Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Lançamento

Personagens de um Brasil em construção

Leia trecho do romance 'Às margens do paraíso', de Lima Trindade, lançado pela Cepe Editora

TEXTO Lima Trindade

08 de Abril de 2019

Foto Rene Burri/Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 220 | abril de 2019]

contribua com o jornalismo de qualidade

LEDA
(junho de 1957)

Madame me chama. A voz firme preenche toda a casa, fura ouvidos. Leda, venha cá. A impressão é que matei, roubei, toquei fogo no mundo. Quando padrinho está fora, não tenho descanso. Paro o que estou fazendo e sigo pro combate. Sim, senhora, respondo, ainda no meio do caminho. Por que demora tanto? Estou aqui, senhora. Falo mais pra dentro de mim. Estou aqui, senhora, repito o que ela já sabe e faz questão de ignorar, mantendo-se em silêncio e me obrigando a permanecer ali, em pé. Madame está sentada de frente pro espelho e passa lápis nos olhos. Eu espero. Não tenho escolha. Não levanto voz. Ela termina a pintura. Pergunta o que eu estava fazendo e pede que eu retorne às minhas ocupações. Aqui, carrego menina pequena no colo, lavo roupa e sirvo jantar. Escurece. As lâmpadas são fracas e se apagam às dez. Padrinho chega, tira o paletó, o chapéu, senta na cadeira de palha trançada, madeira escura, assento de veludo, e tira os sapatos. Madame leva os chinelos e traz os sapatos pra eu limpar e engraxar depois. Me adianto com a cachaça. Ele emborca o copo, tira o jornal e se põe a ler em silêncio. Olho para os pés brancos espalhados na pedra fria do chão. Chega a subir uma fumaça de quentura. A pele é tão branca que as penugens dos fios na ponta dos dedos se destacam. É um pé de homem. Homem da estatura do padrinho. Me detenho assim, a cismar nas formas que a providência deu aos pés de padrinho, por não poder mais tanto. Aprendi cedo: não encarar os mais velhos, não responder. Apesar de tudo, madame diz que não sou fácil. Problema é domingo de missa na matriz. Padrinho insiste para eu pôr o mesmo vestido — o mesmo modelo de anos e anos —, um lenço pros cabelos, sapatos baixos de alça. Madame exige que eu vá sem batom, mesmo sendo moça velha, que é pra não dar ousadia. Antes, ela me penteia os cabelos. Puxa com força. Os fios ficam metade no pente. Teve dia que a força foi tanta, tanta, que chorei. Madame pode ser bonita, mas é ruim feito a moléstia. Não com todos. Com o Chiquinho e a Francis, que são sangue do próprio sangue, a conversa é biluzinho pra cá, biluzinha pra lá. Toda afagos. Já eu, chegada grande e no tempo em que não havia criança nenhuma na casa, restou escravidão. E ser uma “quase”. Queridas, Leda é quase da família, está quase mocinha, sabe ler e assina o próprio nome, quase formada. E se não nasci na capital como ela, se nunca fui rica, não sou burra e inútil como afirma. Ela me vestiu de trapos, me escondeu num quarto em que mal cabiam cama e guarda-roupa, me entregou uma Bíblia e anunciou as tarefas da casa. Esta é minha paga do feijão e da dormida. Estou aqui, senhora, respiro a fragrância de flores exalada de sua pele, ouço o chacoalhar dos colares e seus Leda, Leda, Leda, Leda! Venha cá, preguiçosa.

Faz hora me tranquei no banheiro. Os meninos dormem. Padrinho e madame aproveitaram e foram bater perna na 28 de Setembro. Padrinho é vereador. Pelo entra e sai da porta de casa, imagino que é ele quem decide as coisas todas aqui em Juazeiro. Quero dizer, as coisas importantes, pois as visitas, precisa ver, é tudo de gente metida a não sei o que lá. Homens com gravatas de tecido fino, abotoaduras reluzentes. As mulheres desfilam em longos, sapatos chiques, cabelos alisados. Só que, se for ver de verdade, o que se vê é muita pose, sabe? Não estudei francês como esse povo, meu latim mal dá pra missa, mas posso identificar que os cabelos e roupas espalhafatosas exibidos pelo público feminino foram copiados das revistas de moda, cinema e rádio. Sendo que as atrizes americanas são muito mais imitadas do que as nossas estrelas do rádio. Não existe ninguém melhor do que eu para decorar as roupas e os cabelos de uma diva do cinema ou de uma rainha do rádio. O seu Agenor da mercearia me comparou à Sapoti. Não na voz. Na aparência. Eu, eu mesma, não canto nada. Ao menos, não em público. Cantoria, diz padrinho, não é profissão séria. Pode dar uns trocados. Mas não é séria. Eu, quando for dona do meu nariz, quero estudar pra cuidar de bichos. Ou de plantas. Não quero me perder que nem essas tabaroas de Juazeiro, passando ao pé da janela da sala, dia após dia, com suas longas saias azuis e blusas brancas fechadas até o pescoço, satisfeitas em se tornar professorinhas num buraco qualquer do interior da Bahia. Não. Já me basta o exemplo de mainha. E… Meu Deus, que foto é essa do Cauby na Radiolândia?! Me lembrou até o Rock Hudson naquele filme de guerra.

