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Entrevista

"A minha religião é a música"

Neste 2017, em que o primeiro, único e revolucionário LP do Quarteto Novo completa 50 anos, o Bruxo, Campeão e Albino Louco Hermeto Pascoal lança três discos e prepara novo projeto musical

TEXTO Débora Nascimento

31 de Outubro de 2017

Hermeto Pascoal, o

Hermeto Pascoal, o "Albino Louco"

Foto Kevin Yatarola/Divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 203 | novembro 2017]

Há exatos 50 anos, Hermeto Pascoal participou de dois eventos marcantes. Com o Quarteto Novo, acompanhou Edu Lobo na defesa de Ponteio, vencedora da mítica terceira edição do Festival da Música Popular Brasileira, que mudou a face da música nacional no que se refere à composição, aos arranjos e ao uso da guitarra fora do âmbito da Jovem Guarda. Com a apresentação de Alegria, alegria (Caetano Veloso, 4o lugar) e Domingo no parque (Gilberto Gil, 2o lugar), o concurso estabeleceu o marco da Tropicália. Menos notado que os espalhafatosos Mutantes, que ladearam Gil, Hermeto, ainda de cabelo curto e dentro de um comportado terninho, fazia importantes pontuações rítmicas com sua flauta na canção ganhadora.

Naquele 1967, o Quarteto Novo, formado por ele, Airto Moreira, Theo de Barros e o violonista pernambucano Heraldo do Monte, lançaria o primeiro e único álbum, que, com seus arranjos sofisticados e inovadores, revolucionou a música instrumental brasileira, influenciando o surgimento de vários grupos, como o Quinteto Violado e o Quinteto Armorial, e apresentou clássicos do gênero, como a faixa de abertura O ovo, até hoje a composição mais famosa do Bruxo. Se não tivesse feito mais nada na vida, o alagoano, que despontou no Recife, teria entrado para a história apenas com sua atividade naquele ano. No entanto, seguiu uma das mais extraordinárias trajetórias de um músico no país e no exterior.


Com seu quinteto: André Marques (piano), o filho Fábio Pascoal (percussão), Jota P (sopros), Itiberê Zwarg (baixo) e Ajurinã Zwarg (bateria). Foto: Gabriel Quintão/Divulgação

Agora, após 15 anos, o compositor, multi-instrumentista e arranjador volta a lançar um disco acompanhado por seu quinteto, o fenomenal No mundo dos sons (Scubidu Records/Selo Sesc). Mas, nesse período, não deixou de compor, excursionar e gravar (em 2006, Chimarão com rapadura, e 2010, Bodas de latão, ambos com Aline Morena). Neste mês, chega ainda ao público Natureza universal, com sua big band e a raridade Hermeto Pascoal & Grupo Vice-Versa, gravado em 1976, em São Paulo.

Aos 81 anos, incansável, indomável, o gênio – segundo Flora Purim, o maior gênio vivo da música mundial hoje – trabalha sem parar e concluiu recentemente uma empreitada de criar uma composição para cada país do mundo. Nesta entrevista para a Continente, com a sábia generosidade e a cativante simplicidade de um autêntico mestre, fala de diversos temas que deságuam num lugar só, o seu lugar, a música.

CONTINENTE Você lançou recentemente No mundo dos sons, após 15 anos sem lançar um disco com seu grupo, a maior distância entre um disco e outro na sua carreira. Por que tanto tempo?
HERMETO PASCOAL Porque fiz muitas coisas que se poderia considerar do nível que a gente toca. Mas foram coisas paralelas. Aliás, é a primeira vez que estou respondendo assim. Eu só digo “Porque realmente eu demoro mesmo; porque é pra dar tempo das pessoas divulgarem a música”. Porque, como não toca muito, não é muito badalado, aí o público também tem paciência, espera, vai se inteirando. É por isso que, quando eu vou para os lugares, estão lotados. Nesses 15 anos, fiz os trabalhos com Aline Morena (cantora e ex-namorada). Fizemos trabalhos juntos. Participei de outros convites, porque levo em consideração os amigos. Foram 15 anos, mas, em compensação, são dois trabalhos que me deixam honrados (Chimarão com rapadura, em 2006, e Bodas de latão, em 2010, ambos com Aline Morena). Depois, tem o trabalho com a big band também.

