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Ficção

Jimi, espere até amanhã

TEXTO DÉBORA NASCIMENTO

ILUSTRAÇÕES NEILTON CARVALHO

02 de Agosto de 2020

Ilustração Neilton Carvalho

[conteúdo na íntegra | ed. 237 | setembro de 2020]

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Não adianta se sentir sozinho
Estou procurando ser livre
A história da vida é mais rápida
Do que um piscar de olhos
A história do amor
Olá e adeus
Até nos encontrarmos novamente

Encerrou assim Jimi Hendrix o último verso de seu poema The story of life e o deixou na cabeceira da cama, antes de deitar a cabeça no travesseiro do quarto do hotel Samarkand, em Notting Hill, Londres. Na madrugada daquele 18 de setembro de 1970, o artista havia acabado de chegar de uma festa onde usufruiu de uma das benesses de ser um astro do rock: flertar com garotas, comportamento simbolizado na foto repleta de jovens nuas, publicada no encarte do álbum Electric Ladyland, lançado dois anos antes. As mulheres costumavam ser especialmente atraídas por sua presença magnética e seu tipo híbrido: sexy, rebelde e suave, com jeito ao mesmo tempo inofensivo e perigoso. Algumas entendiam que eram apenas passatempo, outras queriam algo mais sério, como Monika Dannemann. Durante a festa, ela sentia que seu relacionamento com o músico não era tão importante pra ele quanto era pra ela. Estava ansiosa por ser promovida do cargo de namorada da vez desse ícone da contracultura.

No dia 17 de setembro, o casal estivera bem. Monika, que era patinadora alemã, encontrou uma forma de se conectar com o mundo artístico de Hendrix: fez registros fotográficos para o próximo álbum do guitarrista. Com essas fotos, o músico pretendia transmitir uma imagem mais condizente consigo: tímido e sensível. Ele deu folga às costumeiras roupas e acessórios extravagantes. Vestindo um casaco jeans discreto, segurava sua Fender Stratocaster, sentado à mesa decorada com um conjunto de chá de porcelana, em um jardim. Esse cenário emanava calmaria, contrastando com a rotina atribulada de um deus do rock ’n’ roll que realizava shows literalmente incendiários.

No dia 18 de setembro, o casal chegou ao flat de madrugada e não conseguiu dormir facilmente após a discussão que ocorrera, regada a vinho tinto e cobranças. Para solucionar o problema, Monika tomou um comprimido de Vesparax, um poderoso sonífero. Dormiu um sono leve. Sonhava que Hendrix estava com visual diferente. Em vez das roupas coloridas, ele usava um manto translúcido e havia um brilho intenso em seu contorno. Ela parecia ouvir a música May this be love. Durante o sonho, sentiu um arrepio no braço, como se alguém a tocasse suavemente. Acordou e foi vê-lo. Ao notar a cartela vazia e apenas uma pílula no chão, percebeu que ele havia tomado mais remédios do que o necessário. Tentou acordá-lo em vão. Desesperada, ligou para alguns amigos, que a aconselharam a chamar uma ambulância.

Durante o trajeto para o hospital St. Mary Abbot, ele vomitou o vinho e os comprimidos que havia tomado. Após os procedimentos médicos, o músico recebeu alta às 12h45, com uma observação do plantonista: “Naquele estado, você poderia ter entrado em coma e, se vomitasse, poderia ter morrido afogado no próprio vômito”. Na volta para o hotel, Jimi teve uma epifania, percebendo que quase fora vítima de uma morte estúpida e precoce, com apenas 27 anos. Um arrepio subiu na sua nuca, junto a uma percepção clara de que deveria mudar de comportamento. Seu maior medo não era exatamente o de morrer, mas o de não poder mais tocar guitarra – companheira com quem dormia, acordava e vivia. Dois dias depois, voltou aos Estados Unidos decidido a amenizar no álcool e nas drogas, com exceção ao LSD e à maconha – adquirida muitas vezes pelo roadie James “Tappy” Wright.