Espanar, espanar, espanar. Cada milímetro, buraco de agulha, grão de areia. O velho rio com sua ausência seca, sua má vontade, parece descansar morto, feito carranca de barco sem uso, permitindo que o Sol nos castigue e tudo mais esmoreça esturricado — talvez só escape o tamarineiro da praça, resistente solitário às agruras da natureza. Não sei como as crianças suportam o calor. E o pó. Eu espano, varro, passo pano, molho as paredes do lado de fora para conquistar um caco de sereno, e no outro dia está como se eu não tivesse feito nada. A areia cava a pele da gente, sabe? A gente fica como se fosse todo de areia. Até o pensamento arranha e dá agonia. Por que com madame é diferente? Ela não demonstra se afetar pelo calor ou pela surra constante da poeira fina. Nada afeta o corpo dela, a beleza dela, a face dela, o temperamento dela. O tempo se paralisa desde o nascer ao pôr do Sol. Talvez madame não se ocupe em pensar nessas coisas. Afinal, como pode madame se ocupar, se sou eu quem faz tudo? Seu entretenimento é me gritar de hora em hora. E estica o dedo de bruxa — as unhas incorrigivelmente pintadas —, alisando os móveis e conferindo a excelência do meu trabalho. Leda, meu amor, já cuidou do abajur da sala? Hoje é quinta, e todas as quintas nós temos reunião, está lembrada? Quero o carrinho de bebidas lustrado e os copos e garrafas de bebidas separadas do jeito que eu lhe ensinei. O chão foi encerado? Sim, senhora. Sei, sim, senhora. Foi, sim, senhora. Pois não demore, preciso que faça umas compras depois. Sim, senhora. Pode deixar, senhora.

Estávamos eu e ela sentadas na cozinha e esperávamos a hora de pai entrar para tomar o café da tarde, a sombra chegando primeiro, tapando o sol, a imagem dele grande, as mãos sujas e ásperas do trabalho com a enxada, sua voz rouca, a fumaça se levantando da caneca. Eu e ela, ali, sentadas, duas meninas e uma boneca de pano, aquecidas pela tarde e pelo cheiro de mato e terra e ternura. Eu e ela, filha e mãe bestificadas pra tudo, principalmente para a quietude do tempo. Não, filhinha, Emília não está com fome, não gosta de comer comida de gente, vive de vento, meu amor. E o boi de chochu, mamãe, também come vento? É chuchu, lembra? Cê, agá, u, a segunda sílaba igual à primeira: Chu - chu. E fazia um bico e começava a imitar maria-fumaça, rindo, me fazendo rodar em volta da mesa, Emília e o boi assistindo a nossa imitação, ela com a mão na minha cintura, piuiiiiiiiiii, segue o trem de partida da estação. Tem maquinista, cobrador, moça elegante e rapaz namorador. Dona Leda vai comprar pirulito ou prefere bala de goma? Vamos simbora, minha gente! Eu ficava encantada com ela. Todo dia era uma invenção, uma descoberta de história nova. Nós duas passávamos manhã e tarde grudadas. Eu segurava minha boneca e ela me vigiava, cuidando dos afazeres poucos, lendo Reinações de Narizinho em voz alta pra mim ou se fechando em outros livros de adulto. Ela me contava do Recife, do tempo em que ensinava outras meninas em colégio, de como se apaixonara pelo meu pai e deixara sua cidade. Eles se conheceram num café. Ela, jovem professora; ele, estudante já velho, terminando o ginasial. Um dia ele recebeu um telegrama dos irmãos. Meu avô, fazendeiro rico, não estava bem. Meu pai se entristeceu. Porém, antes de partir, pediu a mão da mãe em casamento. A família negou, mas ao ouvir que ela se casaria quer autorizassem, quer não, aceitou. Desse modo, vieram os dois pra Petrolina. Depois, na chegada, a surpresa de descobrir meu avô já enterrado, a papelada da herança nas mãos do advogado, e as partes, desiguais, entregues a cada um dos três filhos, todos eles homens. Das centenas de cabeças de gado, apenas umas vaquinhas, mais dois cavalos, um jumento, duas cabras e o casebre couberam a meu pai, que, imerso no luto, não quis brigar com os irmãos. Era o ano de trinta e cinco e Deus ajudou que choveu na região. Painho deu duro e a plantação de milho foi generosa. Eles produziam farinha e vendiam na feira. No mesmo ano eu nasci. O dinheiro não era muito, dava pra comida, pagava as dívidas e uns agrados. Comparado aos outros dois irmãos, meu pai era pobre. Mas tinha a mãe, o próprio sol sob o Sol. Quando meu pai se metia na roça, eu e ela rompíamos o silêncio, o calor e a monotonia com um rosário de palavras que ela me explicava todos os dias, algumas vezes cantando, outras riscando poemas com carvão num pedaço de madeira.

RUBEM
(dezembro de 1958)

Céus da Síria, 7 de dezembro de 1958.

Rubem,

Você não acreditaria.

Acabamos de aterrissar. O aeroporto não é bem um aeroporto. Enquanto arrumam as tralhas nos jipes, aproveito para escrever. A viagem? Pra começar, nada de presidente. Todos, desde jornalistas a simples peões, dizem que o homem é gente como a gente, acompanha cada detalhe das obras, dorme um tico e não passa mais que semana sem vir. Mas hoje, justamente hoje, inventou de despachar no Palácio das Laranjeiras. Azar o meu. E sorte dele, pois o avião sacolejou mais do que o do Hussein nos céus da Síria.

