossa vã filosofia, mas crê que “nosso país reúne várias características que o deixam mais suscetível à manipulação”. Ela afirma: “É preciso lembrar que a popularização das chamadas fake news é apenas um sintoma, e não a causa dos nossos problemas. O sucesso e o papel importante que as redes sociais conseguiram no processo de construção da realidade têm explicações que vão além da teoria social e passam também pela psicologia. Já sabemos que, como seres sociais e comunicativos, precisamos interagir para viver e que vivemos melhor quando nos comunicamos. Na modernidade, os grupos de WhatsApp se tornaram uma extensão de tudo a que pertencemos na ‘vida real’, como a família, escola, igreja e trabalho, uma espécie de foro particular onde podemos falar e ser ouvidos, só que com um alcance infinitamente maior do que era possível na velha reunião de família, no culto de domingo ou dentro da sala de aula”.

O que Andreia Rocha visualiza é “uma espécie de utopia da comunicação”. “Com o WhatsApp, percebemos que é possível falar e ter a atenção de bem mais que as quinze pessoas que antes podíamos alcançar em um dia. E isso nos deixou em transe. Mas, nesse processo, deixamos a postura crítica de lado e seguimos com a manada. Entramos de cabeça no que Dan Sperber e Deirdre Wilson chamam de ‘Teoria da Relevância’: um fato será mais relevante para nós quanto menos esforço de compreensão exigir e quanto mais reforçar nossos valores e crenças pessoais. Nesse caso, a passividade na propagação de fake news nada mais é do que a mistura do profundo desejo de falar e ser ouvido com nossa necessidade de compreender os temas complexos ao nosso redor da maneira mais fácil e rápida possível, o que defende a teoria da relevância”, sustenta.

Para aplacar esses obstáculos, ela defende que o horizonte é de desafio. “Esse é um debate que precisa ser feito com muito cuidado, já que o combate ao lixo informativo faz fronteira íntima com os limites da liberdade de expressão e de informação, preceitos sagrados e caros a todas as democracias”, vaticina. Em um país já imerso em uma campanha presidencial, existe um outro elemento crucial a ser considerado: no âmbito do Direito, ainda não existe uma conceituação específica para o WhatsApp, tampouco uma regulação. “Trata-se de um programa de mensagens pela internet, e não uma rede social, e esse é um conceito apenas técnico, e não jurídico. A diferença importa porque na lei eleitoral apenas há regras específicas para as redes sociais, que não se adéquam ao aplicativo”, diz o advogado Fernando Neisser, cuja dissertação de mestrado pela USP, sobre crimes eleitorais e controle material da propaganda eleitoral, tornou-se o livro Crime e mentira na política, lançado pela Editora Fórum.

Segundo Neisser, que é coordenador adjunto da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), a atualidade é complexa no campo da legislação eleitoral. De um lado, as mentiras que ele reputa como “aquelas que você sabe de qual boca estão saindo”, como as exibidas e rebatidas nos programas de guia eleitoral, e para as quais seria “preciso muito menos controle por parte da Justiça Eleitoral”. “O próprio eleitor tem alguma condição de descobrir quem foi o autor da mentira, ou então entidades de fact-checking podem fazer isso, portanto acho que cabe uma atuação minimalista da Justiça, até para evitar um certo paternalismo sobre o eleitor, que tiraria do seu ombro a responsabilidade para separar o que é verdade do que é mentira dos candidatos”, comenta o advogado.

Do outro, os boatos que circulam sem fonte em plataformas como Facebook e aplicativos como o WhatsApp, atribuindo dizeres a nomes que se assemelham a fontes jornalísticas na tentativa de “tomar emprestada alguma credibilidade que a imprensa tem”. “Esses colocam um desafio diferente, pois algumas pesquisas empíricas mais recentes já mostram que existe um efeito maior desse tipo de informação sobre o eleitorado do que aquilo que é dito pelo próprio candidato em sua propaganda”, aponta Fernando Neisser. “Mas a última preocupação que a Justiça Eleitoral deve ter no Brasil é com a mensagem que a tia manda no grupo da família do WhatsApp. Combater isso impõe uma quantidade monstruosa de trabalho, pessoas, equipamentos, papel e atenção que não se justifica, no meu modo de ver, pelo grau de efeito que isso pode ter na formação do voto do eleitorado. Se formos entrar com uma representação eleitoral contra cada tia, cada pessoa que difundiu fato inverídico, imagine as horas de trabalho dos servidores? O cobertor da Justiça Eleitoral é curto demais”, acrescenta.