Ao retornar aos Estados Unidos, Hendrix encerrou o contrato com o empresário Michael Jeffery, que, desde sua estadia na Inglaterra, exigia que o artista não mudasse o seu estilo e permanecesse fazendo as mesmas performances mirabolantes de sempre, tocar com os dentes, com a língua, com a guitarra nas costas, quebrar e incendiar o instrumento... Hendrix já estava farto de, na maior parte das vezes, ser reconhecido apenas por esses truques, que sempre atraíam a curiosidade da mídia, até então não especializada em música, mas em generalidades – o surgimento da Rolling Stone, em novembro de 1967, mudou o cenário e passou a formar repórteres na cobertura musical, e, em janeiro de 1968, ele foi capa da revista. Naquele ano, era o principal artista negro do rock, gênero embranquecido em um país ferozmente racista, que havia assassinado Martin Luther King dez meses antes.

A notícia de que ele passou mal repercutiu na imprensa e alguns amigos fizeram ligações telefônicas. Dentre eles, Janis Joplin. Eles haviam se conhecido no festival de Monterey, primeiro grande evento de rock da história, realizado entre 16 e 18 de junho de 1967, na Califórnia. No festival, eternizado pelas lentes de D. A. Pennebaker, os dois artistas despontaram como grandes performers e passaram a ser nomes obrigatórios em qualquer programação musical que se prezasse. A participação de Hendrix em Monterey se deveu a Paul McCartney, que sugeriu o nome do guitarrista ao curador John Phillips, compositor do The Mamas and the Papas.

Na ligação para Hendrix, Janis falou sobre o próximo disco, Pearl, que estava gravando com a nova banda Full Tilt Boogie Band e seria lançado em poucos meses. Ela estava apreensiva sobre como seria a recepção ao álbum, pois havia se separado dos companheiros da Big Brother & The Holding Company, para seguir carreira solo e ainda se sentia sem a sua verdadeira trupe. Convidou Jimi para participar de uma faixa. Ele foi evasivo em sua resposta. Janis disse: “Aguardo você”.

Ao meio-dia de 3 de outubro, ela estava em seu quarto do hotel Landmark, em Hollywood, enquanto a banda gravava uma faixa instrumental no Sunset Sound Recorders. Sem ter o que fazer, entediada, se sentindo solitária, saudosa do ex-namorado, começou a beber, honrando seu estilo de vida junkie, que consistia em ficar bêbada todos os dias. Perto do final da tarde, caiu no sono e só acordou com batidas em sua porta.

Sabendo que ela estava no quarto, Jimi Hendrix insistiu até que ela o atendesse. Abriu a porta, ainda embriagada. Ele a chamou para comer e beber algo num bar próximo, o Barney’s Beanery, no Santa Monica Boulevard, em West Hollywood. Ao chegar, escolheram uma mesa e passaram algumas horas conversando sobre a indústria fonográfica, as drogas, a paixão que ambos tinham pelo blues e sobre suas vidas.

Rabiscando na madeira da mesa, Janis revelou que, entre 1968 e o fim de 1969, teve seis overdoses de heroína, mas estava há algum tempo sem se drogar. Falaram sobre as inseguranças e suas infâncias difíceis. Ela lembrou do bullying contínuo que sofrera no período estudantil, por não se enquadrar nos padrões femininos da época. E contou da vez em que um grupo de integrantes da fraternidade a escolheu na eleição anual como o “Homem mais feio” da universidade.



– Essa humilhação me fez chorar bastante. Foi quando decidi sair definitivamente do Texas e deixar minha família, amigos e passado para trás.

– Janis, alguns homens podem não ter coração…

– Mas me vinguei de todos eles na festa de reencontro dos ex-estudantes. Adivinha quem estava, com as roupas mais chamativas, dando entrevista para toda a imprensa?