Você ouviu falar? Os soldados não tinham outro assunto. O maluco do Nasser pretendia sequestrar o avião do rei do Iraque e, depois, espalhar pro restante do mundo que o Hussein teria se aliado à República Árabe Unida contra o imperialismo britânico. Para isso, o rei do Egito ordenou que uma frota de jatos rumasse para a Síria e interceptasse o Hussein em pleno ar.

O problema, primo, é que no meio do caminho tinha um piloto escocês. Abastecido do melhor uísque do globo, ele fez um voo rasante sobre o deserto, diminuindo drasticamente a velocidade e se aproximando perigosamente das dunas. Graças a essa manobra arriscada, os jatos não conseguiram acompanhar o alvo e foram obrigados a desistir da missão. O escocês desembarcou Hussein ileso em solo amigo. O roteiro, eu concordo, é parecido com qualquer Flash Gordon de matinê, mas foi o que os soldados contaram.

Nos céus do cerrado, não sofremos perseguição alguma. Todavia, desconfio que nosso comandante tinha uma boa dose de Escócia no sangue. A lata velha do Correio Aéreo Nacional, um DC-3 da Segunda Guerra, sacudia tanto, mas tanto… Jurei que íamos cair.

Se o Hussein morresse, certamente a família dele não ficaria desassistida. Já esse pobre desenhista… O que deixaria para os seus? Nem diploma de bacharel.

Eu rezava e me esforçava para que os arquitetos, engenheiros, militares, repórteres e fotógrafos dos Diários Associados, da revista O Cruzeiro, todos homens e imperturbáveis, não adivinhassem o meu pavor.

Um consolo: a Estrela Máxima da Arquitetura Nacional, o Inconteste, o Guru, o Herói dos Heróis, na única viagem aérea que fez para a futura capital, empapou o terno de suor e porejou a careca precoce. Ao menos era o que entre risos abafados comentavam dois oficiais da FAB.

Desci da nave com as pernas trêmulas, repetindo never more, never more. No solo, salvo, xinguei nomes indignos para uma carta como esta — carta para ser lida em voz alta e a família ao redor como se escutasse novela de rádio.

Primo, se o Lousada não me arrumasse carona com os milicos, nem o meu ídolo maior me faria tirar os pés do Rio. O homem nem sabe ainda da minha existência. Lousada não deu um pio até hoje. Talvez pela urgência das obras. Antes, aconselhou-me a “comer pelas beiradas”, preparar um projeto aqui, outro acolá. Eu pelas beiradas e ele assinando as plantas por mim. Desconfio. E, desconfiado, penso em acatar a sugestão na esperança de fazer unzinho.

Mas e você, garoto, me diz aí: o Botafogo fez ou não fez bonito com o Vasco?

Teu ainda vivo primo,

Mauro.

Difícil conter o riso. Esse Mauro! Dona Alice passa por mim e ri da minha risada. Dobro a carta e escondo-a na gaveta sob o balcão, junto ao bloco de passagens. É a terceira vez que a leio. Se o primo estivesse aqui, responderia que o Botafogo não foi tão bem quanto ele imagina. Após o vexame com o Madureira, não fez mais que a obrigação. E ai dele se não tivesse o Quarentinha. Tia Maria Luíza, na primeira vez que eu li, não entendeu a história dos reis no Oriente Médio. As meninas gostaram. Foi do jeito que ele falou, igual a uma novela de rádio: UMA AVENTURA NOS CÉUS DO CERRADO (os metais estremecendo ao fundo da voz do locutor). Tio Eulálio fingiu desinteresse, mas percebi, estava de ouvido espichado, apreensivo. Tenho mais uma semana e meia de aula. Janete tava fina no sábado, calças de perna, camisa decotada e lenço amarrado no pescoço. Nem parece ter vinte e cinco. Dona Alice deve me achar gaiato. Ela se aproxima e pergunta se é carta de namorada. Sorrio e abaixo a cabeça. Fingir timidez sempre cola. Tem cafezinho pronto? Ela sai, desajeitada, em busca da bandeja. A gordura balançando prum lado. Deixa a xícara esfumaçando e passa a mão na minha cabeça. Da próxima vez, tu mesmo levanta e pega. Não é porque deixou de ser boy que vou te dar asa. Penso no violão que é Janete e a vontade de rir aumenta. Há muito tempo deixei de ser boy. Não por causa da Ivone. A Ivone encheu, mas, antes, antes levou muito nas coxas. Tentei por trás uma noite. Mas a mãe dela apareceu e pôs tudo a perder. Pra falar a verdade, estou de saco cheio da Ivone. Prometi a mim mesmo que não boto mais os pés lá. Namoro em portão é atraso de vida. Não sou mais boy. Nem na empresa. Tem dois dias. O que mais me agrada é o terno. E não gastar sola de sapato pra fila de banco, recado, correio. O café também é bom. Esse de agora queimou a língua. Mas tem sabor. O alfaiate falou que tenho ombros largos. É o meu primeiro terno. Quero dizer, o primeiro que é meu de verdade. Tem boate que a gente só entra de paletó. Os do Mauro sobravam um pouco nos punhos. Com ele longe, não tenho mais de quem tomar emprestado. E o Ápio, apesar de mais velho, tem menos corpo. Eu tenho dezesseis. Ele, um metro e setenta. Pra falar a verdade verdadeira, não sou lá tanto de boate. Prefiro os dancings. Estou há menos de seis meses na empresa e já fui promovido. Na lapela do paletó tem um par de asas douradas bonitas. Abaixo, o nome da firma bordado: Real Aerovias Nacional. Tudo muito discreto. À noite mal se vê. Ainda assim, quando vou pro colégio, guardo a gravata no bolso e carrego o paletó dobrado. Não é por nada, não. Acho bonitas as asinhas, só que não fica bem um cara como eu… Hã? Temos voos noturnos e diurnos. Preferência de lugar, senhor? Um segundo e já lhe digo o valor da tarifa… Abro a gaveta e, entre o bilhete de passagens e a tabela de tarifas, vejo o envelope da carta entreaberto, as pontas sujas de poeira vermelha. Termino a venda e penso na Janete. A Ivone já encheu.