Não que essa mesma mensagem equivocada não esteja passível de responsabilização. Neisser alerta que, diante de uma realidade em que ainda vicejam compra de votos, esquemas ilegais e uso da máquina pública, de nada adiantaria uma “atuação muito incisiva” da Justiça Eleitoral para combater notícias falsas que circulam no WhatsApp. “Dentro daquilo tudo que sai de fontes obscuras, o boato da tia não pode atrair tanta atenção do poder público, pois não existem braços para controlar isso. O grande problema reside na produção profissional desses boatos, que hoje tendem a ser difundidos a partir do uso abusivo de dados pessoais, dados esses captados de forma ilegal. Há bancos de dados muito grandes, com milhões e milhões de registros, dezenas de centenas de informações como o trajeto que você adota no Uber, o caminho que faz pelo Waze, o que pede no iFood, as buscas que você faz na internet. Quando se reúne esse tipo de banco de dados com técnicas mais apuradas, como psicometria e neuromarketing, isso permite dividir a sociedade em grupos extremamente pequenos e homogêneos com relação ao pensamento. E aí, sim, você é capaz de saber tudo sobre o que os toca, o que os move e a que tipo de conteúdo ficariam mais suscetíveis”, ressalta.

A legislação eleitoral prevê, já a partir das eleições de outubro próximo, o uso de posts patrocinados por qualquer candidato. Isso significa que, de posse desses dados, por vezes à margem da lei, é possível produzir conteúdos específicos, emotivos, repletos de matizes que fazem sentido àquele seleto grupo de indivíduos. Ficção científica ou o devaneio de Don Draper, o publicitário do seriado Mad men? Realidade. Em fevereiro de 2018, veio à tona o escândalo da Cambridge Analytica, empresa de coleta e análise de dados sediada na Inglaterra. A CA teve acesso (e deu uso, claro) aos dados de perfis de 87 milhões de usuários do Facebook para atuar, decisivamente, em duas campanhas que redefiniram o xadrez geopolítico internacional em 2016: a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a decisão do referendo nacional do Reino Unido por se retirar da União Europeia, o Brexit.

PÓS-VERDADE
Não por acaso, 2016 é tido como o marco da pós-verdade. Foi nesse ano de Brexit, Trump e deposição de Dilma Rousseff que o dicionário Houaiss incluiu o verbete “pós-verdade”, tomando como parâmetro o uso pelo jornal Folha de S.Paulo em 15 de dezembro. A descrição: “falsa asserção apresentada como fato, que apela para a emoção do público, mistificando a verdade e ultrajando a ética”. O tradicional léxico brasileiro seguia o Oxford Dictionaries. Em Pós-verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (lançamento em 2017 no Reino Unido e em 2018 no Brasil, pela Faro Editorial), o jornalista britânico Matthew D’Ancona radiografa o declínio da autoridade da mídia e a ascensão de uma perigosa relativização (para dizer o mínimo) do objeto primordial da comunicação: os fatos. “Para tudo há um tempo: em 1968 teve início a grande revolução da liberdade pessoal e o desejo pelo progresso social; 1989 será lembrado pelo colapso do totalitarismo; e 2016 foi o ano que lançou a era da ‘pós-verdade’ de forma definitiva”, assinala no parágrafo do capítulo inicial.

D’Ancona alinhava reflexões e informações sobre o caldeirão de efervescência midiática que alicerçou tanto a vitória de Trump como a próspera campanha do Brexit – ambos os marcos calcados em inverdades diluídas em falas moldadas para envolver mais sentimento do que razão. “Não por acaso, em 2016, o Oxford Dictionaries escolheu ‘pós-verdade’ como sua palavra do ano, definindo-a como forma abreviada para ‘circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal’”, escreve, para depois sacramentar: “De fato, nunca houve um modo mais rápido e mais poderoso de espalhar uma mentira do que postá-la online”.

