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Edgar Endress

Foco na arte da latino-americana

TEXTO Victória Ayres

01 de Março de 2016

Colagem 'Soberano' critica conhecimento como forma de poder

Colagem 'Soberano' critica conhecimento como forma de poder

Imagem Divulgação

Muito ligado à performance, ao trabalho coletivo e à videoarte, Edgar Endress utiliza elementos da arte conceitual para falar da cultura tradicional e folclórica da América Latina. Nascido em Osorno, o artista chileno hoje mora nos Estados Unidos e dirige um laboratório experimental de artes e tecnologias na Universidade George Mason, em Fairfax, na Flórida. Depois de largar um curso de Economia, Endress começou a se interessar pela fotografia e por imagens em movimento, durante a ditadura de Pinochet. A tradição da videoarte vem dessa época, com vídeos sendo usados como uma forma de documentação, de protesto, uma arte que era também uma plataforma política.

A principal área de interesse do artista é a arte latino-americana, dentro dos seus propósitos políticos, pedagógicos e poéticos, fortemente incorporados por Endress, que, em muitos dos seus trabalhos, busca produzir uma arqueologia da história da arte na América Latina, focando na produção artística popular e na cultura folclórica. “Tudo que aconteceu na América antes dos espanhóis é antropologia, depois disso, é história”, explica ele, quando se refere às heranças que o colonialismo europeu deixou nos estudos sociais sobre o continente. Ele opta pela arte popular, no que ela tem de rápida em alcançar a mente coletiva, especialmente a folclórica. Endress insere elementos da matriz popular nos happenings que realiza.


Ilustração que faz alusão a imagens enciclopédicas. Imagem: Divulgação

Para o artista, o folclore dentro das perfomances aproxima as pessoas da arte tradicional de uma forma que centros de arte institucionais, como museus, não conseguem realizar, por serem frios e seguirem modelos e estruturas colonizadas. “Happening é um mecanismo ótimo para se trabalhar no espaço público, faz com que o espectador se engaje de forma muito mais ativa e aberta, suscitando discussão e inclusão”, explica ele, que também critica o olhar antropológico muitas vezes lançado sobre formas não eruditas de arte.


Artista apaga presença religiosa entre doentes. Foto: Divulgação

A maior parte do trabalho do chileno é feita de forma coletiva, com poucas obras pensadas e produzidas apenas por ele. A coletividade é central na sua obra, pois com ela, diz, acessa conhecimento que não possui, expande a magnitude dos seus trabalhos, aumenta os recursos que podem ser usados, e se engaja em um processo de ensino e aprendizado. Um exemplo de um desses projetos é Screaming at the economy, que consiste em um aparelho que “grita” mensagens, como um alto-falante. O artista solicitou que pessoas enviassem mensagens de desabafo sobre a economia estadunidense; após receber esses áudios, ele os reproduzia com o “gritador” em frente a instituições política e economicamente importantes, em Washington DC.

A discussão sobre o imperialismo estadunidense e europeu é fortemente abordada em trabalhos como Acts of erasure, Acts of knowledge e Centropia. No primeiro projeto, o artista obteve duas fotos tiradas de um leprosário, na cidade de St. Croix, em que os doentes estão todos posando junto com freiras. Na primeira foto, todos estão presentes, na segunda, as freiras estão apagadas, como se a imagem tivesse sido rabiscada. Endress então produziu uma animação em stopmotion utilizando as duas fotos, para evidenciar o apagamento desejado da presença religiosa opressora sobre os doentes, todos negros, sendo as freiras brancas.


Endress se apropriou de manual militar. Imagem: Divulgação

Em Acts of knowledge, o artista questiona como o saber racional e classificador tantas vezes serve como instrumento de poder sobre o que se analisa ou estuda, por isso as imagens sobrepostas, num amontoado de informação, se assemelham a ilustrações científicas. Já Centropia é um projeto extenso que aborda desde o militarismo até a religião, baseado no cenário urbano da América Latina. Centropia 1 foca no militarismo como um poder patriarcal, em que o artista utilizou imagens de um manual de jiu-jítsu distribuído entre policiais no Chile para controlar ladrões e substituiu os rostos dos infratores das imagens por animais nativos.

Estar nos Estados Unidos sendo chileno o fez ter outra visão da sua latinidade e da arte latina. “Minha experiência nos Estados Unidos por si só é um ato de resistência, uma forma de protesto. Minhas pesquisas lidam com a criação de mecanismos de empoderamento e reivindicação, eu opero aqui como o outro, criando projetos no espaço público sobre assuntos que o império está ignorando, tais como neocolonialismo”, explica Endress. 

VICTÓRIA AYRES, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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