O professor entra na sala e se prepara pro falatório. Logo interrompem. É o pessoal da União Metropolitana dos Estudantes novamente. Despejam a mesma lenga-lenga de conscientização, participação e toda essa conversa mole. Todo dia repetem a mesma coisa. Tem uma lourinha no grupo. Olho pro meu amigo Ápio. Tiro o maço do bolso da camisa, bato o pacote no tampo da mesa, o cigarro salta. Nada demais, apenas um truque roubado de um filme que vi semana passada. Para impressionar ainda mais, faço como os meus heróis das telas de cinema: mantenho o cigarro apagado pendido no canto da boca. A lourinha lá na frente me fita. Não está mais tão sisuda. Sinto-me confiante. Ápio, por dentro de tudo, balança a cabeça afirmativamente. Ele compreende. Ele saca. Tem outra guria morena que discursa inflamada. Ele concorda com tudo o que a morena diz. Bato mais duas vezes o maço na mesa e, puf, salta outro cigarro. Ofereço ao Ápio, olhos vidrados na pequena. Meu amigo Ápio é durão. Quem o vê assim, corpo franzino para seu metro e setenta, não acredita. O velho dele se aposentou pela marinha mercante e, puxa, lhe ensinou um bocado de coisas maneiras, inclusive como se comportam as mulheres pelos cais do mundo. E como um marinheiro age em terras estranhas. A lourinha é bem gostosa e usa uma saia apertada, provocante. Quase adivinho que ela entrou nessa por causa da amiga, a morena metida a sabidinha. Mas ela não manja nada de marxismo e essas merdas todas. Mas a morena é quente, tem cara de difícil, bem como o Ápio gosta. Ápio é durão. E ganhou fama desde que traçou a Sandrinha e ela espalhou para as outras que nem tudo nele é mirrado. Eu deixei de ser boy há muito tempo. O professor começa a perder a paciência, se levanta, aperta as mãos. O grupo da UME não está nem aí. Tampouco os alunos. Com exceção do Jayme, que presta atenção no discurso das gurias e exige que a turma faça silêncio. Na sala, não é permitido fumar. A loira não tira os olhos de mim. O professor percebe e, antes que ele se vire, eu e Ápio fechamos os cigarros nas palmas das mãos. O grupo termina seu protesto, agradece a nossa atenção e se retira. Antes, a morena cumprimenta Jayme. O professor fecha a porta.

Nos intervalos, vagabundeamos pelo pátio, fumando e rindo. Às vezes, provocamos as meninas. Sou primeiranista. Nosso curso é de técnico em Contabilidade e fica no segundo andar. No terceiro fica o pessoal do Clássico. No quarto, o do técnico em Administração. No térreo ficam a secretaria e a diretoria. Nos intervalos as turmas se misturam e, como ninguém usa uniforme, não dá pra saber direito quem é de qual curso. O movimento nas escadas é nervoso, pois o elevador está sempre em manutenção. Ninguém reclama. Estão acostumados. Passa noite atrás de noite e o cartaz de aviso continua preso à porta enferrujada. De qualquer forma, estou me lixando se o elevador funciona ou não. Tirando o velho Ápio, não vou muito com a cara de ninguém por aqui. No fundo, quero mais é que o Frederico Ribeiro se exploda. Só não mudo de colégio, não me arranco de uma vez por todas, por causa da maldita bolsa. Só por isso. Não fosse por ela, tava noutra. Bom, mas bom mesmo, seria estar no apartamento da Janete, tomar banho de banheira e foder até não aguentar mais. A Janete é a mulata mais bonita do mundo. E é experiente. Manja de sexo e tudo mais. E é também trabalhadora. Sou louco pelos cabelos dela. Ela usa um tipo de penteado, um troço superestiloso, parecido com os das mulheres que eu via no cinema mudo. São cabelos curtos de um preto brilhoso de tão preto. Na cama, Janete é fabulosa. Uma vez eu uivei para ela. Janete teve um ataque de riso. Não foi programado. Quando percebi, lá estava eu, bocão aberto, olhos fechados e peito estufado de Tarzã. Com outra garota, não teria a mesma coragem. Ela, no entanto, achou engraçado, mesmo após atravessar a noite anterior quase toda trabalhando. A nega batalha lá no Avenida Danças. Fosse outra, quisesse fazer vida, estaria cheia da grana. Mas Janete é orgulhosa pacas, não dá asa pra gavião, não baixa a crista. Tem um coronel que não sai do Avenida. Ela leva o coroa no bico. Em troca de uns beijinhos, ele banca pra ela um conjugado na Rua do Senado. O coronel é doidinho pela Janete. E com razão, a garota é mesmo especial. Ela ouve Piaf, frequenta roda de samba, lê Sartre e Françoise Sagan e, o principal, é maluquinha por mim. Rapaz!, nunca imaginei uma carta tão alta em minhas mãos. Janete é coisa fina. Sem falar que enche a minha bola. Tanto que, às vezes, desconfio.

