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'Boa sorte': Um conto do primeiro amor

Melhor filme de júri popular no Festival de Paulínia, longa de Carolina Jabor, baseado em história de Jorge Furtado, narra a inevitabilidade do encontro e do acaso

TEXTO Luciana Veras

01 de Novembro de 2014

João Pedro Zappa e Deborah Secco interpretam pessoas que se conhecem numa clínica de reabilitação

João Pedro Zappa e Deborah Secco interpretam pessoas que se conhecem numa clínica de reabilitação

Foto Felipe O'Neill/Divulgação

Ritos de passagem costumam ser motivos oportunos para obras de arte. Boa sorte, filme que estreia neste mês no Brasil inteiro, com distribuição da Imagem Filmes, traz consigo três jornadas de autodescoberta: é o primeiro longa-metragem ficcional da diretora Carolina Jabor, é uma história de amor que demarca uma travessia para os dois protagonistas, constituindo-se em mais uma investida da atriz Deborah Secco em projetos menos comerciais. Não que Boa sorte seja puro arrojo estético, longe disso; contudo, está um patamar acima da maioria das produções nacionais que investem em roteiros de fórmulas rasas ou repetem, na narrativa, a surrada linguagem televisiva.

E tem empatia com o público jovem, a julgar pelo prêmio de melhor filme segundo o júri popular no 6th Paulinia Film Festival, em julho deste ano. Baseado no conto Frontal com Fanta, publicado em 2005 dentro da coletânea Tarja preta, do cineasta, roteirista e escritor gaúcho Jorge Furtado, Boa sorte narra o encontro de João (João Pedro Zappa), que, de tanto se achar invisível na rotina familiar, começa a tomar ansiolíticos com refrigerantes (daí o título do conto), e Judite (Deborah Secco). Eles se conhecem numa clínica de reabilitação para viciados. Ele, um introspectivo adolescente de 17 anos, internado pelos pais ao descobrirem seu hábito de surrupiar os remédios da mãe e misturar com laranjada; ela, já na casa dos 30, com histórico de dependência de drogas e o vírus HIV como testemunho de seus excessos.

Carolina Jabor, codiretora do documentário O mistério do samba (2008), ao lado de Lula Buarque de Hollanda, e uma das sócias da produtora carioca Conspiração Filmes, teve o próprio Jorge e seu filho Pedro Furtado como roteiristas. “Os dois fizeram a adaptação do conto e os diálogos, que são bem pop. Até tive que cortar bastante coisa, pois tanto o Jorge como o Pedro escrevem muito”, diz. Com oscript em mãos, e parceiros habituais já engajados, a exemplo do diretor de arte Cláudio do Amaral Peixoto, ela partiu para escolher o elenco, sem imaginar que se depararia com um “vulcão”, como descreve sua atriz principal, entusiasmada pelo projeto.

“Assim que eu li o conto do Jorge, disse que queria comprar os direitos para transformar num filme. Mas ele me respondeu que pensava em filmar”, conta Deborah Secco, que despontou na TV no seriado Confissões de adolescente (1994), exibido pela Rede Cultura, e depois foi alçada ao posto de estrela em novelas da Globo, como Darlene, de Celebridade (2003), e Sol, de América (2005). “Três ou quatro anos depois, estou eu jantando com uma amiga que me diz que a Carol ia filmar o Frontal com Fanta. Como ela é amiga da Carol também, eu fui bem direta: ‘Me dá agora o e-mail dela, porque eu vou escrever dizendo que quero fazer o filme’. Mandei um e-mail pedindo que ela me deixasse participar.”

“Força”, “paixão”, “obstinação” são outras palavras utilizadas pela diretora para aludir à entrega de Deborah. “Eu tinha pensado em outras atrizes, claro, e havia gente interessada, mas quando ela veio fazer a leitura, quando fez o teste, não tive dúvidas: ela era a Judite”, recorda Carolina Jabor. A coragem com que a atriz lutou para obter o papel foi reconhecida pelos companheiros de elenco. João Pedro Zappa, escolhido após diversos testes, assume que a primeira etapa foi “tranquila”. “Tive o primeiro impulso de fazer por ter achado o papel bem interessante. Mas aí, quando soube que a segunda parte do teste era já com a Deborah, fiquei nervoso. Perdi algumas noites de sono. Quando cheguei lá, ela parecia dona do personagem”, pontua.

