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Entrevista

"A vida é uma guerra, todo mundo cantou isso"

Rapper paulista comenta sua relação com a música e com parceiros, as situações de fidelidade e traição profissional, o contexto político nacional e o rap no Brasil contemporâneo

TEXTO Erika Muniz

07 de Março de 2019

O rapper Mano Brown

O rapper Mano Brown

Foto José de Holanda

[conteúdo na íntegra | ed. 219 | março de 2019]

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Aproximadamente 20 km separam a hype e boêmia Vila Madalena do Capão Redondo, bairro de origem dos Racionais MCs, localizado na zona sul de São Paulo. Para lá da Ponte João Dias, que cruza o Rio Pinheiros e é parte do percurso entre as regiões, a distância é mais que física, pois ilustra as diferenças sociais e econômicas que entrecruzam a capital paulistana. Decerto, o Brasil não é mais o mesmo de quando Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock começaram a fazer rap, nos anos 1980. Nem vive o mesmo contexto de quando o quarteto percorria inúmeras cidades nas turnês de Sobrevivendo no Inferno (1997) – cujas letras estão no livro homônimo lançado em 2018 –, Nada como um dia após o outro dia (2002), Cores e valores (2014) ou de outros álbuns. A música desses rapazes, porém, segue essencial para a compreensão de nossa história e formação, a partir da ótica da periferia, que por tanto tempo tem sido silenciada e explorada.

Maior nome do rap nacional, Mano Brown está à frente dos Racionais e de outros projetos, como a banda Boogie Naipe, em que envereda pelo funk, soul e outras músicas da diáspora negra. Durante essas mais de três décadas de Racionais, o artista diz viver seu sonho de fazer música, mostrando como a criatividade e a arte – essa “indomável”, como ele mesmo a define –, podem ser ferramentas de mudança social, denúncia de injustiças, conscientização e, sobretudo, de combate ao racismo tão presente em nossa sociedade. Para Ana Soares, sua mãe, Mano Brown sempre foi simplesmente Pedro Paulo Soares. Homenageada em canções como Negro drama, a história dos dois sempre esteve interligada.

Ela saiu do coração da Bahia para tentar a vida na capital paulista, onde criou sozinha o filho, sem o pai. Essa realidade, vivida por muitas mulheres brasileiras, também foi denunciada em versos e na voz do artista. Afinal, de sua própria trajetória em São Paulo, desde a infância nas ruas do Capão, e a de sua mãe, mulher negra e nordestina, o artista escreveu linhas como: “Hey São Paulo./ Terra de arranha-céu./ A garoa rasga a carne e a Torre de Babel./ Família brasileira./ Dois contra o mundo./ Mãe solteira de um promissor vagabundo”. A cada apresentação, essas e outras músicas são cantadas em uníssono pelo público.


Eduardo Kobra retratou o grupo Racionais em um mural no Capão Redondo.
Foto: Studio Leone/Divulgação

Numa tarde ensolarada do verão paulistano, conseguimos uma brecha na agenda de Mano Brown, que logo fez questão de pontuar: “Também tenho sangue nordestino”, em menção à origem pernambucana da Continente. A entrevista estava marcada previamente para acontecer no Capão Redondo, onde o músico mora e está localizada a produtora Boogie Naipe, que cuida da carreira e é liderada pela empresária, ativista e advogada Eliane Dias, sua esposa. No entanto, devido a alguns compromissos do artista, a conversa precisou ser realizada no bairro da Vila Madalena.

Ali, diversos admiradores de Mano Brown e dos Racionais nos interrompiam para cumprimentá-lo ou tirar uma foto. “Meu pai vai ficar muito feliz”, disse um deles. “Eu não acreditei que era você. Toda vez que você e o Seu Jorge vêm por aqui, eu sinto um axé danado”, disse outro. Mano Brown fez questão de dar atenção a todos, com um sorriso largo que desfaz qualquer fama de marrento. Everton, de 10 anos, estava vendendo pirulitos e também quis cumprimentá-lo, se disse torcedor do Corinthians. Ganhou um aperto de mão do artista, que torce para o Santos.