Relembrando o trauma, a cantora cogitou ligar para o entregador de drogas e pedir um pequeno pacote de heroína. Ela costumava confiar nesse traficante, pois a pureza da droga já vinha medida, como forma de evitar mais overdoses – que pareciam uma epidemia naquele ano. Jimi entendeu o motivo de Janis querer embarcar novamente no pó, mas conseguiu convencê-la de que não seria uma boa escolha, afinal estava “limpa” há seis meses. Essa abstinência era algo que ela havia prometido a David Niehaus, que conheceu na praia de Ipanema, no início daquele ano, e com quem viajou pelo Rio de Janeiro e Salvador, como dois hippies estrangeiros. David zelava verdadeiramente por ela, mas a relação sofreu abalos por causa do vício e após flagrá-la na cama com uma mulher.

A conversa entre Janis e Hendrix seguia, quando os primeiros minutos do 4 de outubro despontavam. Decidiram voltar aos seus quartos. No dia seguinte, haveria mais sessões de gravação. Na chegada ao hotel, Janis o abraçou forte, agradeceu a presença e foi dormir pensando em seu novo disco e no ex-namorado. Na manhã seguinte, acordou com a chegada de um inesperado telegrama de David: “Sinto muito a sua falta. Sozinho, as coisas não são as mesmas. Posso encontrá-la em Kathmandu quando quiser, mas o final de outubro é sempre lindo. Amo você, mamãe. Mais do que você imagina”. Essa breve leitura a fez abrir seu sorriso sapeca e uma janela para o futuro.

Além do novo disco de Janis, Hendrix passou a ser chamado para participar de vários álbuns de artistas da década de 1970, principalmente dos ingleses, que o idolatravam, como os ex-Beatles, David Bowie, Led Zeppelin, Pink Floyd... E foi também convidado para integrar alguns eventos musicais, dentre eles um que aconteceu em 25 de novembro de 1976, Dia de Ação de Graças. Nessa data, rumou ao Winterland Ballroom, em São Francisco, para tocar no show de despedida da The Band.

O guitarrista apresentou sua famosa versão de All along the watchtower, de Bob Dylan. Logo em seguida, tocou na jam session liderada por Dylan, que cantou I shall be released, acompanhado por Jimi e os demais convidados, incluindo Neil Diamond, Emmylou Harris, Ronnie Hawkins, Dr. John, Paul Butterfield, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, Ronnie Wood, Neil Young e Eric Clapton – ele e Jimi, que se conheceram no começo da carreira do norte-americano em Londres, combinaram, nos bastidores, de realizar um disco de blues. Esse projeto só ganhou vida em 2002, com Riding with the hero.

Durante a gravação do show, Hendrix conheceu também Martin Scorsese. O cineasta fazia a direção do que seria intitulado como The last waltz, tornado referência do gênero documentário musical. Fã, Scorsese conversou com o guitarrista para que fizesse um documentário sobre sua trajetória. Jimi considerou que ainda era muito jovem pra isso. Entre muitas ligações e conversas, o filme somente foi realizado em 2008 (três anos depois de No direction home, sobre Bob Dylan). Nele, o instrumentista fala sobre o período em que tocava nas bandas de Little Richard, Ike & Tina Turner, Isley Brothers, sobre o breve período como paraquedista das Forças Armadas, a primeira guitarra aos 12 anos, suas experiências com drogas, o divórcio dos pais em 1950, a infância conturbada, com a presença esporádica da mãe e a morte dela, em 1958.

No final de 1977, Hendrix decide viajar a alguns países africanos para conhecer o continente de perto. Dentre eles, a Nigéria. Em Lagos, encontra-se com Fela Kuti. O músico nigeriano, ícone do afrobeat, já estava menos desconfiado com os artistas estrangeiros. Em 1973, ele havia mandado um grupo de capangas pressionar Paul McCartney, ao saber que o ex-beatle gravava (o álbum Band on the run) na Nigéria. Calejado pelo colonialismo inglês, imaginava que o compositor tivesse ido ao país para roubar sua música.