ZAQUEU
(novembro de 1958)

Faca e laranja no prato, estendo os braços na altura do peito e estalo os dedos. Está amarelinha. Zulmira quem escolheu. Aproveitou que mamãe não está em casa, que temos alguma liberdade. Seguro a laranja na mão. Seu brilho é maior do que a lâmina da faca. Trago-a para perto do rosto, sinto seu cheiro, sua textura. Agora, olhando mais de perto, vejo uns círculos esverdeados na parte de cima. Mas a maior parte é amarela. Onde andará Sílvio uma hora dessas? Ele que sempre me telefonava, sempre me chamava no portão. Zulmira está de costas para mim do outro lado da mesa, com a barriga encostada na pia, e mexe nas vasilhas. Tanto pode estar guardando algo quanto tirando os ingredientes para preparação de um prato. Ou nem isso nem aquilo: ela simplesmente pode estar fingindo para me agradar. É que não gosto de ser vigiado. Atrapalha minha concentração. Zulmira me conhece bem. E a tarefa é mesmo muito, muito complicada. Será que o Sílvio sabe? Quero dizer, será que ele sabe descascar uma laranja da maneira correta? Olho no pulso, na mesma mão que empunha a faca, e vejo que faltam dezoito para as cinco. No relógio de parede da cozinha faltam apenas dezesseis. Os horários coincidem com as nossas idades. Meus dezoito e os dezesseis de Sílvio. Engraçado. Papai e mamãe não gostavam que andássemos juntos. Mamãe tem mania de comentar para as amigas o fato de a mãe de Sílvio ser amigada, que aquilo não fica bem, envergonha a pobre da irmã e coisa e tal. Já papai pensa diferente. Estranha o gosto de Sílvio pelos livros, a boa educação, os modos. Acha que companhia para mim seriam os filhos dos amigos ricos, a turma do clube que joga polo e críquete. Mas ambos reconhecem que Sílvio é mesmo um bom menino. Como ele sempre me auxiliava nos estudos, acabavam aceitando suas visitas e telefonemas. Sílvio é um cara legal. A lâmina é curva. Deixo que o peso do punho afunde a superfície da casca, marcando-a com uma linha, mas sem a furar. Quando meus pais estão em casa, nunca tenho o direito de fazer as coisas que gosto. Até a semana passada, minha vida era só estudar, estudar, estudar. Eu pedia para olhar os cavalos do pai na hípica, negavam. Dirigir o carro? Nem pensar, tínhamos motorista pra quê? Depois vinha a chantagem, que eu não dou valor a nada, não conheço as dificuldades da vida, não me preocupo com o futuro, em ser doutor de anel no dedo, honrar o nome da família. Para mim, o ginasial passou da conta. Basta. A vida vivida tem muito mais a me ensinar. Não quero seguir o mesmo caminho do pai. Ele teve de começar a sua fortuna do zero. Em Belo Horizonte era pobre, pobre. Estudou engenharia, entrou pro governo e veio para cá, pro Goiás. Depois ingressou na equipe responsável pela mudança da capital do estado pra Goiânia, onde planejou a construção de vários bairros, tornou-se próximo de políticos importantes, fez razoável fama. Hoje, tem fazendas, gado de raça e uma loja de materiais de construção. Todo o dinheiro que ganhou no exercício da vida pública investiu aqui em Anápolis. Aliás, não fosse pela nossa mudança pra esta cidade, eu não teria perdido alguns anos na escola e encontrado tantos problemas de adaptação. Pelo menos é o que conta minha mãezinha querida. Eu não me lembro bem dessa fase de menino. Como também não me lembro do tal médico que me ajudou. Mamãe diz que era um homem santo. E que, mesmo papai sendo tão instruído, ele não foi a favor do tratamento. O fato é que terminei o ginasial e pronto. Não me interessa ser gerente de loja. Muito menos doutor. Meu professor de oratória e Sílvio disseram que tenho espírito de liderança e poderia ser um excelente político. Por enquanto, aceito o desafio de descascar esta bela laranja. O desafio é tirar toda a casca e deixar o fruto apenas com a pele branca. Eu sempre admirei minha mãe ou Zulmira fazerem isso. Elas estendiam os polegares, remetiam a faca, giravam e giravam a laranja velozmente e só terminavam quando meus olhos se deparavam com a rabiola colorida caída no prato e me estendiam o troféu, dividido em dois, para que eu chupasse o suco das bandas. São quase cinco horas. Esse é um grande desafio. Começo com lentidão, a lâmina desnudando a superfície brilhosa, giro e acelero paulatinamente e, por um instante, não consigo perceber o caminho que tomo, o fio da faca, e resolvo diminuir o ritmo, deslizando a arma a golpes curtos, minuciosos, me esforçando para não ferir os gomos. Penso que devagar se chega longe. Os pedaços de cascas se espalham por todos os lados. Desta vez, tenho certeza que vencerei. Mais da metade já se foi. Eu inverto o lado. Ponho a superfície não descascada para cima. Estou indo bem. A faca avança. Mas eis que um movimento mais brusco faz com que a casca borrife em meu olho e eu fique cego por um segundo, suficiente para a ponta do objeto perfurar a superfície, eu perder o controle e Zulmira, mais uma vez, acompanhar o terrível estrago que produzi. Não se preocupe, patrãozinho. Se o senhor quiser, eu descasco outra para o senhor. Por onde andará Sílvio? Será que virá em breve?

