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Entrevista

“O corpo, no meu trabalho, é um elemento simbólico”

Performer de obras potentes na arte contemporânea brasileira, a paraense, que divide seu tempo de perita com o de artista, fala sobre seu novo trabalho, 'Ginástica da pele', e questões afins

TEXTO Geisa Agricio

01 de Julho de 2020

A artista Berna Reale

A artista Berna Reale

Foto FELIPE NYLAND/AGENCIA RBS/DIVULGAÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed. 235 | julho de 2020]

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111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos

(Haiti, Gilberto Gil e Caetano Veloso)

A composição de Gil e Caetano em referência ao Massacre do Carandiru – como ficou conhecida a chacina promovida pela Polícia Militar de São Paulo, em 1992, durante a rebelião no complexo penitenciário Casa de Detenção de São Paulo –, citada acima, representa como há muito tempo se perpetua, no sistema prisional brasileiro, o racismo institucional e as desigualdades sociais. O Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (2018), do Ministério da Justiça, mostra-nos que mais da metade da população carcerária do país é formada por jovens com idade entre 18 a 29 anos e que 64% deles são negros.

Como abordou a Continente em sua reportagem de capa de abril, o encarceramento em massa que coloca o Brasil como o terceiro país que mais prende no mundo – atrás somente dos Estados Unidos e da China – vem sendo discutido como um dos reflexos das disparidades étnicas de uma sociedade estruturalmente racista como a nossa. Segundo dados de 2019 do Banco de Monitoramento de Prisões, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a população carcerária do Brasil tem 812.564 pessoas presas, enquanto nos Estados Unidos há 2 milhões.

Olhar para esse panorama de interrupção de futuros, ou de “encarceramento seletivo” – como diz Berna Reale, na entrevista a seguir – provocou a artista visual e performer paraense a criar um impactante trabalho de crítica social em torno da violência e das políticas de Estado. Vídeo e fotoperformances, além das fotografias de registro, compõem a paleta da exclusão em Ginástica da pele, projeto cujo teaser saiu no fim do ano passado na internet, mas a obra completa ainda será lançada ao público – possivelmente logo após esta pandemia. “Não sei quando será mostrado, mas uma de minhas intenções é projetar em espaços públicos; a rua me atrai muito, projetar na cidade é uma das possibilidades.” 

“Foram dois anos de preparação e desenvolvimento para que a performance fosse levada a cabo, o que ocorreu em junho de 2019 e contou com a participação e colaboração de mais de 200 pessoas, entre participantes, equipe técnica, produção e mecenas, que viabilizaram a realização do trabalho”, contou-nos Berna, em conversas estabelecidas em momentos distintos, via WhatsApp, e editadas aqui em um só corpo textual.


Ginástica da pele, 2019. Foto: Divulgação

Com seu conceito estético posto na corporalidade, Ginástica da pele performa as estatísticas aqui citadas, numa alegoria de prática cênica que hierarquiza corpos, em proporção degradê de negros, pardos e brancos de acordo com quem mais é subjugado pelas abordagens policiais. Pelas ruas de Belém (PA), Berna Reale veste figurino de soldado e marcha à frente de 100 jovens, descalços, vestidos com shorts de tons aproximados aos da própria tez. O apito dá a marcação de quem manda (e desmanda) sobre suas existências, em representações gestuais de como a polícia enxerga e confronta esses corpos, ecoando uma série de ginástica dolorosa e incômoda: UM, mãos ao alto; DOIS, mãos atrás da cabeça; TRÊS, joelhos no chão; e QUATRO, testa no asfalto e mãos para trás, como quem vai ser algemado. 

Não é a primeira vez que ela denuncia mecanismos sociais de opressão em suas obras. Mas é possível que, com Ginástica da pele, a premiada Berna Reale se confirme como uma das mais afiadas críticas à violação de direitos humanos das artes visuais brasileiras, aprofundando reflexões sobre a violência e os corpos políticos já presentes em obras fundamentais como Americano (2013), Ordinário (2013), Rosa púrpura (2014) e as recentes Sobremesa e Comida de rua (2018). Num ano em que o mundo foi impelido a enfrentar, por conta de uma pandemia, a restrição de liberdades e assistiu ainda à eclosão de movimento social como #vidasnegrasimportam, as feridas simbólicas de Ginástica da pele fazem da obra um marco do seu tempo. 