CONTINENTE Você prefere o estúdio ou o palco?
HERMETO PASCOAL Gosto dos dois, porque pra mim são diferentes. Você pode me escutar tocar uma música com um grupo ou sozinho, com o grupo é o que faço mais. Você vai ver o show, aí depois escuta o disco, é diferente. Porque não é escutar a mesmice. Quem cria a música que eu chamo de universal, que é bem-misturada, sabe muito bem diferenciar quando entra no estúdio e no palco. Não é pra melhor nem pra pior. É uma coisa que dá vontade de criar mais. Mas, quando a pessoa toca num estilo só, é a mesma coisa em todos os lugares. Mas a minha alma não teria paciência pra repetir. E quando eu digo repetir, é que eu posso tocar a música hoje, e amanhã ser a mesma música, mas a maneira de tocar já muda.

CONTINENTE Você toca diariamente em casa?
HERMETO PASCOAL Eu não paro. Eu me casei novo no Recife, com minha patroa Ilze, que já está no céu. Quando morava aí, tocava na Rádio Jornal do Commercio. E eu, sempre autodidata, não sinto a diferença de estar ou não com um instrumento. Posso me sentar numa cadeira e botar uma sinfônica do meu lado, e dizer as notas do arranjo para os próprios músicos escreverem e tocarem e eu faço uma sinfonia na hora, sem instrumento. Não dependo de instrumento pra compor. Então, isso me acostumou tanto, que, é tão lindo, mestrinha, isso que eu vou te falar, que quando eu toco num instrumento, é uma maneira de tocar, quando eu toco sem o instrumento, é outra maneira. Então posso estar aqui te dando uma entrevista, é como um instrumento isso aqui, nosso assunto e tudo. E eu acho que o jornalista também. Puxa vida, o jornalista diz pra mim “Você tem quantas músicas?” Respondo, “Estou pra 9 mil agora escritas”. Aí ele se admira e eu digo “E vocês já fizeram as contas de quantas matérias têm que entregar por dia todo dia? Num dia, você entrevista o Hermeto; no outro, outro, e assim vai. Tudo escrito. A música pra mim não é um instrumento musical. Pra mim, tudo é música. Qualquer movimento. Da percussão, do som, da imagem, do audiovisual. Sinto isso tudo e tudo isso pra mim é música. Eu não diferencio porque, pra mim, a música está em todos os contextos.

CONTINENTE Você começou essa ligação com a música desde criança, e foi uma ligação espontânea. Hoje em dia, existe formação musical para as crianças nas escolas. Com relação a essa formação que você não teve, qual a sua opinião sobre a formação musical nas escolas?
HERMETO PASCOAL Olha, primeiro eu vou te falar que você precisa agora me tratar como doutor, porque agora eu sou doutor. Eu recebi nos Estados Unidos o prêmio de doutor honoris causa na maior universidade de Boston. Então agora, minha filha, já me chame de Doutor Hermeto, tá?

CONTINENTE Doutor Hermeto.
HERMETO PASCOAL O doutor Hermeto, albino e autodidata, recebe um prêmio que antigamente tinha que ter diploma. Eu digo que o meu diploma é o meu coração. Fiquei muito feliz com isso. Estou passando a notícia porque, se eu tivesse dado um tapa na subida da escada do avião, o Brasil todo já saberia, e um negócio desse a gente precisa dizer. Infelizmente, é assim mesmo. O povo está muito interessado na música que eu chamo de universal, que abrange todos os estilos, desde que sejam bem-tocados.

CONTINENTE No documentário Ato de criação, você cria e grava a trilha sonora ao mesmo tempo em que vê o filme de Cícero Dias (Eu vi o mundo… Ele começava no Recife). É algo realmente impressionante. Queria saber sobre o seu método de composição.
HERMETO PASCOAL É o meu dom. As pessoas perguntam, como é que você aprendeu teoria? Hoje em dia, não duvidam mais. Mas tinha muita ironia dos próprios músicos de acharem que eu escondia quem tinha sido meu professor. E eu pergunto, será que eu seria orgulhoso ao ponto de não dizer quem tinha me ensinado, quem tinha me ajudado, pelo menos, teoricamente? A “minha escola” demorou, porque descobri a teoria musical com 41, 42 anos. Mas descobri com as minhas deduções, com a minha intuição, que sou 100% intuitivo. Sei que é difícil um teórico aceitar isso. A teoria é o saber, a teoria não é o sentir, ninguém sente através da teoria. Você tem que sentir pra usar a teoria.