O Red & White Club está de persianas cerradas. A placa no topo da fachada exibe o nome da escola de datilografia que ocupa o grande salão de entrada. Bato na porta três vezes, respeitando a ordem e o tempo de intervalos determinados em ata. Não me lembro de quem foi essa ideia. Os meninos têm muita imaginação. E são engraçados. As luzes ainda não se acenderam na avenida. Os empregados dos escritórios saem para as ruas, tomam um trago no botequim da esquina e ficam de olho no balanço das garotas desfilando nas calçadas. Os comerciantes baixam suas portas e dão lugar ao frenesi das lanchonetes, bares e praças apinhadas. Eu gostaria de me entregar mais a esse lado da vida, mas meus pais não julgam apropriado para nossa condição social. Todos me conhecem, me veem, me cumprimentam. Apesar de Anápolis crescer a cada dia, as mentalidades estacionaram no século XIX. Houve uma vez que alguém da turma descolou um maço de cigarros e uma garrafa de aguardente. Na Praça Santana a gente brincava de charadas. Quem perdesse, virava o copo. Éramos eu e a turma dos bikers: Theobaldo, Kalil, Eduardo e Lino. O Sílvio jamais entrava em brincadeiras do gênero. Não por achar a coisa completamente estúpida e sem sentido. O fato é que ele sempre odiou o Kalil. Diz que a turma dele não tem outro assunto pra falar que não seja de garotas. E gostam tanto de bebidas e cigarros. Eu me sinto bem tanto com o pessoal do clube quanto com os bikers. Sinto que o Kalil me considera. Só não acho legal as piadinhas por causa da minha amizade com o Sílvio, pelo tanto que a gente anda junto. Bobagem. Ciúme bobo. Na Praça Santana, secamos a garrafa e cada um fumou dois cigarros. Pior do que a ressaca do dia seguinte foi ouvir o esporro do meu pai no café da manhã. Estava tudo tranquilo até o telefone tocar. Não há nada mais revigorante do que uma fofoca pra incrementar o dia. O ridículo maior da situação é que foi papai mesmo quem me ensinou a beber. Só não te autorizei a fazer isso em público, Isaac! (ele sempre me chama pelo nome de batismo quando está espumando de raiva). Ou você se esqueceu da posição que ocupo nesta cidade? Da oportunidade que os meus inimigos esperam para tentar denegrir minha reputação? Eu respondi: Mas, pai, todos adoram o senhor. Vivem te convidando para uma porrada de batizados, festas e reuniões… É tanta que o senhor reclama não ter paz e não poder descansar nunca. Ele nem considerou meu argumento. Isso não importa, Isaac. Um dia, você entenderá. Amigos… Amigos não gostam de você. Amigos gostam é do poder e do dinheiro que você possui. Se você fraquejar um só instante, saltam no teu pescoço e te destroem. Eu não suportava quando o discurso ganhava esse caminho. Não adiantava mais discutir. O mundo estava contra ele. Era só questão de tempo para que destruíssem nossa casa e pisassem em cima de nossos despojos, jogados e expostos no chão da sala. Um dos gomos da persiana se ergue na janela ao lado da porta e em menos de um minuto eu estou no interior do salão principal, repleto de mesas com máquinas de datilografia e cadeiras de plástico. Avançamos por um corredor e adentramos uma sala espaçosa, bem iluminada, de onde se ouve jazz. A música nunca me atrapalha nas partidas. Rafa, Paulo Henrique, Neto e Guto rodeiam a mesa no centro, preparam o campo. Moab está sentado no sofá, um estojo de madeira igual ao meu no colo. Sento-me ao seu lado. Cadê o Sílvio?, ele pergunta. Eu não sei. Achei que estivesse aqui. Moab responde que não o vê desde o último dia de aula. Não faz calor, mas Paulo Henrique liga os dois ventiladores do teto. Uma das regras para frequentar o Red & White é trajar suéter branco e gravata vermelha. Está na ata. A mãe do Moab, que é também dona da escola e nos permite o uso da sala como sede do clube, deixa chá, torradas, biscoitos e geleia numa bandeja. Mas antes dos jogos começarem ninguém bebe ou come. O momento do lanche está reservado para os intervalos de cada desafio. E é destinado exclusivamente para os jogadores. Cada tempo demora dez minutos, e o intervalo é de cinco. Os juízes só se alimentam quando alternam para jogadores. Está na ata.