Hendrix fez uma participação na apresentação de Fela e sua banda na casa de show do nigeriano, o Afrika Shrine. No dia seguinte à performance, Jimi despediu-se do novo amigo e voltou aos Estados Unidos. Escapou da invasão policial à casa de Fela. Na ação, além do instrumentista ser espancado, algumas de suas 27 esposas foram surradas e estupradas pelos homens fardados. E sua mãe idosa, arremessada de uma janela, ficando debilitada por meses. O clube, depredado. O ataque foi uma retaliação por Fela usar sua reputação na mídia internacional para denunciar o governo militar.

Então, ficou claro para Jimi que seria arriscado voltar ao país africano. Mas ele acabou levando a influência do afrobeat para seu próximo álbum, The wings of an afrikan guitar, que ganhou um Grammy em 1979 – muitos consideram que este seria o primeiro álbum da categoria World Music, prêmio que só seria oficialmente concedido em 1992 para Planet drum, de Mickey Hart, que concorreu com Dori Caymmi (Brasilian serenata), Gipsy Kings (Este mundo), Salif Keita (Amen) e Milton Nascimento (Txai).

Um ano antes, em julho de 1978, Hendrix havia feito seu primeiro show no festival de Montreux. Nessa mesma edição, Gil também estreava no renomado evento. No backstage, o compositor baiano foi ao camarim de Jimi para revê-lo. Gil o conhecera alguns anos antes – havia assistido ao show do guitarrista no Festival da Ilha de Wight, no dia 30 de agosto de 1970, quando estava exilado na Inglaterra, junto com Caetano Veloso, por conta da ditadura militar no Brasil. Uma das atrações do Festival da Ilha de Wight daquele ano era Miles Davis, cuja banda incluía o percussionista brasileiro Airto Moreira. Durante a apresentação, Airto avistou Gil e Caetano, que estavam na plateia como dois ripongas. Ao final do show, convidou-os gesticulando com a mão para que fossem aos bastidores. Lá, conheceram o jazzista e também Hendrix, poucos minutos antes deste entrar no palco.

Já nos bastidores de Montreux, em 1978, Gil levou um jovem guitarrista brasileiro cabeludo, que integrava sua banda, para conhecer o guitar hero. Era Pepeu Gomes. Em 1969, ele, com 17 anos, era contrabaixista. Convidado por Gil para acompanhá-lo no Barra 69 (show realizado em Salvador antes de Gil e Caetano ingressarem no exílio em Londres), Pepeu passou um tempo morando na casa do artista baiano para conhecer e estudar os arranjos.

Uma noite, Gil disse: “Tenho um presente pra você”. E entregou a Pepeu a coletânea Smash hits (1968), de Jimi Hendrix. Naquela noite, Pepeu ouviu tanto o disco, que foi dormir baixista e acordou guitarrista. E, de manhã, já sabia tocar as introduções de todas as faixas. Daí em diante, Hendrix virou uma referência para as suas composições, como Malacaxeta, inspirada em Wait until tomorrow, e Ela é demais, que tem um pouco da introdução da versão de All along the watchtower. Pepeu não esqueceu o encontro com o ídolo, mas lamentou, assim como o guitarrista pernambucano Ivinho, também presente naquela edição, não ter um registro fotográfico do encontro.

Jimi estava acostumado a encontrar músicos novatos e fãs do seu trabalho. O Electric Lady Studios – único estúdio de gravação pertencente a um artista na época e montado no Greenwich Village, em Nova York – virou um laboratório de suas experimentações sonoras e um point de contato entre músicos. Por lá, gravaram centenas de nomes, como Bob Dylan, David Bowie, AC/DC, Clash, Blondie, Beastie Boys, Foo Fighters, White Stripes, John Mayer, The Roots, Daft Punk, Frank Ocean, M.I.A., Kanye West… O guitarrista também passou a produzir discos de outros artistas. Muitas parcerias foram feitas a partir das figuras que giravam em sua órbita. Apareciam muitos aspirantes.