Nesta entrevista, além de falar dos Racionais e de outros projetos musicais, Mano Brown comenta a atual cena em ascensão do rap nacional, pontua a importante participação de mulheres nos palcos e na produção; declara sua admiração pela profissão de jornalista – quando bem executada; denuncia como o racismo no Brasil aprisiona; dá suas impressões sobre a atual política e detalha, sem hesitar, sua contundente fala durante o comício pré-segundo turno, nas últimas eleições presidenciais, em outubro, do qual participou ao lado de Chico Buarque, Caetano Veloso e outros artistas, no Rio de Janeiro.

CONTINENTE O que mudou no Capão Redondo dos anos 1980, da sua juventude, para os dias de hoje?
MANO BROWN Então, primeiro a gente entra pela história do Brasil. Para contar o que mudou, tenho que falar da história do Brasil. Saímos de um governo de ditadura. Foi justamente quando eu comecei, no final da ditadura. Entrou a democracia e teve aquelas crises todas, Fernando Henrique Cardoso, até chegar no governo Lula. Muito da primeira filosofia do rap vem antes do governo Lula, acho que talvez 70% do que mais ficou impresso na cara do nosso movimento vem antes do governo Lula. O movimento teve dificuldade de lidar com isso após esse governo do Lula. Toda a mentalidade mudou, a mentalidade geral mudou e os bens de consumo também. Isso mudou o contexto geral, tanto aos objetos, quanto as pessoas e as expectativas. Mudou tudo.

CONTINENTE Você tem o projeto Mano Brown solo, Mano Brown e banda, Boogie Naipe, Racionais… Me fala deles.
MANO BROWN Antes de mais nada eu gosto da música, a minha grande paixão é a música. Política vem depois. Se fez muito necessário e útil, ela era prioridade naqueles momentos, quando eu fui convocado para aquelas ideias, pus como prioridade da minha vida. Hoje, 30 anos depois, Bolsonaro eleito, governo assumidamente de direita, o povo elegeu ele no voto direto, na democracia que a gente tem. A gente é brasileiro e vai continuar lutando pelo Brasil, certo? Eu quero fazer música. O Boogie Naipe é uma maneira de eu escoar essa vertente de funk e soul, que eu sempre tive. Esse disco faz parte da minha raiz de música, de infância, da minha mãe, dos quintais, da ignorância e ingenuidade que a gente tinha, morou? E do deserto de informação que a gente tinha. Não tinha nenhuma (risos). Tudo era no imaginário, tudo era o sentimento. Não tinha nada visual para você se apoiar ou se inspirar. É baseado naquela fase, quando a música era tudo. Então, quero estar no dia a dia, quero que a minha música seja útil.

CONTINENTE Logo no começo dos Racionais, não havia internet. Uma parceria entre o Tupac e os Racionais seria improvável, talvez, mais distante do que seria hoje uma parceria entre o Baco Exu do Blues e o Kanye West. O que você acha disso?
MANO BROWN Proporcionalmente? Não sei, talvez agora seja mais impactante. Somado a todas possibilidades e o que virá depois… Naquela época, não tinha nada. É lógico que seria um susto, talvez não fosse assimilado tão bem quanto parece. O Tupac, quando morreu, não era uma coisa consagradamente boa, como se faz hoje. Talvez ninguém fosse. Ninguém é, em vida, consagrado. O que veio acontecer com o Tupac foi depois da morte dele, muitas referências importantes falam sobre ele, replicando a ideia dele com muita força, senão as novas gerações não saberiam quem era o Tupac. Se não tivesse esse fio condutor dessa “meia geração”, que trouxe o Tupac até os dias de hoje. Hoje, com a tecnologia e toda a indústria preta e o talento dos músicos, o impacto seria maior. Kanye West é um artista consagrado no mundo inteiro e o Baco é uma realidade muito forte, dentro do cenário brasileiro, um grande artista.