Assista ao doc:



CONTINENTE Agora, nos 50 anos do lançamento do primeiro e único disco do Quarteto Novo, a música instrumental enfrenta os mesmos problemas daquela época ou são outros?
HERMETO PASCOAL Quem tem bom gosto pra tocar, já nasce com ele. Não se aprende na escola.

CONTINENTE Estou falando do mercado pra música instrumental.
HERMETO PASCOAL Então, é pra poder dizer isso: o mercado é de acordo com aquilo que você faz. Por exemplo, como falei numa outra pergunta que você fez, o negócio de eu esperar esse tempo todo pra lançar um disco, é justamente pra deixar o mercado usufruir mais daquilo, pra não embolar. Antes, eu gravava um disco de três em três anos. Depois, vi que as pessoas me perguntavam do primeiro disco ainda. O mercado que a gente fala é o seguinte. Se eu tivesse uma divulgação como os outros têm, com a minha música… A desculpa era que o povo não gostava. Onde eu toco, há 20, 30 anos, já comecei com casa cheia. Hoje, não tem lugar que eu vá tocar que não seja lotado e outra coisa: a minha alegria é que a música, com a renovação que eu faço, que eu chamo de música universal, renova também o público. Quando tem alguém de 50 anos num show meu, é um susto. Agora, se eu estivesse na mesmice, teria na plateia uns caras de minha idade. Só eles assistindo ou então com seus filhos, seus netos, mas muito menos gente. Não tenho preferência de idade. Mas estou dizendo a realidade. Quando o negócio é bom, um vai dizendo pro outro. Hoje em dia, melhorou mais ainda, porque aquele cara que assistiu ao show já botou na internet. Nossa, meu público agora, meu Deus do céu! Roberto Carlos que se cuide!

CONTINENTE Queria pegar o gancho da questão do Quarteto Novo, que acompanhou Edu Lobo naquela apresentação de Ponteio, para saber o que você acha dos festivais de música. Porque eles eram realizados naquela época, nos anos 1960, e hoje em dia não acontecem mais. O único tipo de concurso são essas premiações para cantores na TV. E não há mais premiações para compositores.
HERMETO PASCOAL A minha opinião é que eles fazem o que eles querem. Agora, os compositores é que têm que se valorizar. Ninguém faz coisa errada com a minha música porque eles sabem que, se fizerem, eu nem mando, eu vou pessoalmente. Então, eles têm um respeito por mim porque sabem muito bem que eu não tenho quase nenhum por eles. Um instrumentista, um compositor como Edu Lobo… Um país que tem um Edu Lobo, que tem um Guinga, um Luiz Gonzaga, Sivuca, todos esses maravilhosos músicos, que a música deles é universal, que todos tocavam vários estilos, criavam um monte de coisa. Jackson do Pandeiro, desse eu não me esqueço. Qualquer entrevista que dou no Recife, eu falo nele, porque era um grande amigo, um grande colega de rádio. A música, que pode se dizer comercial, é aquela levada ao comércio. É como vender banana. Na minha música, não tem esse papo, quem comprar uma banana na minha música, compra a banana universal. É uma banana com várias outras frutas ao redor. Eu não colocaria nunca uma banca só de banana. Agora, tem que saber misturar, tem que ter bom gosto, como você está fazendo perguntas pra mim.

CONTINENTE Fiz essa pergunta por conta dessa valorização extrema que se tem aos cantores no Brasil. É como se houvesse um ranking: os cantores em primeiro lugar, os compositores em segundo e os instrumentistas em terceiro lugar. A impressão é essa.
HERMETO PASCOAL Exatamente. Pra eles. Eu toquei sanfona no regional com meu sogro, Romualdo Miranda, que era violonista também na época em que me casei no Recife, tocava no Jornal do Commercio. E conheci a patroa lá. A gente se casou. E eu, com 18 nos, já discutia com eles, tomando meu uisquinho: “Vamos inovar, gente! Vocês estão fazendo a mesma coisa, aquilo quadrado”. Aí, naquele tempo, quando você dava um acorde bem bonito, eles diziam “Isso é música instrumental americanalhada!”. E eu encarava isso tudinho e conversava com o cara mais musical do regional, assim escondido e combinava: “Vem duas horas antes do ensaio, pra gente tocar e bolar umas músicas”. E onde eu tocava, a coisa era mais moderninha porque era o que eu sentia. E eu tentava, sempre tentei e ainda tento passar essas coisas. E, graças a Deus, quem me sentiu mais foi o público. Esses são músicos natos, porque são 100%, assim como eu, intuitivos. O público não vai pra saber que tom é, que ritmo é, de onde é a música, o público vai para escutar. E outra coisa que você perguntou antes sobre palco e estúdio: pode chover pedra, o meu público encara. Porque sabe que é uma oportunidade de sempre escutar algo diferente do que está no disco.

