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Curtas

Fervendo

Festival reúne este mês nova geração do frevo no Recife

TEXTO Débora Nascimento

09 de Novembro de 2017

Amaro Freitas é uma das atrações do primeiro dia do evento no Porto Mídia

Amaro Freitas é uma das atrações do primeiro dia do evento no Porto Mídia

Foto Rafael Medeiros/Divulgação

Em 2013, um jovem de apenas 20 anos, concorrendo com maestros e compositores veteranos, conquistou o terceiro lugar e a categoria Melhor Arranjo do Concurso de Música Carnavalesca. Aquela acabou sendo – pelo menos, até agora – a última edição da competição, que, por lei, tem como objetivo escolher e divulgar os melhores frevos de cada ano. Na ausência do tradicional evento, um coletivo resolveu criar seu próprio projeto, mas com formato e proposta totalmente diferentes, o Fervendo. E aquele músico iniciante que se destacou na competição, Henrique Albino, é agora uma das atrações desse novo festival, que acontece no Porto Mídia (Rua do Apolo, 235, Bairro do Recife, R$ 15), nos dias 11 e 12 de novembro.

“Se a gente parar pra pensar direito, a gente está vivendo num vácuo. São sete anos de um Teatro do Parque fechado. Isso não é uma questão só simbólica. A Banda da Cidade do Recife está ensaiando no Mamam em naipes. E o seu acervo que tem, pelo menos, 70 anos de história da música popular brasileira, está onde? Então, é nesse vácuo que a gente vai se posicionar. Mas por que um novo festival, quando teoricamente deveríamos estar brigando para que aquele acontecesse novamente? Naquele formato, mostra competitiva de premiação em dinheiro, não interessa. O último custou R$ 540 mil, e grande parte disso, 70%, foi pra infraestrutura. É feito um disco de mil cópias que ninguém escuta, que não reverbera, que não renova repertório. A gente não precisa de R$ 540 mil pra não chegar em lugar nenhum. Não é que a gente quer fazer o nosso e não fazer o outro. A gente está propondo um novo formato. Queremos quebrar a inércia. Não adianta ficar só na avaliação do ponto negativo de como a cidade está. A gente quer propor alternativa”, afirma o compositor e instrumentista André Freitas, um dos realizadores do Fervendo, ao lado da produtora Laura Proto, do músico Sandro Lins e do desenhista João Lin, autor do cartaz.


Henrique Albino, que também estará na abertura do evento. Foto: Kari Galvão/Divulgação

Laura Proto e André Freitas trabalharam juntos no Paço do Frevo – lugar que se tornou referência do gênero musical pernambucano, graças, também, ao trabalho realizado pelos dois (ela como gerente institucional, ele como coordenador de música). Lá, ambos constataram a atual eferverscência do frevo, que vem sendo subvertido e reformulado por uma nova geração de músicos e compositores.

“Pelo ambiente onde a gente estava (Paço), a gente notou que essa renovação estava acontecendo, que isso é recorrente. Se está acontecendo, então, vamos fazer um festival para mostrar isso. E aí, essa é a ideia. Nasce desse ponto. A gente vai mostrar enquanto ele ainda é ebulição. Não quando Henrique (Albino) já tiver viajado o mundo todo. Ou Hugo Lins já nem aqui esteja, porque provavelmente vai ser cooptado para ir pra Nova York. A gente quer enquanto as pessoas ainda estão aqui. Que isso seja referência para as pessoas daqui. Ou seja, o Recife falando para o Recife. O Recife falando para Pernambuco. Isso tem o teor do agora”, defende Laura Proto.

A intenção dos produtores do Fervendo é exatamente congregar esses músicos que estão colaborando para renovação e a perpetuação do frevo, como Henrique Albino, que se apresenta no primeiro dia do evento ao lado de Amaro Freitas, pianista, compositor e arranjador, que, em novembro do ano passado, lançou o aclamado disco Sangue negro. No dia 11, tocam também o grupo EletroSelvagem e Hugo Linns. No dia 12, a programação segue com SerTão Jazz, Spok Quinteto e Luciano Magno. Os shows começam às 18h e têm duração de 40 minutos. Haverá ainda performance dos dançarinos Maria Flor e Ferreirinha.

“Quando eles são unidos num festival, concentra a atenção, fortalece, mostra que, de fato, tem um movimento acontecendo”, argumenta Laura Proto. “Queremos que esse evento seja anual, que ele possa estar no calendário em novembro antecedendo a alta estação e os eventos do calendário do Natal. A gente pretende que ele consiga conquistar o patamar de uma feira de negócio, de troca de oportunidade. A ideia é publicizar que já tem a dimensão simbólica de um movimento”, diz André Freitas.

“Na verdade, escoar a produção cultural é sempre o gargalo e é onde as pessoas de fato se unem para abrir espaços, abrir artérias, capilarizar, porque senão você vai ficar numa lógica de dependência. A gente está sugerindo novas formas de mercado. Os músicos, os artistas, estão se entendendo como parte do processo no sentido de empreender. A gente precisa dessa cultura novamente. Ninguém vai depender mais de gravadora, de empresários. A ideia do colaborativo é o que tem, inclusive, feito as coisas acontecerem ultimamente. Os festivais têm surgido assim. Os grupos têm se mantido assim. A forma de sustentabilidade, por enquanto, é essa. A gente está formando um público agora”, explica Laura, completando que é preciso formar um público que entenda o que é esse (novo) frevo.

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial e colunista do site da Continente.

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