CONTINENTE Quando o entrevistei, ele falou de você como uma das referências dele.
MANO BROWN (Risos) Da hora, eu só agradeço. Quais as outras?

CONTINENTE Ah, ele falou de você, do Caetano…
MANO BROWN Pô, só brabo (risos).

CONTINENTE Ao longo da sua carreira, você demonstrou que a relação com a sua mãe, Dona Ana, é forte e ela está em algumas letras dos Racionais… É uma referência para você? Qual a importância dela na sua música, sua arte?
MANO BROWN Minha relação é como tinha de ser, de pai e filho, né? Talvez por eu ter colocado nas músicas e tal, mas era uma relação natural. Eu amava minha mãe. A gente tinha uma relação real, de dureza. Minha mãe me achava muito guarda aberta. Ela achava que eu negligenciava a proteção, que era peito aberto demais. Ela achava que eu deveria me proteger mais da inveja. Algumas pessoas que estavam comigo, ela não gostava, e várias delas, com o decorrer do tempo, me traíram mesmo. Ela já tinha me avisado. Eu nasci quando ela tinha 41 anos, então, ela tinha idade para ser minha avó praticamente. Ela era amarga, tinha uma amargura, uma coisa antiga, do tempo de casca de coco no terreiro. Eu não alcancei aquela amargura da minha mãe. Ela tinha uma amargura diferente da minha. Ela era mais amarga. Sofreu mais, entendeu? Ela era mais negra, mulher, analfabeta, nordestina e várias fitas.

CONTINENTE Ela era de qual cidade da Bahia, Brown?
MANO BROWN Era do interior da Bahia, Riachão do Jacuípe. Sagitariana, braba, perfeccionista, explosiva…

CONTINENTE Você é taurino. Taurinos costumam ser vaidosos. Você é?
MANO BROWN Sou sim, bem vaidoso.

CONTINENTE Em entrevista à Continente, Milton Nascimento falou que uma das coisas mais importantes para ele é a amizade. E a sua relação com seus amigos e parceiros? O que a amizade simboliza para você?
MANO BROWN Esse ano estou completando 30 anos na música. Um sonho, né? Nem tudo foram flores, muitas coisas foram espinhos mesmo. Mas uma coisa que eu digo, muitos que eu trouxe ao longo dos anos são os meus amigos e aliados. Por isso que gosto e faço questão de ter, a vida é isso. Eu não cresci sozinho. Muitas vezes, quando fui derrotado, tinha gente que chorou comigo também. Teve gente que me traiu também. Mas tenho muito mais amigos do que pessoas que eu não considero. É o normal, é como eu sempre quis ser. Aquilo que eu cantava lá em 1993, 1994, comunidade Zona Sul e pá e pô. Aquelas ideias, eu sou até hoje. O que eu sempre quis ser, sou agora. E é o que sempre fui também.