A socióloga Roseane Xavier fez graduação, mestrado e doutorado na UFPE e, nessa última instância, estudou sobre ativismo online em movimentos contra a corrupção no Brasil. No transcurso da tese, capturou as vibrações das Jornadas de Junho, o acirramento da eleição de 2014, quando Dilma venceu Aécio Neves, e também o impeachment da presidenta reeleita com 54 milhões de votos. Descortinou, ao longo de quatro anos que transformaram o país, os mecanismos de construção social dos discursos e a maneira pela qual a internet se instaurou como arena para legitimação de uma ascendente polarização. “É na web que se fortalecem as bolhas ideológicas, que sempre existiram. A distinção é que, em um contexto de descrença com relação às instituições e à mídia tradicional, e de um individualismo acima da média, com a tecnologia há um empoderamento do indivíduo. Aquela informação que chega através do WhatsApp pode ser difundida sem mediação alguma. Qualquer um pode se apropriar daquele conteúdo para multiplicá-lo, numa convocação às outras pessoas. Mas essa multiplicação só vai se dar dentro daquela bolha que já existe e que, de uma certa forma, propõe um diálogo apenas para aqueles que já são seus”, enxerga a pesquisadora, que atua em um instituto de pesquisas políticas na capital pernambucana.

O que ela preconiza é que, no Brasil de hoje, a disputa de narrativas entre direita e esquerda, por exemplo, contribui para que sobressaia a pós-verdade. “Na minha pesquisa, pude entrevistar movimentos como o Endireita Brasil e a Frente Brasil Popular. Todos usam os mesmos mecanismos de deslegitimar o discurso alheio a fim de consolidar o seu, aprofundando a polarização que já existe. Se pensarmos no conceito de swarming, que parte da ideia de enxame, veremos que as pessoas tendem a se juntar àqueles que pensam igual a elas. Com a polarização, vão buscar as narrativas que lhes tocam emocionalmente e dar crédito ao suposto saber, como diria Jacques Lacan, na medida que esse saber venha para legitimar o que elas querem que seja a verdade”, condensa Roseane Xavier.

Embora classifique a internet como “um ponto nodal” para tudo o que se vivencia hoje, a socióloga atenta para o fato de que nada disso é, exatamente, uma novidade. “A construção de discursos hegemônicos por parte da mídia sempre existiu. A História é, de várias maneiras, uma construção”, relembra. Nesse sentido, discutir pós-verdade no Brasil de 2018 é uma façanha distinta de, digamos, vinte anos atrás porque existem os algoritmos de plataformas como Google e Facebook a entregar nossos gostos e valores e a apropriação desses dados por todos os agentes envolvidos na operação midiática. Mais: é como se a população, diante de um sentimento de desamparo, só quisesse acreditar no que soe como um bálsamo, um canto de sereias para desanuviar corações e mentes.

De que outra forma explicar, por exemplo, o sucesso de um site chamado Notícias Brasil Online, que ficou em terceiro lugar entre as páginas com melhor desempenho no Facebook, analisadas pelo ranking idealizado pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, coordenado pelo professor Pablo Ortellado, da USP? Em uma reportagem do Portal G1, que entrou no ar no final de junho, foi revelado que o site publica textos de uma colunista chamada Marcela Ross. Ela não existe. Outras notícias relativas à Operação Lava Jato ou a pesquisas em que um número expressivo de brasileiros pede a intervenção militar, postadas nesse site e amplamente difundidas, são enganosas.

“Faço uma crítica ao conceito de pós-verdade, assim como não gosto de usar o termo fake news. É notícia falsa mesmo, que não surgiu agora com a internet. Esse tipo de estratégia para distorcer fatos sempre existiu no Brasil, onde não por acaso há uma concentração de poder midiático na mão de poucas famílias, que muitas vezes dominam seu território politicamente e, claro, no campo da comunicação”, argumenta o jornalista Eduardo Amorim, membro do conselho diretor do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, uma das mais ativas organizações na luta pela democratização da comunicação no país.