No início dos anos 1980, por exemplo, uma jovem cantora destemida e determinada a fazer sucesso foi vista por lá, Madonna. Jimi e ela tinham algo em comum: sofreram com a ausência da mãe em momentos cruciais da infância. A jovem foi apresentada ao músico por seu então namorado, Jean-Michel Basquiat. Fã de jazz, ele chegou a pintar alguns quadros ouvindo o disco de Miles e Hendrix, The sun of psychedelic jazz (1979), que tinha Tony Williams na bateria e Jack Bruce no baixo – Paul McCartney fez participações especiais em algumas faixas. Tudo ia bem na visita ao estúdio, até que o artista plástico ficou enciumado com a troca de olhares e sorrisos entre sua namorada e Hendrix. E o casal foi embora pouco depois que o clima pesou.

Em 1980, Hendrix foi convidado por John Lennon para participar de uma faixa do disco Double fantasy, que o ex-beatle estava fazendo com Yoko Ono. O guitarrista e o ex-beatle tinham se conhecido após a rumorosa performance de Jimi no Saville Theater, em Londres, em 4 de junho de 1967. Naquela ocasião, sem ter ensaiado com Mitch Mitchell (baterista) e Noel Redding (baixo), Hendrix ousadamente abriu o show tocando Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, faixa que intitulava o disco lançado apenas três dias antes. Vale lembrar que o repertório do show era baseado em Are you experienced?, álbum de estreia de Hendrix, lançado em 12 de maio, e que o último show dos Beatles tinha acontecido em 29 de agosto de 1966. Então aquela se tornou a primeira – e rara – ocasião em que uma faixa do Sgt. Pepper’s, considerado o melhor álbum da música pop, seria tocada ao vivo. Quando Hendrix começou a tocá-la, George voltou-se para Paul e disse: “Agora vamos ter de voltar e regravar a porra das guitarras!”.

Hendrix não pôde participar do Double fantasy, mas virou um novo amigo do casal. E, no dia 8 de dezembro, foi chamado por Lennon para encontrá-los e tentarem uma parceria. No começo da noite, voltavam do estúdio para o Edifício Dakota, onde o casal tinha um apartamento. Quando estavam próximos ao prédio, Lennon avistou novamente o insistente fã que havia pedido um autógrafo antes. O rapaz, chamado Mark Chapman, sacou um revólver, e Hendrix, ao perceber o movimento, rapidamente bateu a guitarra com muita força no braço do estranho. Um tiro foi disparado no chão e a arma caiu. Depois da reação instantânea de Hendrix, ficou claro que todas as vezes em que quebrou uma guitarra o treinaram para usar o instrumento também como arma. Policiais que estavam próximos prenderam o criminoso, que repetia “Estou ouvindo vozes para matar John Lennon”.

Assustados, os três artistas, depois que voltaram da delegacia, subiram ao apartamento. Lennon achou prudente oferecer um quarto de hóspedes para Hendrix passar aquela noite. Afinal, loucos armados estavam à solta por Nova York. Lennon ainda cogitou que o maluco tivesse passado por uma lavagem cerebral promovida pelo FBI – o órgão o queria fora dos Estados Unidos há alguns anos, na tentativa de interromper sua influência na opinião pública em assuntos polêmicos, como a lucrativa Guerra do Vietnã e o seu apoio à causa dos Panteras Negras. Teorias conspiratórias à parte, os três chegaram à conclusão de que deveriam fumar até se acalmarem. Depois que relaxaram, Lennon passou a contar histórias hilariantes, imitando a voz das pessoas envolvidas. Isso, somado ao efeito da maconha, fez Jimi gargalhar muito. Na conversa, os artistas contaram episódios bizarros envolvendo fãs. Lennon observou:

– Veja bem, eu sobrevivi à beatlemania e a todas aquelas garotas histéricas querendo rasgar as nossas roupas e puxar os nossos cabelos. Mas posso considerar que eu ganhei de Paul, George e Ringo: tenho o fã mais maluco de todos os Beatles e também de todos astros do rock. Mas, Hendrix, nenhum deles chegou a fazer uma escultura do meu pênis. Conta essa história…

– Deixa isso pra lá, cara – falou Jimi, entre risos e tosses.

Nesse momento, Yoko mencionou que ia dormir, porque a agenda do dia havia sido cheia. Horas antes de Hendrix chegar, eles tinham participado de uma sessão de fotos com Annie Leibovitz para a capa da Rolling Stone. A revista ia publicar uma matéria sobre o lançamento do Double fantasy, primeiro disco do ex-beatle em cinco anos. A orientação do editor Jann Werner era que a fotógrafa fizesse apenas imagens de Lennon. Mas o compositor disse que Yoko deveria aparecer, afinal o disco pertencia aos dois. Essa era mais uma das amostras da yokofobia, preconceito contra o qual Lennon lutava desde que se conheceram, em 1966.

Annie, então pensou em fazer fotos deles nus, em referência à capa do disco Two virgins (1968). Mas só o ex-beatle aceitou tirar a roupa. Ao final do dia, Yoko ainda estava com a blusa preta que sairia na capa da revista. Quando ela foi para o quarto, Hendrix perguntou a Lennon se ele faria videoclipes para divulgar o álbum. Ele respondeu que pensavam em fazer para a música Woman, dando destaque a Yoko e à vida tranquila que eles levavam em Nova York. E acrescentou: “Jimi, você lembra que os Beatles inventaram o documentário musical, com A hard day’s night, e os videoclipes, quando nós não queríamos mais fazer show?”.

Hendrix não gostava de participar de videoclipes. Quando a MTV surgiu, em 1o de agosto de 1981, basicamente os clipes eram apenas com artistas brancos. Depois do megassucesso dos vídeos protagonizados por Michael Jackson, a emissora abriu uma brecha para outros artistas negros. A principal marca dos clipes de Hendrix era a psicodelia, algo que ainda remetia aos anos 1960. Mas, nos anos 1980, ele usou o som típico da década para realizar experimentações com sintetizadores, baterias eletrônicas e reverbs. Conseguiu emplacar nas rádios alguns sucessos, como Out of control, feita em parceria com Prince.

Nos anos 1980, a África já tinha se tornado um referencial em sua carreira. E a ligação afetiva com o continente fez com que ele se interessasse pelas questões políticas contemporâneas, como a prisão de Nelson Mandela e a pobreza dos vários países africanos. Quando Bob Geldof teve a ideia de realizar o Live Aid, para arrecadar fundos com o objetivo de combater a fome na Etiópia, convidou Hendrix para integrar a lista de artistas dos shows nos Estados Unidos. E o músico garantiu que faria uma apresentação marcante.

Para muitos, o show de Hendrix no John F. Kennedy Stadium (Filadélfia) conseguiu a proeza de ofuscar a performance do Queen no Wembley Stadium (Londres), considerada pela maioria da crítica o melhor momento do evento, realizado em 13 de julho de 1985 – quando Geldof declarou que aquele seria o Dia Mundial do Rock, comemorado até hoje. Freddie Mercury parecia saber intuitivamente que estava fazendo história com sua performance.