CONTINENTE Músicas como Diário de um detento e outras do álbum Sobrevivendo no inferno (1997) são letras maiores, mais extensas, mas no Cores e valores (2014), as letras são bem menores. Como foi esse processo de adaptação da escrita?
MANO BROWN O rap em si mudou, o rap brasileiro, menos. Naquela fase, quando o Cores e valores saiu, a mudança no rap brasileiro ainda não tinha se consolidado, como hoje já se acha que tem, uma nova cena. Naquela época não, ainda tinha uma coisa que flertava muito com as coisas mais antigas e esperavam aquilo de mim de novo. Aquela coisa dos anos 1990 misturada com os 2000. Isso já faz 20 anos. Como você vai lançar um disco de 2014 com gosto de 2002? Defasado 15, 14, 13 anos. Artisticamente é suicídio e, como documento histórico, é morto, não diz. Se você não consegue acompanhar a mudança do mundo através de uma letra ou das músicas que estão tocando na rádio, que seja uma regressão. Pode não ser também para frente, também pode regredir dentro de algum conceito ou outro… As músicas dos anos 2000 e poucos, talvez, cederam nas letras para alcançar mais espaço. A mídia é o povo que faz. Um dia você chega nessa conclusão que quem dá a direção é o povo. O povo fala através das músicas que ele ouve, das novelas que ele assiste, essas coisas. Não sei se eu respondi. Naquele momento, o disco tinha que ser mais curto também. Se você não consegue se fazer entender em 40 segundos, um minuto, não é em três que vai, sabe? Ali, a habilidade daquele disco foi de não mentir, não retratar uma coisa que não estava acontecendo. Ao contrário, mostrar o que estava acontecendo e talvez não fosse tão bonito que nem as pessoas queriam. Tem gente que viu aquele disco como arrogante. Ninguém sabe o quê, mas não era aquilo que era para ser, igual ao Vida loka. Não é igual aquilo, não sei o que é.

CONTINENTE Sempre rolam as críticas.
MANO BROWN É, mas é uma crítica comportamental, tipo assim: “Cadê aquela humildade dos caras, que não está tendo neste disco? Cadê o papo social?”. O Brasil já não era mais aquele também.

CONTINENTE O que você acha do jornalismo que é feito atualmente no Brasil?
MANO BROWN Particularmente eu sou um admirador da profissão. Já até flertei em estudar para isso. O KL Jay mesmo já disse: ‘Você deveria ser jornalista ou você deveria ser professor de História’. É fascinante a importância que o jornalista tem na política, na vida. Ouço muito radiojornalismo com temas políticos, acompanho e presto atenção na forma com que é transmitida a notícia. Também escrevo letras, músicas, então, de alguma forma, o jornalismo passa por aquilo dali que eu faço, ou eu passo por dentro do jornalismo quando faço aquilo. É uma forma de fazer também. Às vezes, acho que eu faço um pouco também, é assim que vejo.

CONTINENTE E com relação ao jornalismo independente, que tem trazido pautas relacionadas aos direitos humanos?
MANO BROWN A arte de escrever e se fazer entender é um dom, como o Neymar tem para driblar. É uma arte, um dom, o de escrever e se fazer entender. Não gosto de jornalistas que tentam direcionar as vontades das pessoas, mas se for, que seja declarado, que se coloque como influenciador. Mas que se coloque. Quer que uma pessoa acredite na ideia A ou B, e quer defender ela? É justo. Ela não pode se calar se ela não concorda, mas não fingir que é uma coisa e é outra, entendeu? Lobo em pele de cordeiro. Esse é um tipo de jornalismo nocivo, também como o compositor nocivo, que fala coisas que não acredita porque é politicamente bonito falar. Também não cabe a mim esse tipo de crítica, eu tenho que pensar em mim. Comparando com o jornalismo é assim que eu vejo, é o mesmo risco que eu vejo. É isso.


Capa do disco Cores & valores, dos Racionais, de 2014.
Foto: Reprodução

CONTINENTE Você parece não gostar de julgar as pessoas. Essa é uma preocupação sua?
MANO BROWN Esse o é meu jeito de ser. Eu não julgo porque eu já fui muito julgado, sou julgado. Sou vítima de julgamento. É horrível você ser quem julga. Eu não sou perseguidor, sempre fui perseguido. Não sou julgador, sempre sou julgado. É por isso que eu sou assim marrento para caralho, orgulhoso, porque eu sei que sou assim.