Para ele, distorção da verdade é “instrumento constante” na narrativa que a televisão, por exemplo, insere diariamente no lar de 63% da população – dados da Pesquisa Brasileira de Mídia 2016, conduzida pelo IBGE, asseguram que a TV é o meio preferido por esse contingente de brasileiros. Se neste julho de 2018, o mesmo IBGE projeta a população para cerca de 209 milhões, a fatia enamorada por telejornais, telenovelas e afins corresponde a aproximadamente 132 milhões de pessoas. “O Intervozes tem uma história de luta para garantir o direito à comunicação, que é algo essencial num país como o Brasil. Apoiamos as iniciativas da sociedade civil para combater as notícias falsas, mas cobramos do poder público que faça sua parte. É obrigação do Estado o combate a essa difusão de inverdades. Não pode se ausentar da regulação dos meios de comunicação e da internet”, expõe Amorim, que em seu doutorado em Comunicação pela UFPE estuda silêncios e silenciamentos no ambiente digital.

É por captar a importância do que é dito e do que não é dito, portanto, que ele defende um posicionamento mais firme da União: “Vejamos o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Logo depois da sua morte, houve uma enxurrada de notícias falsas, que repercutiam que ela era casada com um traficante, ligada a traficantes do Rio de Janeiro, numa tentativa de associar a esquerda carioca com o tráfico. Logo depois, fizeram uma pesquisa que indicava que 40% dos cariocas acreditavam nas mentiras sobre Marielle. Um percentual de 40% muda o resultado eleitoral. Imagina trabalhar nessa faixa de voto. A sociedade não pode aceitar esse tipo de leitura e o governo, por sua vez, precisa ser mais incisivo contra quem detém o monopólio da comunicação e da internet, como o Google e o Facebook”.

Em 28 de março, duas semanas após o crime que vitimou a vereadora e o motorista Anderson Gomes, a maior rede social em atividade no Brasil, com 46 milhões de usuários, retirou do ar uma página de notícias errôneas após decisão judicial que acatou pedido da irmã e da viúva de Marielle Franco. “O Facebook respeita a Justiça e removerá os conteúdos específicos indicados nos autos, conforme prevê a legislação brasileira”, informou a empresa. Em junho, o Intervozes ratificou a Recomendação nº 4/2018 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que versava exclusivamente sobre “medidas de combate às fake news e garantia do direito à liberdade de expressão”. “A desinformação não está restrita às redes sociais, é um fenômeno maior”, apregoava Iara Moura, uma das coordenadoras do coletivo e integrante da Comissão Permanente de Direito à Comunicação e à Liberdade de Expressão do CNDH, em postagem na página do Intervozes.

JORNALISMO BEM-FEITO
Decerto, trata-se de um fenômeno vasto no Brasil. Entretanto, há quem pressinta a oportunidade do revide da comunicação. “Vejo uma maior ênfase na qualidade e na valorização do jornalismo bem-feito. Essa tendência esteve presente, por exemplo, em dois recentes eventos internacionais sobre jornalismo online dos quais pude participar: o 19o ISOJ - International Symposium on Online Journalism, promovido pelo Knight Center for Journalism in the Americas, ocorrido em Austin, em abril, e o Gen Summit 2018, realizado por The Global Editors Network, que aconteceu em Lisboa, em maio”, conta Daniela de Lacerda, jornalista e doutoranda em Mídias Digitais no programa UT|Austin Portugal, na Universidade Nova de Lisboa.

Segundo a pesquisadora, este é “um movimento naturalmente associado à proliferação de disinformation, que é a informação falsa deliberadamente disseminada com o intuito de causar danos; à malinformation, que vem a ser a informação verdadeira, compartilhada com o intuito de causar danos, como no caso de dados privados que são usados para denegrir a imagem de alguém; e à misinformation, aquela informação falsa compartilhada inadvertidamente, sem intuito de causar mal”. “Quando não se sabe em quem acreditar, é preciso contar com pilares de credibilidade”, comenta Daniela, que tem notado uma bifurcação no modo como o jornalismo está sendo pensado. “As organizações jornalísticas voltaram a investir no jornalismo de qualidade, o que é uma excelente notícia depois da tenebrosa cultura dos clickbaits – em que a qualidade do conteúdo foi relegada a segundo plano, enquanto se corria atrás do maior número possível de cliques e curtidas, de olho nos anúncios teoricamente atrelados a essas métricas”, comemora.