CONTINENTE Queria trazer à tona um episódio extraordinário que aconteceu no Festival de Montreux de 1979, que foi a apresentação entre você e Elis Regina. Já se referiram a esse encontro como um duelo. Foi um duelo ou foi um dueto?
HERMETO PASCOAL Dueto. Claro. Gente, a vida, quando você nasce, já é um duelo. Primeiro, não foi marcado nenhum comigo e Elis Regina.

CONTINENTE Foi de última hora?
HERMETO PASCOAL Foi lá na última hora. A Elis Regina era uma artista contratada da Globo. O Hermeto não era artista contratado de lugar nenhum. Era, sim, só da gravadora Warner, minha gravadora na época. O que aconteceu, quando houve esse convite, foi um interesse da gravadora, já que a Elis tinha o patrocínio dela, que era a própria Globo. E a minha gravadora, como não tinha, foi a outros canais de televisão pra ver se conseguia uma ajuda. Nenhum canal quis patrocinar a gente. Então, não iríamos deixá-los gravarem sem pagar. Mas, o que acontece é que o meu show foi rolando. A Elis Regina já tinha feito o dela. Quando terminou, o público não parava de aplaudir. Aí a imprensa, aquela lá da dona Globo, tentou esconder. Como a Elis era a artista deles, né?, tentaram esconder. Nem informaram. Estou dizendo só a verdade. A plateia não parava de aplaudir. Voltei não sei quantas vezes. Quando finalmente saio, a Elis disse “E aí, bicho, o que é que vamos fazer?”, eu respondi, “Hein? O quê?”, porque eu tava com aquele pensamento na cabeça sobre a cobertura da televisão. Só que eu já sabia, já tinham me dado o toque, que o Fantástico estava no ar no Brasil e que, em respeito à maravilhosa Elis Regina, eu também nunca tinha feito nada com ela, aceitei. Porque, porra... Era aquela vontade que eu tinha de fazer um som com a Elis Regina, que eu não tinha nem adjetivo pra dizer o valor dela como cantora. Aí eu estava com o meu meio litro de uísque de lado, ela estava com o dela quase cheio. Batemos nossos copos, tomamos nosso uísque que pudemos tomar pra voar, aí, quando eu vou entrando no palco, ela falou “E aí, bicho, vamos tocar o quê?”.


Hermeto e Elis no Festival de Montreux de 1979. Foto: Reprodução

Eu digo, “Olha, o que vier na sua mente, eu com prazer toco”. Então, só pra responder a essa pergunta, que eu demorei um ano pra responder, mas... Eu digo assim pra você, o que aconteceu ali foi, primeiro, dádiva, coisa divina, que era como uma coisa que Deus já sabia que ia acontecer com ela, e aí, que acontece? Quando a gente começou o som, eu senti nela um..., além da cantora, que o cuidado que a gente tem que ter com os cantores é justamente que eles, a maioria, aprendem as músicas pelo disco, ou então com o compositor mostrando. E eles gravam e decoram aquilo. E se você mudar a harmonia, a concepção daquilo, eles geralmente erram. Com algumas exceções, como uma Alaíde Costa, uma Joyce, eu não vou dizer o nome, senão vou esquecer o nome de alguém... Então, as cantoras daquela época tinham essa facilidade, mas tinham umas que você dava um tom e elas erravam o tema. Eu não tinha essas ideias com Elis não, que eu já achava ela a maior cantora do momento no Brasil. Mesmo assim, fui com muito cuidado, pra não atrapalhá-la. Mas ela aí me deu uns caminhos na hora de tocar. Ela também dá uma paradinha, fica me escutando, curtindo o arranjo e esperando as minhas resoluções, o que não é comum num cantor popular. Só que a música instrumental é um rótulo malfeito que fizeram.... Música instrumental, só o nome do instrumento, só, que a música não tem classificação, a música é tudo. A música que não tem nenhuma letra é a que podemos considerar menos instrumental.

