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Um olhar sobre o Brasil do século XVII

Leia parte do estudo introdutório de Caesar Sobreira para a edição de 'Diálogo das grandezas do Brasil', da Cepe Editora

TEXTO Caesar Sobreira

06 de Maio de 2019

Imagem Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 221 | maio de 2019]

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Estudo introdutório

ECDÓTICA E O DIÁLOGO DAS GRANDEZAS DO BRASIL
Este trabalho de investigação pós-doutoral, concentrado na área da crítica textual, teve como objetivo estabelecer o texto da obra Diálogo das grandezas do Brasil, a partir da análise, contextualização histórico-linguística e atualização gramatical do manuscrito depositado na Biblioteca Nacional de Portugal, visando realizar a primeira edição diplomático-interpretativa e fac-similar do apógrafo de Lisboa, até agora inédito.

A crítica textual ou ecdótica tem como objetivo “o exame exaustivo de toda a tradição manuscrita para averiguação do seu grau de autenticidade” procurando “estabelecer o texto original perdido” .

Neste sentido, a primeira expressão a resgatar do texto original foi a palavra que inicia o título da obra. Nos dois manuscritos conhecidos desta obra (os apógrafos de Lisboa e de Leiden), a primeira palavra do título está escrito no singular: Dialogo das grandezas do Brasil, segundo consta do apógrafo de Lisboa; e Dialoguo das grandezas do Brasil, no apógrafo de Leiden. Não obstante, em todas suas edições — seja em jornais, revistas ou livros — a primeira palavra do título foi pluralizada.

Quanto à presente publicação, optamos por uma edição diplomático-interpretativa e fac-similar, ainda que tenhamos exercitado os labores de uma edição crítica, como o leitor poderá acompanhar nas centenas de notas, nas quais foram cotejadas as 10 edições deste prestimoso diálogo.

Uma edição diplomático-interpretativa “apresenta o texto com um mínimo de intervenções, como o desdobramento das abreviaturas, a separação das palavras, a distinção entre v e u, i e j, a pontuação, a alternância de maiúsculas e minúsculas, conforme o uso moderno”, na qual o editor “intervém no texto e interpreta a lição do manuscrito, mesmo se não emenda nem os erros manifestos” .

Neste sentido, foi nosso propósito submeter à crítica textual a obra intitulada Diálogo das grandezas do Brasil, escrita em 1618, cuja autoria foi atribuída, embora sem prova definitiva, ao cristão-novo português Ambrósio Fernandes Brandão. Desta maneira, o primeiro livro, em prosa, escrito em terras de Pernambuco é obra anônima e pseudoepigráfica.

Segundo Afrânio Coutinho, a literatura brasileira nasceu com os cronistas oficiais portugueses dos quais o primeiro é Pero Vaz de Caminha, autor da famosa epístola na qual relata o descobrimento do Brasil, uma carta-relatório redigida em 1500 e dirigida ao Rei de Portugal . A partir da carta de Caminha podemos indicar as 10 primeiras produções literárias escritas em terras brasileiras, na seguinte ordem cronológica :

1. Carta, Pero Vaz Caminha (1500);
2. Diário de Navegação, Pero Lopez e Souza (1530);
3. Diálogos sobre a conversão dos gentios, Padre Manoel da Nóbrega (1556-1558);
4. O conjunto epistolário do Padre José de Anchieta (2ª metade do séc. XVI);
5. Tratado da terra do Brasil, Pero Magalhães Gandavo (1570[?]); e História da Província de Santa Cruz (1576);
6. Tratado da terra e da gente do Brasil, Fernão Cardim (1583);
7. Tratado descritivo do Brasil, Gabriel Soares de Souza (1587);
8. Prosopopeia, Bento Teixeira (1601);
9. Diálogo das grandezas do Brasil, anônimo, atribuído a Ambrósio Fernandes Brandão (1618);
10. História do Brasil, Frei Vicente do Salvador (1627).

O Diálogo das grandezas do Brasil surge, portanto, em 1618, sendo a rigor o sexto livro em prosa a aparecer no cenário brasileiro.

No que se refere à autoria do Diálogo das grandezas do Brasil, desde Capistrano de Abreu — a quem cabe a honra de ter aventado a hipótese pela primeira vez — até os estudos definitivos de José Antônio Gonsalves de Mello, quase todos os pesquisadores acreditam que Ambrósio Fernandes Brandão é o verdadeiro autor dessa obra magnífica.

