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Artigo

O cinema, segundo Kim Jong-Il

Produções elaboradas, sequestro de artistas e até um livro teórico marcam a fascinação do antigo ditador norte-coreano pela sétima arte

TEXTO Marcelo Abreu

29 de Dezembro de 2017

Kim Jong-il, desde os anos 1970, passou a dirigir e produzir filmes. Acima, cena do doc 'Os amantes e o déspota'

Kim Jong-il, desde os anos 1970, passou a dirigir e produzir filmes. Acima, cena do doc 'Os amantes e o déspota'

FOTO Reprodução

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 205 | janeiro 2018] 

O ex-líder norte-coreano Kim Jong-il, pai do atual presidente Kim Jong-un, era mais conhecido no Ocidente pela ambição de tornar seu país uma potência nuclear. Mas uma outra obsessão dominou a maior parte do seu tempo: a paixão pelo cinema. Kim Jong-il deixou escrito nada menos do que um livro teórico sobre o tema, destinado a orientar a realização de filmes no seu país, atuou diretamente como produtor e deu palpites em todas as etapas da produção cinematográfica norte-coreana.

A afinidade com o cinema era tanta, que Kim Jong-il mandou sequestrar um casal de cidadãos da Coreia do Sul (nada menos do que o mais importante diretor de cinema do país e uma das atrizes mais famosas) e os obrigou a trabalharem durante anos no norte, fazendo filmes para o regime. Essa história, que parece uma ficção das mais inverossímeis, foi contada recentemente em detalhes em um livro publicado no Brasil chamado Uma produção de Kim Jong-il, escrito pelo produtor independente de cinema Paul Fisher, e foi também explorada no documentário Os amantes e o déspota, feito pelos ingleses Robert Cannan e Ross Adam.

O envolvimento com o cinema se intensificou em 1973, quando Kim Jong-il, então com 32 anos, foi designado pelo pai para assumir o Departamento de Propaganda do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Kim Il-sung tinha tomado o poder na Coreia do Norte em 1945, com o apoio das tropas soviéticas, e ficaria no comando até morrer, em 1994. Além de ser uma espécie de príncipe herdeiro, Jong-il, preparando-se para assumir o poder, era também um playboy diletante.

Até então, eram as artes que ocupavam suas atenções. O jovem Kim supostamente escrevia óperas revolucionárias (na melhor tradição da Revolução Cultural chinesa, então em curso), orientava obras literárias, dava palpites sobre encenações de balé e estilos de bordado. O cinema, porém, era a sua predileção. Cinéfilo inveterado, ele mandava trazer do exterior, com a ajuda das embaixadas, cópias de filmes de todo o mundo, apenas para consumo próprio. Estima-se que, ao longo dos anos, conseguiu formar um acervo na sua cinemateca particular que vai de 15 mil a 20 mil filmes. Tudo pirateado ilegalmente em película – numa era pré-DVD e videocassete – para dentro do seu país. Para isso foi criado até um departamento especial chamado de Operação Recurso Número 100, que empregava cerca de 250 pessoas, entre técnicos, laboratoristas, tradutores, dubladores e arquivistas.



SEMENTE NA OBRA
Ainda em 1973, Kim Jong-il lançou o livro Sobre a arte do cinema. O livro nunca foi publicado no Ocidente, mas consegui comprar uma cópia numa visita a Pyongyang. A versão em inglês se intitula On the art of the cinema e tem 332 páginas, nas quais Jong-il discorre sobre a forma de fazer um filme que considera correta. É um texto, em muitos trechos, vazio de significado, repleto de redundâncias e platitudes, beirando o ilegível. Dá a impressão de ter sido ditado para um assessor num fluxo de consciência repetitivo e, quem anotou, para não contrariar o Líder Querido, resolveu passar adiante tudo integralmente, sem evitar as repetições.