Nascida em 1965, e atuando desde os anos 2000 como artista, há 10 anos Reale é também perita criminal do Centro de Perícias Renato Chaves, em Belém. Essa intersecção entre a vivência e as decorrências da violência imprime em sua trajetória artística uma propriedade cirúrgica para ironizar o tema em recortes diversos, causando-nos os incômodos necessários que os debates urgentes nos exigem.

CONTINENTE Podemos conceber que Ginástica da pele é uma anatomia imagética do encarceramento em massa no Brasil?
BERNA REALE Ginástica da pele não fala só da realidade brasileira. O país que mais aprisiona no mundo são os Estados Unidos, que tem uma história de segregação enorme. Ginástica da pele é um trabalho estético, mas calcado na realidade do mundo em que vivemos. Claro que o Brasil e os EUA foram minhas principais bases; o primeiro, por ser o que conheço a realidade de dentro e, o segundo, por ser o país com maior contingente de presos no mundo. 

CONTINENTE Como aprofundamento da sua pesquisa como performer, Ginástica da pele escancara ainda mais suas provocações artísticas do corpo político, já dispostas em outros trabalhos, e coloca, por uma ótica distinta, temáticas presentes em obras anteriores, como a violência policial e as mortes violentas. De que maneira você relaciona essa “lupa” sobre o corpo negro jovem, alvo da violência do racismo institucional, aos corpos que você vivencia na prática como perita criminal e ao corpo da arte (seu próprio corpo), exposto em seu papel transformador?  
BERNA REALE A ideia de Ginástica da pele partiu da minha vivência como perita criminal, hoje trabalhando no sistema prisional. Antes disso, já havia, em 2013, realizado Americano, que também aborda questões de cárcere. É importante ressaltar que minha pesquisa para Ginástica da pele foi feita com base nos dados do Infopen (Departamento Penitenciário Nacional) e também em pesquisas feitas sobre o número de prisioneiros dos EUA. A partir desses dados, resolvi fazer um desenho baseado numa mostra, uma porcentagem. A ideia era construir esse desenho por meio dos dados, mas também que os participantes tivessem, de alguma forma, a experiência de já terem sido abordados pela polícia. Assim, foi um trabalho longo, em que conheci a história de rapazes entre 18 e 29 anos (idade média dos encarcerados) e que tiveram, muitos deles, experiência traumática. O figurino também foi feito em uma fábrica onde os prisioneiros executam trabalhos de confecção de roupas como forma de diminuição de tempo de penalidade.


Americano, 2013. Foto: Divulgação

É importante registrar que, além dos rapazes de cor de pele preta/parda, existem também os rapazes de pele branca, tatuados, homossexuais, trans etc. Os corpos que estão ali fazem parte de um corpo social, como em todos os meus trabalhos, inclusive o meu, que nesta performance representa o poder do Estado, o que aprisiona, o que abandona, o que repete o exercício de punir o que está à margem. 

O corpo, neste trabalho e em outros, é um corpo coletivo, social e político. É evidente que os de pele preta e parda são a maioria, pois essa é a realidade, são eles também os que mais estão presentes em uma cena de crime, infelizmente, e vítimas de toda essa cruel realidade violenta em que vivemos. Como artista, procuro codificar essa estrutura, esses símbolos para o campo da arte, e a semiótica é uma ferramenta que utilizo para a construção de meu trabalho de arte. 

Não trabalho com o corpo individual, não falo de questões individuais, memória pessoal não me interessa; me interesso pelo coletivo, por um corpo de todos.