Em relação à autoria do Diálogo, Käthe Windmüller lembra que foram necessários três séculos, para que esta obra “viesse à luz com o nome de seu verdadeiro autor, graças a pesquisas de eminentes críticos e historiadores como Francisco Adolfo de Varnhagen, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia” .

No Diálogo das grandezas do Brasil existem apenas dois personagens travando longo debate: Alviano, português recém-chegado ao Brasil; e Brandônio, também português, mas há muitos anos no país . Escrito em 1618, este livro é, na afirmação de Gonsalves de Mello, “um dos documentos fundamentais da história do Nordeste brasileiro no primeiro quartel do século XVII” .

Nesta obra, é discutida a questão da origem dos índios brasileiros. Brandônio oferece uma versão interessante, baseada na necessidade do sábio Rei Salomão importar materiais para a construção do Templo de Jerusalém. Em relação ao autor e personagens, Käthe Windmüller afirma que:

Brandônio é o nom de plume sob o qual se oculta a identidade de Ambrósio Fernandes Brandão; Alviano seria Nuno Álvares, e ambos eram escrivães e cobradores dos dízimos do açúcar, a serviço de Bento Dias de Santiago, também cristão-novo, contratador dos dízimos da Fazenda Real nas capitanias da Bahia, Pernambuco e Itamaracá de 1576 a 1585. Segundo consta nas Denunciações da Bahia, por ocasião da Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil, em 1591, foram os três acusados de “frequentarem a esnoga de Camaragibe, blasfemos e hereges, que trabalhavam e faziam trabalhar aos domingos e dias santos” .

No Diálogo, Brandônio afirma que durante o percurso entre o porto de Ofir (na África ocidental) e o de Asiogaber (no Mar Vermelho), alguns navios poderiam ter sido desviados pelos ventos — como o de Pedro Álvares Cabral — chegando por acaso ao Brasil, pois “quem duvida que algumas das naus da tal armada, que de força, à tornada, às águas e tempos a deviam chegar ao Cabo a que chamamos de Santo Agostinho, desse à costa nesta terra do Brasil e que da gente que dela se salvasse tivesse origem a povoação de tão grande mundo?”

Alviano dúvida dessa teoria, afirmando não poder acreditar que “tão bárbaro gentio, como é o que habita por toda esta costa do Brasil, traga a sua origem da gente israelita”, questiona . Brandônio refuta o amigo, informando que “ainda hoje em dia se acha entre eles muitas palavras e nomes próprios pronunciados na língua hebreia” e completa dizendo: “tenho por sem dúvida, descenderem estes moradores naturais do Brasil, daqueles israelitas que navegaram primeiro por os seus mares” .

Para Jaime Cortesão, existem alusões no Diálogo das grandezas do Brasil que são “argumentos a favor do judaísmo do autor no Primeiro diálogo, quando os dois personagens comentam a beleza e o valor das pedras preciosas, além da conveniência de tê-las no patrimônio” . Mas, para Windmüller, este seria um argumento frágil pois outros estudiosos do Diálogo apontam, como característica judaica que identificaria o neocristão Ambrósio Fernandes Brandão, a demonstração de conhecimentos apenas relacionados ao Antigo Testamento. Assim Windmüller explica a visão que poderíamos denominar ambrodisíaca:

No Segundo diálogo, ele [Ambrósio] argumenta que os índios brasileiros são descendentes dos hebreus, do seguinte modo: quando o rei Salomão construiu o grande templo, enviava caravelas a buscar ouro, prata, marfim e ébano em Ofir, um porto na região de Tarsis, um fato várias vezes mencionado na Bíblia. Tarsis, em grego, seria a África e devido aos ventos contrários e à falta de experiência em navegação algumas dessas naus se desgarraram para a costa do Brasil e os sobreviventes deram origem aos indígenas brasileiros .

Portanto, no que se refere à autoria, enquanto não for descoberta uma robusta prova documental em contrário, acreditamos que o português radicado em Pernambuco, Ambrósio Fernandes Brandão, é de fato o autor do Diálogo em apreço .