CONTINENTE Explica isso.
HERMETO PASCOAL Porque dá mais chance de você escutar e criar sua própria letra. Eu faço isso, escolho uma pessoa no auditório que queira ir ao palco e digo “Vou tocar uma música aqui de improviso e você pensa o que quiser e vai escrevendo tudo o que vier na cabeça sobre essa música. Aí, depois vem pra cá e lê para o público. E, quando ler, vou acompanhar”. Se você visse o sucesso que está isso aí… Só que, como eu não gosto de repetir, não tenho paciência de fazer sempre. Então, pra resumir, só queria pegar o fiozinho da meada que…

CONTINENTE O que eu tinha perguntado era se tinha sido um duelo ou dueto.
HERMETO PASCOAL Está todo mundo acostumado com a mesmice dos acompanhadores. E eu não. Não é que eu queira mostrar que sou o melhor. Não é isso. Não é porque quero ser diferente, nada. É porque tenho o meu jeito de sentir. Deus não fez nada igual no mundo. Por que eu ia ser igual? Por intervenção divina, eu não enxergo bem, mas meu pai sempre falou “Meu filho, a sua vista não é boa de longe, mas pra mulher você sempre tem uma vista melhor”. Campeã, quando eu olhava pra Elis, senti que ela tinha vontade de voar, da emoção! Então, o que aconteceu, que ela sentiu o que eu sinto, nós dois fizemos um trabalho, na hora, juntos. Ela saiu do palco voando. Aí chegou pertinho do César Camargo Mariano e disse assim, mas com respeito, “Olha, bicho, é assim que eu gosto de cantar”, como quem diz “Você, que está me acompanhando, pode criar mais”. Era uma deusa que voltou pro céu.

CONTINENTE Nesse show de Montreux, antes de ela se apresentar, fala-se que estava muito nervosa. Você tem esse problema de nervosismo com show?
HERMETO PASCOAL O que tenho é a ansiedade de voltar, rápido, a tocar. Tenho é muita vontade de tocar, gana. Sou um cara assim: se tenho qualquer problema na minha vida, eu não ponho aquele nome chamado “tristeza”. Você acaba na hora a tristeza com raiva! Puto da vida, e pronto. Você fica com raiva em vez de se entregar, porque aí você está sendo pior do que a tristeza. No meu caso com a Elis, ela estava nervosa porque o nervoso dela era, justamente, doida pra entrar! Se a Elis tivesse que ficar aqui, ela tinha ficado. É porque não era pra ficar mesmo, mas se ela ficasse, nós íamos dar trabalho aí fazendo umas coisas. Mas a gente acaba fazendo no plano espiritual. Eu acredito muito nisso. Não sou religioso. Se eu fosse, talvez não tivesse o meu sentido tão aguçado. Não estou criticando os religiosos. É que não tenho tempo pra religião, porque a minha religião é o que eu sou, um músico. Sou 100% músico. A minha religião é a música e através dela eu amo a todos.

CONTINENTE Com essa passagem dos anos, o seu ritmo de trabalho diminuiu?
HERMETO PASCOAL Aumentou. E uma coisa muito louca que eu vou te falar: você sabe que eu tinha uns óculos de ler… Perdi esses óculos. E fiquei… uns três, quatro anos sem esse óculos e não fui ao médico. Então, a coisa muito louca foi que achei esses óculos agora e não estou precisando deles pra escrever música, ler e tudo! Como é que um homem com os meus 81, a minha vista melhorou, se eu já não tinha a vista muito boa? E eu não sinto dor de cabeça… Não sinto nada. E quando sinto uma coisa, primeiro deixo o meu corpo reagir. É um conselho que vou mandar pra todo mundo: se sentir qualquer coisa, use primeiro os seus recursos naturais. Como é o recurso natural? Primeira coisa é evitar remédio. Não vá logo pensando que você está com dor de cabeça, tem que tomar remédio, porque aí você vai ficar tomando ele a vida toda, porque o corpo não reage. Então não acostume assim. Você perguntou o negócio do instrumento, tem a ver com isso, pensar em outra coisa. É tão grande a minha aptidão musical, que estou aqui com você e estou fazendo música.

CONTINENTE Como assim?
HERMETO PASCOAL Eu faço música como? Com a minha mente. A mente segura um monte de coisa que você não sabe. É como eu digo, eu não premedito. Se você me perguntar como vai ser o meu show, não vou saber, porque sou 100% intuitivo. Que tudo que eu faço, sinto, sou um cara que sinto pra fazer as coisas. Se Deus descesse à Terra e dissesse, a partir de hoje, todo mundo vai saber o dia que vai morrer, eu ia pensar se ia querer saber ou não. Meu sogro era espírita, morava pro lado de Beberibe, dizia: “Olhe, meu filho, nós somos uma parede aqui na Terra. Você desceu, está transmitindo o som daquilo que é a sua alma". Aprendi muita coisa com ele, que, se eu ler um livro, nunca vou ficar concentrado no cara que escreveu, porque também tenho as minhas ideias. Então, todo mundo não pode esquecer de si. Quem se esquece de si tem dificuldade de lembrar dos outros.

