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Pablo Larraín e suas antibiografias

O cineasta de "No" e "O clube" enfoca o poeta Pablo Neruda e a primeira-dama Jacqueline Kennedy em dois novos filmes

TEXTO Mariane Morisawa

01 de Novembro de 2016

O longa ‘Neruda’ traz uma recorte de dois anos na vida do poeta chileno

O longa ‘Neruda’ traz uma recorte de dois anos na vida do poeta chileno

foto divulgação

[conteúdo da ed. 191 | novembro de 2016]

Pablo Larraín ficou conhecido por sua trilogia sobre os anos terríveis da ditadura militar em seu país, o Chile, entre 1973 e 1990. Tony Manero (2008) mostrava um homem sem escrúpulos que sonhava ganhar um concurso de Os embalos de sábado à noite e revelava como a violência utilizada pelo regime espalhava-se pela sociedade. Post mortem (2010) fazia a autópsia do presidente democraticamente eleito Salvador Allende, morto no golpe militar liderado por Augusto Pinochet em 1973, sob a perspectiva de um funcionário menor do Instituto Médico Legal, repentinamente investido de seu pequeno poder. E No (2012) trazia a campanha vitoriosa do “Não” no plebiscito que depôs Pinochet. Depois disso, jurou que não voltaria a falar do período. “Posso fazer outro filme político, mas a questão da ditadura está encerrada para mim. Não coloco mais Pinochet na tela”, disse no Festival de Cannes em 2012. Então, agora, ele passou para as biografias – sempre com um pé na política, claro. Lançou Neruda, sobre o poeta chileno Pablo Neruda, no Festival de Cannes, em maio, e Jackie, sobre a primeira-dama dos Estados Unidos Jacqueline Kennedy, seu primeiro filme em inglês, em Veneza, e depois Toronto, em agosto e setembro, respectivamente.

Claro que, em se tratando do cineasta chileno, não são biografias convencionais. “É uma antibiografia. Não dá para colocar Neruda num escaninho”, disse Larraín à Continente, no Festival de Cannes deste ano. “Li várias biografias, sua autobiografia, toda sua obra. Fiz o filme. E vou dizer: não acho que sei quem era. É um cara difícil de apreender. É como tentar segurar água com as mãos. Uma vez que você compreende isso, trabalha com muita liberdade.” Como exemplo, cita o discurso de agradecimento ao Prêmio Nobel de Literatura em 1971, quando Neruda relembrou sua jornada de fuga de seu país, onde era perseguido politicamente. “Num momento do discurso, ele diz que não sabe mais o que viveu, sonhou ou escreveu. Ou seja, não importa. Era isso com o que estávamos lidando.” Seu próprio nome era inventado: nasceu Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto e adotou o nome do poeta tcheco Jan Neruda.

Mas, e Jacqueline Kennedy? O cineasta admite: “Não gosto de cinebiografias. São chatas. Acho que o que acontece com a maioria das cinebiografias é que fazem tanto esforço para o ator se parecer com a pessoa biografada, se comportar como ela, se for um cantor, cantar como ela e, aí, quando você assiste ao filme, ok, está parecido, pinta bem, dança bem. E daí? Onde está o filme? Eu não queria isso”.

Por essa razão, o diretor evitou identificar quem era quem e em que mês estavam. Neruda, que é o pré-candidato do Chile ao Oscar de filme em língua estrangeira, cobre apenas dois anos da vida do poeta, interpretado por Luis Gnecco. Começa em 1948, quando Neruda, senador do Partido Comunista, passa a ser perseguido pelo policial Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal), a mando do governo de seu antigo aliado, o presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro, o ator-fetiche de Larraín, presente em todos os seus longas). Em 1949, depois de ser um fugitivo em seu próprio país, ao lado de sua mulher Delia del Carril (interpretada por Mercedes Morán), escapou pelos Andes para a Argentina e, dali, para a França. O cineasta mostra o lado hedonista de Neruda, famoso por ser um amante incrível, grande cozinheiro, colecionador de objetos do mundo todo, leitor voraz de todos os tipos de literatura. “Ele absorvia a vida com toda força”, disse Larraín. “Mas também era um homem que deu suas palavras para sua sociedade. Todos os seus sonhos estão lá. E eles se tornaram realidade. Porque ele iria ser o candidato à presidência. E seria eleito facilmente. Mas foi generoso, retirou-se da disputa e deixou Salvador Allende ser o aspirante. E eles ganharam.” Em 1970, indicado para apresidência do Chile, renunciou em favor de Allende, que venceu a eleição e foi derrubado em 1973 por um violento golpe militar orquestrado por Augusto Pinochet e apoiado pelos Estados Unidos. Mas isso foi bem depois dos acontecimentos mostrados no filme – porque, afinal, Larraín está dando um tempo em Pinochet.