Para Massaud Moisés, Ambrósio Fernandes Brandão não só é o autor dos Diálogo das grandezas do Brasil, mas também empresta seu nome — enquanto criptônimo — ao principal personagem, Brandônio; do mesmo modo, Alviano, seu interlocutor, seria criptônimo de Nuno Álvares .

Desta obra inaugural da literatura pernambucana existem dois manuscritos, um em Portugal e outro na Holanda. O apógrafo da Biblioteca Real de Leiden é considerado o original, “original no sentido de texto final, sem alteração”, embora com acréscimos escritos com letras diferentes do texto, explica Gonsalves de Mello, no seu estudo introdutório à primeira edição integral dos Diálogo das grandezas do Brasil, publicada pela Universidade do Recife, em 1962 .

Por outro lado, o apógrafo de Lisboa encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, nos “Reservados” (Fundo Geral 6.819). Segundo Gonsalves de Mello, que realizou minucioso estudo comparativo dos dois manuscritos, este apógrafo contém “vários defeitos de cópia” e “incorpora ao texto quase todos acréscimos e correções feitos ao texto de Leiden” . O preclaro historiador pernambucano conclui que “o apógrafo de Lisboa é uma cópia do de Leiden”, corroborando a afirmação de Varnhagen.

Entretanto, o manuscrito de Lisboa merece uma edição diplomático-interpretativa, cotejada com o manuscrito de Leiden, na qual estejam apontadas as diferenças no corpo do texto e as correções e adições feitas à margem das páginas do apógrafo de Lisboa.

IMPORTÂNCIA DA EDIÇÃO DO APÓGRAFO DE LISBOA
São de grande importância os estudos relativos ao Diálogo das grandezas do Brasil, tanto por se tratar de uma das primeiras obras literárias escritas no Brasil, quanto por retratar a cosmovisão de um lusitano estabelecido nos trópicos, que elabora o elogio a então colônia portuguesa, utilizando um cabedal de informações científicas da época na análise de uma série extensa da nossa realidade mesológica.

As edições publicadas no Brasil estão baseadas no manuscrito que se encontra em Leiden. Portanto, trata-se agora de analisar e submeter o apógrafo de Lisboa à técnica linguística da crítica textual, com o objetivo de publicar uma versão diplomático-interpretativa e fac-similar, com estudo comparativo em relação ao apógrafo de Leiden. A importância da presente publicação se deve ao fato de que, pela primeira vez, esta obra será editada partindo dos critérios científicos da crítica textual.

Um dos nossos objetivos foi cotejar os manuscritos de Lisboa e de Leiden e realizar a edição diplomático-interpretativa e fac-similar do apógrafo de Lisboa, que aguardava um estudo no mesmo nível que o manuscrito de Leiden foi merecedor, para assim estabelecer “o estudo dos textos escritos e da sua tradição, incluindo a averiguação de autoria ou autenticidade e das relações entre as versões e variantes e a sua interpretação” .

O apógrafo de Lisboa merece tal estudo e edição, embora Gonsalves de Mello tenha afirmado que “o apógrafo de Lisboa é uma cópia do de Leiden, fato já salientado por Varnhagen”, e acrescentado que “o apógrafo de Lisboa é também uma cópia de má leitura” porque “o manuscrito de Lisboa é uma cópia posterior defeituosa” .

Entretanto, a boa codicologia (estudo dos manuscritos) aponta em outra direção porque o códice adéspoto de Lisboa é tão importante quanto o de Leiden. O problema é que Gonsalves de Mello utilizou o critério pré-lachmanniano de codex optimus que “pela sua antiguidade se aproximava maiormente [sic] do original perdido”, segundo definição de Spaggiari e Perugi

Por outro lado, Pasquali ensina que recentior non deterior, “o que é mais recente, não é necessariamente pior” . Outros autores também repudiam a ideia de “melhor” e “pior” manuscrito porque “muitas vezes, o codex optimus se provou coincidir quer com o codex antiquior, quer com o meilleur manuscrit no sentido de Bédier” .

Considerando que ambos são apógrafos — não no sentido estrito de ser a primeira cópia, mas no sentido mais amplo de ambos serem cópias de outro exemplar, original ou não —, contêm cada qual sua história particular de existência e seus possíveis erros são elementos importantes para compreender a origem e trajetória do manuscrito.