CONTINENTE Além de Jorge Ben, soul music, que você revisitou nos seus trabalhos mais recentes. O que você gosta de escutar?
MANO BROWN Eu sou um trabalhador do meio, mas também sou um ouvinte, um pesquisador, quase um antropólogo (risos) de história, música e coisas da humanidade, coisas relacionadas à raça negra. Tudo o que eu ouço, de alguma forma está relacionado a tudo isso. Política, arte, sexo… E trabalho é o que eu mais penso. Gosto de trabalhar, de ajudar, gosto de me inspirar e de compartilhar as coisas que eu aprendo com quem precisa, com quem está afim aprender para viver. É uma coisa que tem que ser doado, entende? Não é vendido, isso tem que ser repassado. Muita coisa eu tenho repassado ao longo do meu aprendizado na vida e nas músicas. Fracassos e delícias, certo?

CONTINENTE Baco Exu do Blues, Djonga, Karol Conka, do Recife… O que você acha dessa nova cena do rap nacional?
MANO BROWN Está gigante, está linda. Melhor fase de todos os tempos. Com certeza. Em números, qualidade, profundidade, responsabilidade, envolvimento e reconhecimento. Eles são artistas reconhecidos hoje. O Brasil também teve que amadurecer para entender esses caras. Apesar que o Brasil de hoje vota no Bolsonaro, então, isso também é uma bipolaridade, entendeu? Ao mesmo tempo, esses moleques, no bom sentido, estão girando centenas e milhões na internet, nas redes cantando o que eles cantam e todos são politizados. Emicida, Rael, Bk’, o Baco são politizados. Todos eles estão falando coisas muito sérias, além de muitos outros. As mulheres com as causas feministas e tal. Todas falando causas muito sérias com muito ritmo, beleza, com roupas, com autoestima e confiança. Não aquela coisa medrosa, porque o racismo no Brasil, ele oprime, amedronta, assusta muita gente. Esses aí não, eles não têm medo. Isso é uma evolução. Eu acho irreversível o que está acontecendo no rap hoje. É só para frente agora, só daqui para melhor.

CONTINENTE No Recife, há a produtora Aqualtune, de mulheres negras, que se produzem e ocupam os espaços. Como você observa a atual participação das mulheres negras no rap?
MANO BROWN É o melhor que tem acontecido. A melhor parte das coisas que tem acontecido está vindo das mulheres. No rap, a minha visão é que quanto mais mulheres, mais tudo do melhor. Mais inteligência, mais sensibilidade, mais dinheiro, mais tudo o que o universo feminino traz. Então, a mulher contribui com muito mais que a outra metade da laranja. Agora, não depende de uma concessão de direito dos homens, elas têm que tomar os espaços. Os homens teriam que ceder, mas eles não vão ceder. Elas têm que tomar. E elas já estão tomando.

CONTINENTE Como você observa a questão do machismo no rap? Se é que ele existe…
MANO BROWN Existe, claro. Nosso país é um país de cultura machista. Eu fui criado por uma mulher machista. Não tive um pai, mas tive uma mãe que era um homem. O ditado dela era o seguinte: “Quem tem suas cabras que prenda, que meu bode está solto”. Essa era a mentalidade dela. Por aí você tira como era a minha mentalidade e como eu tive que mudar, até para viver melhor comigo mesmo. Agora, até o feminismo também está sujeito a melhoras. O homem tem que melhorar e a mulher também tem que buscar…

 
Lenne Ferreira e Tássia Seabra, da Aqualtune Produções. 
Foto: Berna Silva/Divulgação

CONTINENTE A empresa Boogie Naipe é gerida por mulheres. Como isso é visto por vocês, os artistas?
MANO BROWN Mulheres são mais compromissadas, mais focadas, fazem mais coisas ao mesmo tempo. Elas estão com mais fome de conquista, isso é bom. Elas estudam mais e têm sensibilidade para a arte. Então, eu acredito muito nessas mulheres aí.

CONTINENTE Como é ser um homem negro no Brasil?
MANO BROWN Ser negro no Brasil é um esporte radical. Por isso, minha mãe insistia para eu me sentir branco, mas eu nunca consegui. Ela não queria que eu me sentisse negro, porque ela sabia como o Brasil trata os negros. Ela tinha medo do que me pudesse acontecer.

