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Curtas

Anna Bella Geiger

Obra da carioca pode ser vista em duas exposições em cartaz

TEXTO BIANCA COUTINHO DIAS

03 de Fevereiro de 2020

Obra da exposição 'Brasil nativo/Brasil alienígena', em cartaz no Masp e no Sesc da Avenida Paulista

Obra da exposição 'Brasil nativo/Brasil alienígena', em cartaz no Masp e no Sesc da Avenida Paulista

Imagem Divulgação

Bia Coutinho Dias
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conteúdo na íntegra | ed. 230 | fevereiro de 2020]

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Anna Bella Geiger: Brasil nativo/Brasil alienígena, exposição da artista carioca em cartaz no Masp e no Sesc da Avenida Paulista até 1º de março, é uma experiência essencial para a leitura do Brasil: desde o próprio título, as noções de pertencimento e identidade são reviradas a partir de deslocamentos entre dentro/fora, privado/público, real/ideal, centro/periferia. O próprio corpo da artista é o território do íntimo, sustentado como ética norteadora de um trabalho que caminha do eu ao outro. Na erosão de si, a alteridade se desenha, um país se esboça: trêmulo, fragmentado e vivo.

Anna Bella atua em diversos meios: pintura, desenho, gravura, fotografia, encáustica, instalação, escultura, fotocópia e vídeo. Sua obra tem caráter inovador e experimental, cruzando dimensões simbólicas de ordem pessoal e política, corporal e conceitual, formal e estética. Na exposição, podemos acompanhar sua trajetória desde os anos 1950 até os dias atuais e encontramos uma artista multidisciplinar, porosa, aberta a cada tempo, que reinventa o sentido de sua história e a do país, num movimento biográfico recriado pelo encontro com a diferença, desde cadernos que assumiam certa precariedade como estética até a participação no movimento de arte postal, em que os postais assumiam a função de deslocamento e descentralização da autoridade com caráter subversivo, fazendo uma releitura crítica da homogeneidade racial, do sistema colonial e das fronteiras.

Seus retratos comparecem como força mobilizadora para pensar também os lugares de outros corpos. Sua imagem é revirada por dentro, para que dela se possa extrair um sentido crítico. Nos trabalhos com jornais e postais, nos autorretratos, nas vísceras, mapas, geografias e nos cadernos de artista não há uma unidade temática ou formal, mas uma dispersão por onde o desejo circula com seu rigor próprio, onde a fragmentação cria uma constelação ou, como afirma Adolfo Montejo Navas, uma “poética em arquipélago”, em que se aglutinam o interior de seus órgãos, a escrita de um corpo, uma maneira de se representar e de alcançar o mundo entre mapas, geografias, paisagens, política e história.

Dos guaches e das aguadas com formas próximas ao corpo humano, pesquisadas em livros de medicina, a outros corpos físicos e naturais, um mundo se faz e refaz como um grande atlas, não mais cartográfico somente, mas poético e ético, aglutinando tanto traços indeléveis de sua história quanto da nação, história do país e identidade.

Do insular ao comum, a pesquisa passou por livros que dissecavam não só a anatomia humana e o funcionamento do sistema corporal mas, também, por mapas geográficos. As gravuras, além das aguadas e dos guaches, passam a nomear o corpo – órgãos, olho, garganta, coração, pulmão, fígado, intestino e tronco – e segue da ciência à poesia, da anatomia à cartografia, recolhendo fragmentos de um grande poema, numa direção única e radical apontada por alguém que não cede de seu desejo e vai recolhendo do mundo os restos da cultura, à maneira com que Walter Benjamin nomeia o artista: alguém que inventa e recria a partir do dejeto e daquilo que sobrou e é inassimilável, criando um campo de produção simbólica que inclui as próprias ruínas e os impasses dos seres falantes.

A ideia de identidade nacional subverte a lógica instituída a partir de uma subjetividade complexa: o corpo atua e incide no mundo e nos mapas, apontando para as relações de violência e injustiça, de origem colonial e geopolítica. O corpo é, portanto, instrumento político, da singularidade de cada víscera ou de mãos e dedos, adentrando o plano da imagem para manipular as vísceras até a ironia fina de apropriações que subvertem uma lógica de mundo pronta para consumo.


Artista complexifica sua própria figura, descendente de família imigrante.
Imagem: Divulgação
 

Seu interesse e sua crítica se fundam em cartografias outras, denunciando as representações dos jogos de poder e as disputas territoriais, subvertendo códigos de dominação cultural, econômica e política. O impasse é sustentado num léxico complexo que inclui a ideia de contaminação e contágio na vida e na arte, que conversam sem concessões e com todos os paradoxos e ambiguidades, incluindo indagações sobre a natureza, significado e função da obra de arte. A artista se recusa ao todo: sua obra pede que a analisemos a partir do fragmento, sabendo que o sentido abriga o não-sentido, que algumas imagens e movimentos singulares podem dar pistas do incontornável de uma obra intempestiva, feita de fantasmas, sobrevivência, de passagens e deslocamentos. Uma obra forjada numa inquietação que borra a ideia de totalidade e aposta nas centelhas de invenção que despontam trágicas, convulsivas, cômicas, cortantes.

Assim como o escritor cubano Lezama Lima faz convergir o poético e o mítico, Anna Bella inventa uma cosmogonia particular, colhendo do mundo seus mitos e mistérios, operando numa espécie de “dobra demoníaca”, numa poética que acompanha o conflito, recusa a imagem como algo apaziguador e toca o real em sua agudeza. Ela parte de seu próprio corpo e de suas vísceras para seguir os corpos dilacerados pela violência da ditadura: nas entranhas do corpo, o corpo outro.

Entre fígados, cérebros e gargantas, Anna Bella oferece seu corpo, seu olhar cirúrgico e suas mãos inventoras de novos mundos, como as que Henri Focillon brinda no ensaio Elogio da mão: mãos artesãs e alquimistas rabiscando novos mapas, inventando lugares possíveis frente aos impossíveis, num exercício de dissecação, com suas próprias vísceras dispostas fora do corpo, numa tábua ou numa bacia. Depois de ir ao fundo do corpo, ela segue para o abismo do mundo: história, geopolítica, geografia e indagações sobre a cultura e o campo social. Mas, são sempre suas mãos poderosas que arrancam do tato a escrita do mundo e, como dito por Focillon, “ensinam o homem a possuir o espaço, o peso e a densidade da vida”.

Dos mapas – instrumentos de conhecimento, indexação, organização da realidade e dos aspectos sociais, culturais e subjetivos – a artista segue se refazendo. De origem judaica, com a flecha apontada para o mundo, ela complexifica sua própria figura descendente de família imigrante e imersa na complexa equação nativo/alienígena. A questão do genocídio indígena e o traumático processo de colonização estão sustentados a partir de uma perspectiva íntima que se serve de ironia, transgressão, profanação. Sua própria imagem se oferta como um poema exato de Herberto Helder: “um poema que cresce inseguramente na confusão da carne, e sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto”.

BIA COUTINHO DIAS é psicanalista, crítica de arte e ensaísta. Autora do livro Névoa e assobio, fez História da Arte na Faap e mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes na Universidade Federal Fluminense.

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