A tradição (no sentido do conjunto de cópias) dos Diálogo das grandezas do Brasil tem apenas dois testemunhos, dos quais apenas o de Leiden teve cópias impressas (nove editadas no Brasil e uma nos Estados Unidos). O testemunho do apógrafo de Lisboa está à espera do seu resgate e da sua merecida edição diplomático-interpretativa, sendo esta última uma tendência muito difundida entre os editores portugueses, sob “forte influência da escola dos paleógrafos estabelecidos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo” .


Vista de Olinda, Frans Post, 1662. Imagem: Divulgação

Eis que chegou a hora de editar o apógrafo de Lisboa, “retomando o espírito que animou outrora Francisco Adolfo de Varnhagen”, além de Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia, Jaime Cortesão e José Antônio Gonsalves de Mello, estudiosos seduzidos pela retórica apaixonada de Brandônio ao destacar as belezas e as grandezas do Brasil.

Metodologia
A) Na consolidação definitiva do texto para publicação serão utilizados os seguintes critérios objetivando a fixação textual:

1 — Manter a ortografia do texto original, uniformizando a distribuição de maiúsculas e minúsculas. Esta norma é a essência de toda a transcrição. Alterá-la é obscurecer o texto que se quer analisar, não permitindo avaliar o seu nível de testemunho ortográfico e cultural;
2 — Separar as palavras que estejam unidas indevidamente e unir as que estiverem separadas. Esta norma pode induzir a ideia de alteração do texto, mas isso não acontece porque seguir tal norma torna o texto original mais claro; e as sílabas ou letras são apenas sub-elementos gráficos, mas não elementos definidores de conceitos em dependência dessa posição redacional;
3 — Manter a pontuação original para não alterar nada do pensamento ou expressão, ou toda uma sintaxe que pode ser a chave para a compreensão do texto ou da época;
4 — Corrigir os erros do próprio texto original, mesmo quando não existam erratas, mas fazer essa correção só em casos muito claros de erro ou de repetição de palavras ou de letras;
5 — Respeitar a paginação para se possibilitar uma maior rapidez na comprovação ou indicação das referências;
6 — Uniformização do S longo ou alto no grafema s;
7 — Desdobramento das numerosas abreviaturas, todas elas de tipo corrente;
8 — Resolução do til em m ou n dentro da normatividade usual, inclusive nas terminações verbais em -ão, correspondentes aos pretéritos perfeito e mais-que-perfeito nas terceiras pessoas do plural;
9 — Separação, mesmo através do hífen, de morfemas ou palavras indevidamente unidas, e junção de outras;
10 — Regularização do grafema cedilhado.

B) Na identificação de elementos da cultura judaica no corpo do texto:

1 — Analisar o discurso do autor, procurando identificar elementos simbólicos, religiosos e literários próprios da cultura judaica;
2 — Comparar o discurso do autor com outras produções literárias da época, sobretudo de autores judeus ou cristãos-novos.

AUTORIA D’O[S] DIÁLOGO[S]
Desde que foi descoberta sua existência, discute-se a autoria dos diálogos que compõem o Diálogo das grandezas do Brasil. No posfácio ao Primeiro diálogo, publicado no Jornal do Recife, em 30 de setembro de 1877, Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), atribuiu a autoria ao poeta Bento Teixeira, autor da Prosopopeia (1601) . Varnhagen começa seu posfácio com estas palavras:

Quem pode ter sido o autor deste livro? E, qualquer que seja o seu nome, fora ele nascido em Portugal ou em Pernambuco? Eis duas questões que assaltam logo, desafiando a nossa natural curiosidade, que se aumenta ao ler as páginas em que o próprio autor dá de si tantas e tão explícitas indicações biográficas apresentando ao mesmo tempo, para resolver a segunda questão, argumentos em favor de uma e outra opinião .

Mais adiante, conclui:

Não hesitamos em crer que foi ela obra de um pernambucano, e então não pode o autor ter sido senão o tradicional Bento Teixeira, autor da Prosopopeia, pois não era possível encontrar-se em qualquer colono obscuro e que de si não deixasse a menor notícia tantas qualidades recomendáveis de instrução .

Ledo engano do nosso maior historiador. Estudos anteriores e posteriores provaram o equívoco do Visconde de Porto Seguro, nosso sábio Varnhagen. Já no século XVIII, Andrés González de Barcia Carballido y Zuñiga, na segunda edição da Epítome de la Bibliotheca Oriental y Occidental, Náutica y Geográfica, publicada em Madrid (1737–1738), atribuía esta obra a um certo “Brandão”, português residente em Pernambuco.

