Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

“Não tive tempo de ser cinéfilo”

Entrevista com o diretor Xavier Dolan

TEXTO Mariane Morisawa

01 de Novembro de 2017

[conteúdo vinculado à matéria da ed. 191 | novembro de 2016]

CONTINENTE Você reage bem a críticas?
XAVIER DOLAN Não gosto quando cometem erros. Dizer que Tom na fazenda é uma comédia não é crítica, é um erro. Magnólia não é uma comédia, mas tem muita coisa engraçada. Mas, sim, eu reajo bem às críticas. E já faz anos que pessoas entram na sala de edição para me dizer que tal coisa é ruim, que é melhor eu desistir daquilo.

CONTINENTE E você segue os conselhos?
XAVIER DOLAN Sim. Ouço uns 85% do que as pessoas têm a dizer. Eles são meus amigos, são pessoas com boas intenções, estão pensando no filme e em mim, estão cuidando de mim. Essa é a crítica antes do lançamento. Agora, quanto à crítica depois do lançamento, não reajo bem a ataques pessoais. Acho que essa é uma praga do jornalismo e da crítica cinematográfica. Não existe lugar para isso na arte da crítica – que eu admiro, tenho toneladas de livros em casa sobre essa arte. Adoro ler críticas. Leio todas referentes aos meus filmes. Algumas são bem-escritas, outras não gostam do filme, mas fazem boas análises. Teve um crítico que não gostou de Laurence Anyways, mas escreveu um grande ensaio sobre questões transgêneros, dizendo como o filme retratava bem o tema, mas não era tão bom. Alguém que levou tempo, pesquisou, pensou. Você lê, e seu QI explode! É diferente ler uma crítica que só quer magoar, não criticar seu filme. Essa é uma crítica irrelevante. Não é interessante, nem ético. Não dou a mínima.

CONTINENTE Você é descrito como cinéfilo. Quais cineastas e filmes foram inspiradores para você?
XAVIER DOLAN Sou considerado cinéfilo, mas nunca ninguém me perguntou se eu era mesmo. Eu não tive tempo de ser cinéfilo. Comecei a assistir a filmes sérios quando tinha 16 anos. Ainda estava na escola. Quando tinha 17 anos, entrei na Faculdade de Artes, Letras e Cinema. Desisti depois de um mês. Aí comecei a alugar vários filmes – e a pagar muitas multas por não devolvê-los no prazo. Porque, sim, na época, tínhamos locadoras de vídeo. Não existia a Apple TV. Isso não é muito tempo, porque comecei a dirigir filmes quando tinha 18. Entre 16 e 18, não dá para ver tantos filmes. Por exemplo, nunca tinha visto um filme de Hitchcock antes de dirigir Tom na fazenda. Eu montei o filme e disse para minha amiga que precisava assistir. Porque as pessoas vinham me dizer que o filme era muito hitchcockiano, e eu: “Ã-hã”. Então assisti a 25 filmes de Hitchcock durante o Natal. A lista do que não vi é longa e vergonhosa.

CONTINENTE Gosta de Bergman? Sente-se influenciado?
XAVIER DOLAN Vi alguns. Minha lista de cineastas que me influenciaram é estranha. São filmes que me marcaram quando eu era criança, basicamente produções para a família dos anos 1990, como Batman: O retorno. Há uma cena em que Michelle Pfeiffer se transforma na Mulher-Gato. A maneira como ela atua passa a ideia de que tudo é possível, tudo é permitido, ela pode fazer o que quiser. Ela grita, é exagerado, mas também nos mostra que é possível ser assim de verdade. Me inspira esse tipo de performance, de momento, de liberdade. Adoro quando ela fala: “Não sei quanto a você, Miss Kitty, mas eu estou me sentindo bem mais apetitosa!”. E você pensa: Espera, o que ela disse? Isso é cinema. Para mim, a influência não tem a ver com copiar. Um bom cineasta vai automaticamente inspirar. É impossível não acontecer com Paris, Texas. Não é que vou copiar Wim Wenders, nossos estilos são diferentes. Mas me inspira. Quando falo dos filmes da minha infância, são os que me fizeram pensar cinematograficamente. James Cameron, com Titanic. Você jamais poderia identificar num dos meus filmes, que são vistos como “de arte”, mas, para mim, há 17 planos de reação da Kate Winslet que eu peguei e ninguém vai jamais perceber. É assim que a inspiração funciona para mim.

CONTINENTE Procura ter um estilo próprio?
XAVIER DOLAN Quero estar aberto ao que o roteiro necessita, não ao de que eu necessito. Não gosto de diretores que fazem filmes para ficar bem na fita. Quero fazer projetos, não filmografia. Não quero que assistam a um filme e digam: Ah, este é um filme do Xavier Dolan. Esse não é meu sonho na vida. Minha ambição é fazer filmes que façam sentido individualmente, especificamente. Não é questão de mudar de estilo, mas de mudar de roteiro. Vou dar o estilo que o filme necessitar.

CONTINENTE Você saiu da faculdade depois de um mês. Sente falta do conhecimento mais técnico quando está no set?
XAVIER DOLAN Não. Você não aprende essas coisas na escola. Você aprende fazendo. Coloca suas duas mãos na câmera, sente e então compreende. Não mata ter educação, claro. O que falta para mim é cultura geral. E tenho vergonha de admitir. Me falta cultura geral em política, economia, muitas coisas. Tinha um amigo estudando na McGill, que é uma universidade Ivy League nos Estados Unidos. Você pode nunca ter ouvido falar, mas juro que é importante, e o campus é lindo… E meu produtor-executivo estudou na McGill, o que é muito impressionante para mim. E intimidante. Tenho uma coisa por estudantes. Primeiro: eles são sexy. Eu queria voltar para a escola, mas não para aprender como fazer meu trabalho. Não acho que dá para aprender a fazer esse trabalho. Você aprende observando outras pessoas, ou experimentando. Sempre me pergunto: Será que fiz errado? Será que não sou cineasta? Sou capaz de fazer? Talvez não seja um diretor de verdade. Talvez seja um diretor de mentira. Talvez tenha um filme de mentira. Me pergunto essas coisas constantemente. Mas não acho que ir para a faculdade me ajudaria a responder essas questões. Você não precisa do diploma para entrar no set.

 

Publicidade

veja também

“Mesmo um filme que não fale diretamente de política, é político”

Projetos em benefício da coletividade

Não se vive em Tóquio, espreme-se

comentários