No livro, ele trata o tempo todo sobre a ideia da “semente” contida na obra de arte. “O artista só pode ser incendiado com o zelo criativo e desenvolver sua visão artística por inteiro quando ele escolhe uma boa semente”, escreve. A conclusão é sempre a de que somente a escolha da semente correta vai gerar uma obra de arte em consonância com a linha do partido. Os clichês do marxismo mais dogmático estão por toda parte. Há alguns capítulos que se chamam, por exemplo, Conflitos devem ser colocados em acordo com a luta de classes, Seja leal ao partido e prove que merece a confiança que ele coloca em você e A maquiagem é uma arte nobre. Em comparação, Andrei Zhdanov, chefe do Departamento de Agitação e Propaganda da União Soviética de Stalin, nos anos 1930, e responsável pela implantação do realismo socialista, seria considerado um liberal. O livro é descrito nas biografias oficiais de Kim Jong-il como a obra de um “artista e teórico genial”.

Extra
Livros publicados no Brasil que tratam da Coreia do Norte

Segundo os historiadores norte-coreanos, no final dos anos 1940, o menino Jong-il já estava, de certa forma, envolvido com cinema, acompanhando no set de filmagem Meu vilarejo natal, o primeiro filme realizado depois da fundação da República Popular. Ao presenciar, no estúdio, uma cena no filme que se passa na neve, o garoto criticou os efeitos especiais dos experientes técnicos soviéticos, que trabalhavam na produção. A cena teve de ser refeita. Jong-il tinha sete anos de idade.

Nos anos 1970, já adulto, estava totalmente imerso na produção de filmes como Mar de sangue e A garota das flores. Neste, de 1972, ele produziu, escolheu o elenco e supervisionou a montagem. Ajudou também no roteiro, que foi baseado em uma peça supostamente escrita pelo seu pai, sobre uma moça oprimida nos anos 1930, época da ocupação japonesa, que é resgatada pelo Exército de Kim Il-sung. Não surpreende que, à época, os filmes na Coreia do Norte não fossem creditados a ninguém. Apenas eram conhecidos como “uma produção de Kim Jong-il”.


Em 1978, o diretor Shin Sang-ok e a atriz Choi Eun-hee em set de filmagem. Foto: Reprodução

A paixão pelo cinema combinava com o contexto político: “Ao passo que livros e jornais eram lidos de forma privada, os filmes eram uma experiência pública e coletiva perfeita para uma sociedade socialista tentando inculcar uma consciência coletiva em seu povo. Enquanto livros eram escritos por uma única pessoa, filmes eram uma empreitada colaborativa menos passível de se afastar da mensagem e, pelo menos na Coreia do Norte, impossíveis de se produzir e distribuir sem aprovação estatal”, escreve Paul Fischer, autor do livro Uma produção de Kim Jong-il. Afinal de contas, o próprio Lenin dizia que “de todas as artes, o cinema é a mais importante para a revolução”.

Fischer escreve também que o líder norte-coreano foi “um jovem privilegiado e sem objetivos que não serviu às forças armadas e não demonstrou excelência em qualquer campo da burocracia ou da economia. O que Kim de fato possuía era um senso de narrativa, drama e espetáculo, a compreensão da criação dos mitos e de seu poder. E não aprendeu nada disso estudando política, religião ou história. Aprendeu com os filmes”.

Mas, em meados dos anos 1970, Kim já não podia cuidar de toda a produção cinematográfica. Em pouco tempo, ele receberia o título de Líder Querido e assumiria novas funções administrativas no país. Mas estava insatisfeito com os filmes feitos pelos seus subordinados. Invejava sobretudo o Japão, cujos filmes ganhavam cada vez mais reconhecimento internacional desde que, em 1951, Rashomon, de Akira Korusawa, ganhara o prêmio Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em 1978, Kim Jong-il decidiu que era hora de dar um jeito na situação.