Vejamos, edição por edição, como a questão da atribuição de autoria é tratada e quais delas ostentam na capa o nome do suposto autor.

Na introdução à primeira edição, realizada pela Academia Brasileira de Letras (1930), Capistrano de Abreu afirma que o autor era português, culto, conhecedor do latim e da literatura científica de sua época. Trata-se de “um escritor colorido, enérgico, veemente, capaz de atingir a eloquência”, analisa o historiador .

Quem era ninguém pode afirmar, de modo irrefutável, até a presente data. Afirma Capistrano que baldados foram os esforços para retirar do anonimato o autor desta obra. Mesmo assim, ou por isso mesmo, aventa nova hipótese: evocando Andrés González Barcia (citado por Varnhagen), afirma que este depreendeu da leitura dos diálogos que o autor se chamava Brandão e era vizinho de Pernambuco. Segundo Capistrano, os documentos da época se referem a diversos indivíduos de sobrenome Brandão, mas “o único a ter probabilidade a seu favor, chamava-se Ambrósio Fernandes Brandão”, afirma .

No aditamento à mesma edição, Rodolfo Garcia acrescenta que Ambrósio Fernandes Brandão foi “um dos feitores ou escrivães de Bento Dias de Santiago” e que outro feitor era Nuno Álvares, todos os três cristãos-novos judaizantes, “acusados de frequentarem a esnoga de Camaragibe, blasfemos e hereges, que trabalhavam e faziam trabalhar aos domingos e dias santos”. 

Assim, os interlocutores dos diálogos, Brandônio e Alviano, representariam um, o alterego do autor Ambrósio Fernandes Brandão, e o outro, o seu amigo judaizante Nuno Álvares .

Na segunda edição da obra, publicada na coleção Clássicos e Contemporâneos (1943), dirigida por Jaime Cortesão, da Academia de Ciências de Lisboa, o nome de Ambrósio Fernandes Brandão aparece como autor. Na apresentação dessa edição, Jaime Cortesão afirma-se obrigado a justificar “a atribuição de autoria, expressa e declarada, a Ambrósio Fernandes Brandão, que pela primeira vez se estampa na capa do livro” .

Em 12 notas, Cortesão repete os argumentos de Capistrano de Abreu e de Rodolfo Garcia. Mas na nota 11 introduz por vez primeira a discussão sobre as características judaicas do texto e do autor, afirmando: “as suas referências de ordem religiosa ligam-se exclusivamente ao Velho Testamento; exalta os reis hebreus, especialmente David e Salomão” . Retornaremos a esta questão mais adiante, quando tratarmos das pertinências judaicas no corpo do texto.

Por ora, basta indicar que Jaime Cortesão afirma encontrar “neste enlace das três personalidades [Ambrósio Fernandes Brandão, Nuno Álvares e Bento Dias de Santiago], através de uma atividade secularmente confiada na Península a judeus — a cobrança de impostos — que reside a chave da identificação” .

Dizendo aceitar “a lição de Rodolfo Garcia”, Cortesão justifica o fato de “estamparmos na portada do livro o nome do autor”, por estar “resolvido o problema da autoria” deste livro no qual “se enlaçam historicamente duas pátrias”, completa .

A terceira edição, publicada em Salvador, Bahia (1956), fiel à primeira edição da Academia Brasileira de Letras (1930), não ostenta na capa o nome do autor, posto que — ao contrário do que afirmou o sábio lusitano — o problema da autoria não está resolvido.

A quarta publicação em forma de livro não segue a edição da Academia Brasileira de Letras. Trata-se da primeira edição integral segundo o apógrafo de Leiden, editada por José Antônio Gonsalves de Mello e publicada pela Universidade do Recife (1962). Nesta edição tampouco consta na capa o nome do presumido autor.

Não obstante, Gonsalves de Mello analisa (assim como fizeram seus antecessores na crítica de autoria) as referências autobiográficas oferecidas por Brandônio e as resume nesses termos: o autor era novo na terra em 1583; residiu no Nordeste do Brasil até 1597; desse ano até 1607 esteve em Portugal, retornando ao Brasil em data indeterminada; exerceu atividades militares, comerciais, agrícolas e fiscais; era interessado em botânica e realizava experiências agrícolas, e gozou de alto prestígio social, pois frequentou bispos e membros da corte .

