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Sensibilidade e leveza

Música do compositor francês Erik Satie, nascido há 150 anos, transcende o Impressionismo ao qual se filia, sendo a sua atualidade atestada pela constante presença em trilhas cinematográficas

TEXTO Lucas Colombo

01 de Dezembro de 2016

Música do compositor francês Erik Satier pode ser vista como precursora do Minimalismo com características do Impressionismo

Música do compositor francês Erik Satier pode ser vista como precursora do Minimalismo com características do Impressionismo

[conteúdo da ed. 192 | dezembro de 2016]

“Erik Satie
era um homem inenarrável. (…) Mantinha uma excentricidade solene. (…) Egoísta, cruel, meticuloso, ele não escutava nada que não decorresse do seu dogma e ficava com uma raiva terrível do que o atrapalhasse. Egoísta, porque ele só pensava na sua música. Cruel, porque ele defendia a sua música. Meticuloso, porque ele aperfeiçoava a sua música. E a sua música era delicada. Ele também o era, à sua maneira.”

As palavras do poeta e dramaturgo francês Jean Cocteau (1889–1963), extraídas de A dificuldade de ser, seu livro de memórias, referem-se ao artista que ele tinha por mestre, e de quem era amigo. Erik Satie, nascido há 150 anos, em 1866, e morto em 1925, é dono de uma obra que se tornou das mais admiradas e executadas da música de concerto, fato que ele, se vivesse hoje, provavelmente reprovaria, tendo em vista o grande zelo que mantinha sobre suas criações e o emprego delas, conforme atesta Cocteau. Mas isso quase não importa. Ser muito reproduzida não elimina a qualidade de uma produção artística. A de Satie, depois de todos os usos feitos dela, permanece lindíssima.

A música desse “homem inenarrável” carrega algumas características do Impressionismo, de que Debussy e Ravel são os maiores expoentes, porém transcende escolas. Dizê-la apenas uma precursora do chamado Minimalismo, devido ao despojamento e complexa simplicidade, igualmente não satisfaz. Satie era… Satie, por mais bobo que escrever isso pareça.

E por ser tão pessoal e, ao mesmo tempo, universal, é que sua obra foi um achado para uma arte a que seu amigo Cocteau também se dedicou: o cinema, maior responsável pela disseminação das Trois Gymnopédies, de 1888, e Trois Gnossiennes, compostas por volta de 1890. Parte proeminente do trabalho do compositor francês, autor ainda de música para balé e experimentalismos importantes, essas breves peças para piano já foram trilha sonora de filmes de todo mundo, desde documentários até comédias. Alguns usos guardam pontos de contato com o universo do músico francês ou com o que as composições pretendem evocar; outros se dão em contexto muito distinto.

O jornalista e crítico Daniel Piza observou, certa vez, que Satie era “a tristeza pontilhada”. De fato, as três Gymnopédies caracterizam-se pela atmosfera melancólica e pela melodia econômica. A de número 1, a mais conhecida, é uma valsa feita quase só de notas semínimas, aquelas de duração de um segundo, e que se executa, de acordo com a instrução dada por Satie na partitura, de maneira “lent et douloureux” (“lenta e dolorosa”). Daí sua utilização em Trinta anos esta noite, de 1963, estar “aprovada”.

O filme do grande diretor francês Louis Malle relaciona-se espiritualmente com Satie, ao processar questões existenciais e religiosas com que o músico também se ocupava, e ao exalar melancolia. Ali, a presença da Gymnopédie nº1 contribui para compreendermos o estado emocional do protagonista Alain (Maurice Ronet), um alcoolista suicida. Numa sequência noturna, a música soa enquanto ele olha Paris, ensimesmado, através da janela de um bonde. A trilha inteira do longa é satiniana: as Gnossiennes e as Gymnopédies 2 e 3 acompanham diversas outras cenas.

Casamento perfeito de imagem e som acontece, de igual modo, em O equilibrista (2008), de James Marsh, documentário sobre a proeza do francês Philippe Petit, o homem que, em 1974, conseguiu atravessar de uma torre para outra do World Trade Center, sobre um cabo de aço, a 400 metros de altura. A narrativa parte do planejamento do funâmbulo para aquela manhã em Nova York, vai à explicação de como ele, ajudado por um amigo, burlou a segurança para instalar o cabo entre os terraços dos prédios e chega literalmente ao ápice com o momento exato da travessia, mostrado por fotos, tiradas de vários ângulos, a se sucederem na tela tendo a Gnossienne nº1 e, em especial, a Gymnopédie nº1 a tocar.