Antes das filmagens, transcorridas em janeiro e fevereiro de 2013, os dois passaram cinco semanas de imersão com a diretora e com o preparador de elenco, o pernambucano Chico Accioly. A estratégia deu certo: em cena, por causa dos seus intérpretes e de um roteiro de bons diálogos, João e Judite convencem e cativam o espectador. Para isso contribuem, também, os coadjuvantes. Fernanda Montenegro vive a avô de Judite, única ponte entre ela e a vida fora da clínica. Gisele Froes e Felipe Camargo encarnam os pais de João, um tanto relapsos, um tanto alienados, mas, ainda assim, peremptórios na ideia de internar o filho. E Cássia Kis Magro empresta credibilidade ao papel da psiquiatra da clínica.


Diretora destaca a excelência do elenco de apoio, que conta com Fernanda Montenegro. Foto: Pedro Sotero/Divulgação

PRIMEIRO AMOR
Não há, em Boa sorte, o clima soturno ou mesmo melodramático que poderia ser associado a um conto de primeiro amor que, de antemão, não prenuncia um final feliz. “A preocupação da Deborah e do João em não reduzir a complexidade dos personagens à tristeza era um pouco a minha também. Queria que o filme não tivesse a pulsão da morte, mas a pulsão de vida que um amor traz”, expõe Carolina Jabor. Boa sorte evita lições de moral ou apologias de qualquer ordem, investindo nos laços afetivos estabelecidos entre seus protagonistas.

“Estar junto e amar alguém portador do HIV não é o problema. Até porque o amor não tem hora nem lugar para acontecer. O risco é que tem gente que ainda não sabe como pode ser contaminado. No Brasil, é muito alta a taxa de contaminação de jovens entre 15 e 25 anos, por exemplo. Acho que o filme pode levar o público a refletir sobre como aproveitar a vida com integridade e responsabilidade”, comenta Deborah Secco.

A atriz nem tentava camuflar sua empolgação. Judite, por tudo que ela revelou à imprensa durante o festival em Paulínia, é o novo “divisor de águas” de sua carreira. “Quero ser desafiada como atriz. Não me lembro da minha vida sem atuar. Atuo profissionalmente desde os oito anos de idade e consegui conduzir minha carreira de forma autoral. Tenho sorte de ser bem-sucedida e poder garantir o futuro da minha família, mas cheguei num momento em que preciso de desafios, preciso ousar. Para mergulhar em personagens densos como a Judite, se tiver que ir atrás de diretores, como fui atrás da Carol, eu vou. Já posso me dar o luxo de tomar decisões mais arriscadas”, situa a atriz, que aparece nos créditos como coprodutora. É bom ressaltar que sua bagagem no cinema conta com o sucesso de Bruna Surfistinha, de Marcus Baldini, uma das 20 maiores bilheterias no Brasil em 2011, com cerca de 2,1 milhões de espectadores.

Sua experiência nesse filme, aliás, foi aproveitada no set de Boa sorte. Conta Carolina Jabor que, na hora de rodar as cenas de sexo entre João e Judite, prevaleceu a expertise da atriz. “O filme traz a educação sentimental de um garoto que tem a primeira noite de sexo numa lavanderia, ou seja, nada de glamour. Deborah tinha vindo de Bruna Surfistinha e fomos todos seguindo as orientações dela. É tudo uma questão de técnica mesmo. A experiência dela foi valiosa”, comenta a cineasta. Outro intercâmbio saudado por ela como essencial para o que se vê na tela se deu com a presença da fotógrafa uruguaia Barbara Alvarez, que já havia rodado, no Brasil, O gorila, de José Eduardo Belmonte, e Que horas ela volta?, de Anna Muylaert. “Seria outro filme sem ela”, diz Jabor.

Boa sorte pode ser encarado, também, como um ritual de transposição de uma matriz literária para o cinema. Há diferenças entre ele e Frontal com Fanta, mas nada que anule o ponto de partida do conto de Jorge Furtado ou que diminua o filme alinhavado por Carolina Jabor. “Até porque o filme não é apenas o roteiro. É o tom do elenco, da luz, a movimentação da câmera, a ambientação… É uma construção que passa por várias camadas estéticas”, destaca a diretora. Ao se concretizar o desejo dela e da equipe, o de atrair às salas de exibição a juventude do país, quem sabe surjam na plateia não apenas novos espectadores, mas também leitores. 

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