Seria a chance de uma salvação? “Na era do desamparo, da orfandade, de uma generalização de descrença que nos faz trafegar entre o ‘nada presta’ e o ‘tudo presta’, no meio de campo entre a apatia e revolta, onde é abundante a circulação das fake news, nesse ‘vale-tudo’ onde falta coerência e sobra hostilidade, creio que o que parece ser o fim pode ser a redenção do jornalismo. Um reencontro com sua essência, com a credibilidade, com a busca por novas narrativas que se encaixem nas diversas linguagens disponíveis”, cogita o jornalista e consultor Ricardo Mello.

Com experiência em comunicação institucional e várias campanhas políticas na bagagem, ele compara os desafios de um candidato ao que se deslinda para a atividade jornalística: “O que vai diferenciar um candidato de outro? A autenticidade. A pessoa precisa expor suas ideias por fala, fotos, na agenda com as pessoas, na forma como se coloca, enfim, em um conjunto de componentes que constroem uma armadura. Mas essa armadura precisa ser crível e não apenas um invólucro. Com o jornalismo é o mesmo. O fato objetivo pode estar posto – um acidente entre um ciclista e um ônibus –, mas é preciso ir atrás de novas angulações, da narrativa certa para contar e interpretar, e da autenticidade dessa narrativa. Isso o jornalismo sabe fazer”.

“O jornalismo ainda é a boia de sobrevivência no mar de desinformação”, respondia Cristina Tardáguila à Continente numa segunda-feira de julho. Ela estava no aeroporto de Porto Velho; na condição de diretora da Lupa, “a primeira agência de fact-checking no Brasil”, como se define em seu site, havia dado um treinamento ao Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia. “Tenho feito dezenas de palestras e dado várias oficinas não apenas para comunicadores, mas para pessoas que nunca pisaram em uma redação. Por exemplo, treinamos os juízes de fiscalização do TRE de Rondônia, também demos um treinamento ao TRE de Pernambuco, ou seja, ensinamos métodos de checagem de dados a pessoas que não são jornalistas mas que precisarão decidir sobre a veracidade de uma informação e, para isso, recorrerão às técnicas jornalísticas para melhor executar suas profissões”, sublinha.

A agência Lupa tem uma equipe de quinze pessoas e, em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), montou um circuito de treinamento em fact-checking. Mil jornalistas já receberam a capacitação em checagem. Além disso, desde maio, a Lupa empreende uma parceria com o Facebook para verificar o que circula naquela plataforma – o Brasil é o segundo país no mundo no número de usuários dessa rede social, atrás apenas dos Estados Unidos. “O projeto está bem incipiente, mas vejo um interesse razoável em dar passos reais na luta contra as notícias falsas. Buscamos um recorte jornalístico e o apartidarismo para selecionar os conteúdos que vão ser checados. Essa parceria vai até dezembro e acho que, com a proximidade das eleições, o caldo tende a engrossar”, acredita Cristina Tardáguila.

No site da Lupa, várias etiquetas enquadram os conteúdos submetidos à verificação: verdadeiro; verdadeiro, mas...; ainda é cedo para dizer; exagerado; contraditório; insustentável; falso; de olho. Dezenas de notícias catapultadas à fama através do WhatsApp foram examinadas pela Lupa (algumas divertidas até, como a caça que Diego Maradona lançou a quem divulgou um áudio afirmando sua morte depois de um jogo da Argentina na Copa do Mundo). A agência usa a hashtag #Verificamos ao divulgar o resultado das análises. “A sociedade está angustiada, se afogando na overdose de informações e sem saber em quem confiar. O jornalista, que foi treinado para apurar e escrever de forma ética, correta e equilibrada, é mais importante do que nunca”, sintetiza Tardáguila.

Resistir é imperativo, pois, como valoriza Matthew D’Ancona em Pós-verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de fake news: “É um desafio que vale a pena enfrentar. A coragem, a persistência e o espírito colaborativo serão recompensados: a verdade se revelará”.

COALIZÃO
Na primeira semana de agosto de 2018, o projeto Comprova iniciará seu percurso no Brasil. O corpus: uma coalizão composta por 24 veículos jornalísticos, inspirada no CrossCheck, que se debruçou sobre a campanha eleitoral presidencial na França em maio de 2017, e criada pelo First Draft, vinculado à Universidade de Harvard. Aqui, a coordenação é da Abraji com apoio do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). O foco: esquadrinhar a desinformação online nas eleições de 2018, através de um processo que garantirá que um mesmo conteúdo será verificado por três veículos distintos.

