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Ode aos irmãos Aniceto

TEXTO Ronaldo Correia de Brito

01 de Abril de 2016

Os Aniceto, do Cariri cearense

Os Aniceto, do Cariri cearense

Ilustração Marisa Luisa Falcão

Raimundo Aniceto sofreu um acidente vascular cerebral, não pode mais tocar o pífaro, nem dançar o Baião Gigante, pantomima em que representava a luta de dois homens com punhais. O acidente comprometeu a fala, o sopro e os passos de Raimundo. Ele era o membro mais antigo da Banda Cabaçal Irmãos Aniceto, mitológica no Cariri e em todo o Ceará. Aos 82 anos, Raimundo ainda se exibia com os sobrinhos, a terceira geração Aniceto, pelo Brasil e estrangeiro.

Numa tarde do mês de março, em 1956, quando eu acabara de chegar ao Crato, vindo dos Inhamuns, homens bateram à nossa porta, na rua dos Cariris. Um deles percutia uma caixa, outro a zabumba, e dois tocavam em pífaros. À frente do grupo, um rapaz segurava a bandeira de São José e o bisaco para as esmolas. No sertão onde morei, nunca havia escutado melodias parecidas, nem mesmo no rádio do meu pai, o primeiro que fez barulho entre os lajedos, espantando as aves de arribação. Mamãe deu algumas moedas, que enfiei no bornal dos pedintes. Eles partiram e eu os acompanhei de perto. Teria ido bem longe, seduzido pela música, se mamãe não me arrastasse de volta para casa.

Apesar da boa memória, sou incapaz de garantir quantos instrumentistas formavam o conjunto. Por dedução, suponho que eram apenas quatro, porque anos depois eu dei de presente aos Aniceto o prato de estanho que eles usam até hoje, e que transformou o quarteto em quinteto.

Somente quando me tornei estudante de medicina na Universidade Federal de Pernambuco, abri os olhos para outras formas de conhecimento, desprezadas nos cursos formais. Batizei o saber de Universidade Popular da Cultura Livre e busquei formação com vários artistas, mulheres e homens sábios, mesmo analfabetos. Foi procura espontânea, necessidade de suprir o vazio que o ensino curricular provocava em mim. Corri atrás de conhecimentos supostamente menores, valorizados apenas por folcloristas, etnólogos e antropólogos. A mesma estratificação brasileira de classes se reproduzia na cultura. Havia os dominadores e os dominados, os miseráveis e os ricos, o que era produzido fora do contexto regional e o que se produzia internamente, amalgamado na oralidade, nas religiões proibidas, na música, no artesanato e na dança. Naquela época como agora interessava às elites que os pobres continuem pobres e analfabetos, pouco diferentes do modelo escravagista, pois a mobilidade social sempre ameaçou os mais favorecidos.

A partir da década de 1970, procurava os Irmãos Aniceto de caderneta e lápis em punho, gravador e máquina fotográfica. A banda era formada por José, o pai, afastado dos instrumentos que exigiam mais virtuosismo ou esforço, como o pífaro e a zabumba, acomodado na pequena caixa, de fácil manejo. Velho e cansado, ele parecia dormir durante as apresentações. A banda estava à frente de tudo, no Crato: na buscada do pau da bandeira, para a festa de Nossa Senhora da Penha padroeira; na malhação do Judas, durante a Quaresma; nos reisados; nas quadrilhas juninas; nas renovações ao Coração de Jesus; nas procissões; no dia do município; e até em alguns enterros.

O segundo filho da prole era Francisco, que cedo passou a ser considerado mestre. Fabricava os instrumentos da banda e discorria sobre o tempo, a natureza, o universo, as viagens espaciais e os feitiços, como o desencantamento de lobisomens. Não havia um assunto sobre o qual ele não houvesse pensado, emitindo opiniões originais. Depois dele vinha João, irmão siamês da zabumba, recitador de loas, rezador de novenas e especialista na entronização dos santos no altar. Era o mais religioso da família, um oficiante dos mistérios. Seguia-se Antonio, exímio pifeiro, pândego, menino brincalhão cheio de presepadas. Imitava as vozes das pessoas, o canto dos pássaros, todos os bichos que se possa imaginar. Por último, Raimundo, impressionado pela concentração com que dançava, parecendo em transe a cada gesto, arrebatado por forças desconhecidas.

Acompanhando os Aniceto, presenciei a perfeita comunhão entre o sagrado e o profano, o sutil deslizamento da música e dança apolínea para a dionisíaca. A celebração aos santos católicos de repente se transformavam em libações alcoólicas, rituais frenéticos iguais aos dos terreiros de orixás. Louvava-se Deus com comida e aguardente e, aos cochichos, irreverentes conversas sobre sexo.

Os músicos bailarinos foram caindo na ordem decrescente de idades. Morreu José, o pai, depois Francisco, João e Antonio. Um irmão chamado Luiz, que não cheguei a conhecer, nem ouvi tocando, debandou da orquestra e da família, em busca das terras de Goiás. De uma irmã afinada ao pífaro, apenas tive notícia. A cada baixa na família, como no exército espartano dos trezentos, um neto assumia o posto e o instrumento. Agora que Raimundo não toca nem dança, apenas sorri com beatitude superior à doença e à morte, a banda passou à nova geração.

Os Aniceto tinham um palanque cativo na exposição agropecuária do Crato, que reunia gente de todo o nordeste. No começo, se apresentavam numa carroceria de caminhão. As atrações do evento se transformaram em mega shows com Ivete Sangalo, Roberto Carlos e Wesley Safadão. Essa gente que embolsa cachês milionários, nada tem a ver com os festejos da antiga cidadezinha, cercada de matas e banhada pela água das nascentes. São bem diferentes dos músicos que abriam e fechavam o ciclo natalino e de reis, o carnaval, a quaresma, as festas juninas e da padroeira, o dia de finados.

Feliz do povo que se reconhece nos seus músicos e poetas. O artista ideal será capaz de incorporar a grandeza, estranheza e diversidade de seu lugar, de sua gente e da natureza que o cerca. A sonoridade dos Irmãos Aniceto parecia com o vento na floresta do Araripe e o azougue dos relhos dos caretas. Bastava escutá-los e sentir. Porém ninguém ouve mais nada. Todos ficaram surdos com os milhões de decibéis dos trios elétricos. 

RONALDO CORREIA DE BRITO, escritor.

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