Mesmo focando em apenas dois anos da vida de Neruda, o longa ainda poderia ser uma cinebiografia tradicional. Não é por outros motivos. O principal: Peluchonneau não é um personagem real. Quer dizer, ele existiu, mas quem García Bernal interpreta é uma invenção. “Eu não acho que é um filme sobre dois personagens, mas sobre um único personagem. É um filme sobre um único personagem dividido em duas pessoas. É assim que vejo”, explicou Larraín. Neruda é mais um filme no espírito de Neruda do que sobre ele.

Filho de um senador de direita, apoiador de Pinochet, Larraín acha que o Chile não lidou bem com as sombras de seu passado. Ainda assim, o país parece estar à frente do Brasil num quesito: em outubro, a Câmara dos Deputados aprovou um acordo qualificando Pinochet como “ditador, artífice de um aparato terrorista de Estado e autor intelectual do assassinato premeditado e traiçoeiro de Orlando Letelier”. Pouco antes, documentos liberados pelos Estados Unidos comprovaram que a ordem de matar o ex-ministro de Salvador Allende em Washington, em 1976, partiu diretamente de Pinochet.

Mas Larraín garante que nunca planejou mergulhar na história de seu país. “Neruda é uma ideia do meu irmão (o produtor Juan de Dios Larraín), ele queria fazer esse filme. Começamos a trabalhar antes de No. Aí fizemos No, porque Neruda era uma produção maior, com muitos atores, pelo país inteiro, em Buenos Aires, Paris. Levou tempo. Quando estava quase tudo pronto, o filme foi adiado por cinco meses. Entrei em pânico. Fizemos O clube enquanto esperávamos. Aí agora faço Jackie, com uma história de 1963!”, disse o diretor, rindo. “Meu agente me mandou um roteiro de ficção científica. Perguntei se ele não tinha nada que se passasse nos dias de hoje.”

JACKIE
No caso de Jackie, o corte é ainda mais radical: o filme se concentra em apenas alguns dias na vida de Jacqueline Kennedy, cerca de uma semana após o assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963. Ela recebe o jornalista Theodore H. White, da revista Life, disposta a definir sua própria história – e a de seu marido, e a de Camelot, como ficou conhecido o “reino” dos Kennedy.

Mas o filme, com roteiro de Noah Oppenheim, alterna a entrevista com o assassinato em si, a organização do funeral, o cortejo, até momentos anteriores à tragédia, como a reprodução do famoso programa em que ela mostrou a sua Casa Branca. “Não nasci nos Estados Unidos, então também tive de entender, de sentir, ou não conseguiria fazer”, disse, em sessão de perguntas e respostas durante o Festival de Toronto. “Claro que é um filme político, mas quis fazer de maneira mais oblíqua, para estabelecer a conexão por meio de uma mulher que moldou como o país a vê.”

O longa dá oportunidade para Natalie Portman construir uma personagem contraditória, por vezes frágil, por vezes forte, que entende a importância de ter domínio sobre sua própria narrativa. Para a atriz, “existe uma responsabilidade por ser uma pessoa que existiu, mas, como o próprio filme diz, a verdade é uma versão e nem sempre os fatos são fatos”. Ela frisou que Jackie é uma ficção e não substitui um livro de história. “É a imaginação de uma pessoa que respeitamos como um ser humano complexo.” 

 

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