CONTINENTE Sabemos que, em Ginástica da pele, você acabou estabelecendo uma relação próxima com os modelos do projeto. Como se transformou para você essa relação arte x objeto? A arte invadiu a vida? 
BERNA REALE Não se tem objeto ou objetificação nesse trabalho, têm pessoas, tem a estética que elas representam e tem o conceito a partir da prática de vida. Impossível desenvolver um trabalho durante mais de dois anos e não se envolver emocionalmente, todos ali somos humanos. Tivemos perdas e ganhos durante o processo, tivemos morte e um nascimento durante esse trabalho, e isso é algo que marca. 

CONTINENTE Você, profissionalmente, está inserida na engrenagem estatal que critica em suas obras. Como é, na sua carreira de perita, o impacto do seu trabalho artístico? Como ele repercute nas instâncias do Direito Penal? Já ocorreu algum diálogo sobre a sua arte? 
BERNA REALE Não é fácil ser artista e perita criminal, sofri e sofro preconceito, é como ter que provar diariamente que você é competente para a função. Infelizmente, o artista neste país é visto sob olhar de diminuição, o que é um absurdo. Imagine entrar na perícia em um concurso público, onde passam engenheiros, arquitetos, médicos, economistas e você passa com seu título de graduação em Arte, imaginou? Agora, imagine você chegar para seu plantão de cabeça raspada. Acrescente a isso sua foto no jornal pendurada nua em um pau de arara carregada por açougueiros. Imaginou? Tive e tenho que provar todo dia que sou capaz, não posso cometer deslizes, pois pequenas falhas que, para uns, seriam perdoáveis, pra mim, será demérito. Ainda tem a natureza de artista de ser questionadora de posições autoritárias; tenho essa natureza, e é muito difícil lidar com ela dentro da hierarquia da segurança pública e, por questionar, já fui muito perseguida, você não imagina. No meu trabalho, na segurança pública, pouquíssimos colegas se interessam por arte e cultura, diria raríssimos casos. Então, diálogos nessa área são escassos, mesmo que eu tente, como tentei várias vezes, não há muito interesse. 


Sem título/Limite zero, 2011. Foto: Divulgação

Uma vez, teve uma exceção. Um coronel foi de uma tamanha sensibilidade com meu trabalho, que autorizou um processo que já tramitava há alguns meses sem sucesso, no qual eu solicitava autorização para entrar e fazer uma performance num presídio de segurança máxima. Todos com quem eu falava e procurava diziam que eu não conseguiria nunca. Um dia consegui que esse coronel, que na época dirigia o complexo dos presídios do Estado do Pará, me recebesse. Levei para ele umas fotos de meus trabalhos, para explicar melhor o que eu fazia. Enquanto eu explicava, ele olhava as fotos e, quando se deparou com a foto de A mulher, fotoperformance na qual estou com uma faixa de cartuchos de projéteis deflagrados, ele pediu para eu falar sobre aquela imagem. Então expliquei sobre a imagem da violência e ele disse: “Vou autorizar sua performance”. Até hoje, não acredito.

Mas, aproveitando a sua pergunta, vou falar também do preconceito que sofro no mundo da arte por ser perita. Já fui chamada de tudo, de tira, me acusam de conseguir, por vias duvidosas, fazer meu trabalho, já me caluniaram de tudo que você possa imaginar. Muitos não sabem a diferença de um perito criminal para um policial; enfim, muito preconceito, artistas também são, algumas vezes, preconceituosos e injustos. 

Eu nunca assinei um pedido de autorização em todos os processos de minhas performances usando minha função de perita criminal, sempre assino os pedidos como artista. Alguns artistas se incomodam, porque faço todos os trâmites de minhas performances oficiais, não aceito trabalho voluntário; pago, com muito sacrifício, cachê para todos os integrantes. Já vendi até meu carro para isso, e também dou ciência para todas as autoridades, baseada no Artigo 5 da Constituição, que me dá direito à livre expressão, mas na obrigação de não ser anônima. Faço isso, pois meus trabalhos levam de meses a anos para se realizarem e não posso correr o risco de chegar uma autoridade e parar meu trabalho. Não tenho dinheiro para produzir novamente. É necessário descartar essa preocupação pois ainda tem toda a tensão do trabalho em si em uma performance de rua. 