Gonsalves de Mello lembra que o próprio Capistrano de Abreu cogitara dois nomes (Diogo de Campo Moreno e Lopo Curado Garro), antes de fixar sua preferência em Ambrósio Fernandes Brandão, como provável autor deste diálogo anônimo.

Contribuindo com os estudos de autoria, Gonsalves de Mello acrescenta às indicações de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia vários elementos referentes à condição criptojudaica de Fernandes Brandão, as quais indicaremos quando destacarmos as pertinências e impertinências judaicas encontradas no texto dos diálogos. Em seguida, Gonsalves de Mello lembra que Eládio Ramos aventou outra hipótese, indicando como autor destes diálogos o padre jesuíta Simão Travaços [sic] .

Nas conclusões do texto “A autoria dos Diálogo das grandezas do Brasil”, Eládio dos Santos Ramos escreveu: “Em 1618 falece no Colégio de Olinda o Pe. Simão Travassos (dia 4 de outubro). No mesmo ano, Brandônio que desde 1583 conhecia o Brasil, isto é, com 35 anos de Companhia [de Jesus] em Pernambuco e capitanias vizinhas, concluía a sua obra Diálogo das grandezas do Brasil. O ms. perdera-se com a invasão holandesa e o incêndio de Olinda” .

        Mameluca, Albert Eckhout, 1643. Imagem: Reprodução

Gonsalves de Mello afasta todas essas hipóteses e afirma que a “sugestão de Capistrano de Abreu acerca da autoria dos Diálogos reúne as melhores indicações documentais a seu favor”, ou seja, de que a vida de Ambrósio Fernandes Brandão coincide com as informações autobiográficas de Brandônio, acerca de suas experiências d’aquém e d’além mar. Termina por afirmar:

Ambrósio Fernandes Brandão, com uma longa e variada experiência brasileira — de cerca de 25 anos, pelo menos, a contar de 1583 a 1597 e de 1607 a 1618, aproximadamente, antes para mais que para menos — e alguns anos de serviço público em Portugal, ao se por a escrever os Diálogo das grandezas do Brasil, contava com 63 anos de idade.

Antes de passar à próxima publicação, importa destacar que utilizamos a expressão Edição UFPE para fazer referência a esta primeira edição, quando a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) era denominada Universidade do Recife (UR).

A quinta publicação desta obra foi uma reedição da versão de José Antônio Gonsalves de Mello, realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (1966). Contando apenas com alguns acréscimos que não interferem em suas conclusões acerca da autoria. Esta é considerada a versão definitiva da versão UFPE, referência para a maioria dos estudiosos .

A sexta publicação, apresentada por Afrânio Coutinho, é uma nova edição baseada naquela da Academia Brasileira de Letras, agora publicada na Coleção Brasileira de Ouro (1968). Nesta nova versão, encontramos o mesmo equívoco da segunda edição (de Jaime Cortesão), ao indicar na capa o nome de Ambrósio Fernandes Brandão como autor. Coutinho afirma que “o problema da autoria, com solução do anonimato, segundo o parecer daqueles escritores brasileiros [Capistrano e Garcia], corroborados pela opinião de Jaime Cortesão, está resolvido” . Daí serem os argumentos de tais historiadores “as razões por que aceitamos a lição de Rodolfo Garcia e estampamos na portada do livro o nome do autor” .

A sétima publicação, também baseada na edição original da Academia Brasileira de Letras, possui vários méritos, dentre os quais não ostentar na capa o nome do suposto autor. Trata-se da mais popular versão, publicada na Coleção Memória Literária (1977), e muito fiel à primeira edição, embora tendo-a melhorado, sobretudo suprindo as lacunas no texto daquela edição primeira .

A oitava publicação dos diálogos, em formato de livro, ocorreu nos Estados Unidos, com Foreword assinado por José Antônio Gonsalves de Mello e editada pela Universidade do Novo México (1987). Nesta edição, consta na capa que a obra é attributed to Ambrósio Fernandes Brandão .