Seis meses antes, o Queen e Jimi Hendrix também estiveram numa acirrada disputa entre críticos e fãs sobre quem teria feito o melhor show no Rock in Rio. Ele se apresentou na sexta-feira 11, antes da banda britânica. E no sábado 19, antes do AC/DC. Nesses mesmos dias, também tocaram no evento Baby Consuelo e Pepeu Gomes. O casal falou com Hendrix, mas ele quase não reconheceu o guitarrista brasileiro, porque este estava com um visual muito diferente de sete anos atrás, quando se encontraram em Montreux. Os ex-Novos Baianos apresentaram a Hendrix caipirinha, feijoada e tapioca. Ele pensou em ficar para o Carnaval carioca, mas resolveu retornar antes. Deixou como marca, no Brasil, o momento que emocionou os fãs ao tocar o hino nacional brasileiro, assim como fez no show de encerramento de Woodstock ao interpretar, de forma iconoclasta, The Star-Spangled Banner. As suas versões transformaram a simbologia desses hinos, que vinham sendo apropriados e usados como propaganda ideológica dos seus respectivos governos.

No início dos anos 1990, Hendrix resolveu visitar seu pai, Al Hendricks, em Seattle. Na terra natal, convidado por uma jornalista local, foi conhecer a casa de shows Off Ramp Cafe. Lá, tocava uma banda nova chamada Nirvana. O vocalista, Kurt Cobain, que tinha se mudado para a cidade, viu o guitarrista na penumbra na plateia e mal conseguiu continuar a tocar. Após o show, tremendo, foi tentar falar com o músico. O rapaz era muito talentoso, mas tinha uma certa insegurança. Hendrix gostou dele e passaram a ter contato. E dizia para o jovem: “Você está numa fase perigosa, a dos 20 anos. Sexo, drogas, rock ’n’ roll, fama, sucesso, dinheiro, álcool, inexperiência, solidão e decepções são ingredientes perfeitos para se perder o horizonte. Se puder, tire, pelo menos, alguns desses ingredientes. Menos o rock e o sexo!”.

No dia 5 de abril de 1994, quando Kurt, drogado, planejava meter uma bala na cabeça, pegou antes uma caneta para escrever um bilhete-suicida e pensou em mencionar a frase “É melhor queimar do que desaparecer”, de Hey, hey, my, my, de Neil Young. Mas rapidamente ele lembrou de outra canção do compositor canadense, lançada dois anos antes, From Hank to Hendrix, que diz “A mesma coisa que te faz viver pode te matar no final” e desistiu do suicídio.

Em 2012, quando foram comemorados os 70 anos de Jimi Hendrix, 10 anos depois que Al Hendricks faleceu, a imprensa mundial procurou vários músicos que foram influenciados pelo revolucionário guitarrista, compositor, cantor e produtor. Nesse dia, ele estava um pouco deprimido, com a idade avançada no contexto da nova face da indústria musical e por se sentir um pária em um mercado liderado não pelos que têm amor incondicional à música, mas pelos que desejam lucro acima de tudo. Pegou um dos cadernos de cultura pra ler.

Numa das matérias, Kurt Cobain falava da importância de se ter por perto, ou a seu alcance, alguém que entenda o que se está passando. Falou que Hendrix lhe ajudou: “Ele não é somente um guitar hero. Ele é um herói. Ele vem salvando vidas com sua música e sua guitarra, influenciando jovens ao redor do mundo”. Hendrix leu aquilo, terminou de tomar o chá na xícara de porcelana e voltou a ficar feliz por estar vivo. Abriu a gaveta da cabeceira e pegou o papel onde escreveu o poema The story of life. Confirmou que, seja com 27 ou 70 anos, “a história da vida é mais rápida do que um piscar de olhos”. Olhou para sua Stratocaster temporariamente encostada na parede e sentiu a brisa de uma nova música chegando.

DÉBORA NASCIMENTO, jornalista, repórter especial da Continente, colunista da Continente Online.

NEILTON CARVALHO, músico, guitarrista da banda Devotos, artista plástico e técnico em eletrônica para áudio.

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