Ordinário, 2013. Foto: Divulgação

CONTINENTE Na sua vivência como artista e perita, quanto vale uma vida negra neste país? 
BERNA REALE Muito pouco, infelizmente. Pessoas de pele preta, e todos seus desdobramentos, e aqueles que vivem, em sua maioria, em situações de pobreza e à margem, são os que estão sempre servidos, sempre expostos à violência e os que mais sofrem com o preconceito e o racismo do poder da “segurança pública”. São os que abarrotam as prisões, enchem os arquivos criminais e cemitérios, e quase ninguém se importa.

CONTINENTE No Brasil, quase 90% da população reconhece que existe racismo no país e como as pessoas negras vivem em desigualdade. Mas apenas 6% se identificam como racistas. A conta parece não fechar. Na sua percepção, como o racismo estrutural, do qual não se fala, acontece no dia a dia, como ele se manifesta?
BERNA REALE É quase impossível um brasileiro não ter tido uma atitude racista, por exemplo, no ato de atravessar para o lado oposto da rua, à noite, quando se vê um rapaz de pele preta se aproximar. Muito poucos, talvez raríssimos, não o tenham feito uma vez na vida, e o incrível é que pessoas de pele preta também, às vezes, atravessam a rua na mesma situação, quando veem uma outra. Foi passado esse código de que pessoas de pele preta são potenciais criminosos, o que é cruel. E isso não tem relação com quem mais comete crimes, pois é o inverso. Muitas vezes, mesmo não cometendo o crime, quem vai preso como suspeito é o de pele preta e, por isso, estão se amontoando em prisões. Isso é um exemplo de racismo estrutural. 

CONTINENTE Ginástica da pele é uma ilustração para quem insiste em não enxergar as diferenças étnicas no recorte do encarceramento em massa?
BERNA REALE Penso que meu trabalho é uma provocação, um “esfrega na cara” de todos que querem se esquivar dizendo: “Isso não é comigo”. Um dia desses, postei uma foto da performance no Instagram e uma pessoa veio comentar que ensinava seus filhos com retidão, para nunca terem que entrar em contato com essa realidade. E eu respondi: “Nós estamos todos nessa realidade, fazemos parte dela”. É incrível como poucos querem olhar para as prisões, para o encarceramento injusto, ninguém quer ver, ali estão os mais invisíveis e isso sempre me incomodou, desde quando entrei na área criminal. 


Comida de rua (Street food), 2018. Foto: Divulgação

CONTINENTE Vendo esses corpos em gradação de cor, em representação coletiva, são quase números, e quase menos gente, como o Brasil os enxerga, a exemplo dos 111 do Carandiru. Através da obra, isso é um intencional incômodo? Passou pelo projeto a ideia de contar a história de vida deles, humanizando suas trajetórias? 
BERNA REALE Muito material foi coletado, muitos depoimentos colhidos, mas não realizarei um documentário desse trabalho, registrei para mostrar aos mecenas – pessoas que me apoiaram no projeto – todo o processo criativo, pois foram pessoas que acreditaram no meu trabalho e senti necessidade de dividir com todas elas as etapas e seus desdobramentos.

