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A escrita erótica

Impulsionado pela imaginação de cada um, o prazer da leitura de textos licenciosos evidencia muito mais o que é esse tipo de literatura do que classificações de gênero

TEXTO Priscilla Campos

01 de Abril de 2015

'Pair Embracing' (1917)

'Pair Embracing' (1917)

Imagem Egon Schiele

Com o intuito de articular uma circunscrição precisa da temática obscena em escritos literários, tomemos como exemplo os títulos de dois capítulos presentes na análise ensaística Esses livros que se leem como uma só mão – leitura e leitores de livros pornográficos do século 18, assinada pelo acadêmico francês Jean-Marie Goulemot. São eles: Os efeitos de uma literatura furtiva ou a arte de mostrar o que se é; e Dos poderes da imaginação literária. O conteúdo textual que aparece em cada uma dessas partes não será, necessariamente, citado. A proposta é demonstrar a força de uma titulação bem-feita: nesses dois elementos editorais, podemos encontrar o impulso para iniciar abordagem crítica sobre aspectos da literatura erótica, pornográfica.

De acordo com a psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM–USP) e fundadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex), Carmita Abdo, o prazer proporcionado pela leitura de obras licenciosas tem como origem o estímulo do pensamento, da imaginação. “Na medida em que a narrativa avança, o leitor tende a dar vazão a uma fantasia erótica. O quanto ela vai ser rica e detalhada depende do quanto ele se permite. Os detalhes apresentados naquela determinada obra e a capacidade inventiva do leitor é que vão construindo, em menor ou maior frequência, a sensação de prazer”, explica. Uma forte característica de epifania é associada, então, às obras obscenas.


Um achado arqueológico, a Vênus de Willendorf é considerada a
primeira representação do nu na arte. Foto: Reprodução


Ao estabelecer vínculos com a libertinagem de Sade ou com os poemas lésbicos e fúnebres de Swinburne, o sujeito processa uma inversão no posicionamento do seu desejo. O canto da sereia, que sempre esteve no mar, agora se transpõe em direção à terra (afinal, há sempre uma sereia cantando para naufragares, garante-nos o Radiohead). Unidades ocultas de nosso imaginário erótico estabelecem novo perímetro na superfície, na qual podem, enfim, urdir a tal arte de mostrar o que se é. “Existe um consenso tácito, em nossa sociedade, de que o erótico e o pornográfico prestam-se, em diferentes graus, a produzir a excitação sexual. Assim, os produtos eróticos – sejam eles filmes, brinquedos, livros, sites – são associados a esse fim. O entusiasmo erótico pode se dar na literatura enquanto a narrativa consiga sustentar uma suposta fantasia sexual do leitor, mas não ao tentar desmontá-la”, afirma o escritor, crítico literário e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Wilson Alves-Bezerra.

No enfoque na troca entre escritor e leitor, Alfredo Cordiviola, professor titular em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca os pormenores que envolvem esse processo de receptividade. “A definição do que seja erótico ou pornográfico não depende do gênero em si, não é algo intrínseco (se mostra mais ou menos genitália, se tem ou não enredo etc.). Depende da recepção desses textos, do ponto segundo o qual são observados e das expectativas e pressupostos que são gerados na sua recepção.”


O templo indiano de Khajuharo tem parte de sua fachada revestida com esculturas de erotismo ligado ao sexo tântrico. Foto: Reprodução

Em seu ensaio, Goulemot escreve que “Por meio da escrita, da leitura e da censura do romance erótico, questiona-se o funcionamento da imaginação, e, em particular, o imaginário literário”, e continua, ressaltando o teor proibitivo dos impressos lascivos: “Tudo se passa como se, sob o ponto de vista deste guardião da moral pública (censor), o livro fosse investido de uma força de convicção contra a qual nada poderia prevalecer. Há, deste modo, em toda censura, sem dúvida, uma exaltação dos poderes do livro e uma degeneração, totalmente extraordinária, das capacidades de resistência do espírito humano a estas formas de subversão”. Ao longo dos séculos, o conteúdo erótico e pornográfico foi tido pela Igreja e governantes como “uma coisa rota e sagrada, que nossa ociosa imaginação pode enriquecer irresponsavelmente”, definição de Borges para a escultura da Deusa Gálica, que está exposta no museu de Genebra.