Líder do First Draft no Brasil e uma das organizadoras do Comprova, a jornalista Adriana Garcia vê a “a oportunidade para ressignificar a função do jornalismo na sociedade digitalizada”. “Hoje existem grupos organizados com a finalidade de causar danos, gerar desestabilização, e isso mudou o ambiente da internet. O Comprova vai se dedicar a investigar aquelas informações e conteúdos que circulam de fontes não oficiais. Os rumores, os boatos... É um processo quase forense: desmascarar fotos adulteradas, os memes, os gifs, as correntes de WhatsApp, todo esse chorume da internet”, explica à Continente.

Em uma plataforma online, o conteúdo escolhido para ser verificado será postado por qualquer um dos veículos que pertencem à coalizão e, depois, checado por outras duas instâncias. Uma vez atestado que houve adulteração em uma foto, por exemplo, a apuração será validada, haverá um desmentido e a foto receberá um selo. O Comprova será financiado, em parte, pelo Google e pelo Facebook. Adriana Garcia não descerra o valor do projeto, mas reconhece a importância do envolvimento dos titãs da internet: “Boa parte do problema foi criada pelas plataformas de redes sociais, então é compreensível que elas sejam coautoras dessa limpeza. Estão apoiando com tecnologia e com ajuda de custos. Esse processo tem que acontecer porque as pessoas precisam se informar. A desordem da informação online é extremamente nociva”.

E na última semana do oitavo mês do ano, entrará em cartaz o longa-metragem Ferrugem, do realizador paranaense Aly Muritiba. Sendo a arte um profícuo campo de reflexão para a vida, natural que o cinema também se ocupe de moer os assuntos em voga no Brasil. No enredo, uma adolescente sofre com as consequências da difusão de uma mensagem via WhatsApp. “Ferrugem parte do vazamento de um conteúdo íntimo em um grupo do colégio e toda a trilha que se segue decorre da progressão geométrica que isso vai tomando na vida de uma personagem, da fofoca virtual que cresce e transforma a existência da garota em algo delicado e difícil de suportar”, antecipa o diretor.

Ele define como “consequências incontroláveis” o que pode decorrer do uso pernicioso do WhatsApp. “Existe um número enorme de fake news que tem se disseminado no nosso país, no nível pessoal e no coletivo, e informações repassadas quase como fofocas, sem ser checadas. Quando a mensagem chega, daí que a fonte seja verificada e se descubra que era uma notícia falsa, o estrago já terá sido causado”.

CONTROLE?
No dia 19 de julho, quando esta reportagem estava prestes a ser despachada à gráfica, o WhatsApp revelou, em nota, que adotará uma conduta restritiva ao compartilhamento de mensagens: “Alguns anos atrás, adicionamos um componente que permitia ao usário encaminhar mensagens para múltiplas janelas de uma vez só. Hoje, estamos lançando um teste para limitar o encaminhamento, a ser aplicado a todos que usam o WhatsApp. Na Índia - onde as pessoas propagam mais mensagens, fotos e vídeos do que qualquer outro país - também vamos testar um limite mínimo de envio de 5 bate-papos por vez e removeremos o botão rápido para encaminhar as mensagens de mídia”.

A medida é uma resposta à morte de um jovem indiano, linchado ao ser confundido com um suposto sequestrador de crianças após a viralização de um vídeo que, na verdade, havia sido produzido como alerta contra a abdução infantil. Porém, como garantir que terá eficácia para impedir as fake news ou a erosão dos fatos no redemoinho da pós-verdade?

E, se não se sabe o que acontecerá ao WhatsApp, seara ainda inalcançável ao radar da Justiça Eleitoral do país, o que se dirá de Tati, a protagonista de Ferrugem? Nesse ínterim, enquanto a ficção não colide com a realidade brasileira, resta a torcida para que os ventos soprem na proa da sensatez e do compromisso ético nesse vasto território onde emoção e razão duelam nas mesmas veredas em que se lapida a opinião pública e se espraia a polêmica a enfeixar fake news, pós-verdade, WhatsApp e o futuro do jornalismo.

LUCIANA VERAS é repórter especial da revista Continente.

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