A ação do equilibrista francês é, para repetir os adjetivos de Cocteau, meticulosa e delicada tal qual a música de seu conterrâneo. Ver Philippe lá no alto com uma vara de equilíbrio, em um dia nublado numa das maiores cidades do mundo, fica mais comovente com a trilha sonora. Refletimos sobre a beleza que o ser humano é capaz de produzir – e a barbárie, pois é impossível não lembrar que o mesmo local foi alvo dos atentados de 2001, ainda que o episódio não seja citado no documentário.

MINIMALISTA
Há casos, no entanto, em que se ouve o trabalho de Satie em cenas com as quais ele nada ou pouco tem a ver. Com as Gnossiennes, isso já ocorreu. Um exemplo de combinação que, apesar de estranha, está em Fatal, de 2008, adaptação fraca de Isabel Coixet para o romance O animal agonizante, de Philip Roth. A Gnossienne nº 3 acompanha cenas de nudez e sexo dos personagens de Ben Kingsley, um professor culto, e Penelope Cruz, a aluna altiva por quem ele se vê obcecado. Embora não contenha carga erótica, a música é bem-vinda ali, por outras razões.

Satie, em atitude coerente com sua “excentricidade solene”, evitava formas tradicionais de peças para pianistas. Elaborou pouquíssimos prelúdios, noturnos e sonatas, aos quais dava rubricas e títulos geralmente inusitados e engraçados. Inventou, com as Trois Gnossiennes, um novo tipo de composição para piano, em que não há indicação de compasso, de marcação de tempo, apenas instruções de execução – a primeira é Lent, a segunda, Avec étonnement (“Com espanto”), e a terceira, de novo, Lent.

De poucas notas, sem floreios, só o essencial, cada uma constitui-se uma singela ideia harmônica e melódica que vai sofrendo uma série de mudanças sutis, modelo deveras próximo ao que os minimalistas praticariam a partir dos anos 1960. Como tinha de ser, o compositor cunhou também o nome delas. Dizem analistas que Gnossienne vem de “gnosis”. Satie interessava-se por esoterismo, fez músicas para cerimônias da Ordem Rosacruz e chegou a fundar uma seita (da qual foi o único adepto). 

Em Trinta anos esta noite, a mesma Gnossienne nº 3 que toca em Fatal roda numa cena de tédio e introspecção do protagonista, em que ele lê no jornal notícias de morte, essa desconhecida a que quer se entregar. Tem mais a ver com a obra satiniana que a cena de Coixet. Mas, em Fatal, o intimismo da Gnossienne nº 3 contribui para o clima das ações que embala, ainda que não dialogue com as ações em si. Ademais, as cenas, como o autor da música, igualmente transmitem o que querem com contenção de recursos: luz, atuação simples dos atores e trilha. A não grandiloquência de Satie, inclusive, foi na sua época considerada pobreza musical por alguns colegas e críticos.

Em Muito além do jardim (1980), de Hal Ashby, comédia irônica, do tipo que Hollywood quase não produz mais, ouvimos composições não exatamente de Satie, mas inspiradas nele. São dois temas de piano que o americano Johnny Mandel escreveu a partir das Gnossiennes 4 e 5, compostas pelo francês no mesmo período das Trois Gnossiennes, todavia publicadas com as de número 6 e 7, somente em 1968. As releituras de Mandel respeitam o universo misterioso, esotérico, de Satie. Rodam em momentos de atmosfera enigmática, como moldura para o personagem de Peter Sellers, um jardineiro simplório, educado pelo que vê na TV, que, sem intenção, vira conselheiro político e celebridade nacional. Essa história de um grande mal-entendido se desenrola numa clave deliciosamente sutil, em economia de ferramentas e ações. Muito próximo de Satie.

Em Elisa, vida minha (1977), de Carlos Saura, numa cena noturna de memória e introversão; em A outra (1988), de Woody Allen, numa cena de sonho, de inconsciente; em As confissões de Schmidt (2002), de Alexander Payne, numa sequência de viagem e reflexão… A relação de usos acurados das Gnossiennes e Gymnopédies em filmes poderia seguir. A presença forte delas no cinema é uma prova de que a música “erudita” está mais perto do nosso cotidiano e da cultura pop do que muitos imaginam e que, é claro, a obra de Erik Satie é atemporal. Nestes seus 150 anos, ouvi-lo é estar numa ilha de sensibilidade e leveza. Em filmes, ou no que for, importa é que ele continue entre nós. Excêntrico, cruel, meticuloso e delicado. 

 

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