LABIRINTOS OCIDENTAIS
No encalço da pista deixada pelo Atlas de Borges, os parágrafos a seguir pretendem ser “monumentos dessa vasta aventura” que engloba a história da pornografia, do erotismo e os seus entrelaçamentos com a literatura. Em História da literatura erótica, o filósofo francês Sarane Alexandrian afirma que o berço do moderno erotismo literário foi a Europa. Mas, antes de apresentarmos os contraventores responsáveis por novos rumos filosóficos, temos representações femininas ancestrais importantes para a formação do entendimento ocidental sobre o corpo e a volúpia.

O arqueólogo Josef Szombathy foi o responsável pela descoberta, em 1908, da Vênus de Willendorf, estatueta considerada a primeira representação do nu na arte. Esculpida em calcário, a obra foi encontrada na Áustria e data de 2.500 a 2.000 a.C. Com proporções exageradas, a Vênus seria uma espécie de símbolo do culto à fertilidade. Na Grécia Antiga, houve a misteriosa figura de Safo, poetisa nascida entre 630 e 612 a.C., na ilha de Lesbos, que teria assumido o papel de líder local e intelectual. Sua família, sua sexualidade, seus poucos escritos sobreviventes ao fogo, à poeira e à Igreja permanecem na pauta de pesquisadores e curiosos. Neste ano, um novo manuscrito com alguns fragmentos atribuídos a Safo foi descoberto, de acordo com a revista norte-americana The New Yorker.


Representação da poetisa grega Safo de Lesbos pelo pintor pré-rafaelita John William Godward, datada em 1904. Imagem: Reprodução

Vários dos seus versos ligam paixões, amores e componentes sensuais ao divino: “Parece-me ser igual dos deuses/aquele homem que, à tua frente/ sentado, tua voz deliciosa, de perto,/ escuta, inclinando o rosto,// e teu sorriso luminoso que acorda desejos – ah/ eu juro,/ o coração no peito estremece de pavor,/ no instante em que te vejo: dizer não posso mais/ uma só palavra”.

De acordo com o historiador e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Daniel Wanderson Ferreira, essa simetria com o olímpico é intrínseca ao limiar do erotismo. “Entendo que a exaltação do sexo no âmbito das artes depende, em sua origem, de uma dimensão sagrada. Isso porque não há como separar a ideia de erótico de Eros ou Cupido, quer pensemos no mundo grego ou no romano. É a partir dessa relação com o sagrado e com essas divindades que se estabelecem elementos de definição do erótico como força que, de um lado, advém do Caos, e de outro, comporta a noção do intercurso sexual e dos encontros com o outro, os quais envolvem o conceito de beleza, e o conflito alma versus corpo”, explica.

A perspectiva da paixão como sofrimento e, ao mesmo tempo, como êxtase, permitiu à cultura ocidental alimentar uma rica produção artística para pensar o erótico, conforme observa Ferreira. “Já a noção de pornografia é bem posterior ao que entendemos por erotismo. O termo aparece como um neologismo para se referir à prostituição. A dimensão da mercadoria e do corpo como objeto de desejo a ser comprado ganham destaque e ligam a pornografia ao contemporâneo. Nesse sentido, a pornografia é filha da modernidade e já coloca o corpo no mundo com o enfraquecimento dos elementos mágicos, sagrados e essencialistas”, completa.

Cordiviola lança um olhar acerca da utilização da palavra:“Em muitas épocas, houve representações que poderiam de alguma forma ser consideradas pornográficas, se entendemos esse vocábulo no sentido de representar da forma mais realista possível um encontro sexual (os vasos gregos, os templos indianos, as imagens fálicas) e textos que explicitavam o assunto, como o mais famoso de todos, o Kama Sutra, ou os romances filosóficos franceses. Mas, por outro lado, teríamos que ver que lugar tinha a sexualidade nessas sociedades, para poder considerar essas representações como ‘pornográficas’. De outra maneira, seria incorrer em um anacronismo, julgando diferentes culturas e tempos a partir dos nossos critérios”.