CONTINENTE Em entrevista ao Le Monde Diplomatique você afirmou: “falando de amor, eu sou mais perigoso”. O que é o amor e por que mais perigoso?
MANO BROWN (Começa a cantar um trecho de Amor dos outros, de Giovana: “O amor é uma loucura maravilhosa, maravilhosa! Não chora amor dos outros, não chora!”.) O amor é violento. Porra, quando eu descobri que 80% dos caras que estavam presos era por causa de romances mal vividos… Um monte de amigo meu vivendo mal para caralho, descontando no mundo. No final das contas, todo mundo, quer dizer nem todos, né? Todo mundo quer um par para os melhores momentos, para descansar as lutas do dia dia, as guerras. A vida é uma guerra, todo mundo cantou isso. Isso aqui é uma guerra do bem e do mal. A gente cantou, a gente preparou os moleques para o pior. Teve momentos falando de outras coisas também, explicando que a vida continua. Depois da guerra vem a calmaria. Está sempre recomeçando.

CONTINENTE O Racionais salvou vidas. Qual o papel dos artistas hoje? Quem vai salvar outras vidas?
MANO BROWN Se eu falar que salvou vidas, você não vai acreditar. É, isso significa que a gente tem que salvar vidas. Sei nem como te responder isso… Acho que era o mínimo, porque o rap salvou a minha vida. Então, para mim, sempre foi uma questão de salvar vidas mesmo, de alguma forma, mas nem sempre foi legal falar isso. Teve época que isso foi usado contra. Tudo tem que ser do coração. A conexão de você com você ou com a força que você acredita, religião e tal. Sempre tive esse lance. Quando entendi a luta, eu falei: “Bom, tenho que ser leal à luta”. Até hoje estou nessa. É lógico que hoje é uma coisa muito mais artística. Tem o lado artístico forte. Foi uma luta também. Esse lado não poderia ter sido negligenciado. Essa nova geração está colhendo frutos bons, porque eles não negligenciaram o lado artístico.

CONTINENTE E como você vê o papel da arte? O que ela tem que fazer ou o que ela não tem que fazer?
MANO BROWN Eu acho que não tem que fazer nada que não seja sua vontade. Não existe o que você tem que fazer. Você pode pintar para sobreviver, por hobby, até nem pintar nada e só curtir a arte, a pintura do outro. Você pode ser ator, ser artista na vida. A arte salvará e ela salva, mas não acho que ela tenha que fazer isso ou aquilo. O artista, antes de mais nada, é um indomável. Se for uma grade, ele pulará. É para isso que existe. A arte já nasceu, entendeu?

CONTINENTE E você gosta de São Paulo?
MANO BROWN Sim, é um país São Paulo. Essa cidade dá para você gostar muito ou odiar muito. Tem esses dois lados. É uma cidade que tem muitas oportunidades. Eu sou de origem nordestina também. Minha mãe fez a vida dela aqui. Nasci dentro de São Paulo. Uma parte nordestino e outra parte europeu.

CONTINENTE Há pouco, você fez uma participação no clipe Melhor que eu, de Cleo. Rolaram algumas críticas, inclusive de algumas feministas negras. Como você vê esses posicionamentos?
MANO BROWN Elas podem dizer o que quiserem. Quando quero falar, eu também falo. Podem pensar, não concordarem ou concordarem. Direito jornalístico, licença. Com a diferença de uma coisa ou outra, que eu realmente vi e achei necessário, alguma leviandade ou outra e alguns tipos de preconceitos. Nada que realmente me atingisse, que eu ficasse tão preocupado, porque sei o que eu fiz, o que faço. Não tenho dúvida de quem sou e do meu propósito na vida. Então, existe muita insegurança das pessoas com as outras. Não sei de onde vem em relação a mim. Não sei de onde nasce isso. De alguma forma, tenho que ser psicólogo. Sou compositor de rua, batuqueiro, animador. Não sou formado, não sou estudado, tem que ser um pouco psicólogo das pessoas. Está tudo tranquilo.