SEQUESTRO VIA HONG KONG
Desde 1974, a Coreia do Norte vinha sequestrando com frequência cidadãos da Coreia do Sul e do Japão e os obrigando a atuar como professores no treinamento de espiões. Centenas de pessoas comuns foram forçadas a passar anos a serviço do regime comunista, após desaparecerem misteriosamente. Kim Jong-il, portanto, apenas ordenou a seus comandados que trouxessem para o país duas figuras que admirava há tempos, que certamente ajudariam a alavancar sua indústria cinematográfica.

A atriz Choi Eun-hee era uma das mais famosas da Coreia do Sul, conhecida por seus filmes e por sua beleza. Havia conhecido o diretor Shin Sang-ok aos 27 anos e não parou mais de fazer filmes com ele. O mais marcante foi A história de Chunhyang, de 1960, adaptação de uma lenda do folclore, o primeiro filme em cinemascope da Coreia. Casaram-se logo depois.


A atriz sul-coreana Choi Eun-hee foi primeiro raptada, depois chegou a vez do diretor Shin Sang-ok. Foto: Reprodução

Em 1978, já com 28 anos de careira, Shin Sang-ok era o principal diretor do país, consagrado e famoso. Havia dirigido e produzido melodramas, suspenses, épicos, filmes de artes maciais e até faroestes. “Alguns de seus filmes eram grandiosos e extravagantes, com cores brilhantes, cheios de zoons frenéticos e câmeras em movimento. Outros eram contidos, em preto e branco, com a câmera imóvel e composições estáticas e deliberadas”, conta Paul Fischer. Tinha seu próprio estúdio, realizava coproduções com outros países da Ásia, mas, naquele ano, passava por dificuldades financeiras e havia se separado de Choi. Ambos tinham 52 anos.

Primeiro Choi Eun-hee foi atraída para uma suposta reunião de trabalho em Hong Kong e acabou sendo sequestrada por agentes norte-coreanos disfarçados, que a levaram a uma praia. De lá, seguiu de barco até um navio, presa dentro de um saco. Dias depois, foi recebida, no porto da cidade de Nampo, na Coreia do Norte, por um homem sorridente, gentil e desconcertante: era Kim Jong-il em pessoa, dando-lhe as boas-vindas.

A atriz foi colocada em uma casa de campo. Não chegou a ir para a prisão e foi bem-tratada. Mas ficou durante cinco anos no limbo, sem notícias e sem nenhum contato com a Coreia do Sul, com os dois filhos que havia adotado no casamento com Shin, então adolescentes. Passou o tempo recebendo treinamento ideológico, lendo e decorando trechos das obras de Kim Il-sung, sendo adestrada no culto à personalidade dos líderes. Fazia excursões pelo país e eventualmente era convidada para festas promovidas por Jong-il para a elite do partido. Era acompanhada de tutores e vigiada o tempo todo.

Meses depois, Shin cairia no mesmo golpe, também em Hong Kong, onde investigava o sumiço da ex-mulher. Um agente norte-coreano, disfarçado de chinês, infiltrado como funcionário da própria filial da produtora de cinema de Shin em Hong Kong, o atraiu para uma armadilha. Ele foi levado à força para a Coreia do Norte. Sem saber do paradeiro da mulher, foi instalado em outra casa para iniciar seu processo de reeducação. Inconformado, tentou uma fuga alucinada em um carro roubado, rumo à fronteira com a China. Foi pego, preso e torturado. Depois de meses, conseguiu ser perdoado e reiniciou o processo de reeducação. Tentou fugir novamente. Dessa vez, reincidente, passou dois anos e meio numa cela solitária na famosa Prisão Número Seis. Sofreu maus tratos e, por pouco, conseguiu sobreviver. Depois de um longo processo de humilhação, foi novamente perdoado.