Na compilação A invenção da pornografia, organizada por Lynn Hunt, vários artigos tratam sobre o tema. Num deles, a historiadora norte-americana Paula Findlen fala da importância do Renascimento como momento histórico propício (novas tecnologias de impressão, circulação aberta) para o espalhamento dos escritos obscenos na sociedade em seu total. “Mas a popularização do material licencioso dificilmente teria se consolidado, não fosse também o aparecimento de novas formas de representação da atividade sexual que, pautadas pela intenção realista, implicavam uma transgressão deliberada da moral”, escreve a crítica literária e doutora em filosofia Eliane Robert Moraes (confira entrevista com ela nas páginas 32 e 33), em seu artigo intitulado O efeito obsceno.


Gravura do Marquês de Sade feita por Donatien Alphonse François. Imagem: Reprodução

A BARCA DOS LIBERTINOS
“Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho ou de Copérnico. Não há um único homem que não seja um descobridor”, diz Jorge Luis Borges, em um dos prólogos mais bonitos da literatura latino-americana. Na navegação turbulenta por uma Itália religiosa e imersa na suspensão da estrutura medieval surgem as narrativas satíricas de Aretino, desprovidas de qualquer tipo de compostura. Os efeitos de uma literatura furtiva explodem pelos quatro cantos do Império Bizantino, através dos conselhos das prostitutas criadas pelo poeta: “Fale claramente e, se você quiser alguém, diga ‘foda’, ‘pau’, ‘boceta’, ‘cu’; só os sábios da Universidade de Roma não vão entendê-la”.

Por meio do comércio clandestino de seus sonetos, Pietro Aretino foi responsável por reverter a Atlântida do desejo no coletivo. Moraes grafa: “Antes de Aretino, esse tipo de literatura – marcada pelo emprego dos nomes técnicos – ficava restrito a um seleto círculo de patronos e amigos doutos dos escritores licenciosos. Foi o criador dos Sonetos luxuriosos quem a tornou acessível a um público mais amplo, muitas vezes inovando seu conteúdo para atender às demandas desses leitores”. Nascido na cidade de Arezzo, o então pintor encontrou em Roma e na convivência com o papa Leão XX motivos catalisadores para sua escrita.

Publica e escandaliza os católicos com seus sonetos, parte para Veneza e constrói, naquela terra com geografia ainda incompreensível, uma vida de festas, cortesãs e obscenidades literárias, que resultam, também, em um mecanismo manipulador da nobreza em decadência. “Diverti-me (…) escrevendo os sonetos que podeis ver (…) sob cada pintura. A indecente memória deles, eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita.”

Do outro lado do Mediterrâneo, a França transformava-se numa paisagem cintilante nas esferas culturais e sociais. “Existe uma importância que reside na própria centralidade da cultura francesa para o Ocidente. Assim, desde a ideia da cristandade ocidental, refundada por Carlos Magno no Império Carolíngio, ou na ideia de amor apresentada por Abelardo (importante filósofo tomista, professor da Sorbonne), a concepção de corpo cristão, alma, pecado, da interdição ao prazer e tantos outros aspectos relacionados ao corpo foram enunciados em língua francesa”, ressalta o historiador Daniel Ferreira.


Os escritos satíricos de Pietro Aretino foram os primeiros a nomear explicitamente partes eróticas do corpo. Imagem: Reprodução

Do centro do Iluminismo, manifestou-se a maior violência transgressora discursiva da história moderna. “Tudo permite a natureza, por suas leis assassinas:/ O incesto e o estupro, o furto e o parricídio./ Todos os prazeres de Sodoma, os jogos lésbicos de Safo, / Tudo aquilo que destrói e envia os homens para o túmulo.” Nesses versos, Donatien Alphonse François de Sade atira uma flecha no desamparo humano.

