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Crítica

Seydou Keïta e a imagem desejada

Os retratos do fotógrafo malinês mostram a África a partir de sua complexidade humana e artística

TEXTO ADRIANA DÓRIA MATOS
FOTOS SEYDOU KEÏTA/CAAC – THE PIGOZZI COLLECTION, GENEBRA/DIVULGAÇÃO

01 de Outubro de 2018

Nos retratos feitos por Keïta, todos os elementos de cena ganham significado

Nos retratos feitos por Keïta, todos os elementos de cena ganham significado

Foto Seydou Keïta/CAAC - The Pigozzi Collection, Genebra/Divulgação

[conteúdo exclusivo para assinantes | ed. 214 | outubro de 2018]

O que vemos quando olhamos um retrato? Não pense numa selfie, esse ícone da vanglória de si, mas na imagem do momento em que o indivíduo para diante do fotógrafo e sua câmera. Pense nos álbuns de fotografia de família, de recordação de casamento, de aniversário de 15 anos, de primeira comunhão, da criancinha e sua bicicleta (ou seu cavalinho de brinquedo)… Essas fotos estão bem distantes do clique que fazemos juntando todo mundo na repartição, no happy hour, na praia, no passeio de final de semana. E por quê? Porque – é um dos contrastes evidentes – nas fotos de álbum de recordação nós queremos nos eternizar e, para isso, adotamos uma calculada atitude, escrevemos um roteiro com o corpo e seus entornos, somos solenes em nossa encenação.

Olhar as fotografias que o malinês Seydou Keïta realizou em seu estúdio no centro da capital Bamako, no curto período de 14 anos, de 1948 a 1962, nos remete muito claramente ao álbum de família, pois temos diante de nós esse aparato calculado de olhares, posturas, gestos, roupas, acessórios e objetos de cena que desejam contar algo de próspero, belo, decente e feliz ao seu interlocutor – aquele que olha as imagens. Assim, os retratos feitos por Seydou Keïta são mensagens de um lugar que não sabemos verdadeiro ou falso (quanto daquela encenação é “real”?), mas que nos parece desnecessário indagar, porque gostaríamos de compartilhar o tempo sem mácula a que ele nos lança. Talvez seja esse o desejo de todos – no passado e no presente – que investem em fotos desse tipo, de eternizar em imagens o estado de prosperidade e acerto, não importa se o que está fora do enquadramento da câmera esteja longe disso. Naquelas fotos, somos felizes, para sempre.

***

Seydou Keïta mantinha um estúdio fotográfico numa área movimentada no centro da cidade, o que favorecia o afluxo da clientela. “Na época, Bamako era uma cidade de mais ou menos 100 mil habitantes”, contou ele, em entrevista ao curador e galerista André Magnin, em 1995-96. “Era uma encruzilhada importante e tinha uma atmosfera realmente boa. Pessoas da Costa do Marfim, de Burkina Faso e da Nigéria paravam em Bamako a caminho de Dacar. Toda a área central era muito agitada por causa da catedral, da estação ferroviária, da agência dos correios, do grande Marché Rose, do Clube Sudão e de um zoológico muito movimentado.” O terreno onde Keïta construiu o seu negócio, em 1948, foi-lhe dado pelo pai e ficava por trás da prisão central, local onde, ele contou, ninguém queria morar, “por causa dos ‘espíritos’ que jogavam pedras durante a noite”.

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