CONTINENTE Como foi para você a impressão de “comandar” esses rapazes? Vem à mente a referência do experimento de aprisionamento de Stanford, em que, no papel de controle, todos nos mostramos cruéis. É uma forma de tornar o espectador cúmplice da obra ante a naturalização desse sistema que maltrata e minimiza um grupo vulnerável?  
BERNA REALE Esse trabalho é artístico e não uma experiência psicológica como Stanford, e nem estudo científico. Arte não é Ciência. Nesse trabalho, o desenho e os participantes eram para agregar estética e conceito. Eu ali representava o pior papel, o papel do opressor do Estado, que detém o poder. Por eu ser uma artista de pele não preta, ou não tatuada, acentuou mais ainda a estética do poder. Talvez se eu fosse uma artista de pele preta, essa diferença na hora do trabalho não ficasse tão evidente. E isso era um elemento importante, pois quem estava ali exercitando aqueles corpos para o encarceramento era o poder do Estado, representado por mim, como artista. Todos os participantes, bem como toda a equipe, receberam cachê, transporte e alimentação e todos estavam cientes de seu papel no trabalho. E não estavam ali somente pelo lado financeiro e, sim, também, para denunciar esse encarceramento seletivo, que é a infeliz realidade. Todos conheciam o projeto e assinaram contrato de participação, todos entraram e deram o seu melhor, pois sabiam do caráter de denúncia do trabalho. Sou uma artista que se preocupa com o humano, jamais colocaria alguém numa posição de sofrimento ou de desumanização para me favorecer esteticamente. A arte não justifica o sofrimento de ninguém e nem a diminuição de nenhuma pessoa, nada justifica.Uma das intenções do trabalho, sim, é colocar o expectador de frente para questões do dia a dia que são cruéis e estão banalizadas. Criou-se uma conformidade com esse tipo de atitude da polícia e não podemos permitir, temos que reagir e mudar essa conduta. A violência não pode nos ser íntima.


Sobremesa (Dessert), 2018, da série Gula. Foto: Divulgação

CONTINENTE Você coloca que, apesar do trabalho artístico não ser uma experiência psicológica ou estudo científico, ali você representa o pior papel, o do opressor. Ao interagir com a obra, o conceito estético também nos desloca para esse papel. Há uma intenção de que todos, ao vivenciarem a obra, também possam se responsabilizar pela naturalização das estatísticas?
BERNA REALE Penso que a intenção é a de que Ginástica da pele provoque reflexões e, entre elas, uma cobrança das autoridades sobre essas questões de racismo, preconceito e cárcere. Nós, como sociedade, também somos responsáveis. Se não nos preocupamos e não agimos para que essa realidade se altere, se transforme, sim, também somos parte dessa triste realidade e também temos nossa parcela de culpabilidade.

CONTINENTE Qual o papel da arte na luta antirracista? É possível promover mudanças?
BERNA REALE A arte não tem papéis definidos, penso que nem tenha que ter, tem que ser livre para tudo e todos. Acredito que, infelizmente, ela não alcança muitos e por isso pode muito pouco, mas o pouco que pode, muitas vezes desloca, desestabiliza, faz sentir, refletir. Este trabalho fala de racismo, preconceito, de tons de pele, definição de formatos de corpo, gênero e da grande maioria de pobres e inviabilizados que abarrotam as prisões. O trabalho pretende fazer com que a arte provoque um ruído questionador sobre questões de cárcere, assunto que nunca é priorizado, pois ali se acumulam os problemas de falta de prioridade na educação, na acessibilidade, falta de oportunidade e ausência do Estado, e isso ninguém quer ver. Por isso, o trabalho é duro aos olhos de alguns, incômodo demais para ser visto por quem não está aberto a questões sensíveis e necessárias.

CONTINENTE Quase um ano de conclusão da obra, como você enxerga a relevância desse trabalho num momento em que se cogita o encarceramento em containers, diante da pandemia da Covid-19? 
BERNA REALE O trabalho ainda não está concluído, estava sendo quando a pandemia chegou ao Brasil, ainda estou finalizando a edição. Penso que este momento seria bom para a sociedade refletir sobre o encarceramento, vejo pessoas reclamando sobre o isolamento e me pergunto como não se questionar sobre o sistema carcerário, sua estrutura e injustiça. Fico realmente triste que, em um momento como este, esse sistema continue à margem e sem o devido olhar para soluções tão necessárias. Quanto ao encarceramento em containers, penso que é uma imagem cruel e simbólica do pensamento social sobre os encarcerados, pois o que se coloca em caixas? Para muitos, os que estão nos presídios não têm vida, não são humanos . Tem uma tradução livre de um pensamento de Simone Weil que diz:“violento é aquele que transforma o outro em coisa”. Tem algo mais triste?