SOB DESEJOS E VONTADES
Após cinco anos de cativeiro, Kim Jong-il deu uma festa em 1983 e, repentinamente, reuniu o casal, que até então desconhecia o paradeiro um do outro. Voltaram a se apaixonar e, considerando a situação, decidiram passar a colaborar com o regime, para sobreviver. Continuaram a receber formação ideológica. Eles calculam que, nos três meses seguintes, assistiram a 120 filmes norte-coreanos. Após cada exibição, tinham de escrever um texto crítico, mas “do ponto de vista proletário”. Algumas semanas depois, tiveram uma produtiva reunião de trabalho com o Líder Querido para discutir planos para novos filmes. Nessa reunião, conseguiram gravar clandestinamente, numa fita cassete, 45 minutos de conversa. Meses depois, numa viagem ao exterior, conseguiram passar a fita para um amigo estrangeiro. Na gravação, Jong-il é sempre polido e cortês, sobretudo com Choi, a quem trata com todo respeito e deferência. Mas, num certo trecho, diz claramente: “O fato é que eu sou um político com desejos e vontades. Os senhores eram necessários a esses desejos e vontades. Assim, estão aqui”.

Falando francamente, disse que se envergonhava da qualidade dos filmes produzidos em seu país. E instruiu Shin a dizer publicamente que queria liderar a indústria cinematográfica norte-coreana para que ela se tornasse “mais avançada do que a dos países mais avançados”.

Alguns afirmam que a preferência de Kim Jong-il era pelos musicais da época de ouro de Hollywood. Shin, por sua vez, relata que as preferências do Líder Querido eram os filmes de James Bond, protagonizados por Sean Connery, os da série Sexta-feira 13 e os do personagem Rambo. Na sua dificuldade de distinguir entre fato e ficção, Kim Jong-il se referia aos filmes de Rambo e James Bond como uma espécie de “docudrama no estilo realismo socialista”, segundo Shin.

Nas primeiras reuniões, foi decidida a criação da empresa Shin Filmes. Nos três anos seguintes, entre 1983 e 1985, trabalhando dia e noite, Shin e Choi fizeram sete filmes para Kim Jong-il, que colocou à disposição todos os recursos necessários. Os dois primeiros são dramas nacionalistas no estilo tradicional norte-coreano: O emissário que não retornou, e sua sequência intitulada Fugitivo (os títulos são uma tradução direta do coreano, já que nunca foram exibidos no Brasil). Depois, Shin imprimiu seu estilo, com a realização do primeiro filme de amor no país – e que tem também a primeira cena de beijo – intitulado Amor, amor, meu amor. Veio depois um drama social chamado Sal, um musical intitulado A lenda de Shim Chong e o primeiro filme norte-coreano de artes marciais, Hong Kil-dong.

Para um público acostumado a uma dieta da austera estética do realismo socialista, tudo era novidade e deleite nos novos filmes, que alcançaram um enorme sucesso. Shin Sang-ok e Choi Eun-hee foram apresentados ao país como desertores do sul que fugiram do mundo capitalista infernal e decidiram adotar o paraíso dos trabalhadores como novo lar. Pela primeira vez, os filmes norte-coreanos passaram a ter créditos. Num país onde, até então, as estrelas eram apenas o Grande Líder Kim Il-sung e Querido Líder Kim Jong-il, agora havia mais duas estrelas: um diretor de cinema e sua atriz e esposa. As produções começaram a ser feitas também em outros países socialistas. O casal passou a viajar ao exterior – sempre vigiado de perto por agentes da tropa de guarda-costas pessoais de Kim Jong-il. Kim liberou inicialmente a ida deles apenas aos países do Leste Europeu, porque teria as forças de segurança locais ao seu lado.

CINEMA DE LUXO
O governante colocou dois milhões de dólares numa conta no exterior para bancar os custos internacionais das produções no primeiro ano. O filme O emissário que não retornou, cuja história se passava em parte em Haia, na Holanda, teve cenas gravadas nos estúdios Barrandnov, em Praga, na então Tchecoslováquia. O casal passou por Berlim Oriental para escolher locações. A fuga era sempre uma possibilidade considerada pelos dois, mas não podiam falhar mais uma vez.