CONTINENTE A partir de depoimento seu, dado em outubro durante o evento pré segundo turno da eleição presidencial, na Lapa, você poderia detalhar a crítica que fez à esquerda?
MANO BROWN Naquele momento ali eu estava muito envolvido emocionalmente com a questão da eleição. Quem me conhece sabe que eu não queria que o governo que está aí ganhasse. Isso é óbvio, por motivos óbvios. Só não vê quem não quer e quem realmente virou do contra. Então, aquele processo de impeachment da Dilma e a eleição do Bolsonaro já vêm acontecendo há dois ou três anos. Inclusive, com a forma do meu público, entre aspas, de lidar comigo. Eu já tinha percebido mudanças filosóficas. Vivo a rua, vivo o povo. Percebi isso muito antes do impeachment da Dilma. Quando ela sofreu impeachment, falei para os meus amigos do rap: “Esse impeachment foi para nós todos, de uma vez. Não foi só para ela. Tem um descontentamento aí no ar. A gente tem que parar para prestar atenção nisso”. Já tinha começado esse movimento da direita antes do impeachment. As redes sociais mostram. Elas não são tudo, mas são 99% do que as pessoas pensam. Você pode até ignorar o que a internet está falando, mas aquilo é uma realidade. Se aquilo fosse um papel para ser assinada uma lei, tinha se assinado uma lei de matar um. “Você acabou de assinar um papel que libera invadir terreno quilombola”. “Você acabou de assinar um papel que vai liberar armamento de fogo nas ruas”. Então, você tem que ser responsável pelo voto que está dando. Naquele momento, existia muita insegurança da minha parte em relação a tudo. A tudo que eu ouvia dos dois lados, tanto da esquerda quanto da direita, era aterrorizante. Parecia que haveria um confronto armado nas bocas de urnas, era esse o ar que estava respirando. Tenho amigas e amigos que ficaram deprimidos naqueles dias, crises de choro, de pânico, às vésperas daquela eleição. Tudo isso veio à minha mente, ali, e eu vi que a gente perdeu essa eleição. Era o símbolo de uma derrota consolidada.

CONTINENTE Você já sentia.
MANO BROWN Fui a discursos do Lula, com 100, 150 mil pessoas. Sei o que é ganhar uma eleição. Me deu uma revolta naquele momento. Cheguei lá e percebi que perdemos a eleição. Pelo número das pessoas que estavam, pelas ideias que estavam sendo faladas. O mais do mesmo com mais radicalismo ainda, às vésperas da eleição. Falei: “Perdemos feio, porque se essas ideias que estão sendo faladas aqui não trouxeram votos até hoje não vai ser em dois dias que vai chegar com essas ideias aí”. Foi o que falei. “Tem 30 milhões de votos para lutar, se vocês estão comemorando, estou com raiva. Não gosto de festa”. Foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer: “Eu vou me foder a partir de 1o de janeiro, vocês, eu não sei”. Fui acusado de coisas, a gente não chegou a participar em nada.

CONTINENTE Tipo o quê?
MANO BROWN Nunca usei Lei Rouanet. Nunca usei essa lei também por não entender, por achar que não era meu, por ignorância minha. Nunca usei e fui acusado de usar, fui acusado de ser favorecido pelo governo do PT. Não fui. O governo do PT, o governo de Lula e da Dilma, os dois juntos, foram muito bons para o povo. Isso, sim, para o povo foram. Para o rap, não. Praticamente, o rap quase morreu no primeiro governo Dilma, quase morreu.

CONTINENTE Por que isso?
MANO BROWN Falta de estrutura, falta de investimento, por não tocar em lugar nenhum, falta de mão de obra, de equipamento, falta de tudo. Não foi o governo Dilma que favoreceu a gente. Eu não esperava nada. Foi um posicionamento para o povo. Eu sempre fui contra ir lá no Lula para pedir dinheiro para projeto. O rapper não tem que se prestar para isso.