Rosa púrpura, 2014. Foto: Divulgação

CONTINENTE Uma boa parte da população brasileira está experienciando, pelas medidas sanitárias, um pouco da privação da liberdade. Você acredita que o momento é capaz de gerar alguma empatia para a realidade do sistema penal brasileiro?
BERNA REALE As pessoas poderiam se organizar para tratar de questões coletivas neste momento em que a grande massa de privilegiados pode ficar no conforto de suas casas. Não consigo entender que neste momento de isolamento não se pense sobre os que vivem amontoados por anos em prisões desumanas. Infelizmente, não vejo autoridades, deputados, por exemplo, promoverem discussões sobre temas necessários. O sistema prisional é uma questão urgente, deveriam realizar seminários online de dias de discussões sobre essa questão, mas me parece que não é importante se aprofundar e resolver seriamente os problemas; o que vejo é um total desinteresse.

CONTINENTE A violência racial da polícia está em xeque no Brasil e nos Estados Unidos, como foco de manifestações e debates acalorados. Para você, que há muito tempo debate a complexidade da violência urbana, vivemos um momento realmente de potencial transformador, ou parece mais um calor de momento que poderá ser silenciado nas macrodinâmicas sociopolíticas?
BERNA REALE Penso que vivemos em um momento de oportunidade de avaliar, de se reformar, de se rever, mas penso que isso só vai acontecer se a mudança partir da estrutura interna do poder da polícia, da segurança pública, e quem está nessa estrutura, em grande escala, é o homem branco. Por isso, fico preocupada quando colocam esse assunto para ser discutido só com pessoas de pele preta, pois só terão mudanças concretas quando os que estão no sistema mudarem e esse sistema é formado, em sua maioria, por brancos, são eles que têm que falar por que sustentam essa estrutura desigual, por que não desmontam essa construção equivocada, por que não se importam com a injustiça que sustentam e perpetuam. Essas perguntas têm de ser feitas a eles, aos que estão no sistema, na estrutura. Nesse sentido, penso que a condução dos debates atuais está um pouco equivocada, deveriam colocar todos na mesa, para se olharem de frente, e fazer o sistema ser refeito. Sem isso, vai ser muito mais demorado o caminho e muito sofrimento ainda vai ocorrer. 


A mulher, série Retratos, 2011. Foto: Divulgação

CONTINENTE Como você acha que o público vai reagir à Ginástica da pele? Imagina diferentes repercussões se fosse lançada antes dos eventos da pandemia? Como acha que será a recepção após esses arroubos das questões raciais acirradas?
BERNA REALE Este trabalho já está tendo as mais variadas leituras, pois já mostrei algumas imagens e as reações são as mais contraditórias. Uns se emocionam, outros sentem raiva, uns me aplaudem, outros me xingam. Uns até me chamaram de racista, por eu estar ali no símbolo da polícia. O trabalho não é só formado por pretos, pois ali também estão os brancos pobres periféricos, gays, travestis, tatuados, que também enchem as prisões, enfim, todas as reações possíveis. Eu estou ali no lugar mais difícil, o do poder, o do opressor. As reações me fazem feliz, pois o trabalho alcançou o público, incomodou, desestabilizou e a intenção é causar um ruído, questionamentos. Devo terminar de editar o vídeo depois da quarentena, pois preciso da ajuda de um técnico na edição. Espero que seja logo, quero muito tentar projetar o vídeo na cidade, nas paredes, nos muros. 

CONTINENTE Existe algum outro trabalho em processo, ou estás focada em Ginástica?
BERNA REALE Estou sempre em processo, minha mente não para. Mas, nesta pandemia, o tempo livre que tive me dediquei à pesquisa, ao estudo, leitura, escrita de ideias e seleção de novas imagens de Ginástica da pele, pois esse trabalho nasceu, mas ainda não andou, ainda está agarrado no seio da mãe (risos). Preciso finalizar para andar, circular, ser visto pelo coletivo, só assim ele existe e me libera para outros “partos”.

GEISA AGRICIO, jornalista, gestora cultural e ativista de questões de raça e gênero.

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