Na própria Coreia, faziam um “cinema de luxo”, como nunca conseguiram no sul, rememorou depois a atriz Choi Eun-hee. Tudo estava à disposição deles. Quando precisaram de neve para uma cena durante a primavera, a equipe inteira foi levada para ao remoto Monte Paekdu, onde nevava boa parte do ano. Pediram milhares de extras para uma cena épica e as Forças Armadas foram colocadas à disposição. Precisaram de um trem que explodisse no clímax de Fugitivo, e um trem de verdade, cheio de explosivos, foi cedido para as filmagens.

A longo prazo, o maior sucesso da dupla foi o sétimo filme, intitulado Pulgasari: o comedor de fogo, uma película de monstro na melhor tradição do Godzilla japonês. O filme foi feito em 1985 e contou com chineses e japoneses nos efeitos especiais. O próprio ator japonês Kenpachiru Setsuma, que se vestia de Godzilla nas produções nipônicas, participou da produção. Quando, anos depois, o filme foi vendido para o exterior, tornou-se um clássico do cinema asiático. Mas gera polêmica até hoje e pode ser interpretado de várias formas. De chanchada trash à comédia cult, de propaganda antijaponesa a obra-prima sofisticada – o monstro pode ser interpretado como uma alegoria da opressão do partido único sobre a população – é um filme de muitas leituras possíveis.


Produção de sucesso de Shin Sang-ok foi o filme do monstro Pulgasari.
Imagem: Reprodução


CONQUISTAR O MUNDO
Kim Jong-il havia sido convencido que, para ter acesso aos mercados internacionais, a Shin Filmes teria de abrir um escritório e até criar um estúdio na Europa. No começo de 1986, ele estava ainda mais entusiasmado como sua indústria cinematográfica revigorada e queria atingir o mundo. Resolveu abrir um escritório em Viena. Para isso mandou o casal numa missão a capital da Áustria.

Planejando tudo cuidadosamente, Shin e Choi conseguiram se desvencilhar dos agentes de segurança em um hotel e, num cena digna de um filme de espionagem, com direito até a uma perseguição em táxi pelas ruas, conseguiram chegar à embaixada norte-americana e pedir asilo. Após ter dado várias entrevistas coletivas no leste europeu contando sua “deserção voluntária” para a Coreia do Norte, Shin agora teve de fazer o oposto: convencer o Ocidente de que fora sequestrado e forçado a fazer o jogo de Kim Jong-il. Era preciso explicar que ele não era, afinal de contas, um agente duplo. O casal foi levado pela CIA aos Estados Unidos e submetido a meses de interrogatório. Muito do que se sabe sobre o círculo do poder na Coreia do Norte se deve aos seus relatos. A história era tão incrível, que despertou muita desconfiança, sobretudo na Coreia do Sul.

Shin e Choi publicaram um livro em coreano: Sequestrados no paraíso norte-coreano – contando a aventura. Exibiram fotos pessoais com Kim Jong-il, a fita cassete com 45 minutos de gravação onde combinam a colaboração, e outros objetos e documentos que comprovam seu relato. Ao longo dos anos, os serviços de inteligência dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão esmiuçaram a história. Alguns jornalistas checaram as informações de Shin e Choi com entrevistas de outros dissidentes do norte. A opinião geral é de que a história é verdadeira. O assunto foi parcialmente esquecido e o livro, após o sucesso inicial, nunca foi traduzido.