A nona publicação, realizada pela Fundação Joaquim Nabuco (1997), é a terceira reedição da versão de José Antônio Gonsalves de Mello. Diferente das duas anteriores, nesta edição consta na capa, na condição de autor, o nome de Ambrósio Fernandes Brandão. O editor, Leonardo Dantas Silva, esclarece suas razões. Diz ele: “fizemos incluir o nome de Ambrório Fernandes Brandão na capa, na folha de rosto e ficha catalográfica do livro, como autor de Diálogo das grandezas do Brasil (...) reconhecendo com isso o notável trabalho de crítica de autoria desenvolvido pelo prof. José Antônio Gonsalves de Mello” .

Ainda que Gonsalves de Mello mereça a máxima consideração, seus trabalhos de crítica de autoria não esgotaram a questão, e os resultados de suas investigações são indicativos — não probativos — de possível (e até mesmo provável, ainda que não provada) autoria, mas não são conclusivas por inexistir prova documental, irretocável e indiscutível de que Ambrósio Fernandes Brandão tenha sido o autor desta obra.

Portanto, colocar o nome de Ambrósio Fernandes Brandão na capa desta obra não corresponde às exigências historiográficas sobre as quais se assenta a ecdótica. Assim, Leonardo Dantas Silva comete o mesmo equívoco de Jaime Cortesão e Afrânio Coutinho. Está em boa companhia, portanto.

A décima e mais recente publicação foi realizada pelo Senado Federal do Brasil (2010), seguindo a edição da Academia Brasileira de Letras, com as correções e notas de Rodolfo Garcia e introdução de Jaime Cortesão. Portanto, comete mais uma vez o mesmo erro da primeira edição de Cortesão, em 1943 (equívoco repetido nas edições de 1968 e 1997), de inserir na capa o nome de Ambrósio Fernandes Brandão e atribuir, na contracapa, o crédito da descoberta da suposta autoria a Capistrano de Abreu.

Pelo exposto temos o seguinte quadro: das dez edições desta obra, cinco não atribuem autoria (edições de 1930, 1956, 1962, 1966 e 1977); quatro indicam na capa o nome de Ambrósio Fernandes Brandão como autor (edições de 1943, 1968, 1997 e 2010), e uma coloca a obra como “atribuída a” (edição de 1997).

Das seis edições da versão da Academia Brasileira de Letras (1930, 1943, 1956, 1968, 1977 e 2010), três não indicam autoria (1930, 1956 e 1977). Das três edições da versão de José Antônio Gonsalves de Mello (1962, 1966 e 1997), as duas primeiras não indicam autoria; a única que indica autoria, a de 1997, não foi editada por ele, mas por Leonardo Dantas. Na versão em inglês, o texto é “atribuído a”, o que não define autoria.

Portanto, em ambas as tradições (ABL e UFPE), a maioria das edições não coloca o nome de Ambrósio Fernandes Brandão como autor dessa obra magnífica. Cremos que esta é a posição mais correta, ainda que também consideremos, à luz dos conhecimentos atuais, Ambrósio Fernandes Brandão como seu provável autor.

No levantamento das publicações da obra, Guilherme D’Avila Lins, membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, escreveu:

Em relação à crítica de atribuição dos Diálogo das grandezas do Brasil cumpre registrar aqui que depois das fundamentais contribuições de João Capistrano Honório de Abreu, de Rodolfo Augusto de Amorim Garcia e, em particular do prof. José Antônio Gonsalves de Mello (Neto), deve restar muito pouco a se acrescentar sobre este assunto .

Entretanto, faz-se mister repetir, trata-se de uma suposição, de uma atribuição do possível, provável ou “mais que provável” autor, porquanto não existem provas definitivas em relação à autoria destes diálogos tão expressivos da mentalidade de uma época, quando o Brasil era apenas uma esperança para Portugal.

A presente edição mantém a condição de autoria anônima, porque assim o é, ainda que — do ponto de vista pessoal — concordemos com a atribuição ou presunção de autoria que aponta Ambrósio Fernandes Brandão como autor do Diálogo das grandezas do Brasil.

CAESAR SOBREIRA é professor titular de Antropologia no Departamento de Ciências Sociais da UFPE. Possui formação em Psicologia (Unicap, 1986), bacharelado em Ciências Jurídicas (FDR-UFPE, 2006). É doutor em Filosofia e Ciências da Educação (Universidade de Salamanca, 1997) e pós-doutor em Linguística (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, 2011).

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