LEDA
A noite está agitada. Padrinho recebeu convidados novos. Pelo que ouvi, trata-se de um casal cearense. E que mora no Rio. A mulher não se juntou à roda feminina, separada num canto entre poltronas e canapés. Braço dado com seu acompanhante, ela preferiu o escarcéu no centro da sala, as discussões mais acaloradas dos homens. Madame pede pra eu deixar pronta a mesa com os petiscos. Esse povo não come muito, mas bebe sem medo. Os baldes de gelo estão distribuídos em dois carrinhos, acompanhados de uísque, martini, vodca, cachaça e um refresco de caju. A jarra costuma voltar quase cheia. Padrinho não dispensa cachaça boa. Nunca o vi dar vexame, falar bobagens. Caminha decidido entre os convidados, conta casos, ri e faz graça. Madame oscila entre o grupo das mulheres e a atenção ao marido, exibindo sorriso frio, apagado, arenoso. É sempre educada e correta nos gestos. Nessas noites de festa ela não me grita. Fico de prontidão no corredor que vai da sala à cozinha. Vez em quando adentro o recinto, recolho copos vazios e guardanapos usados, reponho comida, troco cinzeiros. São atividades que desempenho com discrição tão grande que sequer boa noite recebo. Entro muda e saio calada. No máximo, peço um com licença soprado sem força, caso precise liberar minha passagem. O homem ou a mulher se afasta sem responder e eu faço o meu trabalho. Limpo o que necessitar ser limpo, sirvo o que precisar ser servido. Com o tempo, as pessoas vão se descontraindo, e eu vou me demorando mais e mais nessas viagens, aproveitando dessa minha invisibilidade para observar como se comportam. A maioria não é tão chique como se imagina. Geralmente as conversas nunca são interessantes. Não falam de cinema, rádio ou política. Gostam mesmo é de falar da vida dos outros. Amam uma tragédia, uma fatalidade, uma traição. São patéticos. A vitrola não para. Vai de Gonzaga a Maysa, Tito Puente a Sinatra. Ninguém dança. Só conversam, fumam e bebem. As noites não costumam ser tão quentes quanto os dias. Venta mais, e o rio carrega seus aromas pra dentro das casas. A vida fica mais leve. Nessas horas não tenho de carregar menino. Nas quintas, as crianças dormem na casa da vó Dita. Vó Dita é mãe de padrinho. Madame não tem parente na cidade. Ela é filha de político em Salvador. Por isso, o rei na barriga. Mesmo quando muito animadas, essas festas não duram até tarde. Antes das onze a maioria se vai. É para não atrapalhar o doutor no outro dia. Mas está cedo ainda. E as conversas fluem sem bocejos. Padrinho mais dois colegas de partido entretêm o casal convidado. Quer dizer que a senhora é cronista de folha no Rio de Janeiro? Sou. Mas deixemos o senhora de lado. Apesar de circunspecta viúva (ela ri), do passado obscuro em colégio de freira, sinto-me mais que remoçada após conhecer o Joãozinho. Prefiro que me chame apenas de Esther. Senhora cheira a vestido embolorado, traça e festa de caridade. O acompanhante acrescentou, sim, sim, minha Esther é um botão em flor. Só que o galho está cheio de espinhos. Porém, quem consegue evitar a atração do perigo? E assim a toada segue: uma paparicação. Eu vejo e estranho. Esther, tão diferente de madame. Esther tem baixa estatura, corpo quadrado, sem cintura. Usa cabelo mais para curto do que grande, a cabeça larga colada ao tronco, os braços gordos, sem joias, e óculos. Não lembra em nada as mulheres da cidade grande representadas nos filmes da Vera Cruz. No entanto, meu padrinho e mais três outros homens estão ali, venerando essa senhora feia. É então que descubro: seu charme e beleza possuem outra fundura. Esther encanta os homens pela inteligência da conversa. Basta abrir e fechar a boca pequena, redonda, os olhos grandes e negros aumentados pelas lentes, a face igual à de uma índia que no final de cada frase exibe uma infinidade de emoções, sentidos ocultos, enigmáticos, secretos. Mas haverá mesmo mistério no que diz ou sou eu que não a entendo? Padrinho e seus amigos não demonstram dificuldades. Então, Esther, como se sente diante da fama e do reconhecimento nacional?, pergunta um colega de padrinho. Meu querido, minha coluna ocupa a última página do jornal. Quer sinal maior de desprestígio? Epa!, protestou ele, segundo me informaram, é, entre todos os redatores, a que mais recebe cartas dos leitores. Que fazer, respondeu ela, se as mulheres leem mais e gostam de prestigiar uma igual? Foram as mulheres que deram o pão a Machado de Assis. Esse é um mérito inteiramente nosso. Aliás, meus amigos, vocês deveriam nos premiar por isso. Padrinho solta uma gargalhada. Nessa hora, com uma cara entre séria e divertida, o tal João se desembaraça do aconchego da companheira e põe as mãos na cintura, falando com ar de reprovação. Esther, amor!, discurso feminista outra vez?! Olha que não bebi o suficiente, o copo está ainda cheio. Pois, João, prepare-se para esvaziá-lo. Eu estou só começando. Vou dizer mais: o meu objetivo é ser a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. Já imaginaram, eu, uma ex-comunista, vestida de fardão? Riem todos. As demais mulheres na sala, até então alheias, interrompem seus fuxicos e desviam a vista para Esther. Logo que se faz uma pausa, padrinho pergunta se ela não está, agora, flertando com o partido conservador. Não é para tanto, respondeu. Eu não faria uma maldade dessas com eles. Há partidos muito mais interessantes nesta casa. E lança um olhar malicioso para João, que aparentava ser muito mais novo do que ela. Lembrem que, por ordem e graça do ex-presidente