Em 2016, o festival de cinema Sundance, realizado nos Estados Unidos, exibiu o filme Os amantes e o déspota. Os ingleses Robert Cannan e Ross Adam decidiram fazer o documentário resgatando imagens de arquivo da Coreia do Norte nos anos 1970, trechos de filmes da dupla antes e durante o cativeiro e, mais importante, entrevistas com Choi Eun-hee e com um dos filhos do casal. O filme foi criticado pelas cenas reconstituídas com dramaturgia, sempre um assunto polêmico quando se trata de documentários e pela ênfase excessiva em relação à polêmica sobre se Shin teria desertado ou sido mesmo sequestrado. Devido ao teor fantástico da história, se não fosse o noticiário diário a nos lembrar de que a Coreia do Norte existe, o documentário poderia passar como uma ficção das mais criativas.

Não se tem notícia da reação de Kim Jong-il à fuga, mas há informações de que os tutores e seguranças que acompanhavam o casal foram punidos. Além de perder o principal trunfo do seu cinema, Kim teve o desgosto de ver sua indústria cinematográfica desmoronar com a crise econômica ocorrida depois da queda do socialismo no leste europeu e o racionamento de produtos. Segundo Paul Fischer, contribuiu também para a derrocada a chegada do videocassete que – mesmo clandestinamente – tirou o público do cinema e proporcionou às pessoas acesso a um tipo de filme que, até então, somente o Líder Querido conseguia ver em sua cinemateca privada. A propósito, o dissidente norte-americano Charles Robert Jenkins, que morou 40 anos na Coreia do Norte, conta que conseguiu comprar um videocassete ilegal no país já em 1989.

Esse repórter, quando esteve em Pyongyang no início dos anos 2000, viu cinemas nas ruas, aparentemente em funcionamento, com grandes cartazes nas fachadas. Mas, quando pedi aos guias que me acompanhavam para assistir a um filme, não recebi autorização. Apresentaram uma desculpa pouco convincente. Visitei, no entanto, o principal estúdio de cinema do país. Os guias mostraram cenários históricos como num velho estúdio de Hollywood. Mas tudo estava deserto. Disseram que os atores e técnicos estavam em férias. Exibiram trechos de um filme supostamente em preparação. Mas tudo indica que houve mesmo uma descontinuidade na produção depois da fuga do casal sequestrado.

Pulgasari: o comedor de fogo foi lançado internacionalmente somente uma década depois de produzido. Os nomes de Shin e Choi foram tirados dos filmes, mas o governo faturou com os direitos de distribuição. Shin Sang-ok decidiu ficar com parte dos dois milhões de dólares da empresa Shin Films, a cuja conta tinha acesso na Europa. Disse que era para ser recompensado um pouco pelos oito anos de vida passados como prisioneiro na Coreia do Norte. Morando nos Estados Unidos tentou carreira em Hollywood, sem muito sucesso. Dirigiu ainda Três ninjas em apuro (em 1995) e foi produtor-executivo de outros dois filmes da série juvenil. Morreu em 2006, aos 80 anos.

Paul Fischer tenta resumir o comportamento do Líder Querido Kim Jong-il: “Desde os anos 1960 até o fim de sua vida, ele criou uma imensa produção teatral. Era o escritor, o produtor e o diretor da nação. Concebeu os papéis de seu povo, suas devoções e seus valores; escreveu os diálogos e os forçou sobre as pessoas. Mapeou o arco dos seus personagens, do nascimento à morte, tirou-os de cena se não se adequavam”. Kim Jong-il governou até 2011,quando morreu, aos 70 anos, deixando no poder o filho Kim Jong-un. Seu funeral teve um cortejo grandioso e sem paralelos, realizado sob a neve numa gelada manhã de dezembro, um espetáculo cuidadosamente coreografado e fiel ao que pregou sobre as artes durante sua vida. Lembrava o título de um dos capítulos do seu livro sobre cinema: Comece numa escala pequena e termine de forma grandiosa.

A atriz Choi Eun-hee, aos 91 anos, agora aposentada, vive na Coreia do Sul. E não se cansa de contar sua história para quem quiser ouvir.

MARCELO ABREU é jornalista e autor do livro Viva o Grande Líder – Um repórter brasileiro na Coreia do Norte.

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