CONTINENTE Mas você não acha que tem que ter investimentos do estado em cultura?
MANO BROWN Claro que acho que tem. Todo mundo acha isso. É bonito falar, mas o Brasil consegue? O Brasil consegue prestar conta com o dinheiro dos outros? Você acha que eu quero mexer com o dinheiro de alguém, de projetos, com isso e aquilo? Eu não quero, porque por isso que o Brasil está aí, com a desonestidade das pessoas.

CONTINENTE Você poderia exemplificar situações que as ditas “forças progressistas”, a esquerda, poderiam retomar o diálogo com a quebrada, com a periferia?
MANO BROWN Eu não era a favor de um candidato do PT ganhar de novo. Falei para o Eduardo Suplicy quando ele era vereador: “Isso pode ser fatal. Querer ganhar de novo e ficar no poder”. Só pode gerar um conflito um governo 30 anos no poder. Um governo de esquerda, centro-esquerda, o que for. Trinta anos, só pode gerar descontentamento. Necessitava de uma mudança para respirar e não se afastar dos ideais do povão. Apesar de que os “ideias do povão” mudaram muito e talvez o PT não tenha sabido se adaptar a isso. O povão aderiu a ideias de direita, depois de três governos de esquerda. Nesse ponto, a esquerda não pode fazer nada, a não ser sair de cena e recomeçar de onde errou, entende?

CONTINENTE Quais pontos da direita o povo aderiu, por exemplo?
MANO BROWN Acompanha as últimas eleições de São Paulo e o número de PMs que foram eleitos, as vozes das igrejas evangélicas…. Se isso já não é um comportamento de direita das pessoas, do povo… Então, quem está na periferia sabe. As pessoas passaram a querer defender o que foi conquistado. É um movimento natural do ser humano. Se você tem uma cabra, você quer que ela fique no quintal, não quer perder. De repente, nas casas, o cara tem duas motos e um carro, uma TV de plasma gigante na parede, um iPhone em cada quarto. O cara quer o quê? Um cadeado, a polícia passando na rua dele na favela. Por quê? Porque foi uma coisa conquistada, os bens de consumo. O Mujica, presidente do Uruguai, falou que o erro da esquerda foi criar consumidores e não cidadãos. Aconteceu isso também. A escola melhorou? Não. O Brasil é um país gigante, né? É muita coisa.

CONTINENTE No Recife, a poeta Bione, de 15 anos, começou a escrever por conta do sonho de ser MC. Quando a entrevistei, no ano passado, ela me disse que toda mãe de criança negra tem medo quando o filho sai de casa. Você pode falar sobre o racismo no Brasil a partir desse depoimento?
MANO BROWN Exatamente. Esse medo também faz a população votar com conceito de direita: a insegurança. Essa insegurança que essa menina fala, elegeu Bolsonaro. Uma coisa está diretamente ligada a outra. É um círculo vicioso.


Foto: José de Holanda

CONTINENTE Onde o Pedro Paulo e o Mano Brown se encontram? Onde se separam?
MANO BROWN O Pedro Paulo tem 48, o Mano Brown tem 30 anos. O Mano Brown é quase perfeito, programado para ser bonzinho, um cara bom. O Pedro Paulo é selvagem. Viu mais coisas que o outro.

CONTINENTE Para terminar, qual mensagem você quer passar às pessoas que escutam sua música, vão aos seus shows ou acompanham você nas redes sociais?
MANO BROWN Seja original, seja você. Não pisa na cabeça de ninguém para chegar onde você quer. Isso é o certo porque tem espaço para todo mundo. Valeu?

CONTINENTE Valeu.

ERIKA MUNIZ, estudante de Jornalismo e colaboradora da Continente.

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