Getúlio, sou mulher fichada na polícia, concluindo a frase com um acento triste. Faz-se um novo silêncio. Um dos homens se benze. Que Deus o tenha! Todos olham para cima com ar condoído e explodem novamente em risos. Dou alguns passos e me encosto à roda de senhoras. Falam das dores de seu Quinzinho, do progresso dos filhos na escola, da caduquice de seu Benício, do velho padre da matriz, dos bailes da Apolo. Madame aparece e pergunta se estão todas bem. Respondem que sim, elogiam seu vestido, sua elegância. Uma delas compara madame com a convidada. Parece mesmo é homem, sussurra para as amigas e aponta Esther, que, de costas, não vê o gesto ofensivo. Madame sorri. O pior é que a tomam por feminista, reclama a mulher do farmacêutico. Não sai do lado deles, observa dona Nair. Madame não responde. Porém, sinto que aprecia a comparação. Esses comentários fazem de Esther uma mulher ainda mais fascinante para mim. Somos o avesso uma da outra. Eu não existo para eles. Ela, indiferente ao que pensam, é o centro da reunião, o destino de todos os olhares. Até então, eu nunca tinha ouvido falar dela, da sua vida de jornalista, sua viuvez… Morando no Rio e de caso com homem mais jovem. Que ela se veste mal, não há dúvidas. Seus gestos são pesados, desajeitados. Contudo, eu e as demais mulheres ali presentes a invejamos. Retiro alguns copos do tampo da mesa, recolho talheres, lavo e trago limpos. Novamente no corredor, observo padrinho no meio do grupo. Falam agora do novo presidente. Ele pode ser muito esperto, mas nada faria sem a ajuda do ministro da guerra, nem tomar posse ele e o vice teriam tomado. Ah, nisso eu concordo com você. Não obstante, a questão principal, para mim, dizia Esther, é se ele vai segurar o fantasma do getulismo. Sou otimista quanto ao governo, aprovo a mudança da capital, o programa de metas e a industrialização do país. Desde que ele freie esse continuísmo caudilhista do vice. Taí uma coisa que não engulo, o socialismo de almanaque do Goulart. Mas Esther, torna padrinho, não podemos esquecer que ele obteve maior representatividade nos votos. Você não pode desprezar a força dele e dos trabalhadores brasileiros. Desprezar, ela diz, não desprezo. Meu sentimento, querido, é de vívido terror. Enquanto ela diz isso, seu acompanhante para de beber e, como por acidente, cruza os olhos com os meus, descobrindo-me no meu esconderijo. Petrifico. Ele percebe que eu os observo. Tento disfarçar, fingir que limpo algo, mas era só desviar a vista por um segundo para encontrar o homem me fitando. Desconcertada, corro para a cozinha e me mantenho lá, respirando com dificuldade e saindo exclusivamente quando obrigada. E fico com a imagem dele martelando minha cabeça. A imagem do rosto dele ao me surpreender. Os cabelos muito lisos, a pele excessivamente branca, os lábios finos e delicados. Sinto raiva de mim mesma pelo descuido. Logo um homem como aquele! Uma figura franzina, sem tempero nem cor. E me irrito. O rosto dentro da minha cabeça me vigia. E se ele resolvesse me delatar para padrinho? O que eu faria? O que eu diria? Entro na sala e, nervosa, arrumo uma mesa. Nada mudara. Continuo invisível aos olhos de todos. Os convidados conversam animados. Me desesperei à toa. Ele nem deve ter reparado em mim. No meio de tanta gente, provavelmente os olhos olharam sem enxergar. Foi isso. Estou segura. Uma bobagem. Estou a salvo. O grupo de padrinho prossegue animado. Planeja um novo livro?, padrinho pergunta à convidada especial. Por hora, não. Acabo de publicar uma peça de teatro chamada Cangaceiros. Jura?, interrompe o colega de partido, acho o tema muito interessante. Inclusive, retoma ela, o convite para visitarmos Juazeiro foi produto de um acaso. Eu e João fomos a Fortaleza para negociar os direitos de montagem da peça. Não deu certo. Aí, encontramos o Armindo, colega de João do tempo da escola de Medicina, bom bebedor, homem culto, empreendedor. Abriu consultório aqui há três meses. Quando soube que estaríamos de folga por mais uma semana, convidou-nos para visitá-lo. E, voilà, cá estamos. Um brinde ao Armindo por nos propiciar tamanha satisfação, padrinho eleva o copo. Como fazemos para conseguir um exemplar desse livro?, questiona um colega. Teria grande satisfação de incorporá-lo ao acervo do nosso grêmio literário. Ah, sim, entusiasma-se Esther, você pode comprá-lo no armarinho Drubi, lá na Conselheiro Saraiva. Armindo fez com que quatro exemplares fossem expostos na vitrina. Eu escuto Esther e já começo a me esquecer de meus afazeres. Não fosse um detalhe: João me fita mais uma vez e me lança uma piscadela. Acabou-se minha paz. Saio da sala e permaneço o mais distante possível. O absurdo é imaginar que ele foi capaz de desrespeitar uma mulher da natureza de Esther. Quanto mais penso, mais julgo João um cabra ordinário. A festa termina sem que eu acompanhe as despedidas. Madame e padrinho se retiram para o quarto. Respiro aliviada e dou início à arrumação.

Livro à venda AQUI.

LIMA TRINDADE nasceu em Brasília e vive em Salvador. É editor e mestre em Teoria da Literatura pela UFBA. Publicou O retrato: ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (2014), Corações blues e serpentinas (2007), Supermercado da solidão e Todo sol mais o Espírito Santo, ambos em 2005. Seus contos já foram traduzidos para espanhol, inglês e alemão.

Publicidade

veja também

O impacto das TICs na temporalidade de nossas vidas

Vampiros sorridentes ao sol

DNA e xamanismo: contemplação do mistério

comentários