CONTINENTE Você tem preconceito com algum gênero musical?
HERMETO PASCOAL Não. Eu não gosto de nada que não seja a música que chamo de música universal. Porque a música universal, ela não é um rótulo. O negócio da música boa e ruim tem um ditado que minha mãe dizia “Filho, música é como chita, cada um escolhe o que quer”. Eu dizia “Mãe, mas tem gente que escolhe cada roupa ruim”. O gosto de cada um é de cada um, eu não me ligo no gosto de ninguém, me ligo no meu. Tudo eu tenho que fazer legal, pra poder fazer pra mim primeiro, pra passar pros outros, pra influenciar os outros, no bom sentido. Então o que digo pra você é que essas músicas, dão nome, dão rótulo. Como, por exemplo, tem um pessoal tocando forró como se fosse rock. É uma mistura muito apelativa, só que o dinheiro é o câncer do mundo. Porque obriga as pessoas a se venderem pra ele. Têm muitos grandes músicos que conheço que estão fazendo um monte de coisa assim. A música, pra mim, é isso: tem que ter bom gosto mesmo. E o bom gosto não se aprende. Eu disse isso recentemente na Berklee. As escolas estão dizendo que estão ensinando composição. Elas reúnem, digamos, 10 alunos. Desses, você tira três, no máximo, que têm aptidão musical. Então, estão só engolindo o dinheiro dos pais e das crianças. Também tem produtor fajuto acabando com nossa música. Olhe, não demore pra me entrevistar de novo, que você é sensacional.

CONTINENTE Muito obrigada, Hermeto. Gostaria de saber quais são os discos que você ouve em casa?
HERMETO PASCOAL Eu gosto de ouvir as minhas intuições. E, como te falei, você sabe muito bem que eu me criei no mato, né? Gosto de ouvir a natureza. Também me encanto com o som do trânsito, com a realidade do mundo, que Deus me disse um monte de vezes “Olhe, meu filho, não pense que você veio pro céu na Terra. O céu é aqui onde eu estou. Quer vir?” Eu digo “Não, não. Agora não. Eu vou demorar ainda um pouquinho por aqui. O Senhor me deixa à vontade”. Mas o que quero dizer é que a gente tem que primar pela qualidade. Quando você vê uma placa escrita assim “Ensina-se composição”, tinha que fazer a mesma coisa que estão fazendo com esses caras na Lava-Jato. Tem que começar a ter cuidado com essas escolas. Porque isso é roubo. Estão roubando descaradamente. Não tem lei contra isso. A propósito, botaram o meu camarada Gilberto Gil e chegou lá, acabou-se. Pensei que ele fosse sacudir a poeira por lá.

CONTINENTE Mas ainda foi uma época boa, agora está pior.
HERMETO PASCOAL Estava um pouquinho melhor. Agora é o que te falei: essas coisinhas ruins não duram. Acabam e vai voltar o que tem sustentação. Você está lembrada quando surgiu aquela coisa de lambada? Fui tocar nos Estados Unidos na época, aí o cara do New York Times disse “Os músicos do Brasil te consideram o pai da música. O que é essa tal de lambada?” Eu respondi “Tem um termo lá no Brasil que a gente chama de lambança”. Aí teve um suspensezinho para o tradutor, o pianista Juvino Santos, poder traduzir. Ele explicou que era quando uma coisa não prestava. Coitado do povo, ele quer coisa boa, mas não tem oportunidade. Cadê a lambada? Sumiu. Então, tudo isso vai desaparecer. Agora, o que é bom mesmo podem não divulgar, que foi o que tentaram fazer comigo, e eu mostrei que, com a qualidade, se vence. Estou aqui graças a Deus com meus 81 e parece que estou começando. Tenho até medo, no bom sentido, porque tem tanta gente aí que está mal. Desde que comecei, campeã, o auditório já tinha 30 pessoas, depois dobrou e superlotou e daí não esvaziou mais. Eu viajo bastante. Viajava tanto para a Europa, que até diminuí a quantidade de propósito, senão não teria tempo pra nada. Senão, moraria no avião. Um beijo para todos da revista.

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial e colunista do site da Continente.

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