Escreve o doutor em História Social Eduardo Valadares, na introdução de Discursos ímpios, publicado pela editora Hedra: “Para Sade, não havia esperança alguma para humanidade. A extinção da espécie era considerada inevitável, devido ao poder autodestrutivo dos homens, e não havia sequer motivos para lamentar tal fato. A satisfação de todos os caprichos inimagináveis, através do mais amplo delírio erótico, era o único consolo antes da destruição terminal da raça humana”.

Na filosofia libertina, o marquês aniquilou categorias da moralidade, subverteu definições políticas, sociais, religiosas e afetivas, além de aproximar, com veemência, o obsceno e a morte. Sade e sua literatura ultrapassam qualquer metáfora encantadora que envolva tridentes, sereias e castelos submersos. Para ele, a arte de mostrar o que se é dói de forma enlouquecedora, lateja, porque o desejo é tão cruel quanto a bestialidade descontrolada de certos demônios.

MARES INTRANQUILOS
Na conclusão de Esses livros que se leem como uma só mão – leitura e leitores de livros pornográficos do século 18, Jean-Marie Goulemot questiona-se sobre a real existência de um livro pornográfico diante de tantos tipos de “confusões”. As obras seriam, então, “uma espécie de projeto impossível, um horizonte jamais alcançado, uma virtualidade hesitante”. Nessa linha do que está acaçapado, de algo que merece toda atenção que se possa dedicar, justamente por não sabermos delimitar sua presença, encontra-se Georges Bataille.


O autor George Bataille estabelece em sua obra a relação entre erotismo, sagrado e transgressão. Foto: Reprodução

Funcionário da Biblioteca da França, ele estreou na literatura com A história do olho, em 1928. “A urina, para mim, está associada ao salitre, e o relâmpago, não sei por quê, a um penico antigo de terracota, abandonado num dia chuvoso de outono sobre o telhado de zinco de uma lavanderia de província.” Para Bataille, o estímulo sexual seria uma busca psicológica pelo inútil, pelo “gasto de energia”, em vez de armazená-la, axioma difundido pelo regime econômico. Desse modo, o erotismo estaria no meio do interdito (trabalho, identidade, conservação) e da transgressão (de acordo com o escritor, substantivo que atinge, ao mesmo tempo, o humano e a coisa). Em O erotismo, o francês amarra o termo por todos os ângulos: morte, reprodução, sacrifício religioso, cristianismo. A respeito do último, ratifica: “O erotismo caiu no domínio profano ao mesmo tempo que se tornou objeto de uma condenação radical. A evolução do erotismo é paralela à da impureza”.

Na opinião do crítico literário Wilson Alves-Bezerra, o desprezo e a marginalidade associados aos textos eróticos estão inseridos na nossa cultura ocidental cristã. “O frei espanhol Luis de León (1527–1591), por exemplo, foi perseguido e preso por traduzir do latim, no século 16, o Cântico dos cânticos. Um crime e tanto: traduzir um texto bíblico à língua corrente. Seu contemporâneo, Juan de Yepes (depois conhecido como San Juan de la Cruz, 1552–1591), foi muito influenciado por aqueles versos e depois também foi obrigado a explicar o sentido espiritual de seus poemas eróticos… A vida na cultura, diz Freud, se dá à custa da repressão de muitas pulsões, agressivas e sexuais. Com isso o vienense está afirmando tanto o poder transgressor da sexualidade – que pode colocar em crise as instituições – quanto o tamanho da repressão social. Assim, o território das experiências libidinais será sempre potente e transformador, quando não for reduzido à mera mercadoria”, arremata.

Tanto nos seus livros lascivos quanto na construção teórica de seus estudos, Bataille consegue manter em prolongamento as questões que este texto procurou responder. A literatura erótica, pornográfica, converge a uma das ações mais difíceis de descrever: o ímpeto de alguém diante do mundo e do gozo. Nessas escritas,terreno fértil e movediço, o que fica para além do imaginário e da contínua revelação é um senso de mapeamento caótico. Narrativas e desejos formam esse atlas que não é atlas; um conjunto literário – e, por sua vez, também imagético – de elementos em mortífero regozijo. 

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